A vida nos traz luzes que servem de apertos e alertas. Afasta quem de verdade importa por simples capricho de um ou de outro, até de estranhos… Depois, não importa mais. Fuga… A morte branca… Nunca deveria ter me calado quando tu te calaste a inventar motivos fraternos. Uma omissão imperdoável…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres “Coração da gente – o escuro, escuros.” Como diz a Mabel, para não ter dúvidas, coloca itálico e entre aspas, cita o autor e suspira.
facho de luz
O que é a consciência senão o facho de luz de uma lanterna na noite escura, sem estrela?Tem dias que o tempo pesa mais do que outros…
Envelheço.
Sinto o corpo sem frescor: rugas no rosto, esquisitos traços. Veias nas mãos, na pele, o tempo dos anos desenhado. Ninguém tira a solidão do outro!
O especial do encontro com o amor, e o difícil é a morte. Tempo indefinido, absoluto. E um dia tão velha, no outro, menina. Juventude a gritar e festejar, e… E assim mesmo, envelhecemos. Muito tempo, bastante tempo para viver! Nunca o suficiente! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
medo desgovernado
toda a lucidez pequena /aquela que eu guardei emprestada, se desmanchou… /importa tão pouco agora! a água escorrega da ducha, e já não chega animadinha na sala (sorrindo). Uma pedra de granito fez/faz barreira, (a luz dos azulejos brancos se animam), tenho um banheiro? Não coloquei luz em cima do espelho… Não uso batom, nem penteio os cabelos: prendo todos os fios num único grampo. Os olhos abrem pesados, mas o dia está lindo. Vou voltar para o tricotar, e para a música, ou cavar a terra… Desanimada! Seria preciso uma fortuna para manter os livros no resguardo do pó, das aranhas, das traças. Ambição descontrolável. Eu me recrimino pela escassez de tempo para dedicar à leitura. Mas imagine um homem que tem o dia todo e, se quiser, a noite. E dinheiro para comprar os livros que deseja. Não tem limite. Está à mercê de seu desejo. E o que quer o desejo? Se posso fazer uma observação bem do fundo da minha tristeza, o desejo quer achar o seu limite. Elizabeth M.B.Mattos – maio de 2019 – Torres

nada sobre nada

não sobrou nada sobre nada
lembro
lembro das maçãs, do vinho, das castanhas, da toalha branca, das taças especiais que tiraste do armário.
lembro do sofá de veludo, dos livros espalhados, lembro do silêncio
lembro do frio que senti, lembro da insônia.
por que eu vivo se já foste num sopro!?
perdi a lágrima quando te perdi.
nada espero nem desejo
fechaste os olhos: fiquei com os meus arregalados… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
a cigana
leu as cartas olhando/atravessando iluminada a minha sorte/a minha vida, meu destino:
amor sempre um amor seguro / amigo e protetor
amor guia, completo/ inteiro…
sorri confiante. Já te amava de sonho!
Amontoado de ternura neste abraço quente.
Acordo arrepiada, decidida, vou sair por aí a te procurar… hás de me responder nas flores, nas árvores, na areia deste mar…Elizabeth M..B.Mattos – maio de 2019 Torres
Hilma ak Klint – mundos possíveis

Pedro Moog – a forma define o ponto
um arrepio na saudade
por que escondo? porque faz tanto tempo e ainda não quero acreditar
por que escondo?
quero que me olhes nos olhos e me tires deste torpor, deste silêncio, deste amor
sinto vontade de chorar e soluçar e chorar outra vez
Convertias o superficial em profundo devolvias em sorriso as dúvida
eu te amei. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
…não vai terminar. Sabes por quê?
porque não conseguimos viver… e não teremos outra vida.
desordenado real e impetuoso
1.Abro o livro: estou em Buenos Aires.
“Pero las inquietudes no siempre nos roen en forma evidente, a menudo quedan agazapadas em um rincón de nuestro ser sin duda porque las tenemos presas, paralisadas, agarrotadas, amortazadas, para impedir que interrunoan el curso de nuestra felicidade. ” (p.57) Silvina Bullrich Los Pasajeros del JardÍn
Em Buenos Aires a caminhar pelas livrarias: elas se escondem em porões fantásticos, ou envidraçadas esquinas monumentais: variedade estonteantes de livros. As casas de chá de um charme e encanto irresistível. Sento e escolho doces, os aromas desenham minha fantasia, eu me sinto única, especial. Não sei quantos dias passaremos na cidade. Marco trabalha o dia inteiro. Procuro ter como referência o Claridge Hotel, eles me cuidam, guardam os pacotes e me surpreendem atentos a explicar o horário que devo voltar. Assim, a distância, sou vigiada. E mimada.
Naquele tempo naquela hora naqueles dias eu senti felicidade: estado natural de vida. As vitrines me seduziam, a beleza tinha o formato da cidade. Certamente, eu a escolheria para morar. Marco tem os olhos azuis e a gentileza peculiar aos seres amorosos. Sabemos rir um do outro,e nos surpreendemos com a música, com as nossas leituras misturadas. Eu me atrapalho com o italiano, e ele não fala francês. O português, uma ponte delicada e o espanhol nossa fantasia. Universo tão particular! Somos jovens e amar a única via possível: encantamento. Os livros enchem as sacolas. E as misteriosas livrarias com piano flautas e violinos a oferecer concertos nos enfeitiçam. Convite ao sensorial. Caminhamos pelos tapetes macios com o cuidado. As conversas sussurrantes nos fazem sorrir. Desconfio que o grande luxo se chama juventude. Bom humor e encanto. Explico encanto com o sorriso natural para a pequena flor do acaso, o luxo da vitrine, o livro procurado/encontrado, a elegância cuidada que o inverno exige. Alguns anos depois voltei a Buenos Aires com FT e foi tão misteriosamente escuso cinzento! Nem as frutas tinham o mesmo gosto. E os lençóis não eram perfumados.
Uma cidade reflete alma alegria e leveza. Em Buenos Aires o sonho pode ser pesadelo. E nem fui visitar o Ernesto Sábato, expectativa verdadeira…falsos acenos e fantasias atrapalhadas!
“Cada art tiene sus objetivos y sus limites. Y, cosa extrãna, essas limitaciones no constituem uma debilitad sino uma fureza, del mismo modo que para empujar um mueble nos apoyamos em algo que resista. ” (p.41) Ernesto Sabato El Escritor y sus Fantasmas
O amor empresta liberdade colorida. Portas abertas e este descompromisso com amarras porque sem sombra de dúvida, os abraços e os beijos importam muito mais, e o colorido da exposição se integra com a juventude e a pureza. A cada detalhe uma surpresa prazerosa. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
observações da madrugada
Errei, errei errei, eu errei porque te espero: este querer sem pessoa, solitário.
Não amei os amores como deveriam ser amados… Fiquei esperando o homem certo no bom amigo, abraço certo, beijo certo, este amor tão incerto!
Se tu me encontraste menina, por que me deixaste ir mulher? A idade do tempo te assusta: reclamo, entristeço, mas estás certo.
Tarde. Tão tarde! Tão entardecer! Tão lágrima!
As histórias se confundem: todos os amores se completam quando se encontram aos vinte anos, aos trinta, aos cinquenta, quem sabe aos setenta e quatro anos. Estou abraçada nos número pares.
Envelheci. Sigo a procurar… Aos tropeços.
Contramão do amor. Histórias partidas, equivocadas. Tento voltar ao inteiro (não adianta). Fatalidade! A cada pessoa, uma trajetória. Pela minha janela, o azul.
Consciente ou inconsciente aquelas palavras amontadas, tardias, inesperadas me fisgaram…
De natureza alegre sim, amarrada. Tumultuado desencontro, malbaratado. Penso no velho-novo, alegre amor.
Parece tarde talvez seja, talvez nem existas: ilusão no teu tempo. Também malbaratado, ancorado.
Confesso: eu atravesso as coisas. No meio da travessia não vejo.
Tu estavas entretido na ideia de lugares de saídas e de chagadas: não foram as nossas, segues! Conseguiste chegar, eu estou / fiquei no meio do caminho! (anotações do caderno vermelho) Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
ouve o silêncio
Não deveria estar acordada, já quase amanhece. Intranquila escrevo. Afundo no instante subjugada. Aplaco e aquieto o coração.
Limpar, arrumar, cozinhar ou lavar. Volto a imaginar. A vida se fecha num abraço ou num beijo. Aguda dor. Um rasgo. E o tempo, a hora, o instante… O mar salga desejo, molha meu corpo.
Volto para a janela. Tenho me perdido nas palavras, no jeito de dizer.
Quanta poeira escondida!
Atenta ao outro lado da rua, esqueço… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
“Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que te falo, e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão.” (p.14) Clarice Lispector Água Viva
Ela escreve arrastando o coração. Daquelas leituras incompletas e inquietantes, não definidas. Clarice no poder de espicaçar e pisotear acerta o prazer. Constrói outro mundo, pinta e entrega o segredo de desvendar.