O estilo

Para você, o estilo é a vida. O estilo, para você, é a voz. É sua maneira de pensar. Sua verdadeira personalidade, que se manifesta pelo estilo – e não é apenas uma, mas duas, até três -.”

“E quem são elas?”

“A primeira voz é que você chama de ‘meu eu simples’, a voz que usa com qualquer pessoa, sentado à mesa ao final de um jantar em família, […] trocando gracejos entre nuvens de fumaça; é a ele que você deve tantos pormenores sobre a vida cotidiana. A segunda pertence ao homem que você gostaria de ser, a máscara que toma empréstimo às pessoas que mais admira: as pessoas que jamais encontraram a paz neste mundo e vivem num universo à parte, à luz difusa de sua magia. Você escreveu – e eu li, com lágrimas a me escorrer pelas faces – que, se não fosse hábito de conversar aos sussurros como esse ‘herói’, que no início você  apenas imitava mas em quem mais tarde desejaria se transformar, que se ele não o estimulasse, não o atiçasse, não o aplacasse com os enigmas, os jogos de palavras, as repreensões que está sempre soprando em seu ouvido, com a obstinação dos velhos senis que repetem sem parar os mesmos refrões de que não conseguem se livrar, você seria incapaz de suportar a vida cotidiana como tantos outros infelizes da terra, recolhendo – se a algum canto obscuro para esperar a morte. […] como você já declarou, que os dois primeiros são, respectivamente, seu ‘estilo objetivo’ e seu ‘ estilo subjetivo’. Mas é terceira vez que você qualifica de ‘ personalidade sombria’ ou de ‘estilo sombrio’ que nos transporta – tanto a você quanto aos leitores […] Como você pode ver, nós vamos nos descobrir, e havemos de nos entender perfeitamente;sairemos juntos pela noite disfarçados, você e eu. Dê – me seu endereço.” (p.405-406) Orthan Pamuk – O Livro Negro

pitonisa

Mães pitonisas e protetoras, uma mágica. A voz ecoa e resolve. Aquele aconchego e aquela certeza elas possuem, e… O rastro é bom. Mães de filhos carne da carne, e mães espirituais.  Beth Mattos – novembro de 2018 – TorresOtima foto minha e da Odila

Torres no verão – Odila e eu.

Ana Maria e eu – Porto Alegre

Minha mãe, Joana e eu

gêmeo

Mistério deste gêmeo -, da segunda pessoa que temos em nós, igual. Um eu desdobrado a correr, e chegar estupefato. Não tem saída nem chegada. Apenas a quietude do reencontro. Este irmão gêmeo me consola. Conhece a minha verdade. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018

O que torna o mundo misterioso é a presença da segunda pessoa que cada um de nós traz dentro de si, o irmão gêmeo com quem compartilhamos a vida.” (p.388) Orphan Pamuk O livro negro 

 

na vitrine

… parece tão longe o tempo daquela alegria! Entusiasmo apertado e vivo. Podia andar / acontecer / até parar de correr, ficar escondida / encolhida numa lágrima numa dúvida …, nada desanimava. Eu olhava e eu via / espreitava / sabia esperar sem chegar sem ansiar / vocação alegre / desprendida … Tô com medo deste vento  das palavras. De sentir. Esvaziada / espicaçada ou assustada. Sentimento ruim desavisado. Onde estão aquelas pessoas? Pessoas mágicas. Acho que eu deveria ter sido ambiciosa e zelosa, caprichosa … Sei lá. Uma foto de tantas histórias …, outra vez o tempo. Vivos na memória …, sensação estranha.  Distantes e próximos. Claro, a vida separa, outra cidade, outra idade e solidão absoluta na vitrine … Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018

inseparável

Espero libertação, entendimento como se fosse fenômeno.  Não consigo descrever absorver entender a ideia toda, então … espero quieta inquieta. Minhas mãos cheias de terra. Faz morno lá fora. Molhei as plantas da sacada: verde e exuberante o pequeno jardim. Pequena nostalgia. Posso trazer a floração para dentro de casa. Reaprendendo o mundo sem fantasia. Já está passando … A fazenda / o campo se esfumaça. Histórias terminam, mas se encaixam em lembranças verdes e no gosto da pimenta  …, tem gosto e cheiro esta memória. Elizabeth M.B. Mattos -novembro –  2018 Torres

apressado transparente voando

[…] uma parada para pensar, refletir. Tudo e o nada. As possibilidades de realizar o que me proponho, não sei se existem! Por um momento um esvaziamento complicado difícil, laborioso. Mas tu me dizes que realizarei e farei, e ficarei livre. Todo um trabalho todo um caminho a ser percorrido: disciplina e coragem. Beth Mattos

és a minha fantasia

O que me intriga é como tudo era / é diferente do que eu imaginava / imagino, / ou pensava … Eu julgava que as pessoas (ou nós dois) deviam saber o que queriam …

Tenho  falsa ideia de que as coisas / as pessoas  …, enfim, tudo mais simples, mais direto, ou mais corajoso. Esquisito como sinto tua falta mesmo quando sei que não estás, não estás. Não existes. És a minha/ a nossa fantasia. Beth Mattos 2018 novembro, em Torres

apenas um momento

Senti o presente nas tuas palavras. Tua interferência amiga. Não sinto amargura, apenas grande cansaço. Não sei o que tínhamos em nós, nem sei como começou, nem o porquê. Plantamos aquela semente. Nunca houve nada mais belo … Era como se aquilo precisasse existir e durante todo tempo, tu e eu, soubéssemos que não pudesse ser. Ignoramos o muro. E não foi culpa de ninguém, nem tua nem minha. Creio que sempre nos amamos,  creio que sempre haveremos de nos amar. Mas sempre é a eternidade, e a vida é apenas um momento. Deste momento, não vou esquecer …, foi o nosso. Beth Mattos  2018, já novembro

Ainda Orhan Pamuk

Por que a visão de um homem chorando nos comove tanto? O pranto de uma mulher é uma parte dolorosa e aflitiva da nossa vida cotidiana, e sempre vemos esse espetáculo com compaixão e ternura. No entanto, não sabemos o que fazer quando quem chora é um homem. Supomos que alguma coisa terrível tenha acontecido – esse homem deve ter chegado ao fim das suas forças, ao limite das suas capacidades, como nos sentimos perante a morte de uma pessoa amada. Ou então é que existe no universo dele alguma coisa que destoa do nosso, alguma coisa extremamente perturbadora e até aterrorizante. Todos já sentimos o espanto e a angústia de encontrar alguma área nova e desconhecida num rosto familiar – uma terra ignota nem mapa que imaginávamos conhecer perfeitamente. ” (p.327 Orhan  Pamuk)

 

Ainda tuas lágrimas. Teu espanto, e proximidade ausente. Hoje o pacote com o livro. E eu me surpreendo com este 1967 e toda a simplicidade da memória que foi tua e minha.

Acordo e me proponho a escrever cumprindo o que poderia ser destino/vontade ou qualquer sentimento adequado. O choro fica amarrado inútil porque não me salvaria. Releio leio o necessário. E qualquer depoimento sincero único de repente, num repente, fica/está/será apertado entre lembranças amorosas e perdidas. Quero chorar tudo e muito, e ao mesmo tempo, quero antes resistir e fazer acontecer insone estas 99 horas de um dia seguindo a magia do sonho do número e da verdade. Cristalizar a verdade em palavras escritas. Beth Mattos – Torres – 2018