recorto

Pintei bordei. Agora recorto e faço colagens. Como está frio! Caminho acho graça, converso, choro e… Adoro a vida. Alguns queridos se vão, outros abraçam o abraço. É o tempo nos contando histórias. Atropelando. E eu vou, caminho peregrina, dou adeus. Elizabeth M.B.Mattos – ainda tão frio! agosto de 2018 – foto Ana Moog

luiza e eu agosto de 2018 beira do rio

autobiografia atrapalhada desenhada tentativa

Dizer outra vez, caminho atrapalhado desenhado

 

1.

 

Todos os dias é = a nenhum dia. Óbvio incerto. Particularidades? …bem, suponho acho penso que somos todos iguais. Sublinhado fato. Identificação comezinha e filosófica. Lugar diferente, mas a mesma manteiga, o mesmo leite aguado ou não, o mesmo pão dormido. As mesmas laranjas e bananas. E lá vou tentar, outra vez, ser autobiográfica. Um pedaço de montanha, outra de lagoa, buganvílias, gramado, um cão. Natureza igual, aparência diferente. Sentimento sensação, os mesmos. Classificação por conta de especialista. Desejo o mesmo que desejas, somos iguais e isso me apraz. O começo é a vontade de um homem e de uma mulher. Sou eu nascida na rua Vitor Hugo 229, Petrópolis, Porto Alegre. Jardim e quintal. Abraços e beijos na conta das mamadas, do fogo das lareiras, das risadas. Do silêncio festivo atrás da porta fechada, e do escuro do quarto: arrulhos latidos difusas vozes miados. Depois atravesso a calçada. Mergulho na piscina do Tênis Club, vou comprar balas no Bar Tupi. Telhados, outros quintais, bonecas de papel, tampas de garrafas, rolhas, azulejos em lascas, corda, bola.

 

  1. Amigos cuidam, incitam a escrever: para eles, palavras.

 

  1. Setenta anos com evidências. Alguém vai corrigir: setenta e dois em setembro.

 

  1. O começo…, fatos. Ou amontoado confuso de emoções. E o Amoras, amor exigente. Hoje dia gelado. Amanhece no gosto bonito do sol. Demorei a sair da cama. Quase oito horas. No verão volta inteira na lagoa. Inverno ponte e sol, o limite. Café preto. Lavo a louça da preguiça, deixo outra no balcão. Vou escrever. Lá vai a fumaça azul, como disse, o amigo. Sigo pedras sinais fumaças. Persigo estórias e histórias. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018 – Torres

 

mais planta planta e lagoa gosteiiiii

rosas gordas

PITANGAS AMORAS AMEIXAS: pomar da lagoa. Jasmim em tufos. Alameda de camélias. Abertas rosas gordas a desfolhar. Vejo pitangueiras floridas. Amoreiras modestas, atrasadas, e apenas uma ameixa amarela. Araçás verdes, sem fruto. Cheiro de mar, e uma esperança desesperançada de viver para sempre. Irei sob protestos agarrada neste galho de vida. Cheia de pensamento engraçado. A morte virá, eu sei. Penso na vida. O corpo descreve/conta/explica curioso. Floresta, campina, e sonhos… Desencontro. Bafo quente do último olhar. Alguém virá me chamar, dizer meu nome, e dar a mão. Outra vida se estica, o sorriso alegra e acolhe. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018, já em Torres.

HELENA TERRA fotos de um rosto

Foto com autorização: o movimento da beleza  alegre: Helena Terra

borra de café

Passou o vento. Café com torrada sem manteiga. Geladeira se esvazia. Ainda tenho uma laranja. Feijão e arroz e uma gostosa preguiça. O frio se acalmou depois do vento. Feliz livre leve. Sensação de segura liberdade: sou eu sendo eu. O hábito da borra de café para adubar buganvília escabelada e sem folha. As formigas estão dormindo, e eu feliz. É isso: uma súbita vontade de ser apenas feliz… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018 TORRES

COZINHA LABORATÓRIO

Hoje tem a feira ecológica do outro lado da lagoa, Torres acorda. Muito bom ser sábado! Dormi bastante ontem e antes de ontem e tive sonhos: acho que foram coloridos, e tia Joana estava comigo.

vulnerável

…, menos frio! Seis travesseiros! Cinco cobertores!  Um acolchoado. Teu corpo junto do meu. Fogo na lareira. Brasas no fogão. Cinza no céu e na água. Inverno esticado. Casacos e mantas pelas cadeiras. Silêncio da chuva que bate forte na vidraça. E a passarinha no ninho, espia. Espera. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018 – Torres

“ Antes de adormecer, penso nas flores. Nunca vira nem ouvira falar de um homem que colhesse flores e as colocasse num vaso. Era estranho, mas importante também, podia perceber isso. Teria que providenciar para que houvesse flores na mesa de John Broman. Pelo menos no verão.

Naquela noite, sonhou com gerânios, flores num jarro que vira certa vez na janela do presbitério.

[…]

Mas quando a semana se passou sem qualquer recado de John Broman, ela desistiu, e pela primeira vez na vida desesperou-se. Aquilo era mais duro do que a vergonha, e ela percebeu que que a esperança é que torna as pessoas vulneráveis. Não se deve ter esperança. (p.46) Marianne Fredriksson – Hanna e suas filhas

passarinho da Joanapassarinho no ninho olhandopassarinho no ninho

Fotos da Joana Moog – Torres – agosto de 2018

miosotís

Quero um ramo de miosótis: mas, por favor, não vás morrer! Não suportaria! Posso estabelecer um paralelo: este inverno gelado, insistente, inexplicável. É como te perder, não posso permitir. Vou me afogar  congelar no verão sem te esquecer. Não importa nada ….M.B.Mattos – agosto de 2018. Do todas as histórias possíveis e incontáveis estar ao eu lado é a melhor Emagrecer, cuidar, sorrir e te encontrar. Um beijo que te consuma …

escrever sair e se perder

“A ideia das páginas desaparecidas não tinha saído a contento, e ele a arquivara e esquecera.

Não desisto. O fantasma gente/pessoa segue fazendo o dia continuar caminhar seguir sem interromper, nem por um minuto, a ideia errada ou nova ou estranha  se forma  dentro de mim. Vi o ninho bem perto da janela, e eu penso no invisível que é o outro, e digo bom dia. Converso com quem está na calçada, abraço a filha. Faço caretas de desgosto porque não vou viajar. Deveria. O dia está lindo. Lindíssimo. “Agora, porém, ele se deu conta de que poderia dar a essa historinha sobre uma guerra entre linguagem e o silêncio um significado que não era somente linguístico; percebeu que a história ocultava em seu interior uma parábola sobre liberdade e tirania cujo potencial finamente compreendera. A história estivera além dele, por assim dizer, e agora sua vida pessoal o alcançara. (p.166) Salman Rushdie – Joseph Anton Memórias. Estou a misturar leituras,  da mesma forma que misturei emoções genuínas de cada filha, de cada neto, me mostro incapaz de compartilhar e festejar o conjunto. O conjunto a particularidade são os bordados necessários únicos e eu, eu deveria decifrar e abraçar. Desaparece de dentro de mim a coragem de me sentar silenciosa e escrever. Escrever pode ser pintar pintar borrar, jogar tanta tinta em cima  sem cuidar do que esconde, e nada definir. Incapaz, espichada, fraca, tropeçado. Priorizo a dor na perna esquerda, o silêncio, três livros abertos, uma voz fantasma, e sou eu a pedir perdão. Que seja perdoada. E leio releio leio A MALETA DO MEU PAI de Orhan Pamuk, – Flávio Xavier tem razão.

“Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual pessoa se transforma quando se recolhe em si mesma – com paciência obstinação e alegria”. (p. 13) Orhan Pamuk – A Maleta do meu Pai

O que me atrapalha é este carência-fantasia – que me faz uma idiota apaixonada insistente, desvio do sério do que de fato importa para brincar com carrinhos miniaturas bolas de gude, e comer balas …, a vida é séria, um ia/ e termina, logo vou me dar conta. Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres

SALMANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN