o fio

tem um fio invisível que segura, prende um sentimento ao outro sentimento, um olhar ao outro olhar.

tem uma mão que segura outra mão

e aquela memória de tudo ser o mesmo, tudo igual, ou,  já não é mais…

e  já somos grandes, pessoas, adultos. E diferentes. Se espalha  urgência desastrada, amorosa.

Quero os pés no chão, verdade pequena, chorar qualquer lágrima… entender.

e o pedaço de pão que reservei, o pote de água, a cama que deves descansar, te esperam, assim mesmo, … estranhados.

e não vens. E não virás. Desembarcou noutra ilha. Não falas. Não compreendes.

E  eu te conto,  escrevo, meu querido. Desde muito pequena converso, brinco e falo contigo, amado imaginado.

Foi tudo amarrado naquele fio esticado de ter doze anos, quatorze anos, quinze anos. E nos engalamos para dançar  no baile do Country  Club

as tuas areias, as tuas pegadas, outras. O teu mar, tuas terras, outras. Arrozais e pradarias ao vento: colorido teu mundo de luz, leveza, e sol.

Encantado, juvenil, descabelado  crisântemo,  alegre margarida. De sorrisos e leveza, crianças e balões. Outro quintal.

Vamos nos encontrar entre os perdidos -desaparecidos. Outro mundo, outro amor. Outro encontro. E vais me sorrir. Elizabeth M.B. Mattos  – Texto perdido, ou repetido, estou procurando …, mas toda a memória marca o compasso.

 

anotações …, a ser desenvolvido

Perfume e indiferença …, aquela prepotência cega do desamor. Fico com alfazemas. As pedras do cascalho queimam meus pés. Amorosos fantasmas.

Vou leve ao encontro do amor mesmo no desencanto do desencontro. É o caminho … Algumas pessoas foram  nossas no abraço.

Minha casa está aberta? Não. Minha casa não está aberta.

Dor na perna esquerda, nos ossos, no joelho. Se não houvesse corpo, não haveria dor.

Impressiona a força afetiva da memória…, ou é apenas espanto? Não sei nada do amor. Amor de amor que espalha / caminha /  atravessa. Importância inesperada. Como é possível relação derrubar concentração? …, sair do eixo perder o prumo …, esvaziar cabeça, vontade, e fazer doer o corpo, … desorganizar. Criar barreira. E a hora escorrer. Há qualquer coisa de trágico! Não sei contar a história, nem desfazer o nó. Cansaço nesta/desta expectativa. Elizabeth M.B. Mattos – retomando – setembro de 2018 – tentando publicar para depois ordenar e seguir. Aos pedaços.

de Iberê Camargo e Flávio Tavares

de Iberê Camargo e Flávio Tavares

1.

Cada vez que imagino ou penso/quero contar a história do amigo/ escapo, ou me atrapalho. Amigos importantes, especiais: positiva, mas dispersiva, eu sou. Iberê Camargo, por exemplo, conheci no Rio de Janeiro. Rua Muniz Barreto, Aliança Francesa de Botafogo. Era lá que fazia meu intensivo de francês com M. Gadiou. Naquela pequena sala de eventos, logo na estrada da casa de pedra, a exposição de Iberê. Iberê morava no Rio de Janeiro, na rua das Palmeiras. Os carretéis começam a surgir nas telas. Nesta época eu assinava Elizabeth M.B. Moog.  Maria Camargo também conheci naquela tarde, intervalo da aula: cafezinho e conversa. Botafogo. Na esquina a grande loja SEARS. Perto das férias / logo estaria em Torres: o verão. Trocamos endereço, estabelecemos a ponte, e  a visita ao atelier ficou para março, quando eu voltasse para o Rio. Prometi escrever. Ele também.  Segue a primeira carta. Uma amizade que se firmaria: quarenta anos.

” Querida Elizabeth: Recebi a tua carta. Vejo-te à beira do mar. Enche, pois, as tuas mãos de mar, enche os teus olhos de luz.  Na minha lembrança, tu és uma presença. Eu perdi o jeito de correr pelas praias e de me misturar com os peixes. Faz isso por mim. De Torres guardo este fragmento, por certo o mais agreste, o mais autêntico ao pé do penhasco, o mar enrola-se como uma grande cobra verde. Ao longe ele é sereno. A distância da placidez da cousa. Tenho produzido pouco ou nada. Espero melhores dias. Mando-te a minha saudade que é muita. Afetuosamente, O Iberê –  Rio,28 de janeiro de 1975 “

Iberê Camargoimages Museu instituto

2. Conheci Flávio Tavares na casa de Iberê Camargo, os amigos se despediam. Entre amigos e tanta emoção. (1994) E o inexplicável. Meu amigo Iberê se despedia. E nos entregou seu original de contos. Flávio e eu começamos a trabalhar neste livro de memórias. Seria publicado em 1989. Gaveta dos Guardados: houve polêmica,  depois eu conto. Editora da Universidade de São Paulo.

em Búzios – 1998

horas mortas

“As horas devem ser mortas. Enquanto você está esperando. As horas perfeitas são as que passo nesta máquina. Mas você tem que ter horas imperfeitas para para ter as perfeitas. Você tem que matar dez horas para que duas vivam. O que você tem que cuidar é para não matar TODAS as horas, TODOS os anos.”(p.100) Charles Bukowski  O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio LPM

Horas mortas e, … também, uma tristeza comprida. Inexplicável neste caminho.E.M.B.Mattos

artimanha

Não preciso tocar. Já és meu nesta forma imprecisa. Precisa certeira. Atravesso teu corpo. Atravessas o meu. Sedução: veneno mortal. Nem perfume nem peso nem gosto, nem tato. Silenciosa ausência amorosa,  presença constante.

Se o tempo voltasse e me despejasse no colo arrependimento dor e tristeza. Mágoa e perda, mas também encantamento alegria juvenil, ou apenas o teu amor, apenas bondade. O que eu diria se o tempo voltasse? Eu responderia: quero tudo igual, tudo igual e o mesmo, eu quero apenas mais tempo senhor tempo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018, ainda Torres.

egoísmo

Há quem diga (e também já li em alguma parte) que o mais alto amor sentido pelo próximo não passa no fundo de mero egoísmo. Não que seja bom ou ruim o egoismo. O altruísmo é destrutivo, uma bandeira  chamada desespero. No egoismo a defesa. E sempre há uma desculpa presa na ponta do fio. SE sou valente, forte e decidida …, bem só posso ser assim comigo mesma, e com minha nominada solidão. Reclusa e aberta, paradoxal. Como sou apenas eu comigo estou sempre pronta ao primeiro passo, ao único passo, a todos os passos. Na história sucessivas perdas e o constante excesso de amor derramado cego, estúpido. O espanto da covardia, e a defesa da generosidade permissiva: respeitar a vontade do outro. Quem é o outro que não está em nós? Sou o teu olhar, flexível a tua vontade. Eu me materializo na tua voz, na tua palavra, na tua vontade e na tua covardia. Sim, natural que eu me sinta esvaziada. Vou reagir. Vou soltar a ponta do fio. Aquela palavra confidencial que me deste num momento de fraqueza, a tua e a minha voz misturadas, o nosso egoismo. Agora, as cartas não tem mais endereço: colocarei a mensagem na garrafa vazia do vinho que bebi, e lançarei ao mar. Histórias de amor e desencontros, o estúpido e maléfico acaso. Fiquei dias e dias com a porta aberta para o jardim … Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres

derramado despudor azul

Não me perdoo dos beijos que não dei, do corpo inteiro que não senti. Azul da imaginação. Cada vez que eu me esforço para te reter, invento, eu te perco… Tens asas no sorriso, nos teus passos. Não te esqueço. Derramado despudor deste meu amor amado, amando. Beth Mattos – maio de 2018 – Torres

 

depois talvez quem sabe, morrer de vergonha

…, pode ser aquietar e voltar. Como ainda nem consegui sair, abri outro livro de Orhan Pamuk – O Livro Negro.  Tempo de viver escondido, interrompo a leitura, eu penso. E volto. Embora desatinada, sem saber bem o motivo de voltar, volto. Que eu consiga chegar! É assim mesmo. Depois de cair e depois de esfolar joelhos e cotovelos, não desistir. Chegar. “Como gostaria de caminhar ao sol por entre os salgueiros, as acácias e as roseiras do jardim secreto protegido por muros altos em que Rüya, fechando cuidadosamente as portas atrás de si, mergulhava toda vez que adormecia serena.  Mas sentia um medo constrangido dos rostos que lá poderia encontrar: […]” (p.12) Também eu tenho medo de entrar no sonho errado. De falar com a pessoa errada. De dizer errando e equivocada. Bem! Depois, talvez, quem sabe,  morrer de vergonha! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018