o jogo

Desci num planeta populoso. Música sol vozes imagens, gente entusiasmada.

Ninguém se importa / questiona viagem ou ausência. Relação de gentileza inusitada. Afinidade obscura interior mesmo sendo iluminada com palavras. A cada ser humano uma costura diferente: ponto cruz aberto. Fenda, bolso, prega. Violão piano violino.

Cinzento o céu. O vento destelha minha casa. Tropeço na ideia – fantasia de voar.

Arranco os panos que me cobrem, deixo cair a vergonha. Fecho a porta, a janela amanhece escancarada. Meninas cinzas espiam. Não pode ser sempre tecnicolor. Há um fio azul a segurar o céu e outro cheio de vermelho e amarelo. Não sei com qual cor amarro meu desejo? Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018

 

GRIFFIN and SABINE

Estou convencido de que temos que seguir em frente, até descobrirmos por que isso está acontecendo conosco.”

Você acha que estamos separados para o resto da vida, cada um impossibilitado de existir na presença do outro?” Griffin

Se resolvermos nosso problema, ganharemos um ao outro como recompensa.”Sabine

luminoso farol

[…] “Lendo-te, te amo. É certo que, também, me dás trabalho e exiges que a paciência de preso em cela solitária venha outra vez à tona: a carta rasgada em dezenas de pedacinhos brotou pelo envelope, como água se esvaindo entre os dedos da mão e, logo, me obrigou a um longo trabalho de reconstituição. Um trabalho de chinês. Pedacinho a pedacinho, cantinho por cantinho. Quando tudo está quase pronto, as peças enfileiradas, o rasgo colando – se pela conexão das ideias e das palavras, veio o vento que leva a chuva e tudo (quase tudo) esvoaçou varanda afora. O piso é de sarrafos grossos com espaços entre si e os pedacinhos da carta rasgada pela minha adorável e adorada Gorda  amada desapareceram pelo chão, sumindo como num sorvedouro. (Diz-se ‘sorvedouro’ aí ou isto é, ainda, reminiscência dos meus anos lisboetas?)

A paciência é, talvez, o maior que tenho, além da ternura e da necessidade de amar e de que entendam que eu amo o amor e o ser amado. Em espanhol diz-se ‘crucigrama’, uma espécie, talvez de via-crucis de juntar pedacinhos perdidos e esparsos, pelo vento esparramados na barranca da casa de Búzios.’Crucigrama’ é ‘quebra-cabeça’, literalmente, mas soa como Calvário que pelo sacrifício, nos salva. Recolhi um a um, outra vez, e ei-los aqui, todos os pedacinhos, todinhos, refazendo tua carta rasgada. Doméstica carta, mas só em parte. ‘reli as várias cartas que te escrevi, a primeira jogo fora / é doméstica demais. Já sabes tudo que está escrito ali.’ Nem era doméstica demais, nem a jogaste fora, apenas rasgaste. Dos pedacinhos refeitos tirei a tua frase de não saber namorar por telefone. Talvez tenha sido tua melhor carta, pois foi -pelo menos-  a que me deu maior ansiedade. Estarei contigo buscando a ansiedade que não tenho? A depressão, em mim, sucedeu a ansiedade. Agora, neste momento, sinto-me ansioso, quisera estar contigo, tocando – te, sentindo tuas dobras gordas, apalpando -te,apertando – te.  Mas quase só nisso se resume a minha ansiedade, minha pobre ansiedade de hoje, aos sessenta anos de uma  vida desfeita, que eu anseio refazer a cada momento mas que a depressão impede, corta, evita.” […] Volto a reler tua carta rasgada: talvez por ter sido a carta maltratada, é a que mais leio, gosto, entendo. Começa com ‘estou feliz’ termina (depois de nossa conversa telefônica) com ‘estou pronta. Pintei os olhos, a boca. O cabelo de guri. Perfume.’ ” […] F.Tavares

Um fragmento. Cheiro de amor. Transcreveria tudo, talvez o faça, assim, aos pedaços, num dizer sem contar: derramo sentimento. Jogo sério amar amor.  De repente escrever dizer cuidar fazer, e desmanchar, um/o presente … Vem com ele passado futuro. Ou apenas o retrato de dois intensos ansiosos despedaçados abençoados. Deletar tudo (ou quase tudo) e jogar ao vento sentimento. Volto ao Paulo Hecker Filho (amigo de missivas) raivosas nuas furiosas cartas eu lhe escrevia a dizer o que me passava na cabeça.  A contar de ciúme, de amor-saudade, ou era só nostalgia? Quando se ama de amar tanto! Engolida pela inconsciência. Cartas do acervo. Sinto vergonha grande de ter enviado, mas não de ter vivido. Rabanadas surtos de ternura: contraponto amoroso. ‘Crucigrama’, não desgoverno. A pressão vem com vento chuva trovoada, sol forte. Junto o tal mencionado amor.

Volto para ordenar limpar refletir! Em que lugar do farol vejo mar pedra onda céu azul cinza verde negro e horizonte. Retomo os anos de ser carioca. Inconsequência feliz. Metodologia consciência e trabalho produtivo. Eu te gosto meu amigo, se não vens eu irei. Estou a te contar aos poucos, devagar, a vida que sendo minha também é tua. Eu já te expliquei, se te amo, metade de mim metade de ti somos nós, então cuida da metade que me pertence. Eu cuido de ti. Nada pode ser melhor que abraçar o teu beijo.

Elizabeth M.B.Mattos – abril de 2018 – Torres te espera. Não fica pensando tanto, apenas chega porque aqui tem rio montanha falésia lagoa vento areia silêncio e nós dois. Histórias que sabemos contar.

o cartão amoroso em tons de azul

Cartão de Carmélio Cruz -, 1965.

Aceita a pessoa como ela é. Aceita invasão necessidade de tocar. Passa pelo amor, agarra o luxo de ser dois. Atravessa o limite do vento. O luminoso é ser você no outro e poder deixar o outro ser em você. Albertina d’Assupção Cardoso (…, um pseudônimo que usei em alguns Escritos).

P.S. Acabo de encontrar carta manuscrita, seis páginas. Percebo ao reler que ele “toma emprestado” algumas imagens. Estivemos incendiados um pelo outro. Agora compreendo porque pediu emprestado o meu texto-ideia, um empréstimo amoroso? Se passaram vinte anos. A ideia o jeito o grito é meu. O amor é nosso. Todos os escritos têm um fluxo de outros escritos. Os livros já estão nas folhas de outros livros. Ora, se tantas cartas foram e vieram, se as conversas intensas contínuas se misturaram, … se meu ensaio do Esquizofrênico Amor tinha sido lido, como separar estas junções? “Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, […] Tornei-me um esquizofrênico  da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. […] Quando te amo, este amor enfurecido de beijos e abraços ocupa todo o espaço da memória e, só então, vivo tranquilo e em paz. Sim, minha amada, […] E por não esquecer te conto, minha amada. Como um grito te conto. Ouve e lê.

Nesta carta de 1995/1996 duas datas porque começada e retomada escrevo:  reclamo resmungo critico, uma enjoada mesmo, mas adoro ir ao teu encontro e passar de um canto para outro a me sentir viva ao teu lado. […] pouco me importam as pessoas, ou o mundo, quero ficar ao teu lado. Pouco importa por onde andes quem amas mais ou por quem chores, eu te amo, e sou melhor porque te amo. Não existe uma única verdade, existem fatos. Dias que seguem outros dias. Vive meu querido, eu estou aqui, ao teu lado, e feliz. Os amores se completam. E.M.B. Mattos –  abril de 2018 – Torres

objetividade não alcançada

P.Alegre, 20 de outubro 2000.

Beth,

         que temperamento. Com tanta carta e problema, envolves o homem. Quero ver ele achar saída. Belo Horizonte não é o problema, ótimo clima. Já as cartas revelam uma incomum fluência de redigir. Mas insisto; para a literatura essa fonte deveria ser ordenada, por exemplo em contos, num diário moral como os bons diários, num romance. Para isso terias de achar um modo de te distanciar dos teus problemas e entrar na objetividade do nível literário. Quem sabe consegues fixando este projeto. Ele pede alguma estabilidade cotidiana e psicológica. Terias de saber renunciar, mas é em nome da arte,a tua querida. Ela merece, é o que o teu computador e dias não cansam de reconhecer. Se o puseres à frente, isso pode não estar tão distante como hoje soa. Um voto

        Paulo

18 anos se passaram. Sigo escrevendo escrevendo, mas  nenhuma objetividade, sem foco. Perco energia. Os papéis se colam uns aos outros. Eu me perco a espera do milagre. Imagino que vai se criar ordem, tranquilidade trabalho e paz. Um mergulho dentro de mim mesma. Que eu escreva a carta e responda, ou o diário. Tantos cadernos azuis vermelhos amarelos, anárquicos eles também. Antônio Carlos Resende conseguiu que tua correspondência/ acervo fosse armazenado na biblioteca da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Outra memória engraçada: café com leite do Carlos Lyra (nada de chopp, não importa a hora, sempre café com leite), e interminável conversa de ver o dia nascer. Velhas e maravilhosas canções. Foi na casa da Aldinha que conheci Carlinhos (e, pegar o mesmo táxi esticou o tempo). Todo conectado com a astrologia, acho que ainda tenho o livro que escreveu (vou procurar). Ideias novas liberdades amarradas. Aliança Francesa de Ipanema, e neste fio a memória do Rio de Janeiro adormecido/ cochilando durante a Ditadura Militar. Onde como andará a bossa nova? Tudo te contei em cartas meu amigo. Paulo, guardei o teu estímulo. Não parar de escrever …, não deixar de ir ao cinema, ler ao menos duas horas por dia, e principalmente não deixar de ser feliz. Tudo armazenado/ registrado. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018

CARTA PAULO URGENTE É SER FELIZ

FLAUBERTtttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttttt

Cartas Exemplas  Gustave Flaubert  – (1821 – 1851)

Na primeira foto: Olívia (lenço azul no pescoço), Aldinha e eu, Aliança Francesa de Ipanema com Willy, o professor belga. Na outra, Aliança Francesa de Copacabana, Patrick Durrand Lasserve. Festas de aniversário.

…contento -me em fazer planos, criar cenas, sonhar com situações descosturadas, imaginárias e ser convencional …, não sei o alcance que a palavra convencional adquire neste momento, nem como posso afastar/ impedir que te aproximes sendo  eu

C O N V E N C I O N A L ou o inverso, respondes: compreendo como pode parecer / ser desmedido, maluco ou duro. Mas preciso que me escutes. Não por mim, mas por ti, para encontrares o caminho. Respondo: aonde aonde aonde o atalho para este caminho iluminado? Esperando que digas. Sigo nestes longes gaúchos a ter amigos amigos daquele tempo adolescente de estar em Torres. Sempre Torres.

bonito

22 de agosto de 1978

…, gostaria muito de visitá -la. Rever sua mãe, as crianças. O tempo foge e as oportunidades se escondem nos múltiplos e cansativos quefazeres que me cercam os dias horizontais.

INTERVALO

Nossos caminhos são desiguais: você anda (ainda) por onde quer e faz (ainda) o que deseja; eu não estou (ainda) onde gostaria, nem faço (ainda) o que me agrada. Isso soa demasiadamente dramático; desconfio que seja falso … O que na realidade quero dizer é que faço quase nada do que gosto. Dramático de novo. Falso outra vez? …

EPÍLOGO

Tenho receio (algum) de me estar tornando mórbido. Tanta inverdade (na minha vida) aliada à exígua, ou inexpressiva liberdade estariam a afetar – me o temperamento (outrora) alegre.

Acho que não vou enviar-lhe esta carta …

Helio

P.S. É bom saber que gostas de ti.

FIM

 

Helio:

Guardei bilhetes e desenhos, seria bom conversar outra vez. Não sei onde estás. Desapareceste na tua história feliz, suponho. Lembro das risadas, tenho fotos do grupo: Laila Miguel e Roberto, da Suzy (esteve no Rio Grande do Sul quando morei em Santa Cruz do Sul) …, sim acho que sempre gostei de mim mesma, atualmente nostálgica embora livre/inteira. Não podes acreditar que passei a usar o tu no lugar do você, mas o Rio de Janeiro o nosso Rio de Janeiro está intacto. Os filhos tão pequenos naquela época já mais velhos do que nós (tínhamos tanta juventude!). Não estou com as fotos em mãos. Assim que encontrar acrescento. Tenho cartas manuscritas tuas, um desenho que fizeste, sentavas atrás de mim, uma figura, acho que também escrevi bilhetes. Ainda tenho contato com Roberto que casou teve dois filhos, e segue o professor/monstro/ intelectual que sempre foi. Lembras do Zé Luis? Da Olga. Estamos todos juntos nestas fotos, tenho certeza.

Na época eu assinava Elizabeth Menna Barreto Moog / grande confusão este nome! Quando me casei aqui no Sul (com o pai da minha quarta filha) deixei de ser Moog. Esta confusão de trocar nome. Agora sou Elizabeth M.B. Mattos e ponto. Outro casamento, nem pensar.

Fico te devendo as fotos na sala de aula. Perco umas, encontro outras. Estão num álbum … estás dando um abraço na Sofia, e o professor Miguel está conosco. Aparece a Laila e também a Suzy.

FOTO PARA HÉLIO daquele tempo

let me try again eu fiz do meu jeito

O que será de nosso passado…, que/se a gente vive tentando recuperar a maravilha perdida sob a pressão de ver/estar/ser o presente. Volto. Mesmo largado/deixado ganha/guarda majestade. Testemunho eterno: – eu estava lá, eu fiz isso e aquilo, naquela época as coisas eram assim e assadas, eu era bondade e beleza, a minha beleza. Grávida de promessas, de um belo futuro. Responde. Explica, canta e dança comigo! E.M.B. Mattos – maio de 2018 – Volta!

 

…, o tempo passou, e de repente, está de volta para nós. Alegria alegria pela vida.

Bonito

corajoso

Amor corajoso. Corre risco, sangra medroso, treme balbucia, e se esconde. Aquieta tranquiliza, mas explode no beijo. E.M.B.Mattos – março em Torres – 2018

blog de Liza

o Blog do Terra quando me nomeava apenas Liza encontrei nos guardados…, quanto papel!

convencional

Transgredimos, tu e eu, jeito e forma diferente. Perdemos pedaços nos excedemos. Explosões. Saber conhecer encontrar, pois é… E tanta gente a se desencontrar desconcertada. Nada é mais convencional do que amar o amor, ou apaixonar. Revolucionário anarquista comunista monarquista republicanos de direita esquerda centro.  Cidade, campo ou alto mar, igual. O descaminho é mesmo se apaixonar. Elizabeth / Liza/ Beth M.B. Mattos – sábado chuva forte – 2018 março

do passado ao hoje

fevereiro de 2018 eu no hall do edificio

palavra desejo

Escrevo apressada. Cartas não chegam, não sei…, explico inúmeras reticências: não concluir frase uma hesitação. Lacuna silêncio raiva azeda, represada. Para compreender o que está se passando preciso descobrir de onde a perspectiva está sendo fixada, como num mapa: se tu me dizes x eu devo considerar xy  ou yxb. Se me aventuro a contar sonhos eróticos estarei povoando desejos. Limites do corpo não são limites da biologia. Uma parte minha está contigo em outro lugar. Assim o sentido de escrever se altera. Um fantasma, uma criação. Vou aquietar minha inquietação. Enterrar o desejo. “O amor, como diz Lacan, em última instância se refere a uma carência. Esta conclusão suscita uma pergunta. Se o amor do homem se dirige a uma carência, como podemos distinguir isso do amor de uma mulher? Afinal, vimos como a fraqueza ou a carência do homem são essenciais a ela. Como primeira resposta, podemos dizer que o amor em geral se dirige a uma carência. Onde o amor da mulher se distingue aqui está talvez ligado à  ordem de casualidade: a carência do parceiro tem que ser garantida por ela. […] Os homens nem sempre insistem em ser a causa da carência da mulher, e quando lhes parece que podem estar assumindo essa função, é provável que desapareçam. Entram em pânico e fogem.” (p.99) Darian Leader Por que as mulheres escrevem mais cartas do que enviam?  O livro me foi presenteado em Porto Alegre 2010. Na minha reorganização de estante e seleção eu o reencontro cheio de anotações e penso: embora o tempo o dia se apresse, o outono atropele, eu reconheço: sedução e desejo. Curiosa estranha fantasiosa permanência: presença agarrada nebulosa silenciosa dizendo… Elizabeth M.B. Mattos  –  março 2018 – Torres

LivroooooooooooooooooooooooooooooooooTEXTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOONARRATIVASSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

coisa da madrugada

Por que te escrevo? Porque estás a ler, e preciso de ti. Mas não choramingo. Não, não quero te pedir nada, nem que olhes nos meus olhos, passou tanto tempo desde o primeiro dia que nos encontramos! Já sei o que sentes. Estás acomodado/ instalado na vida, – e lembranças disparatadas te assombram. Já tens o gosto acomodado na memória organizada do reencontro generoso, e do pequeno prazer de ser tu contigo. Eu atrapalho. Mas repito, preciso de ti. Lembro como és envolvido, abarrotado de tarefas e exigências. Não quero te pedir nada. (sorrindo) Mas não vou esquecer de nós dois. Então eu te conto como sou, porque não sabes, não podes saber tudo. Ainda não sabes (sorrindo). Mais ou menos agitada dispersiva quieta inquieta curando apalpando esquecendo. Mãos na terra cavoucando, mãos nas nuvens. Apago equívoco para te gostar do jeito certo de gostar. Escrevo a lápis, e vou e volto com a borracha. Espalho anotações. Amontoo prazer para te entregar, desordenado, mas nosso. Pega agarra. Sou desorganizada, tu não imaginas o quanto! Ficarias logo aborrecido comigo se eu te perguntasse dos óculos. E a xícara, o casaco (sorrindo) espero que não brigues comigo. Lembras quando deixei queimar a panela Creuset (maravilhosa!), e tiveste uma inundação, um cano com problema num dos banheiros… Estávamos juntos naquela confusão. Fogo e água. Monocleose, perguntas inquietas, paciência. Teu sorriso. Estico o braço para tocar no abraço, depois vou recuando, não virás, não irei. Posso esperar. Não vais acreditar na vontade grande que tenho de te olhar quieto, retraído, tu também esperando. Outras vezes te sinto feliz, esparramado na cama. E sei que sentas para ler, escrever, vagamos pela nuvem virtual, estamos viciados. Vejo pouco televisão, saio pouco, e gosto de andar de camisola pela casa. Faço chá de madrugada, escuto música e respiro. Abro as janelas. Gosto do vento fresco da noite, e acho uma droga que envelhecemos/ envelheço…, afasto este desgosto e penso nas noites ao relento, respiro. Devem existir outras vidas, outras formas de prolongar /esticar porque não damos conta de tanto fazer e tanto sonho! A menina se apressa dentro de mim, espia e aguarda, dá gargalhadas quando me impaciento. Então espero ela adormecer para sossegar o espírito e agradecer. Afinal, estás aí do outro lado, mesmo se choro, se suspiro, eu te tenho / penso, e sou feliz para poder derramar tudo no teu colo quando chegares.  E qualquer claustrofobia se desarruma quando me sinto feliz como agora. E volto para os objetos amontoados. O desfazer. Coisas me atrapalham, mas não consigo me livrar dos livros. Vou limpando uma estante depois a outra, decido que não lerei este nem aquele livro, jogo na caixa. Preciso separar os preteridos dos amados. Fiz tantas mudanças ao logo do tempo! Estive a morar aqui e ali. Estes dias lembrei de Montevidéu, da casa e das tardes enormes, do leite do doce da boa comida, das bicicletas dos meninos em grupo com as mochilas nas costas, do fogo da lareira, do bom queijo ralado na massa, o bom vinho e a preguiça. Por que te conto estas histórias? Gosto que me escutas, gosto de te embalar. Enquanto digo/ alongo as palavras. Eu te beijo, e te aperto e assim mesmo fechas os olhos. Estamos um a pensar no outro. Cada um amolecido no corpo. O meu falante, o teu silencioso e amoroso. Como os dias eram enormes, como viver tinha um tempo um tempo um tempo, como vou te explicar ?E com tamanho de vida inteira. Sentia saudade das crianças, sempre senti saudade dos filhos, já te contei isso, na minha vida de ser gente grande, mulher, bem, antes dos dezessete anos eu queria apenas ficar gente grande e escrever, mas depois, – esqueci todo o resto. Comecei pelos bebês, pelas crianças. E agora quero te amar assim, devagar com os olhos, com o pensamento, com todas as estas coisas boas que guardamos um para o outro. Elizabeth M.B. Mattos março de 2018 Torres