“[…] reclamaria em silêncio ao pensar que este alívio acabaria criando mais oportunidade par nos encontrarmos, para inculcar nossas mentiras, para nos revelar ainda mais para nossos juízes. Ai estava outro paradoxo do amor; a mesma coisa que nos aproximara ainda mais – o bustrofédon – separaria-nos para sempre se conseguíssemos dominar as virtudes que representava, ao menos, aquelas partes de nós que se nutriam com as imagens construídas acerca do outro.” (p.149) Lawrence Durrell – Justine 
um pedaço
Confissão lúcida, mas não a verdade inteira. Este 2017 termina esgotado …, termina cansado. Em nenhum momento deixei de tentar. E. M.B. Mattos
a perfeição é o retorno
A história da humanidade, da tribo, dos predadores sensíveis que somos se resume no encontro festivo partilhado com vinho água e pão … afinal, o percurso da vontade, do limite, do desejo de dizer/gritar se esconde além do dizível. O silêncio escreve como o sentimento.
Enquanto te amo louca e desesperadamente, não te digo. Nunca saberás a medida, estamos, tu e eu, sentido… há que se desesperar na despedida para saber o quanto o amor é/foi amor. Elizabeth . B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

de 2017
Não está na imaginação, nem no tempo. Escorrego.
Repenso atitude/ entrega/ questiono …, certeza incerta caminha a se esparramar, e se confunde: real e irreal. Impossível no inesperado. Espanto! E sou eu na loucura das frestas. Imagem da imaginação a se espicaçar medrosa, então … nem o cheiro, nem o arrepio, nem o susto, nada me traz de volta, escorrego.
O ano de 2017 termina … estranha sensação de iniciação. Escorrego.
Não sou eu mesma, invento. Afasto chego perto demais, tanto!
O lugar não existe, não sou eu. Expectativa da véspera … alguma coisa vai acontecer amanhã. Olhar observação e quebra. Escuto o metálico ou o cristalino dos pedaços. Despedida. Escorrego. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres
“O verdadeiro tolo, de quem os deuses zombam e a quem tentam destruir, é aquele que não conhece a si próprio. Durante muito tempo eu fui um deles. Você também: deixe de sê-lo. Não tenha medo. O supremo pecado é a superficialidade. Tudo que é realizado é certo. ” Oscar Wilde De profundis

anotações…, a ser desenvolvido
Anotações: a ser desenvolvido
Perfume e indiferença…, aquela prepotência cega do desamor. Fico com alfazemas. Pedras do cascalho queimam meus pés. Amorosos fantasmas. Vou leve ao encontro do amor mesmo no desencanto do desencontro. Algumas pessoas foram nossas no abraço.
Minha casa está aberta? Não. Minha casa não está aberta.
Dor na perna esquerda, nos ossos, no joelho. Se não houvesse corpo, não haveria dor.
Impressiona a força afetiva da memória. Ou é apenas espanto? Não sei nada do amor. Amor de amor que espalha / caminha / atravessa. Importância inesperada. Como é possível relação derrubar concentração.
…, sair do eixo perder o prumo: esvaziar cabeça. Vontade e fazer doer o corpo, desorganizar. Criar barreira. Escorrer da hora. Há qualquer coisa de trágico! Não sei contar a história, nem desfazer o nó. Cansaço nesta/desta expectativa. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2018 –


estabilidade do amor
Fiquei a pensar no sentido: existe esta questão interna do amor próprio, existe desdobramento no amor, existe simultaneidade também. Paixão e outros sentimentos. A estabilidade mencionada se mistura com cultura, religião, e tantas outras questões, … todas embutidas no amor. E afinal, o que, exatamente, define o sentimento, esta palavra que se desgasta no imaginário das pessoas? Não é filosofia, não é razão …, de repente, penso: a cada um o jeito, a qualidade. O amor ele mesmo se define íntimo, pessoal. Como pode o amor ser igual por cada filho, por exemplo? Estarão na mesma esfera? O que significa, exatamente, esta divisão e este poder … E o homem amado? Este outro que se atravessa no universo do amor e que se divide como pai, amante, irmão, amigo … Estou a pensar. Elizabeth M.B.Mattos – dezembro 2017 – Torres
“O amor tem algo de – defeituoso, eu não diria defeituoso, pois o defeito está em nós mesmos: mas existe algo que não compreendemos na natureza do amor. […] O amor possui uma estabilidade terrível, e cada um de nós tem direito a um certo quinhão de amor, uma certa ração. Ele é capaz de se manifestar em uma infinidade de formas, e de associar-se a uma infinidade de pessoas. Sua quantidade, porém, é limitada, pode esgotar – se, ser arruinada e desaparecer antes que atinja seu objeto genuíno. Pois seu destino encontra-se em algum ponto das regiões mais profundas da psique, onde reconhecerá a si mesmo como o amor-próprio, o solo em que erigimos a psique saudável.” (p. 124)
Lawrence Durrell – Justine – O quarteto de Alexandria
“ Em nossa amizade, éramos capazes de compartilhar pensamentos e ideias íntimas, compará – los de uma forma que seria impossível se estivéssemos ligados por laços mais estreitos que, por mais que soe paradoxal, engendram separações mais profundas que qualquer união, embora a ilusão humana impeça – nos de acreditar nisso.” (p.125) Laurence Durrel in Justine
se você não sonha
“Nunca vou esquecer aquele olhar, tão breve, que ele pousou então em mim, mergulhando em meus olhos antes de sair novamente voando pela janela, como eu próprio, depois, pousei o meu em tantos outros. Aquele olhar doloroso queria dizer uma só coisa, que todos os aprendizes sabem: o tempo não passa se você não sonha.” (p.497) Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho, Companhia das Letras – 2004, São Paulo
Começo a compreender o porquê de estarmos, tu e eu, a reservar tanto dizer de amor. Estamos, tu e eu, a sonhar a permanência. Enquanto sonhamos um dia entra no outro, e o ano se apressa a passar. Somos amanhecer (qualquer manhã). Apressamos o tempo, e arrastamos a noite.
Adormeço depressa, sonho sonhos: nossos ou trovoadas, sinos natalinos, porque já é dezembro. Ao acordar, imediatamente, estou a te pensar. Rotina do pincel da tinta da letra, dobra de estranheza. Estamos na rede de estar vivo. Conto o dia, contas tu a noite insone, ou o resmungo do gato. E toco teu corpo pelo fio do telefone. Como escreve Pamuk o tempo não passa se você não sonha. Então, tu e eu sonhamos. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres
contraditório
“Um romance é uma estrutura única que nos permite ter pensamento contraditório sem constrangimento e entender diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.” (p. 29)
“[…] cada frase de um bom romance suscita em nós um senso do conhecimento profundo e essencial do que significa existir neste mundo. Também aprendi que nossa trajetória por este mundo, a vida que levamos em cidades, ruas, casas, salas e na natureza consiste em nada mais que uma busca de um sentido secreto que pode ou não existir.” (p.28)
ORHAN PAMUK O romancista ingênuo e o sentimental – Companhia das Letras – São Paulo 2011
envelhecemos
Esforço enorme! … o sentimento em ordem certa sacode. Velhos choram… Queria ser para sempre. É fato. Estranhamento. Preciso respirar. Na tenda de oxigênio percebo a finitude. Inexplicável conversa com o desconhecido-próximo. Penosa oscilante impossível. Nego a vida mais do que aceito. Tropeço, bebo além da conta, … transbordo. Ter ido ver/estar perto do m a r, e não a m a r, nem molhar os pés! Insegurança. Num repente venderia a alma para ser jovem bela e atraente outra vez. Envelhecer é amargo. Certeza de não ser mais. Inteligência versus maturidade resolveria. Perfeito estar na luta. Retaguarda. Arrepia limite / define, pontua. Queria poder seguir desejando … se te pergunto o porquê de sermos dois … envelhecemos. E ainda não dançamos, tu e eu. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres
Camile Claudel no movimento da dança.
migalhas
“Percebi então a verdade sobre todo o amor: é um absoluto, que tudo toma ou tudo perde. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura e assim por diante, existem apenas de forma periférica e pertencem às construções da sociedade e do hábito. Ela, porém – a austera Afrodite -, é pagã. Não toma para si nosso cérebro ou nossos instintos – mas nossos ossos.“(p.101) Quarteto de Alexandria Justine – Lawrence Durrell
Em se tratando do intenso, relações se tornam frágeis como…, como o fogo de um palito de fósforo?, …não sei explicar, apenas frágeis, inconsistentes. O grande sentimento não consegue esticar outros possíveis existentes sentimentos. Ou é isso, ou é aquilo. Se raiva ódio culpa existem, todos os outros sentidos desaparecem. A traição ou o desprezo engole sorriso, perdão, ou a benevolência. Importa o que chegou primeiro, o genuíno permanece / segue saltando… Esta caça ao amor é um movimento perdido: temos que reconhecer a austera Afrodite entre tantas tentativas / buscas frustrantes.
Cada rosto, cada história tem um jogo particular, trágico, violento, belo. Qual importa? Tenho a sensação que não existe cura para a vida porque não se esconde/ou apaga a memória. E a esquecida dor é chaga permanente. A boneca que não chegou no abraço, o beijo apressado, o boa noite escuro, a morte da mãe do Bambi na fogueira, o beliscão por baixo da mesa. Não esqueço o tal esquecimento. E se houve abandono, nunca mais… Não vou recuperar o perdido: não sou o que penso ser, infelizmente. Interpreto o possível. Guardo enterro com raízes a dor, e ela volta / nasce / renasce e se faz mato outra vez. Pensar a vida seria atravessar/ desbravar uma floresta e este misterioso quintal pantanoso. Não há esconderijo possível. Um livro de memórias nunca será ele mesmo a verdade, posto que a verdade não existe / tem o olhar, nada mais. O arremedo, tentativa tendenciosa. Impressionismo, expressão da projeção: apenas palavras. Elizabeth M.B. Mattos – 9 de dezembro de 2017 – Torres

Foto de Luiza M. Domingues – Alagoas – 2017