Nota sobre amizade

Em 1974 no Rio de Janeiro  Iberê  expõe guaches na Galeria da Aliança Francesa de Botafogo. Amigo do colecionar, o escritor Vianna Moog  começa sua coleção de Iberês. O atelier da rua das Palmeiras em Botafogo é inaugurado em 1972. No intervalo de uma aula de francês conheço o pintor Iberê Camargo. Começamos uma amizade que vai durar trinta anos. Beth Mattos

O maior vício

O maior vício entre os vícios pode ser a leitura. A leitura obsessiva que faço de mim mesma em tudo o que leio: nos livros que leio. Ao ler não busco apenas idéias novas, mas pensamentos já pensados por mim que adquirem na página selo de confirmação. As palavras dos outros me atingem ao ressoarem numa zona que já é minha. E, fazendo-a vibrar, eu me permito recolher novas sugestões. Neste monólogo, dou-me conta de que as leituras são aos pedaços, inacabadas. Trabalho interno desconcertante.Olho para a mesa cheia de papéis, pastas, folhas. Concentração difícil. Meu artifício para não concluir uma tarefa é a desordem. O caos pode ser este vazio escuro, o início gerador de projeto ou abismo. Esta confusão externa sou eu.

tumblr_nay289mXic1qd8ajzo1_500

Hoje acordei cedo. Em casa amoleci por dentro.Não importa qual filme, ou programa, o som alerta para o tempo perdido. O silêncio como ameaça. Concentro-me nos últimos capítulos de um texto acadêmico. Preciso finalizar. Leio duas ou três páginas, rabisco, reescrevo. Interrompo. Pela janela vejo o mar. A risca do horizonte.Desordem cinzenta.Há que abastecer, realimentar, continuar e imprimir a pluralidade.Busco nos livros os monólogos, as confissões. Ninguém tem tempo para o tempo do outro. Se aquilo que explico não estiver na pauta, linha, princípio assumido, as palavras ficam soltas. Estico o limite para me aproximar, procuro me fazer entender e faço esforço para compreender quem, e o quê se propõe na interlocução…

Foto do Blog http://thefullerview.tumblr.com/

Órbita dos filhos

Buscamos a referência no outro. Será uma identificação positiva ou negativa? Atuar no emaranhado da órbita de filhos, netos, pais, tios, irmãos, estranhos, e amigos…Comunicar? Cercamos a área, e delimitamos quem, como e quando. Esquecemos alguma coisa, sempre esquecemos. Talvez o mais importante. O único elemento modificador e propulsor de uma boa e saudável mudança é recomeçar a contagem desta família eleita. O mundo deterioraria se não houvesse o novo. Onde se localiza o prazer de olhar? Estabilidade, permanência de tempo, esticar o ritmo,  o certo. Jogo físico e mental.

Algumas pessoas resguardam a energia interior. Sofrimento rasgado da infância? Desencontro com a realidade forjada por nós mesmos? Queda no abismo de outras vontades como fuga do reconhecimento da fragilidade interior? Queda. Apagamos as marcas anteriores da rebeldia com a mesmice de agora, afastamos a ousadia e fechamos as possibilidades de recriar. Há que existir sempre uma  atração entre os astros  onde a órbita se faz circular entre os homens: chamo de gerenciar o condomínio. Com cercas, policiamento e estrutura de quietude. Apenas olhamos pela janela: o sol e o arvoredo, o horizonte limite aquece. Ponto. Não foi prazer nem desprazer. A observação propiciou  a constatação da ausência que se estica no não-relacionamento. Sem voz, sem tato, sem olhar. Pensar o outro é entrar no imaginário fictício, o equívoco? Por mais forte que seja o impulso sexual entre o homem e a mulher ele não se faz único gerenciador de possibilidades. Racionalmente acomodamos tudo nas caixas confortáveis onde protegemos o tempo. Olhando o que acontecia a minha volta, ainda no prazer da quietude, e da minha própria tristeza interior, constatei a diferença entre o que eu vejo, e o que significa a visão do outro. Ainda amo a possibilidade. Arrefecida estou dos impulsos do riso solto e da fala livre. Observo o vazio que se abre, e pressinto outras certezas. Tudo é superficial. De certa forma as necessidades básicas como comer feijão no dia marcado dormir a sesta  no sofá certo, trazer a faxineira nos horários possíveis, previstos. Aceitar o sono e o dengue do filho, buscar os netos pro passeio. Assistir ao jogo de futebol. Ver a novela. Fechar o cerco, fechar as portas e transitar nos jardins internos do seu próprio condomínio. Assim, o limite de estar na calçada, flertar no café, alimentar o gato da esquina é o limite mesmo de uma hora, duas no máximo, se for por mais tempo, significa perigo. É preciso respeitar as riscas da amarelinha na calçada, o caminho dos pedestres. Em tempo de guerra o sinal de recolhimento,  e as janelas fechadas marcam a segurança. Eu não sou a guerra, sou a desestrutura. 

A compreensão acalmou o sonho. Não mais repartir tempo de vida. O que antes parecia ser receptivo se torna equívoco. Engolir lágrimas, lágrimas. A galeria  está iluminada pela música de Bach. Volto os olhos para a exposição das telas azuis. Beth Mattos – Porto Alegre – outubro 2012

“Por outro lado, prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica que pudesse informar-nos sobre o significado dos sentimentos prazer e desprazer que atuam imperativamente sobre nós. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente nada nos é oferecido para nossos fins. Trata-se da região mais obscura e inacessível da mente e, já que não podemos evitar travar contato com ela, a hipótese rígida será a melhor, segundo me parece. Decidimos relacionar o prazer e o desprazer à quantidade de excitação presente na mente, mas que não se encontra de maneira alguma ‘veiculada’, e relacioná-los de tal modo, que o desprazer corresponda a um aumento na quantidade de excitação, e o prazer, a uma diminuição. O que isso implica não é uma simples relação entre a intensidade dos sentimentos de prazer e desprazer e as modificações correspondentes na quantidade de excitação; tampouco – em vista de tudo que nos foi ensinado pela psicofisiologia – sugerimos a existência  de qualquer razão proporcional direta: o fator que determina o sentimento e provavelmente a quantidade de aumento ou diminuição na quantidade de excitação  num determinado período de tempo. […]  Os fatos que nos fizeram acreditar na dominância do princípio de prazer na vida mental encontram também expressão na hipótese de que o aparelho mental se esforça por manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível, ou, pelo menos, por mantê-la constante”[1] 

 


[1]  Edição satandard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume XVIII ( 1920 – 1922) Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. Páginas: 17,18 e 19.

Repetindo Torres

Fui ver o mar quando cheguei. Aberto! Perfumado, inquieto! Barulhento. Colorido. O frio, contudo, não me permitiu molhar os pés. Na casa, aproveito o calor e o fogo alto da lareira. Cozinho o pinhão e o feijão do jeito que têm de ser feitos. O café, sem pães nem geleias açucaradas. No fim da tarde, caminho pela cidade. Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel. Areia e pedras. A Ilha dos Lobos. A Lagoa do Violão, sem aguapés: poluída. O rio Mampituba, escuro, botos seguindo cardumes; o mesmo rio. Os molhes que facilita a entrada dos barcos… Daquele lado eu gosto, o cheiro é outro. Lembro a vida do começo da barranca. Os molhes: mar e rio. Beleza importa, sim. Não a das pessoas, mas dessa natureza que sobrou. Essa pode ser nomeada bela. Não é mais balneário, mas cidade. Torres em cimento com edifícios de vinte andares, sombra. As dunas desapareceram. Árvores exóticas, muros de vidros. Piscinas. Restaurantes. Quiosques e a sede dos veranistas. O morro do Farol tem rua… Os barcos pesqueiros circulam a Ilha dos Lobos. Por todos os lados o homem avança. Em Torres venta.
De volta para casa estico as pernas no balanço da varanda. Pelo envidraçado vejo objetos que se movimentam pelo chão: meias, copos, garrafas e livros; ou imagino esta dança? Se estivesses comigo!  A casa está numa desordem permanente. Sigo com as pernas esticadas, penso em abrir a última garrafa de vinho, comer o último pedaço de peixe, e as uvas que sobraram no pote verde. Preciso fazer as malas.

Preciosas cartas

19 de maio de 1935

Viena IX, Bergamasse, 19 / XIX, Strasserg 47

Muito querida H.D.

Inútil dizer como fiquei feliz com sua amável carta de aniversário! Faça-me a gentileza de transmitir meus pensamentos afetuosos para Bryher e Perdita e de contar a Bryher o uso que fiz do cheque que ela me deu de presente. Você talvez tenha sabido que o doutor Jones veio à Viena e deu uma conferência interessante quando de um encontro que introduziu nossa gente nas novidades um tanto comoventes da psicanálise inglesa. Ele nos pediu em contrapartida que enviássemos um conferencista a Londres para dar prosseguimento à discussão. Escolhemos o doutor Wälter para empreender essa viagem e as dez libras esterlinas de Bryhler cobrirão uma parte das despesas. Assim, o dinheiro retornará para onde veio. Lamento que você nunca tenha visto nossa casa e nosso jardim aqui em Grinzing. è o lugar mais lindo que já tivemos, um verdadeiro sonho diurno e somente a doze minutos de carro de Berggasse. O mau tempo teve a vantagem de deixar a primavera desenvolver muito lentamente seu esplendor, ao passo que nos outros anos, a maior parte da floração acontecia quando saíamos. E o certo que estou ficando velho e que meus males pioram, mas tento sentir prazer [na vida] tanto quanto posso e trabalhar cinco horas por dia. Não há outros escritos a esperar de mim, mas você não me mantém  par dos progressos de seu trabalho? Com minhas afetuosas lembranças para todas vocês

Sinceramente seu, Freud

P.S.: Recebi o número do jubileu e não reconheci meu retrato com a mesma rapidez de Perdita.

(p.222 Correspondência entre Hilda Doolittle e Freud in Por amor a Freud)

Hilda Doolittle Sigmund Freud Elizabeth Mattos Iberê Camargo

Entrelaçado de cartas: uma de Freud para Hilda Doolittle, seguido de Escritos na Parede do livro Por amor a Freud de Hilda Doolittle para Freud. Na sequencia transcrevo carta de Iberê Camargo para E.M. e outra de E. M. para o pintor depois de morto.

Londres, N.W.3 /  28 nov 1938

Querida H.D.

Recebi algumas flores hoje. Por acaso ou intencionalmente, são minhas flores preferidas, aquelas que mais admiro. Algumas palavras ”para saudar o retorno dos deuses [gods] (outras pessoas leem bens [goods] )”. Sem assinatura. Desconfio que você seja a responsável pelo presente. Se adivinhei certo, não responda, mas aceite meus calorosos agradecimentos por esse gesto tão encantador. Em todo caso. Afetuosamente, Sing. Freud.

Vi o Professor somente uma vez mais. Era verão de novo. Janelas envidraçadas até o chão davam para um agradável gramado. Os deuses ou bens estavam adequadamente guardados em prateleiras organizadas. Eu não estava sozinha com o Professor. Ele estava sentado quieto, um pouco tristonho, aparentemente absorto. Tive medo então, como acontecera muitas vezes, de invadir, perturbar seu recolhimento, esgotar sua vitalidade. Mas eu não tinha escolha.

(p.45 Hilda Doolittle / Por amor a Freud memórias de minha análise com Sigmund Freud/ Editora Zahar)

Porto Alegre, 5 – 4 – 90. 

Querida Beth,

Dizem os poetas que o pensamento anula as distâncias. Podemos ver com os olhos da alma a imagem que evocamos, mas – este é o tormento – não podemos tocá-la. Tu estás ao meu lado, assiste-me pintar; eu acompanho teus passos. Tu apareces no meu vídeo, eu no teu. Somos, querida amiga, dois prisioneiros que vivem em celas separadas, alimentando-se um da imagem do outro.   Estou acuado vivendo um momento de grande tensão. O diabólico plano do Führer das Alagoas atingiu nosso naviozinho. Agora estamos procurando juntar os destroços para construirmos uma jangada, que errará à mercê dos fétidos ventos de D. Zélia. É irônico e trágico ver a ditadura entrar a passo de ganso pela porta da democracia. Positivamente, o Brasil é um país bandalho.Querida, preocupo-me com os teus desacertos e com tuas mágoas, que são profundas. Gostaria de analisar e discutir estas coisas, pessoalmente. Tu sabes, que te quero bem.Beth, não descures do teu aspecto físico, pois o que está bom reflete dentro, na alma. Tu és uma mulher bonita. Para não engordar basta seguir um regime. Sei que não se devem misturar hidratos de carbonos com proteínas. Pensa nisso amiga. Junto vai um rabisco, minha imagem por dentro, agora.Escrevo-te às pressas para que não fiques sem o meu carinho. Beth, o coração guarda segredos. Eu quero te ver. Com muito afeto o Iberê.

Para IBERÊ CAMARGO agora, século XXI, 2012.

Meu amigo: Sinto falta das tuas cartas da conversa. Inúmeras vezes estendeste a mão, nada aproveitei. Ao te escrever aflição e medo recebi ternura. Acreditei estar contigo sem te tocar. Sentimento suspenso apoiado no brilho na inteligência do pintor. Enchias meu coração com cartas desenhos notícias de Porto Alegre das artes das galerias. Tua ironia, tua generosidade. Por que não escrevo a  história das cartas e conto o que não aconteceu?  Fatos definem a desgraça o sofrimento. Perdi o tempo, a conversa. Eu te perdi.

Mal conseguias falar…, acariciei tua mão — tudo queimava, tu me disseste. Não sei se eram os sentimentos, o coração, a dor, o câncer… Fui ver tua tela inacabada. Chorei. Chorei diante das três figuras desesperadas… Três vultos solitários no azul. A vida não pode ser vivida sob vigilância. A história seguiu seu curso . Porto Alegre te devorou. A solidão te queimou. A casa-ateliê o túmulo. Tuas cartas contam do desespero na/da volta ao Rio Grande do Sul. A Rua da Praia tinha desaparecido, as idas ao café silenciosas, os amigos retraídos, os muros da casa… O sombrio lugar de trabalho somado à prisão no Rio de Janeiro te consumiram. Sussurraste meu nome nos teus últimos dias. Quando entrei na tua casa todos me reconheceram sem nunca ter-me visto.  Passei a vida fugindo da vida. Maltratei nossa correspondência. Quando nos sentimos solitários, acionamos reservas. Tu pintavas, eu escrevia. Neste dia conheci Flávio Tavares. A história que tenho para contar não tem ponto final. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012 – Torres

Lições de Abismo

E não fiques me dizendo que estou deprimida, ou triste porque a energia da vida está numa alegria lá de dentro que alimento com amoras, biscoitos e leite…

“Eu fiquei pensando que as dores se separam em beliches, e se concentram, e quase se escondem, como se fossem conspirações, porque os homens entre si se separam; e os homens entre si se separam porque cada um de si mesmo se separa.” (p.48)


“A mim o que mais fere, o que mais dói são os equívocos que vejo no mundo. essa é a minha tristeza dominante: uma exasperação do senso do ridículo. E só quem já viveu essa experiência é capaz de avaliar a dor aguda, penetrante, glacial, que permanentemente me faz companhia. Falam de um inferno de fogo; eu penso às vezes num inferno de gelo.” (p.49)

É bom ter ponte entre o que penso e um outro alguém pensa, escreve, e expõe: ‘estou visitando o passado, para chegar mais depressa no futuro’, embalo tuas palavras, estremeço, e eu não me cuide para te esperar, oxalá não prestes atenção! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

“- Se alguém nos perguntar ‘aonde vão?’nós nos calaremos. Querem que eu diga, com voz de menino, que vou correndo em busca da felicidade? Essa ideia de criança ficou enterrada no último buraco que fizemos no fundo do quintal.” (p.79)

Gustavo CorçãoLições de Abismo

 

Uma exposição

A galeria  está iluminada pela música de Bach. Atravesso as janelas para encontrar os quadros; lá estão os  preferidos: um homem segurando a cabeça na frente de um copo, uma mulher olhando o vazio; outra segurando um livro… Alguém passa apressado  pela tela azul… As pessoas entram e saem na dança que preenche os vazios desta galeria pintada de branco. Não entro, sigo caminhando pelas ruas verdes de Porto Alegre neste Moinhos de Vento ensolarado. Elizabeth M.B. Mattos

Olha pra mim

Esperas são feridas remexidas. Não dói esperar?! Dói.  Mas, o olhar chega transparente, vago, ou se navega na superfície, alívio. Depois volta a doer. Dizem que os olhos são janelas: é preciso debruçar-se nelas, e ficar um pouco ali olhando pelo olhar… Se ele foge, escapa, não toca, não chega, fica pendente, não chega, mas afirmo: dói este olhar fio solto, paradoxalmente, preso na ponta errada… Esperas são feridas remexidas… Bom é amora madura! Azul. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2012 – Porto Alegre