Madri

São muitos livros. Ou alguns. Ou todos. Impossível ler assim um depois do outro. Acontece. Este não consigo largar: Amanhã, na batalha, pensa em mim.

“Nada lhe vinha à boca e não havia expressão em seus olhos, quero dizer nenhuma expressão reconhecível, das que costumam ter um nome dado pelos adultos – de perplexidade, de ilusão, de medo, de indiferença, de confusão, de aborrecimento -; seu cenho levemente franzido devia-se a seu despertar indeciso, a nada mais, pelo menos foi o que disse a mim mesmo. Levantei-me com cuidado e me aproximei lentamente dele lentamente, sorrindo-lhe um pouco e dizendo-lhe em voz muito baixa, num sussurro: ‘Você tem de ir dormir de novo, Eugenio, é muito tarde. Vamos, tem de voltar para a cama.” Da minha altura pus a mão em seu ombro – na outra ainda o sutiã, como se fosse um guardanapo usado.” (p.24)

Javier Marías, Madri, 1951.

Editado pela Martins Fontes.

Sem pudor

Porto Alegre, maio de 2003.

Ao entrar em casa vou direto a caixa de correspondência: contas e uma carta. Senti um prazer enorme. Tua carta. Que surpresa! Uma carta sem eu ter respondido a anterior! Livre e espontânea, eu me disse. E lá desci minhas escadinhas rumo ao meu apartamento verde toda vaidosa do amigo.

Não abro as contas, deixo tudo perto do travesseiro. Durmo cedo. Dormir tem sido solução: no sono venço espaços, converso, visito outros lugares, soluciono tudo. Estremeço no medo de acordar, já é outro dia. Os problemas só acabam no sono.

Depois vou revendo o tempo numa pergunta doente: o que eu tenho que esperneio sempre que me apertam? Reclamo. Choramingo. Passou a novidade. Passou. Fica o fantasma inquieto do terror: contradições, palavrório descabido, ordens e contra ordens, queixas, lamentos. Dou meia volta, estou viajando. Não abro a carta. Se Balzac existisse voltaria a vender livros, pernas doídas, sonhos acabados e dívidas… PUXA! Lá vou eu repetir que não gosto do bairro, das crises, do mundo. Parece que volto pra casa sem ter casa. Descalça. Então invento logo outra história pra mim.

Amigo! Habituada já estou aos teus poemas e  a crítica ajustada. Acalmo. Afinal eu não posso ter o inteiro, posso? Retomo o Canetti naqueles escritos preciosos. Escrevo três páginas no diário, pura lamúria. E vou dormir outra vez, não te escrevo. Tarde te encontrei. Antes, meu querido, meu amigo. Abuso deste querido, amigo e meu nas cartas. Lá no diário de capa verde derramei elogios pros poemas… Atropelo. Volto a escrever seguindo as linhas com mários e maras. As pragas do amor que comentaste… Digo eu: amor ou fica instalado, gruda, ou absorve-se como injetável, contínuo, depois nos esvazia quando some. Desaparece, ludibria ou termina. Outra droga! Outra queixa.  Como tens razão a cada letra. Fico a pensar na vontade idiota de dizer o banal, e digo. No entanto escrever é sério. Viver é sério. Estarei eu a brincar? E a cada joelho ralado choramingar? Ranhetiar sem sair do quintal?  Chega de reclamar da vida. Este verão de maio aqueceu os resfriados. E o eclipse. Tu viste? Elizabeth M.B. Mattos – dezembro – 2012 –

Quinze Anos

Aos quinze anos, perdia  as noites

ou madrugadas pra ler.

Anotava as descobertas,

ia chegar a saber.

O poema é que existia

e me propunha ir ao fim

desta vida ou do poema.

Além dos dias, do mundo,

eu vivia para ler.

Agora desço a lomba

e não terminei de ler,

a ver se um dia me apronto

para em verdade viver…

Aqui e Agora: 2003 -página 48

Paulo Hecker Filho

ZERO HORA

ZERO HORA

Amizade e Intimidade acima de polêmica: Porto Alegre, 27 de maio de 1998
A prepotência engole as pessoas inteiras, devora pela vaidade e pela cegueira. O alimento deste pecado é a esperteza de chegar primeiro e comer o melhor pedaço.(…) há espaço e guardados para todos os antropofágicos na gaveta de Iberê Camargo. Artigo de Elizabeth M. B. Mattos – Zero Hora

Sobre Iberê Camargo

Vida clandestina escondida que se desenvolve paralela à vida pública. O artista tem caverna. Alguns vivem como pessoas comuns: mulher, filhos e trabalho. Recebem visitas, tomam café nas esquinas caminham e veem amigos. Mas, em nenhum momento, deixam de ser estranhos ao olhar comum.  Isolado, clandestino, camuflado. Compreendido ou incompreendido. Nunca no trilho comum. Viajam para estranhos lugares e conhecem coisas estranhas. Nós, os outros, não admitimos o mundo como ilusão e  viajando vemos cidades, colinas, rios e pontes.

Nós nos tornamos o que constrange. Constantes conflitos e deslocamentos de insatisfação. Iberê esteve na clandestinidade da justiça protestando no exílio do atelier em Nonoai. […]

Agora a loucura domina o mundo, comanda com a autoridade da razão, fala como se fosse à verdade. Pobre dos inocentes, pobre dos peixes, pobre dos animais. […], o homem é o único animal que não deveria estar na arca. As criaturas vão ao extermínio jogando bombas atômicas e gases venenosos, como se fossem confetes. Ah! A imagem da loucura entrará em todas as casas pelo mundo afora, para a alegria sádica que dá ver morrer. Depois se põe coroas no túmulo do herói desconhecido, e o Papa reza pelos mortos.[1]

Conhecer Iberê Camargo é ser tocado por sua fúria de amor, seu abafado afeto, suas perguntas instigantes. Nunca a calmaria. Sempre a espera. O mundo será salvo por insubordinados. Estes insubordinados são o “sal” da Terra e responsáveis pela presença de Deus. Iberê Camargo explodiu como Hiroxima.  Ardeu queimou anos seguidos com outros nomes: tendinite, artrite, mal de coluna, dores de cabeça, depressão, estômago em fogo, enfim, nomes e mais nomes para explicar o câncer. A explosão atingiu os amigos, minou, transformou… Elizabeth M. B. Mattos

Estranho e limitado é o ser humano, incapaz de entender o seu próprio ego. Não raro sinto-me como meus ciclistas, que vagam por um mundo deserto, morto. No fundo (…) eu sou eles. Mas eu tenho que dizer, tenho que pintar a verdade porque só ela importa! E a beleza? Talvez verdade e beleza sejam uma só coisa.”[2]

Releio Iberê em poema assim: “Teu silêncio me faz pensar no Vento da Desesperança que nos fala Mário Quintana. Este vento que ninguém sabe aonde mora e de onde vem, vento que vive como cão, que sopra sobre os charcos, que enraivece o fogo e propaga incêndio. Que sopra sobre tudo que é podre, morte e ruim; este vento separa os amantes, separa os irmãos,separa os amigos e fará com que não  mais se vejam,não mais se falem e, tudo isto, sem explicação ou razão.Ele transforma o amor em ódio. Ele apaga a vida. Será, Elizabeth, que este vento mau soprou sobre nós? Desconfio que ele nasce e morre no coração do homem.[3]

(Torres, sexta-feira, 17 de abril de 1998.Iberê está enterrado dentro de nós, os agonizantes.)

A existência do indivíduo “é aquela contínua caça de si mesmo, espiando astutamente as próprias pegadas (…) num eterno andar em círculo; aquele aparente mergulho no rio da vida, mantendo-se, no entanto sentado, lançando o anzol à espera de pescar a si mesmo sob sabe-se lá qual estranho disfarce!” Jacobsen in Niels Lyhne.

 


[1] Iberê Camargo, 16 – 1 – 1991. Fragmento da correspondência com Elizabeth Mattos.

[2] Iberê Camargo. P. Alegre, 13 – 2 – 1990. Fragmento da correspondência com Elizabeth Mattos.

[3] Iberê Camargo, 7 – 3 – 1988. Fragmento da correspondência com Elizabeth Mattos.

 

Confidência

Estranheza, inquietude. Movimento. Angústia agitada da saudade! A melodia trabalha nas entranhas. Longas cartas! E eu te sinto tão meu! Depois perco o jeito, o coração aperta. Sigo. Ao seguir o jeito de olhar reflete desgaste, empobrecimento, desencanto. Em nenhum lugar estás.

Revisitação! Onde está o meu amado?

Emprestamos a vida este tom confidencial dos amores! Fica-se a contar o desejo, um querer isto e aquilo em lista interminável! Amar-te, Como exigias por escrito num português correto. Projetos possíveis, tão impossíveis! O reconhecimento desaparece: não sei quem és. Desconhecido neste mundo banal que habito: resta uma nesga de luz daquele olhar manhoso. Estrangeiros.

A queixa, o cheiro indesejável, o movimento de ir e vir das pessoas que afinal nos rodeiam parecem tão inútil! Eu te pressinto enquanto vemos um filme de horrores, naquele cinema acanhado, numa cidade deserta. Ansioso! Dar lugar aos que devem por direito ocupar o banco em que estás sentada… Este é o exercício final. O corpo dói. Costas, pernas, pé, mão, até os dedos doem. Já não podemos mais fazer de conta que teremos tempo, ou fechar os olhos e deixar de lamentar. Qualquer movimento seja pedalar, andar, dançar, nadar, experimentar parece tão sem sentido! Porque as pessoas que importam não estão mais aqui, não existem. Este sentimento é a insônia permanente que assoma. Sem fome, sem sede, mas despertos noite e dia. Despertos. Atentos. Nada que não se resolva com um comprimido, mas nada que possa desaparecer, porque amanhã de manhã, ou de tarde, ou perto da outra noite estarei com estes mesmos sentimentos ativados.  Na angústia de ter afinal me esquecido de te amar! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2012 – Torres quando comecei a me mudar, devagar, arrastando a vontade, com medo.