Progresso

” 21 de outubro de 1916. – Explorando o quarto de depósito, encontrei, numa mala cheia de papéis velhos, as cartas de minha bisavó, a Dama do Patamar, a Condessa Forgeaud, de Ingres, com a qual dizem que e pareço tato. Como o mundo pouco muda! Sempre as mesmas histórias de guerra, de amor, de telhados, de mulheres grávidas. Mas ela escrevia melhor do que eu. é quando penso que as mulheres do século dezessete, uma Madame de la Fayette, uma Madame de Sévigné, escreviam (e sobretudo pensavam) ainda melhor, pergunto a mim mesma para que servem todas essas arengas sobre o progresso. (p.117)

Terra de Promissão, André Maurois

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Emile Salomon Wilhelm Herzog (Elbeuf, 26 de julho de 18859 de outubro de 1967) foi um romancista e ensaísta francês.

Seu pseudônimo André Maurois tornou-se seu nome legal em 1947.

Seus primeiros livros foram O Silêncio do Coronel Branbles e Os discursos do dr. O’Grady, que obtiveram sucesso. Entretanto, sua consagração no mundo literário ocorreu com a publicação de três biografias, as deByron, Shelley e Disraeli.

Tornou-se membro da Academia Francesa em 1938.

Explosão interior

Pensar a vida, o motivo de ter, ou não fé. Encontrar explicação coerente. Respostas às perguntas. “Não sei do que se tratava”. Concluir a temporada sem encontrar o motivo do frio, do suor, do medo, da raiva…Do medo. Entender a dor, absorver as incertezas, e transformar a dúvida em sinal, alerta. E o outro, mesmo perto, parece distante…E, o que se poderia sentir, ou dizer deste vazio! A escolha pode ser sutil… o encantamento está neste ponto de acerto, na obsessão, na escolha. Um permanente exílio consciente. Se estou tricotando, cozendo, batendo o bolo, inalando perfume, e consciente, o Eu presente, então, estou dentro de mim mesma, não preciso provar que existo. A releitura, o retorno ao mesmo texto faz toda a diferença. Posso esfregar o chão, lavar, polir inúmeras vezes, sou eu mesma em movimento. O cheiro, a sensação do prazer é indefinível porque completa. Sutileza, o detalhe para explicar escapa, mas o desenho, a linha reforça o sentido todo: estou vivo, estou morrendo, estou contigo, escutando. Ou fui abandonado, estou sendo amado, ainda posso tocar, abanar, ver a sombra, plantar. Sentir a dor. Levanto os olhos, e me dou conta que posso respirar também, mesmo na saudade. Mesmo na indefinição da palavra…Na nostalgia. No calor. Uma caça, uma existência a procura de si mesmo. Existe um exílio permanente nesta busca de sermos porque não chegamos … Nem nos imaginamos ser. Estamos debruçados numa janela escancarada, mas do alto vemos apenas uma mancha, vemos desfocado. É fantástico o todo, mas perde-se o detalhe, o que importa… É preciso testar os meios para chegar ao ponto. Qual é mesmo o ponto que interessa? Desespero.  Não estar no lugar. Consciência da solidão exige o próximo passo, o seguinte. Outro movimento. Esquisito, lamentável, ou verdade é que não são as outras pessoas, nem os beijos, nem as vozes que nos libertam… A única possibilidade de concreto, de acertar (seria palavra adequada?) é interna, então concreta. Estamos atordoados com o entorno, o externo, queremos esbarrar na felicidade, na alegria, como se fosse tangível. Não é tátil. Não está estacionada a nossa espera, cristalizada. É apenas percepção. É teu corpo. Tua história interior. Descoberta pessoal a chegada. Lá nas entranhas… Ninguém nos dá a vida, nem nos pode tomá-la. É uma explosão interior. No entanto perseguimos a história de pais, mães, filhos…Esquisito! Se buscamos referência encontramos o muro. Paredes sem janelas. Longe! O inatingível. Nós mesmos. Qualquer narrativa tem o ponto certo. Uma passagem perigosa, em frente. Não interromper o fluxo. O que acontece pode ser definitivo, mas também aleatório.

E vemos diferente este externo. O prazer de quem e busca é diferente daquele que apenas espera ser ‘encontrado’! Este não atravessa o interior, reflete. Amontoado de perguntas, amontoado de dúvidas, nenhuma resposta. E sequer estamos onde deveríamos estar.

Queres um café?

Transito entre alegria e ansiedade. Quero, e quero que termine logo o dia, a palavra, a ordem. Já pergunto outra vez… Ir e voltar, um tique-taque espreme meu dia em duas pontas soltas, abertas, sem nó, nem laço. Escoam vontades, ou fazer. Já entardece, já me acomodo nas novas histórias que se contarão amanhã, depois, repetidas narrativas. As roupas lavadas ocupam o sofá.  Escutas. Deveria tratar a memória. Aprofundar e cutucar sentimentos velhos, ou melhor, antigos, retorcidos e latentes, revitalizar este hoje. Não esquecer, ou apenas empurrar. Onde estão meus óculos? E aquela bolsa preta? Perdi os tênis de correr. Vou descer descalça para abrir a porta. Porto Alegre me faz falta. Reinventar a velhice ranheta. Inteira, ordenar, e viver melhor. Derramo mel, fel, sorriso e carícia. Julgo apressada, endureço.

Como laranjas, bebo o suco de uva, e bife com pão. Milho cozido. Salada verde, tomates, ovos. Anoiteceu. Ler, beber, e apressar-me. Vou terminar Terra de Promissão ainda hoje.  André Mourois espera. Nenhuma novidade. A repetição pode ser o exercício possível

Desorganizo

O momento certo, palavras redondas. Não. O perfeito não mora aqui. Aliás, em poucos minutos desorganizo, empilho, reviro tudo: bagunçar a casa inteira faz parte da rotina. Estranheza, o bom momento. Limpar. Limpar pode ser obsessivo. Não escrevo. Amontoam ideias, ponderações, confidências. Atrasado este tempo,ou o dia de escrever, a pauta.

Chove outono. Cinzento. Devagar a saudade se acomoda. Leio três páginas. Arrumo a cama. Escrevo três linhas. Lavo a louça. Volto ao livro. Toca o telefone. Inquietude.

Vou caminhar até ao mar. Vazio. Pequeno. Estreito. Fora do mundo. Só mar.

Já é ontem

Aqui, agora, tudo me é prometido. O tempo é este momento aqui e agora. Escritores reencontrados. Inquieto-me com o dia que termina antes da hora, do meu prometido. E este olhar que nunca está onde deveria estar… Já é ontem.

“Faço a mim própria, uma vez mais, a minha Eterna Pergunta. Que é que me torna tão difícil o momento da expressão literária? Se neste instante me sentasse para escrever algumas das histórias que estão completamente redigidas, completamente prontas no meu espírito, levaria dias e dias a escrevê-las. E são tantas essas histórias! Passo tantas horas a ruminá-las que, se conseguisse triunfar do meu cansaço e pegar na pena a valer, deveriam escrever-se sozinhas, de tal modo estão prontas até o mínimo pormenor. Mas o que falta é atividade. Todos os pretextos me servem: não tenho um canto para escrever, não tenho secretária, a cadeira não é cômoda…e, contudo, e no momento exato em que me lamento, dir-se-ia que surge, precisamente o local, a cadeira que preciso. […]
…Quando se é pequeno e doente e se está exilado num quarto distante, tudo o que acontece para além desse quarto é maravilhoso…”
(p.114-115)

Fragmentos do Diário, – Katherine Mansfield– Coleção dirigida por António Ferro. Contemporâneo, Biografias e Memórias.

“– Você é esquisita, minha cara, dizia a inglesa. Tem em Sarrazac, paisagens maravilhosas; mal as vê; e, aqui, cai de joelhos de joelhos ante a menor fachada!

 –Oh! mas aqui, dizia Clara respirando deliciada o ar leve de Paris, aqui tudo é vivo, tudo é humano, tudo é quente … Tenho a impressão de encontrar todo um paraíso que perdi … Bastam os nomes: Louvre, Phanthéon, Notre  Dame! “

André Maurois, Terra de Promissão

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O Tarzã

 – Tarzã? Mas eu conheço bem este Tarzã!  É um que se balança, de tanguinha, ao longo dos cipós, gritando e batendo-se no peito?

– Pffff!…É ridículo… Um minuto!  Não se sabe se ele tem inimigos nem amigos; ele dorme pouco, não bebe, nem fuma; prudente e encurvado, ele arrasta sua alta silhueta magra e desengonçada  pelas clareiras do mundo inteiro. Ademais adquiriu o estranho costume de morar onde trabalha, nas próprias obras em que dirige homens e máquinas.

 – Queres chamar o Tarzã?

Notícias pelos poros. Frio e calor ao mesmo tempo. O poder onipotente é o foco. Feiticeiro ou sábio.  O Tarzã.  Fazedor de mágica,  anedota, estória. Aquele que merece a fama cria invejosos.

À tardinha, depois da sesta, no momento em que o sol começa a se pôr, o feiticeiro  interroga acerca de coisas obscuras e complicadas, repetidas vezes. Fatos se agitam, tresloucados, e se misturam, apertam…Ironia dissimulada, a pergunta insiste. Flagrante delito de ignorância! Não sei como chamar o herói. Silêncio. Sorrindo a plateia aplaude.