se fosse

…, começo 2018 -, ano plano. Susto espanto consciência …, filhos netos vozes. Memória, traços. Começo de tanto começo!

Dissipado o sonho e recobrado o senso comum, aquilo não teria grande relevância – eis a história dos delitos imaginários.”

Estou/ ando/ sou distraída atordoada cansada. A lembrança corta e abre a dor miúda. Se esquece passando e depois segue igual. Acontecido fato …, não é mais; como seria se fosse? … penso encolhida, triste. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres

martelo e objetos

ansiedade devora

…, tem uma ansiedade que devora. E pressiona pescoço braços. Ela agarra pelas costas. …, vai ver é particular, apenas comigo assim. Preciso usar o silêncio e a quietude. Usar a ciência inteira, … céus! Estou toda tensa! Bom que veio a chuva. Maravilhoso ver/ter a chuva, este céu que se derrama! Não sei o que escrever. Estou inquieta, com medo também, mas sei/acredito/tenho fé. Atravesso o mundo, e vou chegar…

Vou ter que voar, mas eu sei “ Nossa vida deve estar enraizada na terra, e não no sono. Isso não é uma técnica específica. É silêncio. Apenas isso. O silêncio significa que você tem de ser você como realmente é –   aquilo que é em si mesmo. […] tudo o que temos de fazer é sentir o próprio gosto, como somos. ” Dainin Katagirik

 

entre nós, o muro

Estranho como o desejo se esconde, ou se expõe latente …, não importa se sentes ou vês ou explicas e não queres, rejeitas. Não importa. Os caminhos são mesmo cruzados. Se eu olhar nos teus olhos vou saber. Depois, depois …, cada um pega seu rumo e sua voz e seu desejo e segue.

Carta mensagem bilhete verso, ou divagações! O que há para ser dito / narrado ou confessado. Escrevo / caminho pelas beiradas. Eu me perco no abraço no beijo e deixo escapar suspiros! Já como se despedida fosse, nunca permanência. Desejo de querer sem saber. Gostar medroso, estranho …, que afinal, não é mesmo um querer …, mas desejo.

muro na lagoa

Muro feito com  folhas miúdas que se enfiam entre rachas flores brancas. Muro de frestas: vegetação selvagem tomando conta …, muro que se colocou/ postou/ ergueu entre nós. Não me perguntes como foi que aconteceu, não sei explicar. Na verdade, entrei na tua vida distraída, curiosa, entregue. Esqueci de imediato a cabeça em um canto da casa, … fui buscar, é claro, e voltando eu me dei conta, devagar, que ali não era o meu lugar, mas o teu sonho. Levantei os olhos e prestei atenção no teu olhar. Atento, alegre, em fresta ele também. Como gostei! Nem tu, nem eu vimos o muro. Cuidei de espiar a figueira que nascia apertada e se debruçava entre construções a buscar luz no teu terraço. Elas demoram tantos anos para crescer! Têm aquelas folhas miúdas tão verdes! E as escadas. Tantas escadas que vinham e iam, … a cada degrau uma canção, um instrumento, uma melodia. Uma orquestra. E tudo estava no seu devido lugar. Assim, eu entendi que o muro faz sentido. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres (muro de contenção na beira da lagoa)

muro desenho com folhas

Sabe, Justine, acredito que os deuses são homens e os homens, deuses; imiscuem –se nas vidas uns dos outros, tentando se expressar por intermédio dos demais – nasce daí essa confusão aparente em nossos estados de espírito, essa intuição acerca de poderes imanentes ou transcendentes … E além disso (escute) creio que raras pessoas percebem que o sexo é um ato psíquico, e não físico. Esse acoplamento deselegante de seres humanos não passa de uma paráfrase biológica da verdade – um método primitivo de colocar duas mentes em contato, de atraí–las. Mas quase todas as pessoas se detêm nesse aspecto físico, alheias ao rapport poético que com tanta deselegância ele busca transmitir. É por isso que todas essas repetições tediosas do mesmo erro não passam de uma enfadonha tabuada de multiplicação, e permanecerão assim até que você tire esse saco de papel da cabeça e comece a raciocinar de forma responsável.’ (p.97)

Lawrence Durrell  Balthazar O Quarteto de Alexandria

loucura grande ou pequena

…, sim, estou velha, bem velha. Um dia foi ontem, e construí / fiz uma história mineira, lembras?  Nem sei como nos perdemos, nem como nos encontramos, e reencontramos.  Loucura grande, ou pequena.  Passou tanto tempo!

…, amores, outros sentires; o estranho desta lembrança toda é a memória minuciosa. O cheiro da terra. Vigor da beleza, do sertão … E lembro daquela Minas Gerais que guardei apenas para mim …Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres

ouro preto

 

 

alma cansa mais

O corpo resmunga geme inquieto, e se espreguiça para o cochilo. Seguiria polindo se apenas ele (o corpo) reclamasse, … mas alguém mais reclama boceja cochila e se estica, – a alma. Deixo a alma descansar. Depois da chuva a alma voltou para o corpo satisfeita:orgia de amorosa loucura!

Sem noivo, sem casamento,  vou para o Rio de Janeiro. Os cadetes galonados dançam com as moças-debutantes. Paulo Roberto Pegas deveria ter sido meu par, mas dançou foi com a Suzana. Majestoso acontecimento no Palácio das Laranjeiras. Meus quinze anos eram insuficientes, os vinte anos da irmã, melhor. Não fui, … aquela valsa não dancei, … somos feitos de coisas pequenas que não fizemos. Fiquei bonita em Porto Alegre, azul profundo com o Lalo. E baile no Juvenil.

…, histórias! O hoje, o momento certo, é agora. Tu repetes que tu me gostas, …  e eu te digo que me apaixonei, e  somos nós. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres

 

 

proposta de casamento

Alguém deseja, alguém precisa / necessita de um alguém como ar . Questão imperiosa importante. Ou produz o movimento  de ser/estar vivo, ainda …Histórias que são estórias, mas ninguém se atreve a escrever sobre elas.

– Falo de uma compreensão na qual a amizade e o conhecimento mútuo podem assumir o lugar do amor até que ele surja, e espero que surja. É claro que dormirei com você, serei um amante, e você uma amiga. Quem sabe? talvez demore um ano. Afinal de contas, todos os casamentos alexandrinos são empreendimentos comerciais de risco. Meu Deus, Justine, como você é tola. Não vê que talvez precisemos um do outro sem perceber? Vale a pena tentar. Obstáculos podem surgir de todos os lugares. Mas não consigo deixar de pensar que a mulher de quem mais preciso em toda a cidade é você. Um homem pode desejar várias mulheres, mas desejar e precisar são coisas diferentes. Posso desejar outras … Mas preciso de você!” (p.49) Lawrence Durrell Balthazar O Quarteto de Alexandria

Lembro porque não esqueço, claro. Não esqueci aquele Luís A. Antunes: desfez o compromisso, tirou a aliança do dedo, desfez o noivado (sem explicar) chorando.  Alguns fatos da vida real são como parágrafos de novela, inexplicáveis. Na vida imaginária de relações afetivas ordinárias estes parágrafos podem ser subtraídos. Ao lembrar escrever sobre isso surpreendo a surpresa: nunca deixei de esperar. …, aquela noiva ainda existe embora já tenha se passado setenta anos. Ela ficou esperando até amanhecer … O tempo passa escorrega escapa entre os dedo: no gesto, –  a força. Bravatas e conquistas. O relâmpago da alma adentrando o corpo …, esperança reconhecida, história inacabada. A ser contada. Claro que houve um beijo. A verdade esbraveja, não resolve. O livro toma forma. Elizabeth M.B. Mattos –  janeiro de 2018 – Torre

cropped-cropped-2016-05-04-14-32-15.jpg

FOTO MUITO LINDA que Luiza tirou

O tempo passa, escorrega, escapa entre os dedo: no gesto, – força. Bravatas conquistas. O relâmpago da alma adentrando o corpo …, esperança reconhecida, história inacabada. A ser contada. Claro que houve um beijo … A verdade esbraveja, não resolve … o livro toma forma. Elizabeth M.B. Mattos –  janeiro de 2018 – Torres

penitência

…, homem não se vê ser humano.. Bebo cerveja gelada. Um copo de vinho, ou risada fora do lugar, ou me deixo levar.

Espanto sem solução …, extrema pobreza. Extrema indignação … pouco trabalho. Eu me pergunto o que é exatamente usar braços e pernas, ou inteligência? O que as pessoas consideram trabalhar/produzir?

Difícil acompanhar  notícias do/no mundo, particularmente, Brasil. Não entendo, nem polemizo. A natureza ajuda a ceifar com vento chuva tempestade e guerra.  Este ódio comportamental começa na infância, tem conserto?! Vou ser eu mesma. Qual o rumo? Onde a responsabilidade?

Céus! Céus!   Falta dinheiro! Falta gente séria neste país. Falta vontade de querer, … ninguém quer nada, ninguém acha nada. Eu também não quero. E. M.B.Mattos –  janeiro de 2018

 

 

terror

O terror do homem deve ser apenas ser homem. Estou envolvida, embrulhada no que me foi transmitido como correto,  –  enfiada na vida do outro dentro do outro, pelo outro. Posso estar, inclusive, na imaginação do outro.  A pessoa que não sou. Não me reconheço neste afã de agradar/participar. É difícil desbravar o território interior/íntimo.Solitário. Resta a sensação esvaziada fantasiada de intenso.

Chove a chuva que Torres esperava. Sem força. Chegou mansa aos pingos , e não vai lavar nem limpar o pecado da invasão. Lixo acampado nas calçadas. Carros abarrotados. Descaso. O enfado se atirou na areia da praia. Sem respeito, nem harmonia. Lágrima chega com a chuva. Desespero miúdo a perguntar por quê? Aquela ideia pequena quando digo: sou quem sou? Por que me faltou coragem energia para ser diferente? Eu me deixei ficar… Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2018

Lembro-me de acordar depois com a boca amarga e o coração cheio de angústia. Acho que nessa época era uma premonição. Agora é talvez uma confirmação. Seja como for, não me aflige. (p.31) José Eduardo Agualusa  O vendedor de passados

CAetés CAETÉS

Foto: Luiza M.Domingues

imaginação faminta

…, pé ante pé devagar, atenta subo os degraus, …não quero te acordar. A casa dorme. A memória descansa. A saudade doente que sinto de ti se acalma. Amanhece devagar neste dia primeiro de dois mil e dezoito. Ano par que me devolve o ano dos meus dezoito anos. Esperei devagar, espiando. Gosto desta piação. A passarinhada amanhece antes de mim. Estou viva, escandalosamente viva! Elizabeth M.B.Mattos  janeiro de 2018

– É você, Henry? – perguntou em voz alta. Não ouviu resposta, mas a casa reverberou outra vez.

– Henry, você entrou?

Mas era o coração da casa batendo, de leve no início, depois mais alta, marcialmente. E abafou a chuva. A imaginação faminta é a que tem medo, não a bem alimentada. Abriu a porta que dava para a escada.” (p. 214) E.M. Forster  Howards End