dois irmãos

E um despreocupado: qualquer açúcar, grosso ou fino, adoçava o café. Mas nas coisas do amor, com Zana, sempre queria, sempre pedia mais.” (p.149) Milton Hatom – Dois Irmãos

Não deveria citar, não deveria ilustrar. Dois irmãos não podem ser amados ao mesmo tempo…, mas acontece amar / desejar dois irmãos. Motivos diferentes. Despedaçar …,  inviabiliza o amor. Paixão oscila como pêndulo de um relógio. Amor transita sem permanência. Afoga, desespera e sabe … Não adianta gritar, estar/ficar em estado de amor.

Apenas uma história / narrativa. Atravessa o não racional, ou justo. Escrever romances, diz Orhan Pamuk, é a arte de falar de coisas importantes como se fossem relevantes. Quero escrever uma estória e deixar de sentir saudade. Saudade do que não aconteceu.  Canibalizo / devoro a minha vida a escrever. Divago /  será que eu penso. Canibalizo livros. Sentimento desvendado, …. alegria umedecida, invertida. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 – Torres

 

no espelho

Não consigo te tocar porque não lês o que escrevo. Já não importa. Conto/vivo/entendo o tempo como um dia após o outro. …, antes eu queria ser etérea espírito, palavra / escrita e me escondia. Palavra reinventa menospreza a imagem. Ninguém deveria ter rosto, mas apenas ser. Agora quero/desejo ser pessoa / gente de carne e osso. Tão tarde! E me surpreendo com a transparência, o invisível. Estou naquele tempo de agarrar/retomar a memória. Segurar/agarrar o vento e engolir aos poucos o sabor da palavra. A indiferença de uma pessoa se espatifa na memória, e nem um gole de café resolve. No caminho de buscar sei do limite, da indiferença sem memória. Temos que nos prender uns aos outros, ou deixar passar … E pensar com Orhan Pamuk, ainda nO Livro Negro. “Se me der seu endereço […] vou explicar […] impossível ficar irremediavelmente só, porque mesmo em nossos momentos de maior solidão temos a companhia das mulheres com que sonhamos acordados; e não só isso, as mulheres das nossas fantasias conseguem de algum modo ler nossos pensamentos, de maneira que sempre dão um jeito de estar à nossa espera, nos procuram, e ás vezes, até nos encontram. Se você me der o seu endereço, vou lembrar– lhe de todas as coisas de que se esqueceu, pois, o Céu e o Inferno que você viveu e sonhou […] (p.412)

Também idealizo. Também vivo Céu e Inferno. Também idealizo e te penso, e te visito, espio e sinto prazer no teu corpo. E, absolutamente, sozinha. Ninguém vai chegar, ou bater ou abrir a porta, ou ligar o meu número (porque nunca atendo telefone), nunca estou em casa, embora queira / deseje/ imagine estar e receber abraço e sorriso. Nunca estou no quarto, na cozinha ou em alguma peça específica da casa. Não existo. Escondida numa imagem presa no espelho, atrás da porta. Talvez seja isso. Estou no espelho. “ -, o espelho se estilhaçou em mil pedaços, fazendo você perceber que não é por acaso que em turco, a palavra que descreve o processo que transforma um vidro em espelho é a mesma que designa ‘segredo’. […]   Ler é olhar num espelho; os que conhecem o segredo por trás do espelho são capazes de transitar para o outro lado; mas aqueles que ignoram o segredo das letras só irão descobrir neste mundo o desbotamento, a banalidade dos seus próprios rostos. ” (p.407)

Estou presa nesta banalidade. Estou amarrada nesta saudade. Converso em voz alta comigo mesma, nada substitui as nossas conversas confidentes. E não é engraçado. É patético. Quero a beleza de volta, a risada, a festa. Quero os corredores e as lajotas vermelhas. Quero ser menina e mulher aos teus olhos, sem tropeçar na barra do vestido. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 – Torres

SOFISTICAçÂO do Rio casamento de uma ARANHA no RJ.jpg

 

 

 

 

O estilo

Para você, o estilo é a vida. O estilo, para você, é a voz. É sua maneira de pensar. Sua verdadeira personalidade, que se manifesta pelo estilo – e não é apenas uma, mas duas, até três -.”

“E quem são elas?”

“A primeira voz é que você chama de ‘meu eu simples’, a voz que usa com qualquer pessoa, sentado à mesa ao final de um jantar em família, […] trocando gracejos entre nuvens de fumaça; é a ele que você deve tantos pormenores sobre a vida cotidiana. A segunda pertence ao homem que você gostaria de ser, a máscara que toma empréstimo às pessoas que mais admira: as pessoas que jamais encontraram a paz neste mundo e vivem num universo à parte, à luz difusa de sua magia. Você escreveu – e eu li, com lágrimas a me escorrer pelas faces – que, se não fosse hábito de conversar aos sussurros como esse ‘herói’, que no início você  apenas imitava mas em quem mais tarde desejaria se transformar, que se ele não o estimulasse, não o atiçasse, não o aplacasse com os enigmas, os jogos de palavras, as repreensões que está sempre soprando em seu ouvido, com a obstinação dos velhos senis que repetem sem parar os mesmos refrões de que não conseguem se livrar, você seria incapaz de suportar a vida cotidiana como tantos outros infelizes da terra, recolhendo – se a algum canto obscuro para esperar a morte. […] como você já declarou, que os dois primeiros são, respectivamente, seu ‘estilo objetivo’ e seu ‘ estilo subjetivo’. Mas é terceira vez que você qualifica de ‘ personalidade sombria’ ou de ‘estilo sombrio’ que nos transporta – tanto a você quanto aos leitores […] Como você pode ver, nós vamos nos descobrir, e havemos de nos entender perfeitamente;sairemos juntos pela noite disfarçados, você e eu. Dê – me seu endereço.” (p.405-406) Orthan Pamuk – O Livro Negro

pitonisa

Mães pitonisas e protetoras, uma mágica. A voz ecoa e resolve. Aquele aconchego e aquela certeza elas possuem, e… O rastro é bom. Mães de filhos carne da carne, e mães espirituais.  Beth Mattos – novembro de 2018 – TorresOtima foto minha e da Odila

Torres no verão – Odila e eu.

Ana Maria e eu – Porto Alegre

Minha mãe, Joana e eu

gêmeo

Mistério deste gêmeo -, da segunda pessoa que temos em nós, igual. Um eu desdobrado a correr, e chegar estupefato. Não tem saída nem chegada. Apenas a quietude do reencontro. Este irmão gêmeo me consola. Conhece a minha verdade. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018

O que torna o mundo misterioso é a presença da segunda pessoa que cada um de nós traz dentro de si, o irmão gêmeo com quem compartilhamos a vida.” (p.388) Orphan Pamuk O livro negro 

 

na vitrine

… parece tão longe o tempo daquela alegria! Entusiasmo apertado e vivo. Podia andar / acontecer / até parar de correr, ficar escondida / encolhida numa lágrima numa dúvida …, nada desanimava. Eu olhava e eu via / espreitava / sabia esperar sem chegar sem ansiar / vocação alegre / desprendida … Tô com medo deste vento  das palavras. De sentir. Esvaziada / espicaçada ou assustada. Sentimento ruim desavisado. Onde estão aquelas pessoas? Pessoas mágicas. Acho que eu deveria ter sido ambiciosa e zelosa, caprichosa … Sei lá. Uma foto de tantas histórias …, outra vez o tempo. Vivos na memória …, sensação estranha.  Distantes e próximos. Claro, a vida separa, outra cidade, outra idade e solidão absoluta na vitrine … Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018

inseparável

Espero libertação, entendimento como se fosse fenômeno.  Não consigo descrever absorver entender a ideia toda, então … espero quieta inquieta. Minhas mãos cheias de terra. Faz morno lá fora. Molhei as plantas da sacada: verde e exuberante o pequeno jardim. Pequena nostalgia. Posso trazer a floração para dentro de casa. Reaprendendo o mundo sem fantasia. Já está passando … A fazenda / o campo se esfumaça. Histórias terminam, mas se encaixam em lembranças verdes e no gosto da pimenta  …, tem gosto e cheiro esta memória. Elizabeth M.B. Mattos -novembro –  2018 Torres

apressado transparente voando

[…] uma parada para pensar, refletir. Tudo e o nada. As possibilidades de realizar o que me proponho, não sei se existem! Por um momento um esvaziamento complicado difícil, laborioso. Mas tu me dizes que realizarei e farei, e ficarei livre. Todo um trabalho todo um caminho a ser percorrido: disciplina e coragem. Beth Mattos

és a minha fantasia

O que me intriga é como tudo era / é diferente do que eu imaginava / imagino, / ou pensava … Eu julgava que as pessoas (ou nós dois) deviam saber o que queriam …

Tenho  falsa ideia de que as coisas / as pessoas  …, enfim, tudo mais simples, mais direto, ou mais corajoso. Esquisito como sinto tua falta mesmo quando sei que não estás, não estás. Não existes. És a minha/ a nossa fantasia. Beth Mattos 2018 novembro, em Torres