primário e comportamental

Gilbert Seldes: ” […] que o homem é uma criatura circunstancial, que se você mudasse os ambientes de trinta pequenos hotentotes e de trinta crianças ingleses, os aristocratas virariam hotentotes, para todos os efeitos práticos, e os hotentotes pequenos conservadores.”

As pessoas são extraordinariamente diferentes em lugares diferentes, e possivelmente apenas por causa dos lugares. É impossível uma completa ruptura com o passado. A falha nem sempre um erro; pode ser simplesmente, a melhor coisa que alguém possa fazer em certas circunstâncias. O verdadeiro erro é parar de tentar, eu estou tentando. E o passado , o que já aconteceu, os sentimentos sentidos são alicerce. Agradeço. Se volto…, será sempre OBRIGADA!

Diz Skinner “Os processos de comportamento no mundo em geral são os mesmos de uma comunidade utópica, e as práticas tem os mesmos efeitos, pelas mesmas razões.” in O Mito da Liberdade

Sentimento e estado de espírito ainda domina debates sobre o comportamento humano. O que uma pessoa ‘pretende fazer’ depende do que ela fez no passado e do que aconteceu. É preciso espiar pela fresta. Evidentemente, o que aconteceu no passado faz sombra (sem medir o bom ou o ruim da sombra) e alimenta o futuro. Somos passado, presente, e o futuro tudo num único instante de consciência… O generoso está no teu olhar, o meu olhar no nosso olhar = agora, o teu no meu, sem cobrança nem expectativa. Ontem desmaia, esmaece no amanhã e projeta… Coisas de amor. Beth Mattos – agosto de 2020. Admiro as pessoas na medida em que não posso explicar o que fazem, e neste caso a palavra ‘admirar’ significa ‘maravilhar-se com’. Um jogo. A luta pela dignidade se aproxima da luta pela liberdade. Por isso estamos juntos. E eu lembro…

LOLITA

” Os grandes romances abalam; e então, depois que o choque se enfraquece, sentimos os abalos secundários“.(p.369) Matin Amis – Pósfacio / agosto de 2020 – Torres

Terminei de ler Lolita de Vladimir Nabokov

A primeira vez que ouvi/escutei o nome LOLILA, foi na Prainha – em Torres – deveria estar a cabritar pelas pedras, (12 anos, ou 11) – eles eram mais velhos o C.A.M. e R.R dos S.. Estavam recrutando as possíveis Lolitas. Passados sessenta anos anos de atraso, ou setenta, compreendo o que eles queriam dizer e o motivo pelo qual riam. o certo seria pegar o telefone e perguntar: você leu mesmo Lolita do Nabokov?

deste agosto desgosto

O frio dá uma fome danada, acordo cedo e sinto frio. Café, chocolate, pão com manteiga. Penso num pedaço de bolo recheado! Huhmm! Vou comer bastante e volto para as cobertas. Espio o amanhecer. Que dia bem danado de lindo foi fazer hoje, no meio deste agosto gelado! Em Cambará do Sul nevou. Vou sair. Céus! Que frio! Apresso o passo, meia volta, volto a te pensar. Arrepio por dentro, e me deslumbro com esta manhã transparente, tão clara! É o sol. Não é tão cedo assim… Dormi demais. Fome outra vez. Vou acertar o dia assistir um filme! Canadá, ao menos francês. Está quentinho aqui dentro. Detestei o filme. Voltou a fome. Que bom escutar três vezes Champagne com Peppino de Capri: lembras?! O italiano, e o tempo. Vou a pensar, não consegui me fazer eu, não nos encontrar na vida/no tempo de gente grande, ou nos misturamos tanto um no outro, eu medrosa. Lembro teu carro vermelho, tua alegria. Sinto saudades tuas: estás a rir. Saudade dos meninos que fomos! Tínhamos treze, ou quatorze anos, ou nem sei quando foi o primeiro verão! Ou doze anos! Meninos. Tempo das quermesses! E tu adoravas as máquinas! Eu a me fazer de gente grande! Fiz tudo errado…, ou certo. Ou o que importa agora! Bavardage! Estou enfiada na tua história e tu és o meu enredo. Beth Mattos – agosto de 2020 – Torres

Sísifo

Pesquisa, qualquer leitura, empenho…, e lá estou eu, outra vez, a carregar a mesma pedra. O mesmo esforço, com igual angustia. Um dia eu me verei livre de todo e qualquer empenho. Beth Mattos

2020 – curiosas temperaturas

Cinzento dia, parece chuva a se aproximar…, ou não, apenas invernoso quente amanhecer. Paradoxo, inverno, normalmente, faz frio, e este parece morno. Meteorologia esquisita, variada: estações expressionistas. Suzana, com razão, menciona curiosa oscilação entre quente e frio, mas como gosto de contrariar, refuto. Festejo dias gelados de inverno definido, logo constato que ela tem razão. A curiosa temperatura de 2020 se reflete no armário. Vestidos de algodão decotados, sem mangas ao lado de casacos. Cobertores empilhados. Camisetas coloridas em pilhas festivas ao lado das blusas de lã. O mesmo com as pantalonas de tricoline, os jeans e as calças de lã. Ou seja. Nunca sabemos o que devemos vestir. A casa ora fechada, ora aquecida. Ora janelas escancaradas… Deixo a brisa da noite invadir. Depois de revolucionar a sala mudando os móveis de lugar, ajustando espaço e dançando com os livros espalhados, eu sento para escrever. Onde coloquei o hábito, o horário, e o empenho. Tenho que encontrar… Ou ver filmes na Netflix? Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

pés gelados

Alguns, muitos, ou apenas certos dias esquisitos me atropelam: a terra treme. Os pés doem, e me surpreendem. A cabeça ferve… Escorre dor pelo corpo. Na febre adormeço. O peso do/no dia explode e se espicaça… Na febre adormeço. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torre – dizem – amanhã, ou depois de amanhã, fará muito, muito, muito frio, talvez neve. Verei a neve, o mar congelado, e o céu chumbo, ou negro, ou branco. A terra me amedronta com a ventania e o espanto de revolta se escreve apressado. Sou eu.

Citação

Para mí la poesia y el pensamiento son un sistema de vasos comunicantes. La fuente de ambos es mi vida: escribo sobre lo que he vivido y vivo. Vivir es también pensar y, aveces, atravesar esa frontera en la que sentir y pensar se funden: la poesía. Octavio Paz La llama doble Amor y Erotismo

Katherine Mansfield

Revendo, voltando, comparando. Aos trancos e barrancos digo o que penso, ou sonho pensar, imagino, solavancos. Pensar, às vezes, atrapalha os relacionamentos. Ideias soltas, bavardage, apenas conversa, uauuu! Feijão com arroz, pão com manteiga. Ninguém quer mesmo saber. E volto ao velho livro, ao velho texto. Volto a caminhar nas mesmas pedras, leitura renovada. Sinto as mesmas coisas, ou as nova coisas como se fossem as mesmas. E a cada velho livro um sentimento pintado de vermelho…UauuuuBeth Mattos

E, ademais, não tenho paciência alguma com as pessoas que não sabem abrir mão das coisas, que correm atrás delas a se lamentar. Quando uma coisa se foi, ela se foi! Está terminada e liquidada! Portanto deixe-a ir-se. Ignore-a e console-se, se é que quer consolo, pensando que nunca se recupera a mesma coisa que se perdeu. Ela será sempre uma coisa nova. Transformou-se no momento em que se vai. Ora, isso é verdade até mesmo quando se corre atrás de um chapéu que o vento arranca da cabeça da gente; e não quero dizer de modo superficial – falo em sentido muito profundo…Adotei como norma de vida nunca me lamentar e nunca olhar para trás. O arrependimento é um terrível desperdício de energia, e ninguém que pretenda ser escritor deve se dar ao luxo de entregar-se a ele. […] Evidentemente, olhar para trás é também fatal para a Arte. É conservar-se pobre. A Arte não pode e não irá suportar a pobreza.” (p.81-82) Katherine Mansfield – Je ne parle pas français e outros contos– Editora Revan

mágica

Às vezes quero mágica, o poder de transformar, fazer fantasia… Reviro o mesmo, todos os jeitos possíveis, misturo, e depois, bem, depois está/fica igual. Elizabeth M.B. Mattos – 16 de agosto de 2020 – aniversário da Ana Maria, evento importante, no meu coração…

será que eu posso?

Para Elizabeth Barrett – prima querida

Será que eu posso ir e voltar, desistir, largar, e recomeçar de um jeito diferente, mesmo sabendo (inconscientemente sabendo) que não vou chegar, entrarei no desvio atrás da certeza de pertencer. Terei autorização de carregar este azul riscado de bastante amarelo, já a ficar tão verde! Será tanto, e tanto verde, vejo marrom, e tantas riscas pretas… Será que eu posso ir e voltar? Aceitar e desistir. Conversar e não dizer nada, contrariar, apenas polemizar, irritar. Tomar um banho demorado de banheira, morno, quase quente, talvez muito quente. Água perfumada. Não num hotel cansado, mas naquele perfeito que vai consumir o dinheiro de um mês, dois meses, ou três num único dia. Café da manhã colorido com as frutas da época: cítricas. Bananas cortadas com mel e aveia. Omelete, suco de uvas, de pitangas. E a cortesia de correr as cortinas pro mar de Ipanema. Sim. Um hotel na cidade perfeita, porque esta conheço. Não Itália, nem França. Nem na Califórnia, ou México..Pode ser Porto Alegre, sei lá…, poderia ser em casa. Será que posso ter um alguém invisível a limpar, a cozinhar, e perfumar os armários, empilhar os lençóis e deixar os vidros atravessados de luz, e perfumados? A carne mal passada, as saladas verdes frescas: tomates e passas, ameixas secas. Couve-flor gratinada. Depois café e doces portugueses: ovos nevados, avos moles, fios de ovos, o licor. Será que posso levar a tarde colorida e morna comigo por tantas horas? Ou preciso mesmo entardecer azeda, enjoada, cansada, assustada? Estes mundos presenteados com tantas, tantas pessoas solitárias. Quero bater e entrar. Quero ser abraçada, beijada e apreender a escutar (não tenho este ingrediente tão necessário!) Aprender a ficar quieta, imóvel, tão absurdamente tranquila que adormecerei… Universo privado explica Huxley, incomunicável. Tolstoi grita, julga. Tourguéniev, para distrair suas crianças, dança o cancan, explica André Maurois: como eles podem possuem/tem universos tão diferentes!E ser geniais cada um a sua maneira? Como eu posso transitar de um lado para outro sem me contaminar, ou envolver, sem mudar, mas a me metamorfosear, como Kafka, ou explicar a peste como Camus. Como posso viver sem a minha banheira, sem jardim, restrita as camisolas, as meias de lã, na ausência de amor. Bebo um copo de leite com Nescau, quente. Mordisco umas bolachas com manteiga. Eu me excedo. Penso nos morangos maduros, nos pêssegos e nos limões sicilianos. No cheiro de terra molhada, na chuva. Compro um carro com teto solar para ver as estrelas, imagino a viagem que não farei, o tempo que ficarei rodando querendo chegar, sem vontade de sair. Puft! Uauuuu! Esquecer o carro, nem sei se ainda sei dirigir, e gostaria de ousar passear pelo eu comigo. Por quê? Para flertar, ser eu, entrar e sair. Dormir um dia e caminhar outros dois num lugar deserto, mas seguro. Arriscar e rir fora de hora. Falar holandês, inglês, japonês e mandarim… A surpreender a voz /o som com sotaque francês. Entrar no castelo certo, e encontrar o príncipe certo: ocupado a trabalhar atabalhoado e um pouco triste, mas vai se surpreender…, e vai me reconhecer. E nos daremos as mãos. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

Torres ou Porto Alegre, ou Rio Pardo; quem sabe Santa Crus do Sul? Ou São Paulo? Não, não. Certamente, o Rio de Janeiro, subindo a serra pela velha estrada até Petrópolis. E depois, cuidando da horta, das galinhas, dos sonhos, e lendo, num exercício cuidado para apreender. E gozar a cada palavra nova. Reler André Maurois – Mes Songes Que Voici – Editions Bernard Gasset

Tantost je resve, tantost je dicte en me promenant mes songes que voicy. Michel de Montaigne

Pour Montaigne, je proposerais :
Às vezes eu sonho, às vezes eu dito, enquanto perambulo, meus sonhos eis aqui.

La dificulte est dans “je me promène” employé dans um sens particulier à Montaigne. C’est “promener as pensée” comme em marchant, ici pas em marchant réellement, mais au gré des bifurcations qui se présentent. Ça tient de la rêverie, de la rêverie philosophique. Je pense au portugais ‘” devaneios” comme  divagations, mais je crois qu’il y a um peu l’idée d’être perdu, et Montaigne “se promenant” ne se perd pas. Et c’est plus actif que “devaneio” au singulier. Mais mon dictionnaire pour le verbe “devanear” me donne “se fanner”, “paniquer”, donc ici “devaneio” ne convient pas. Alors je m’arrête, grâce à son sens em latin, à “perambulo” avec l’idée de “ visiter des lieux successivement, traverser un lieu vers un autre lieu.” J. M. Grassin