Em 2021 preciso inventar outra

E eu inventei, outra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Pra Pasárgada que inventei.

Sem Bandeira, sem pedra no caminho,

Sem Meireles pra explicar,

Vou – me embora pra esquecer.

Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.

Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,

Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção

Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.

Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…

Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.

Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.

Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!

Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,

Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.

Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.

Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?

Vou-me embora pra Pasárgada.

A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014 / como seria agora, março de 2021 / não consigo inventar/escrever/ nada: um silêncio de morte. Angústia e tanta tristeza!

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou – me embora pra Pasárgada 

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manoel Bandeira

E eu inventei, outra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Pra Pasárgada que inventei.

Sem Bandeira, sem pedra no caminho,

Sem Meireles pra explicar,

Vou – me embora pra esquecer.

Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.

Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,

Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção

Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.

Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…

Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.

Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.

Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!

Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,

Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.

Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.

Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?

Vou-me embora pra Pasárgada.

A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014

desejo por alguém

Nessa questão de ter desejo por uma pessoa, duas confusões têm me chamado especial atenção. A primeira é que grande parte das pessoas não se dá conta de que o mais frequente desejo inicial não é o desejo por alguém. É o desejo da conquista. Mais especificamente, o desejo de conquista do desejo de alguém. Como na música de Caetano Veloso: “[…] pois quando eu te vejo, eu desejo o teu desejo“. Uma vez produzido esse encontro, outras terão de surgir e outros encontros desejo -objeto terão que acontecer para que um desejo pela pessoa possa se construir. Caso contrário, fim. Um caso célebre de fixação no desejo de conquista, de ficar parado nele, era o de Don Juan. Uma vez conquistada uma mulher, o desejo se extinguia. Ele precisava de outra para que o desejo surgisse novamente.

A segunda confusão, muitas vezes derivada da primeira, é supor que desejar alguém é, automaticamente, desejar transar com alguém. Quando Freud disse que em cada relação sexual as pessoas revisitavam toda a evolução de sua sexualidade, desde a fase oral (daí a vontade de beijar, de tocar com a boca ) passando pelos desejos sadomasoquistas, de Domínio e submissão, e exibicionismos-voyeuristas, até se concentrar na prioridade do desejo genital, ele não estava simplesmente falando das “preliminares”, mas da multiplicidade de desejos que antecedem a ideia da penetração. […](p.151)

Volto à história do início do livro: poder ensaiar para viver o que se é, é não ter que representar, é não ter que fazer performances, nem na vida, nem na cama. O aprendiz da sexualidade é o aprendiz de seu próprio desejo, é o aprendiz de si mesmo..” (p.152) Francisco Daut da Veiga O Aprendiz do desejo – A Adolescência pela Vida a fora

https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/43879/

alegria de puras alegrias, a lembrança

Entendre la douceur et la tendresse de leur voix, et être rassuré sur leur existence. Voir les , comme em France, se fondre dans l’ extase, être rassurée sur l’existance de l’amour. Voir les hommes qui dansaient, chantaient, nageaiet, riaient, malgré la pauvreté, et être rassurée sur l’existance de l’a vie et de l’a joie. Voir et entendre la joie.” (p.40) Anaïs Nin Journal 5 (1947-1955)

Ver escutar sentir alegria. A pura alegria de viver. Anaïs escreve sobre isso, et cita George Bernanos: La joie (A alegria). Estranho sentimento de pertencimento. Outra vez dispersa, ansiosa ou angustiada, talvez feliz. Encontro o cartão de Maria Virgínia Busnello. Lembro da correspondência, do casaco de vison que ela me emprestou, generosidade. Um cadeau maravilhoso, viajava rigor do inverno. Céus! Incrível eu ter vestido, e foi incrível mesmo! Apenas vestir o casaco transformou a viagem, no ar a certeza da preciosidade. Graças a ela (minha amiga) e a ele (o casaco) vivi vida de princesa e não passei frio. Nunca agradeci o suficiente. Não sou ingrata, mas atrapalhada, minha amiga. E não te mostrei as fotos, inúmeras! E a história do gorro que ficou/caiu nas escadas…, foi resgatado, e chegou depois da minha volta. Para tua ansiedade, e a minha, demorei dias para devolver. Também o precioso chapéu que Maria Virgínia me emprestou de feltro com abas, um luxo! Esqueci em Chambord, displicente /distraída. Céus! Estas lembranças chegaram todas ao mesmo tempo: alegria, Anaïs Nin, Maria Virgínia (amiga de coração e de sempre), e o cartão. Sim de todas tuas inúmeras viagens tu escreveste! Tenho cartas e cartões. Sempre presente. Éramos tão próximas! Guardei tudo / todas as tuas lembranças, amiga. Estares em Paris e lembrares de mim…, escrever. Desculpa os desencontros, as minhas esquisitices. Beth Mattos – março de 2021 – Torres

Nesta foto eu não me gosto, mas o castelo é lindíssimo, e o chapéu da Maria Virgínia também! E o casaco! A loucura da perfeição!

A Ceia dos Cardeais – Júlio Dantas

As repetições assustam, não as do amor, do mundo mesmo: olhos abertos, il faut.

“Cardeal Rufo

Sobre um beijo outro beijo e sobre um ano outro ano…

Como envelhece a gente velho Vaticano!

A política…

O mal que se faz e desfaz

No mistério subtil destes panos de Arrás…

A intriga na sombra, os passos sempre incertos…” (p.22)

Cardeal Gonzaga

Sol! Nós somos a saudade.

A pensar que se amou, que se viveu…O amor!

– Um tronco envelhecido a cuidar que deu flor!

depois num embevecimento

Misterioso monte é neste mundo a vida!

Todo rosas abrindo, ao galgar na subida,

E a velhice, ao descer, toda cheia de espinhos…

– Ai, tão velhinhos!” (p.24)

Júlio Dantas A Ceia dos Cardeais – peça em um acto, em verso, representada pela primeira vez no antigo Teatro de D. Amélia. em 24 de Março de 1902

as mesmas coisas

Além das mesmas coisas, outras mesmas coisas… café com pão feito em casa. O sol deste sol continua verão. Verão, tua estação. Eu gosto do inverno, o inverno do passado: lareira, cheiro de nó de pinho, grama e laranja descascadas pelo pai, e ter a mãe bebendo café, fumando, ou lendo, olhando as revistas, sonhando a casa, e sempre música. Casa com música e conversa. Eu viajando no sonho…

Tão bom sentir as coisas pelo teu olhar, teu jeito! Tens o que nunca consegui ter, e assim mesmo, tendo dentro de mim. Ao acaso, és como és…teus sonhos, tão outros! A vida te “agarrou”, e conseguiste/tens este gosto novo. Morro de ciúmes! E saber que poderia ter provado mais, engolido, mastigado… Tão, tão covarde! Sabes o que é hoje? Esquecer tudo que foi ontem! Tudo. O nascente derruba outros amores, não adiante! É verdade. Assim acontece a loucura e o desatino! Um dia, dobrou a esquina e não voltou… Danada pandemia a nos segurar, vês! Ajuizados. O vírus é a sanidade. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021

désirs insensés / desejos insensatos

“[…] parmi les choses indispensables à la race des hommes, figurent quelquer désirs insensés, Il n’y aurait pas d’ hommes sans l’amour. E d’où penses-tu que nous ayons tiré la première idée et l ‘ énergie de ces immenses efforts qui sont élevé des villes très illustres et de monuments inutiles, que la raison admire qui eût été incapable de le concervoir?” (p.26) Paul Valéry Eupalinos ou O Arquiteto

[…] entre as coisas indispensáveis à raça humanam, figuram, necessariamente, alguns desejos insensatos, não existem homens sem o amor. E o desejo nos guia / leva. E será sempre para o melhor caminho do prazer e da alegria necessária, suportamos o mal / a maldade por amor, e curamos a florir o caminho. Beth Mattos

escuto


sou imagem, memória daquela que fui um dia, sem ser

No caminho (vou ao teu encontro) escuto a tua voz / e te procuro… Sem bússola: alguma coisa brota/floresce, remexo na terra. Flor, fruto vermelho, amarelo. Encontro o azul dos teus gestos. Eu me salvo. Doce ternura. Beth Mattos – março 2021

delicadeza

A intimidade exige delicadeza: lapidação da voz, do cuidado ao dizer, não exatamente por/para ser educado, civilizado, mas porque estes são os sentimentos que precisam/deveriam permear as relações. Pessoas simples/rudes/ ou pouco instruídas devem conviver com pessoas simples/rudes, menos instruídas ninguém se machuca. Como a pouca inteligência dá as mãos aos menos inteligentes. Pessoas emocionais sofrem ao conviver com pragmáticos. Teia de sentimentos complicados. O sentimento nebuloso dificulta o amor. Estou sendo pouco clara… Não se trata de nomenclatura. E amor não se parte/não se divide… Esquisito pensar assim…, ou ama ou não ama, suponho que possa ser simplesmente uma operação matemática. Compreender o outro, não concordar com isso ou aquilo, tudo bem, grosseria nunca. E de repente não se alcança o amado porque estas coisas (palavras/atitudes) estão confusas. O filho pode não entender, o neto compreender, o sobrinho ficar em dúvida. Entre irmãos? O amor se divide, talvez, siga amor, mas machucado/ferido. Beth Mattos

E no amor, entre amados, quando a intimidade cresce em excesso, desgovernada, alguma coisa se parte (invisível, não muito definida). Nesta entrega completa dizemos tudo sem medo/sem freio/ sem filtro. Dizemos o que pensamos/sentimos, e de repente, já não é mais verdade, não é exatamente aquilo. Pedir desculpas / pedir perdão. Voltar atrás é possível, reconhecer o erro, mas fica a magoa. E ás vezes nem é mais verdade / nem foi bem daquele jeito… Um texto a ser pensado. E. M.B. Mattos

confusão / confusion

” Quand je fus revenu auprès de Maya, nous dînâmes et retournâmes au lit – simplement pour nous sentir tout près l´un d´autre et pour parler. Bien sûr, je lui déclarai que je l’ aimais – je l ‘aimais en effet, et je l’aime toujours -, et je lui demandais si elle m’ aimait.

Oui, repondit-elle sérieusement. Mais tu apprendras que l’amour dure rarement, et qu’il est possible d’aimer plus de une personne à la fois.’

Vous voulez dire que vous avez quelqu’ un d’ autre?’ lui demandai-je, effrayé.

Et bien, mon mari’ me réponddit-elle, en ouvrant un peu plus grands les yeux. mais il ne faut pas que ça t’inquiète.Cette idée qu’on ne peut pas aimer qu’une seule personne fait que la plupart des gens vivent dans la confusion‘”(p.79) Stephen Vizinczey Éloge des femmes mûres

Complicado questionar amor: fidelidade e limites… Uauuuu!, espero que me escrevas breve. Verdade, estou ansiosa outra vez, a tal gentileza…

Não é a melhor tradução. Enfim!

“Quando voltei, Maya e eu, jantamos, fomos deitar -, simplesmente, para ficarmos perto / bem perto um do outro, e conversar/falar. Claro, eu confessei logo meu amor – eu a amava mesmo, e ainda a amo (continuo amando) – e eu lhe perguntei se ela me amava. ‘Sim, respondeu com seriedade. Mas tu aprenderás que o amor dura pouco (é raro/ difícil que dure muito), e vais descobrir que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo.’ Assustado: ‘Queres me dizer que tu tens mais alguém / outra pessoa?’ ‘Sim, claro, meu marido’ respondeu ela, arregalando os olhos, mas não precisas te inquietar com isso, essa ideia de que as pessoas só podem amar uma única pessoa faz com que a maioria viva em confusão” Stephen Vizinczey Em louvor às mulheres maduras