Eu me apaixonei por ti por tantos motivos, e nenhum, e alguns, eu vou te dizer… Eu me apaixonei e te amei porque… Dizem que a paixão, o desejo está a se inquietar dentro da pessoa, quer saltar, escapar (porque enjaulado) e então, num descuido! Salta para fora. E outro está ali distraído, ou a esperar, ou desavisado como tu, (estou pensando como poderia ser) ou… Agora, me ocorre: sendo atrapalhada!, não explico. A liberdade me confunde. Não conto para ninguém que existes, não digo teu nome, fica tudo assim inventado, mas estou a te esperar. Sabes o que descubro a cada conversa que temos? Tu me descreves o mundo, tu me acordas. Tu estás onde eu gostaria de estar, e tu me contas o que está acontecendo do outro lado… E dizes a verdade. Cada vez que leio uma carta fico a reler a reler a reler sem poder responder. Um beijo. Eu me explico do jeito que sei. Um outro beijo. E me preocupo por não ser o que era, mas tu já sabes como sou. Beth Mattos – março de 2021
Mês: março 2021
“As lembranças da felicidade passada são as rugas da alma!”
Escrever pode ser exaustivo: tudo já foi dito e escrito. Qualquer sentimento, qualquer beleza, dor, saudade (como a que sinto no teu silêncio), foi expressa / explicada. Não adiante se desviar. Escrever deveria / deve ser mapear leituras. Beth Mattos
” As lembranças da felicidade passada são as rugas da alma! Quando se é infeliz, é necessário expulsá – las do pensamento como fantasmas zombeteiros que vêm insultar a nossa situação atual: vale mil vezes mais abandonar – nos às ilusões enganosas da esperança, e sobretudo fazer boa cara à má fortuna, evitando introduzir alguém na intimidade de nossas desgraças. […] à força de ser infeliz, a gente acaba por se tornar ridículo. Em tais momentos horríveis, nada é mais conveniente do que o novo modo de viajar, cuja descrição se acabou de ler. […]Fiz, então, uma experiência decisiva: não só consegui esquecer o passado, mas até tomar valorosamente o meu partido sobre as penas presentes. O tempo as levará, disse eu para me consolar; ele carrega tudo e nada esquece, ao passar; e, quer queiramos detê – lo, quer o afastemos, como se diz, com o ombro, os nossos esforços são inúteis e nada mudam ao seu curso invariável.[…] Quando os homens se calam, quando o demônio do ruído está mudo no meio do seu templo, no meio de uma cidade adormecida, é então que o tempo eleva a sua voz, e se faz ouvir à minha alma.” (p. 269) Xavier de Maistre Viagem ao Redor do Meu quarto
Há sempre um novo jeito de lutar. Esperar. Acreditar um na palavra do outro. Derramar sentimento, o verdadeiro, e o inventado, mesmo a fantasia pode ser o melhor para viver agora. escuta. Eu não consigo te esquecer.

feliz triste aguento, te amando
Damos risadas! Nem tua camisa rasgada, nem meu vestido de cinquenta anos, nossos olhos sonolentos…, ninguém toca. Sem sapatos nos debruçamos no parapeito da janela num abraço. Não me faças cócegas! Temos que limpar /fazer/ e sacudir nossos lençóis, vou deixar os travesseiros tomando ar…Beth Mattos / março de 2021

Mas o que é , afinal, uma noite? Um curto espaço, especialmente quando a escuridão diminui tão cedo, e tão cedo um pássaro chilreia, um galo canta ou um verde desmaiado se aviva, como uma folha revirada no oco de uma onda.
Atrapalhados nesta proibição proibida de nos vermos, e nos vemos e nos apalmamos. Pandemia, epidemia, rodoviárias e aeroportos, bares, e praças fechados, somos nós, desavisados, a transgredir.

nunca tanto
Como um susto, no inesperado…, mas atentos ! Todos (deveria ser) iguais, sem poder viajar, sem poder exibir/mostrar as compras, sem poder nos enfeitar…, bobagem! Fazemos (seguimos compartilhando) tudo isso, e estamos no vídeo, adoramos! Temos direito a retoques…, O mundo não sabe/ não aprendeu a nos recriar, somos duros como pedras de rochedo. Seremos os mesmos neste hoje e no amanhã, nunca tanto o mesmo! Beth Mattos / março 2021

It grew darker. Escurecia
“Noting could survive the flood, the profusion, the downpuring of the immense darkness which, creeping it at keyholes and crevices, stole round the window blinds, came in to the bedrooms, and swallowed up, […]” nada podia sobreviver ao dilúvio, ao derramamento, à tromba d’ água de imensa escuridão que, insinuando -se pelos buracos das fechaduras e pelas frestas, metia – se pelas venezianas, atingia os quartos, e engolia […]” Virginia Woolf (1882-1941) O tempo passa – tradução e notas de Tomaz Tadeu – Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2013 – Edição bilíngue

Vento sopra / traz chuva, aquele bebê grita, a chuva se atira nas vidraças. Do farol posso ver a calçada brilhando. Logo a água enche a rua. Eu transbordo ansiedade… Fico a me pensar acarinhada pelo teu olhar. As fotos de antes/do antigamente/ presas no tempo. O tempo que cruzamos sem nos tocar. Sem esta latente ansiedade. Tua voz segura aquele passado: atravessamos com certa dificuldade a vontade. Primeiro olhar. Depois tocar. Depois inventar. Que medo eu sinto. Medo de estilhaçar os vidros. Segurar o tempo / a vontade rondando a nos espionar. Estamos proibidos, mas naquele ano que virias, quando nos falamos,cheios de coragem / eu já assustada – invadida por uma timidez medrosa levantei um alerta. Lembras? Assim mesmo chegamos a combinar, trocar números de telefone, fotos e estávamos desavisados, ansiosos. Querendo.

Como não sei o que escrever vou para os livros, vou estudar inglês para entender o que me dizes. Escutar as mesmas canções mil vezes. Vou redesenhar. Estes anos, tão poucos que se atravessaram entre as confidências e o meu susto, parece pequeno e enorme… Enorme! Cada semana pesa. Cada dia. Eu me encontro em tudo o que fazes, nos filmes, nos jogos, nas caminhadas, no verde, no descaso, no trabalho, no desleixo, e no susto. Nós nos esbarramos na cozinha. Quebrei o copo, deixei cair os talheres. Desastre. E a casa? Não podemos ter casa. Temos que estar no meio do jardim, no meio da rua, no café da esquina. Na rodoviária. Que medo! Não temos aeroporto. Fico com vontade de sair mudando tudo, não posso. Eu te passo o texto, como tu me passas as referências, vou aprender, vou começar do zero, nos veremos na penumbra, no escuro. Imagino outra vez. Sinto o perfume/cheiro da tua comida.

“Basta que alguém tome o seu lugar e eis que a casa adquire todo um outro jeito, como se ela se adaptasse às percepções e a vida de seu novo locatário. Estes lugares , têm eles uma alma ou são nossas percepções que lhes dão uma alma? essa experiência banal que diz respeito ao nosso habitat pode ser generalizada para os dados do ambiente […] Que os olhos do filósofo desbotam a grama, que os da sua mulher, bela, a tornam, ao contrário, deslumbrante… como se a beleza salvasse o mundo.[…] Existiríamos como faróis.” Michel Serres

Estes volumes são todos especiais. Especiais as edições. Preciosas. Paraliso. Estarrecida com nossa ousadia. Tu sabes tanto e mais! A pressão dos erros nos encoraja, o castigo fortalece. E nos aventuramos feito crianças. É nosso minuto, nosso momento. Este copo cheio de ansiedade e desejo nos pertence. Apenas um copo cheio, a transbordar: o nosso. Queres me devolver o encantamento… Eu quero. Faz tanto tempo que eu procuro uma saída, não consigo ver a porta que se abriu…Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Amordaçada, amarrada e te gostando tanto!, eu te escondo nos meus textos, fazemos aqui todas as brejeirices. Escondidos. Eu te gosto tanto. Antes, agora. Tu me salvas!


explicações
Eu não sei o porquê de explicar, mas estou sempre a explicar, esticar, querer saber mais isso, e ainda aquilo. Tudo agarrar e entender. Engraçado! Houve tempo comprido a pensar que se desvendaria o difícil! Pensava chegar perto do tempo para ser/ter/ e aceitar quem eu era/sou, sem saber ao certo como, e nunca soube, sem meta… Fui a tatear, a desviar mais do que entender. Aprender, perseverar ou focar: distraída, sempre tão distraída! Difícil entender/saber/apreender a escrever e a ler. Brincar era /ainda é? (risos), não aceitar. Maior melhor, não ver / sair/ correr/ o quintal grande, as bananas fritas! Fascínio da cozinha: conversas fáceis, riam enquanto trabalhavam…, e eu gostava do cheiro, daquela simplicidade, e provar antes de todos, descobrir o gosto. A mesa cerimoniosa. Sendo a mais nova, a criança, falar era mesmo atenção, cuidado. Participar difícil. Eu dizia tantas bobagens, e desconcentrada, apreendia lento, muito lento. Brincava com as bonecas, pedrinhas, tampinhas e falava atrás da cadeira imaginando isso e aquilo. Acompanhava o pai aqui e ali sempre que podia/ nem sempre conseguia acordar a tempo. Acordava cedo, apressada, sem preguiça para conseguir: sair com o pai, levar as irmãs mais velhas ao colégio. E gostava. Depois ele me mimava com pequenos agrados, cortar o pão em pedacinhos, o café junto. As laranjas descascadas. E o silêncio daquela conversa terna. Ninguém imaginava o fácil para mim, tanto escorreguei e foi mesmo difícil aprender e a fazer. As lágrimas eram boas de chorar. A mãe, mais ausente / ou transparente, não sei. A beleza importava: bonitas as cortinas, o carpete, o jardim, os detalhes, o cheiro. Perfumada a casa. E os livros, a biblioteca, as lareiras. Aqueles banheiros coloridos, e o gramado. Os discos, a música. Música, tanta música! O francês rondava… Eram os sons a me perseguir. E ainda agora. O som, o cheiro. Vejo meu pequeno apartamento entre desordem e desordem, e uma vontade enorme de ter tudo novo, mudar, recomeçar, refazer. Parece tarde. Tão tarde! Decadente? Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – em Torres, porque o pai definiu / desenhou um lugar refúgio certo. E aconteceu. Corri para me refugiar em Torres, depois Ana Maria chegou de seus Anos na Itália, depois de Berlim, e ela também ficou. E os netos já nasceram aqui. Tão estranho! E Luiza foi crescendo aqui, espiando este mar daqui todos os dias, estudou aqui…E agora tão longe! A história se perde na narrativa dos filhos… Descobri um caderno velho de 1985, a reler. Estou impregnada dos nossos verões / férias -, presente da vida ter sido criança, adolescente pelos corredores da SAPT. E a beleza. É bonito aqui.
