Aonde aquela abençoada insônia de afundar num livro de prazer e gosto. Livro com cheiro de papel. Aquela insônia das mensagens saltando enlouquecidas, aquecidas. O teclado. Desconexo texto sem endereço. Flecha / risco / madrugada, sou eu, aonde estás? Aonde aquela ansiedade cuidada, amansada. Explicação confusa desta insônia. Desvio bom de cutucar o mundo, o sono. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 20211 – Torres
Mês: julho 2021
quando eu durmo
Quanto mais eu durmo, mais vontade tenho de dormir (normal). Vontade de me entregar /olhos fechados/ ao desejo aberto de encontrar, dormindo… O lugar / o tempo, não sei. Encontrar. Quanto mais eu durmo mais o desejo de acordar me assombra. Fico jovem / esperta / lúcida a contrariar o natural, o perfeito do tempo de envelhecer. Quanto mais eu durmo, mais brota desejo de acordar. Fico menina neste sono de dormir e querer acordar. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres
desfigurados
O fim determina o começo, uma força, um jeito de começar a contar.
Estavam mortos / desfigurados, e abraçados. Expectativa: quem serão estes dois personagens abraçados? Chove, troveja, e o vento, talvez, tenha aberto as venezianas: cortinas dançam no ar…, luzes acesas.
Um amanhecer embalado pelo som do mar. Abri o baú, revirei as gavetas da cômoda. As duas portas, do velho armário, abertas.
Os lençóis da cama perfumados, os travesseiros afofados, um copo, uma jarra com água. Voltei até a sala. Por que desfigurados? Não toquei em nada. A polícia deveria chegar, de qualquer forma eu estava envolvido. Sentei para esperar. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres
festejando
Espero ter acertado o dia! Dormi bem, daquele jeito cheiroso. Só bons lençóis podem proporcionar. Dormi, sonhei sonhei: coisas engraçadas, pequenos ursinhos, amigos. Pode? Filhotes. E acordei cedo, a noite se estica amena, sinto que está começando a esfriar. Ontem fiz feijão a moda antiga: deixar de molho, panela de ferro, cozinhando aos poucos, e,…e o guisado delícia, ao meu gosto. No arroz coloquei passas e apenas alho. E a farofa? A farofa na melhor manteiga com bananas picadas em quadrados! Delícia. Sei lá se isso existe. Laranja de umbigo doce, picada. Antes uma salada de alface fresca: bem temperada com azeite dos meus, pimenta. Não sei se estava como deveria estar, eu me deliciei e achei bom cozinhar devagar, beber vinho e escrever. Orgia de prazer. A vida tem estes cinzentos com riscas brancas, e vibração. Deve ser felicidade descascada aos poucos, como se fosse um beijo molhado num amor acreditado: surpresa sem tempo ou expectativa, apenas beijo por inteiro… E tu, ficando também feliz, por inteiro. Afinal se apreende o gozo, se apreende o amor, e se aprende… Agradeço esse agora/hoje festivo. Eu te sinto triste na coragem, vai, vai em frente, chegarás…, meu herói. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres

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“Imagine se meu coração fosse o seu!”
estranheza
Tiro/puxo/arranco energia de dentro, lá do fundo do corpo / da mente e deposito noutra pessoa, carinhosamente: o meu sopro ajuda o outro a viver, a seguir. Não sei da verdade absoluta desta coisa de arrancar e colocar/ colar e fazer, mas se é verdade verdadeira, céus! É poder! Claro! E assim fico a imaginar que alguém sopra em meu favor, alguém responde ao meu fervor e sou grata. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres ainda madrugando, sem luz, acho que vou voltar a dormir…mesmo sem sonhar
molengooooooo
Dia molengo, vai escoando distraído, morno o desânimo; e agora a dor da úlcera, das aderências e do corpo e do bombardeamento que me deixa surda. Anestesia, cirurgia, solução e certa paz de recomeço. Não sou aquela que LC se esmerou a descrever. Não o espelho, talvez reflexo e trabalho, tentativa de acertar, e blindada…. Mais maternidade, bastante trabalho. Este quadro de exigências na fantasia me fez rir, o ócio traz este equívoco de avaliação mesquinha. Mas, paradoxalmente, gentil: uma parada no deserto. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres
Segue cinzento

1.
Devo viver para completar o ciclo, contar histórias esquecidas. Abrir pequenos baús. Respeitar meu pai e a minha mãe e derramar o brilho. Eles toleram o homem selvagem com quem me casei. Percebo que o jovem e o poder manipulam a lógica e o sensato. Eles dois se acomodavam na generosidade para suprir o possível daquele sonho espremido do jovem casal. Embora ela esteja cansada e permaneça calada, imóvel, tudo se agita e ferve por dentro em agonia. Os dois carregam histórias erradas, projetos mal feitos. Cabeças limitadas, trancadas na futilidade brilhante de ter mais e mais: desassossego dengoso e carente. Como fruta que amadurece artificialmente, nenhum defeito: falta de sabor. O nada brilhante e colorido, por dentro, esfarelada maça.
Isabel pede mais uma taça de café, acende o terceiro cigarro. Abre uma revista. Afunda o corpo na cadeira com o desespero enfiado, feito faca no peito.
Eles sentam na ponta do sofá. Falam futilês, naturalmente, e os presentes, o avô e a avó, respondem, esperam, suspiraram. O chá o bolo o tempo e o sol acompanham a visita inóspita e formal do jovem casal. No centro da mesa redonda as maças verdes, polidas, se misturavam com as vermelhas, e os limões desenham a festa.
2.
Feijão a moda antiga: panela de ferro. Lenta a fervura, alho bacon, água, pimenta. Louro. Espio a com as panelas cozinha, branca, limpa, e o quadro com as panelas de estanho abrindo a parede. No balcão os temperos. Aquela janela da área entregava a paisagem do Morro, então, estávamos de certa forma num ponto alto de tantos morros. Comecei a lavar a louça e arrumar quando ele veio apressado, a me dizer: “não precisa”, “não precisa.” Seus olhos pacíficos agarraram minhas mão eu lhe dei um abraço quieto de ficar enrolada no afeto. Eu sempre apressada… O relógio sabia que o casal ia se demorar na fome, e eu deveria mesmo voltar para casa numa daquelas urgências cansadas e desnecessários, desorganizadas. Estava feito. ElizaBeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres

Ernesto Sabato
vazio do abandono, ao mestre
“Preciso de grandes esforços pra imaginar meus personagens e depois fazê-los falar, pois me repugnam profundamente. Mas quando escrevo algo das minhas entranhas, sai bem depressa. No entanto, este é o perigo. Quando se escreve algo de seu, a frase pode ser boa por jatos […] mas o conjunto falha, as repetições abundam, há redundâncias, lugares comuns, locuções banais. Quando se escreve, ao contrário, algo imaginado, como tudo deve decorrer da concepção e como a mínima vírgula depende do plano geral, a atenção se bifurca. É preciso a um tempo não perder o horizonte de vista e olhar a seus pés. O detalhe é atroz, sobretudo quando se ama o detalhe como eu. As pérolas compõem o colar, mas é o fio que faz o colar. […] Para mim o mais elevado da Arte (e o mais difícil) não é nem fazer rir, nem fazer corar, nem despertar o cio ou furor, mas agir segundo a natureza, isto é fazer sonhar. (p.132) Gustave Flaubert Cartas Exemplares –
As costuras de releituras: apenas argila. Não são matéria, mas o tudo do caldo a ferver. Se desmancham possibilidades…Fico agarrada ao fio das pérolas, e seria o tudo, sem ser nada. Não defino a realidade. Palavras soltas, o sonho daquelas outras, as esquecidas. Não consigo me fixar…, trabalhar, logo desvio o olhar, e, volto a te amar / desavisada. E que sentido tem este vigor/esta vontade? Vou a me encolher menina, e tu cresces homem, não temos caminho, nem jeito. Enfim! Volto as costuras bordadas: pequenos quadrados coloridos, quentes, e firmes. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres


