pode ser

Pode ser uma conversa grande / comprida, um amontoado de explicações, uma tarde que afunde na noite, mas, infelizmente, a noite amanhece. De dia as conclusões, as promessas se atacam de uma preguiça crônica. E começar outra vez parece o mesmo do mesmo. As palavras se afogam numa memória viciosa. Se as conclusões são/estão como os pés, no conforto de sapatos velhos/usados, não resolve: ali mora o bem bom, e a vaidade escorrega… Conselhos desgastados de pai e mãe se esfarelam tanto quanto as convicções. Ninguém nasceu para ser herói, ser um herói surge / acontece por acidente. Foi o acaso: outros desistiram e ele PRECISOU mesmo fazer, e fez acontecer heroicamente.

Usamos armaduras, pesadas, medievais, se era difícil naquele tempo, segue difícil se mover com elas, ainda hoje… E este calor, o sol do verão esquenta os humores, derruba todas as precauções, arrancamos o juizo da sombra… A exposição queima a alma, viver queima o corpo, falar pesa no palavreado do mesmo, e os desencontros…., uaiiii! São encontros repetidos! Estamos mesmo solitários na jornada. O carnaval, a festa de carnaval, explica bem a dança dos foliões, um dia, dois, e três, depois a realidade comprida/esticada, igual, esfalfante, sem glamour nenhum! Acho que não vou aprender nunca, terei que nascer e nascer, e nascer, e exaltar gentilezas, arrancar pretensões, e, será sempre tão pouco! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

tempo

progresso tem cheiro de lago parado.

expectativas descascam, murcham, e, as alavancas estão/permancem em ponto morto.

num mundo escancarado, aberto se despedaçam as cores. aquela chuva miúda, inexpressiva e constante se alonga cinzenta.

os pássaros se calam. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres, ainda

transferir

Se eu pudesse, se eu pudesse padecer e ele viver! As transferências! Depois que o ser humano sonha / deseja…, depois que ele quer e por algum motivo não pode, sofre. Sofre um sofrer apertado / comprimido. Sonho / desejo, ou sofrência? Não poder pesa, dói, limita…,e, esta dor dói. A dor em mim, dói em ti! Quero que doa apenas dentro de mim. Eu aguento.

Não sei explicar a privasão, nem a inquietude, nem o não ter do não amor. E no sonho-desejo, quantos intermináveis pedidos de socorro! Quantas garrafas contendo história-pedido. Sonhos lançados ao mar como esperança de socorro / ajuda / amor! Tantas! É impressionante, admirável que ainda se possa ver o mar, afinal, deveríamos ver apenas garrafas com pedidos de socorro! Garrafas flutuando, esperançosas… E, dentro de cada uma, uma história de amor, única, completa. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

pensando Porto Alegre

Silencio / uma caixa, um presente que sacode o tempo, traz de volta…, então eu penso o quanto eu gosto de Porto Alegre, de morar lá, de respirar por lá…, fechar o apartamento doeu muito, minha casa! Todos os trabalhos, a televisão, a galeria de arte, a revista globo, as possibilidades, a ousadia, tudo intenso, cuidar de criança… ( a delicadeza de uma sobrinha que me deu este emprego ) e o intenso de viver. O difícil foi ser despedida, sumariamente, da Garagem de Arte, parecia ser para sempre, mas eu era apenas, um detalhe… as ilusões são assim mesmo, cheias de surpresas desagradáveis!

Agradeço a Mabel e o Bento, sempre agradeço, e nem tenho todas a flores necessárias para entregar, nem o carinho, nem aquela amizade de toda a vida… nada fica do tamanho da minha gratidão. O apartamento (espetacular) ao lado da Praça das Nações, na rua do Petrópolis Tênis Clube, que terminava na Itaboraí – perto do Gianfranco. Preciosos e emblemáticos anos morei ali…na luz, na beleza, no incrível apartamento. A vida tem fatias de prazer maiores do que a nossa gula. As transições foram preciosas, absorvidas. Vendi Torres /comprei o apartamento da/ na Avenida Indepndência. Outro encanto maior do que qualquer viagem! Tão espetacular! Tão exatamente como eu queria. Lindo! O baile de inauguração f trouxe os amigos, a conversa se prolongou por dias e boites e imprevistos iluminados Saudade. Depois a casa da irmã. POdia ser definitivo. Encantada com o meu super quarto, minha super sacada, minha super vida na rua HIlário Riberiro…Perto do céu, dentro da família, acolhida, segura, em harmonia perfeita. Eu ia ia e vinha porque o neto nasceu, porque Torres estava no sangue, e Torres era uma Beth menina, cheia de mar, de prolongados banhos, de reencontros. mais praia do casa…, mas não era mais minha a liberdade, e a tirania natural de quer isso e aquilo me faz apartar a liberdade. precisei me decidir – não podia ir e vir, vir mais do tempo do que ir…ocupar o quarto sem estar com a irmã, ela me fez escolher,uma coisa ou outra. Ademais não poia pagar um alugar naquele endereço de luxo. Ela me acolheu, as regras eram dela e a inquieta, livre, agitada pessoa era eu, fiquei incompatível por dentro. Foi asim que nasceu Torres definitivo, outra vez, Não mais com estudante / fechando o Doutorado, terminano as aulas, encerrando atividades, eu voltei… E hoje, neste susto sinto saudade de Porto Alegre. Do ir e vir. Dos cinamas, das pessoas, do gito, de esta lá, de ser eu, e por que não, de trabalhar. Não poderia voltar ao meu velho quarto que está tomado, nem desalugar o apartamento (quem sabe!?)Sim, sinto vontade de arregaçar as mangar e ter uma casa em Porto Alegre, e uma casa em Torres, voltr a praia e aos abacxis, convidar os amigos, veranear. Assistir aos lançamentos de cinema, ir ao teatro, Ospa e conversar, sim…fazer tudo acntecer outra vez, por que não? A vida se desenha no fazer, fazere, fazer….ou ir a São pAulo com o filho, quem sabe o Rio com a Joana? Fazer uma mala, comprar uma passagem pra mim, nós vamos aventuarr… Onix irá – comigo, é claro! Elizabeth M,B. Mattos – fevereiro de 2023 Torres

Mabel, vou passar uns duias conigo!organizar a cabeça, Costurar/remendar/ativar a cabeça.

socorro / e a palavra não sai, ah! a palavra

Esta coisa da fala, dooutro, de olhar e dizer…medicinal e pacífica pode ser a palavra, necessária. esta coisa de ouvir / dizer uma loucura necessária, por que não me entendes? por que não me socorres? por que não te compreendo? quero então te abraçar muito e muito, chegar perto, mesmo no silêncio, no tempo noturno de dormir, não tenho hora pra dormir, fecho os olhos durmo…e tenho tido magníficos e povoados sonhos, coloridos, cheios de fala, tensões e surpresas. Outro mundo /universo os sonhos destas cabeças de tanto dormir! E os filhos e movimentão, sorriem, se completam no tempo. A magia da gravidez! o iluminado prazer de fazer vida… depois a saudade miuda de todo o tempo, do amor, do acompanhar, do ocupado e engenhoso tempo de ser mãe…, onde está a volta da curva? a paz/sossego? não, não posso parar, multipliquei um milhão de vezes a sensação… e as tais palavras se milturam incompreensíveis, o que digo ou o que penso não alcança ninguém, não chega em lugar nenhum, não tem fim. As conversas são enfrentar uma floresta densa, populoça, inacreditavelmente, falante e silenciosa. Ah! as nossas interrompidas, movimentadas e agitadas conversas, meu querido! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

a vida é curta e o conhecimento, ilimitado

“No Admirável Mundo Novo, distrações ininterruptas da mais fascinante natureza são deliberadamente empregadas como instrumentos de governo, com a finalidade de impedir o povo de prestar demasiada atenção às realidades da situação social e política. O mundo da religião é diferente do mundo do entretenimento, mas os dois apresentam semelhanças num ponto: ‘ no fato de não serem deste mundo.’ Ambos são divertimentos, e, se usufruímos dele de forma excessivamente contínua, ambos podem tornar-se, segundo Marx, “o ópio do povo”, transformando-se assim numa ameaça à liberdade, e apenas os que estão constante e inteligentemente despertos podem alimentar a esperança de se governar a si próprios eficazmente por meios democráticos. Uma sociedade na qual a maioria dos membros esbanja grande parte de seu tempo não na vigília, não aqui e agora e no futuro previsível, mas em outra parte, nos outros mundos irrelevantes do prazer e das obras superficiais, da mitologia e da fantasia metafísica, terá dificuldade em resistir às investidas daqueles que quiserem orientá-la e controlá-la.”(p.56-57) Aldous Huxley Regresso ao Admirável Mundo Novo

dormindo

Antes de abrir os olhos já bebi água, um litro. Antes de pensar já estou cansada. A preguiça domina meu corpo, e stop..., sou eu no verão, um contínuo nada. Droga! Como escrever pode ser, assim, tão complicado, difícil? Como pode a imobilidade dominar o universo? O meu, ela domina. Depois da guerra perdida: desânimo. Um minuto pra reajustar, mas, mas, mas… Ah! Esta vida a se arrastar… Não desisto, eu quero dominar, quero voltar, quero ler, quero escrever, falar inglês posto que não posso aprender nem o russo, nem alemão, nem o japonês, é claro. Voltar para o front / nada de arrastar o tempo. Mudar, acelerar as conversas, conhecer outras pessoas… Está claro? Ou nem tão claro assim, afinal. Mas, podesso tudo, em qualquer idade, em qualquer tempo posso ‘virar a mesa’, plantar margaridas, colher jasmins, e descascar laranjas. Espremer limões… Céus! As frutas, as hortaliças! A berinjela me surpreende. Sentei para escrever sobre o corpo, sobre a vontade, e, estou nas verduras, no pingo da torneira, pensando na roupa que vou recolher, na limpeza. (uauuu!) Que cabeça tão, absurdamente, doméstica! Eu juro que sentei na frente do computador para priorizar uma história, qualquer uma, mesmo a do espelho; pretendia desafiar a imobilidade, arrancar a vergonha, refazer a vontade, deixar acontecer o sentimento. Por que não estou conseguindo? Acordei tarde, é verdade, acabei de beber o café, e, ainda não me decidi do que fazer neste dia, estupidamente, quente. A praia, pois é, abdiquei do mar e do sol (risos) e também de (fazer) ou escrever livros. Ou cadernos coloridos com caneta de tinteiro. Vou deixar para mais tarde, vou reorganizar o quarto, aspirar, limpar, pendurar a roupa, juro que volto. Elizabeth M.B.Mattos – janeiro (ainda) de 2023 – Torres.

segredo simples

Um segredo muito simples: o amor. Tudo o que nos fascina no mundo inanimado, os bosques, as planìcies, os rios, as montanhas, os mares, os vales, as estepes, e mais e mais, as cidades, os edifícios, as pedras, ainda mais, o céu, o pôr-do-sol, as tempestades, e muito mais, a neve, a noite, as estrelas, o vento, todas essas coisas, em si vazias e indiferentes, enchem-se de significado humano porque, sem que o suspeitemos, contêm um pressentimento de amor.

Como fora tolo em não perceber isso antes. Que interesse haveria em uma cordilheira, uma floresta, uma ruína se aí não estivesse implícita a espera. E espera de quê, de quem a não ser dela, da criatura que nos poderia fazer feliz? (p.127) Dino Buzzati Um Amor

vagar do tempo

As crianças. Vivem em um tempo que não se acaba: quanto falta para o Natal?, quanto falta para o meu aniversário? Para eles, o passado não existe, e, o futuro é invisível. E, então, cada dia é eterno. Muitas vezes me detive, sozinho em meu estúdio ou com amigos, a meditar sobre este tema, sobre a diferença entre o tempo existencial e o tempo cronológico: este é igual para todos; aquele, o mais pessoal de cada homem. (p.37) Ernesto Sabato Antes do Fim