segredo simples

Um segredo muito simples: o amor. Tudo o que nos fascina no mundo inanimado, os bosques, as planìcies, os rios, as montanhas, os mares, os vales, as estepes, e mais e mais, as cidades, os edifícios, as pedras, ainda mais, o céu, o pôr-do-sol, as tempestades, e muito mais, a neve, a noite, as estrelas, o vento, todas essas coisas, em si vazias e indiferentes, enchem-se de significado humano porque, sem que o suspeitemos, contêm um pressentimento de amor.

Como fora tolo em não perceber isso antes. Que interesse haveria em uma cordilheira, uma floresta, uma ruína se aí não estivesse implícita a espera. E espera de quê, de quem a não ser dela, da criatura que nos poderia fazer feliz? (p.127) Dino Buzzati Um Amor

vagar do tempo

As crianças. Vivem em um tempo que não se acaba: quanto falta para o Natal?, quanto falta para o meu aniversário? Para eles, o passado não existe, e, o futuro é invisível. E, então, cada dia é eterno. Muitas vezes me detive, sozinho em meu estúdio ou com amigos, a meditar sobre este tema, sobre a diferença entre o tempo existencial e o tempo cronológico: este é igual para todos; aquele, o mais pessoal de cada homem. (p.37) Ernesto Sabato Antes do Fim

desapegar / desatrelar

Desapegar parece despedir-se antes do fim, largar antes de ser largado, resolver antes de virar problema. E vamos nos desfazer para simplificar supondo que a vida fica mais leve. Ir e vir se resolve fácil – uma filosofia atual, tão sem alma…

Estou a pensar nisso e me surpreendo, sou tremendamente apegada, apegada às coisas, ao estilo, ao tudo, e a todos: detesto pensar que tenho que deixar ficar / soltar para seguir. Ah! Se eu pudesse teria guardado tudo: os pedaços, o todo. As bonecas, os copos, as flores secas nos livros, a lembrança, eu teria tudo de antes, e o de hoje.

A música não toca igual sem discos de vinil, canecas não substituem xícaras… Uma essência se perde quando temos que escolher. Se a água fosse de fonte, se o amor pudesse ser parar sempre, se o namorado namorasse sempre, e o marido, o amigo, o tempo… Se ninguém, nem coisa nenhuma se identificasse com a passagem, se tudo fosse permanente… E liberdade fosse mesmo o sentido inteiro / sem divisão. Se não existisse ontem, mas sempre hoje:

se estivesses aqui

eu seria

eu seria

eu seria

a chuva e o sol. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres, e, não precisaria me reinventar, ou te imaginar, seríamos. Nem escolher isto ou aquilo, aquilo ou isso. Tudo emaranhado! O tempo todo misturado.

A MEMÓRIA está grudada /colada no APEGO

odor

cheiro / odor, que sejam perfumados… o cheiro define, descreve. a minha imaginação aguça depois do cheiro… é o caminho que eu percorro, o sentimento que guardo, o vísivel para mim. tudo o mais funciona no rastro do cheiro. e as roupas, os pertences guardam / seguram o cheiro da pessoa. O cheiro tem formas definitivas, perfeitas ou imperfeitas. não preciso tocar para saber, pelo cheiro tenho o todo. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres

51

Escrever para contar / dizer / fixar o que nunca aconteceu, nem acontecerá e está ali, derramado diante dos olhos como a nossa experiência, a vida que se alarga, “vida” no sentido narrativo…, pois é assim, escrever: derramar. A infância, bem como a memória, fontes de erros, enganos, ilusões. A imaginação é descaminho e confusão. Dor e envelhecer perfumam o agora, com um colorido inusitado, cheio de sol, sol de verão. E nada altera o sentimento de pertencer / depois perder / doer e depois doer / doer. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres

52

A solidão tem ideias próprias, trajetos certos, conclusões absurdas. Não posso mudar, eu desconverso, finjo não ver nada, escuto música. Procuro pessoas, converso, dou risada. Não adianta, ela me espia, incrível, como insiste! Nem no sono ela me deixa: segura, agarra, e se explica. Não respondo. Igual, ela não vai embora, insiste. Ah! Estas coisas de não estares em casa…. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres

iludida / iludido

o passado nunca está resolvido, se envolve com o futuro. o agora se remexe entre os dois: alarga, abafa ou afasta. Um agora ansioso que espia o amanhã, o tal de futuro. sopa de ervilhas com torradinhas é coisa do inverno, do frio. como faz calor! eu invento cada coisa! um sabor de infância, talvez. somos iludidos. completamente iludidos… Beth Mattos

possiblidade de uma urgência

Regávamos o gerânio esquecido desde o domingo passado; mudávamos um quadro de lugar; examinávamos contas domésticas, estávamos de volta, juntos, marido e mulher. Mas, logo, recomeça a clausura: necessidade pessoal… ah! esta vida que deve ser a dois se parte por qualquer detalhe. Beth Mattos – janeiro – 2023

amanhã é sempre melhor

Amanhã é sempre melhor“me diz ao telefone Oracildo (quer a escritura do apartamento de Torres que está travada com o meu processo de divórcio com J.O.D.), e, acabamos comentano o ano difícil: da política, da sobrevivência mesmo, do Não francês e do nosso possível Não ao Lula.

Conseguiremos?

E eu extrapolo o sentido comum de estar viva: quero respirar /sentir o odor das rosas e ver os sabías, os beija-flores e ter luz, mais luz entrando pelas janelas. Ainda estamos com sol e calor. Coisa mais estranha esta nossa temperatura mista, embro do FHT comentando/dizendo e brigando com o descuido do mundo, descaso das pessoas. Logo estaremos sem água. O esmo serão sempre os mais necessitados, não os que gastam água deste jeito impróprio.

Coisa espremida é viver! Vamos caminhar, de mãos dadas, tomar/ocupar as calçadas para dar/fazer coragem àqueles que se escondem em casas fechadas, fecham-se no medo. Não ao medo.

Se não temos mar, temos o lago Guaiba, e, um pôr de sol, único, dizem especialistas. Árvores e calçadas limpas. Verdes sombreados de jacarandás floridos. É verão.Temos possibilidades, amor. E alegria lacrada na música, na dança, nas letras (a,b,cd, ou dó, ré, mi, fá, sol). Temos casa (lugar privado para nos encolhermos, e ou recriarmos cada dia, o dia de amanhã) e o nosso cheiro dentro delas. Temos as pequenas ou grandes alegrias misturadas, num chinelo velho, num pedaço esquecido de alma que corre atrasada…

Nada de choramingar. Alguém cita Maria Alcoforada, Cartas de Amor, menciona a controvérsia do livro, Ponho-me a rir! Sim, os assuntos precisam brotar de algum lugar. Deste livrinho que eu gosto tanto, brota porque se encaixa nos pedaços, os mais completos, pedaços de Beth, a tal moça retira pra sua coluna os Hélas! Proliferam para dar sentido/recado às reclamações e gemidos femininos. Estes precisam diminuir. Estou incluida? Estou. Chega de chorar. Mas o meu caso não é hélas?!

Soluções. Acordei querendo soluções. Terrível!? Não sei. Bem que tu poderias estar aqui comigo para me ajudar: de onde vem este apelo? Imobilidade emocional, preguiça? Medo? Onde /aonde estarei encaixada? Aliás, as caixas necessárias. O psiquiatra Lang nos explica da impossiblidade de nos livrarmos delas. Uma vez criandas somos condicionados as famosas caixas, caixas dogmas, numa mais saímos delas; pulamos de uma para outa. Ou somos como as bonecas russas, exatamente iguais, tamanhos diferentes, uma dentro da outra, e morreremos iguais ao primeiro olhar-espelho. Uauuu! Eu preciso crescer antes dos sessenta anos, antes da aposentadoria. Antes. E preciso resolver tudo:: o jardim de margaridas tem que existir. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 -fragmento de uma velha carta para PHF, /quase atual, como todas as cartas: espelhos.