a impressora carimba, o jornalista fala

Lembram dos códices? Pois é, essa máquina pega a folhona de papel. dobra no lugar certinho, fazendo o que a gente chama de caderno, depois pega todos os cadernos, cola e costura bem bonitinho e corta. Até só colocar a capa e o livro está pronto pra todo o mundo ler, ou pra todo mundo escutar!

Tenho a sensação esquisita, uma vontade enorme de acordar o FT e a velha guarda / aqueles…e perguntar se é mesmo assim que se faz. Os jornalistas não dão a notícia, fotografam alguma coisa e se divertem na interpretação, constantes eu penso,/ eu acho, / eu imagino, ou deve ser assim, talvez , quem sabe, vamos aguardar. Bem, mós vamos todos aguardar, o temporal, a seca, os raios, os trovões, aquela voz do fundo do porão, deve dizer mesmo alguma coisa, por enquanto não escutei nada…ah! vamos aguardar! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres / bem cinzento por aqui.

conversas memória de leitura e dúvida

Afinal, não encontramos a resposta – há um vento de inverno – há uma distração e há um /o desejo de voltar ao começo: não se pode apenas seguir -, estarei cega, outra vez sem enxergar… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres (ler pode ser voar, e lá em cima, não saber voltar – ou voltar, e cair)

G.D.: Se se considera a situação atual, o poder possui forçosamente uma visão total ou global. Quero dizer que todas as formas atuais de repressão, que são múltiplas, se totalizam facilmente do ponto de vista do poder […]

M.F.:E Max e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, investida em toda a parte, que se chama poder. […] Existe atualmente um grande desconhecido: quem exerce o poder? Onde o exerce? Atualmente se sabe, mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e onde ele se reinveste, mas o poder… Sabe – se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de ‘classe dirigente’, nem é muito clara nem muito elaborada. ‘Dominar, ‘dirigir’, ‘governar’, ‘grupo de poder’, ‘aparelho de Estado’, etc… é todo um conjunto de noções que exige análise. […] Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.” (p.74-75) in Microfísica do Poder – Conversa entre Michel Faucault e Gilles Deleuze

luxo

ser feliz pode ser mesmo um luxo! e as escolhas? sem escolhas, apenas seguir e recomeçar! esquisito isso, recomeçar e olhar / ver / enxergar, sem ilusão, o real! Elizabeth M.B. Mattos – ainda não terminou setembro, apenas começo. Outra vida. 2022 – Torres

d e v a g a r

lento, lento…,a tarde e a noite, toda a manhã devagar: espero, não sei o que espero. ironia não saber. não posso explicar a explosão, pode ser apenas ausência. devagar. uma dor não definida se espalha, deve ser medo, ou a visão, ou o desânimo. percepção, encantos e espantos para rimar, e deixar passar, devagar… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

Foto – Marina Pfeifer

segredinhos espalhados

tem uma beleza, uma plenitude plena / uma beleza perdida, florindo e achada no olhar da felicidade desavisada / um domingo com todo o sol que tem direito, e todas as flores que já explodiram, e toda a calidez possível….

felicidade alegria que salta da vontade; e se manifesta enfeitada com as amoras e as pitangas, aos punhados: com todas as possibilidades possíveis: os segredinhos apertados nas mãos . A vida respinga por todos os lados: predisposição / encantos e espantos… vamos festejar! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

e preciso acompanhar os tempos

” O que era mesmo que eles queriam mandar para o diabo? A experiência. Aquela experiência pessoal, por cujo calor da terra, por cujo realismo, o Impressionismo se apaixonara há quinze anos, como se fosse uma planta miraculosa. Agora diziam que o Impressionismo era lânguido e confuso. Pediam controle da sensualidade, a síntese intelectual!

Síntese para eles seria o contrário de ceticismo, psicologia, análise e dissecação, em suma, das tendência literárias dos seus pais? Até onde se podia entender, não falavam num sentido filosófico: o que compreendiam por ‘síntese’ era antes o anseio de seus jovens ossos e músculos desejosos de movimento livre, saltar e dançar, recusando qualquer estorvo de crítica. Quando lhe servia, não hesitavam em também mandar a síntese ao diabo, junto com a análise e toda a reflexão. Então afirmavam que o espírito tinha de ser estimulado pela seiva da vida. Habitualmente eram membros de outro grupo que afirmavam isso; mas às vezes, naquele fervor, eram os mesmos.

Que palavras fantásticas usavam! Exigiam o temperamento intelectual. O estilo de pensamento rápido, que salta ao peito da vida. O cérebro do homem cósmico. O que mais ele escutara?

A reformulação do homem dentro do plano de trabalho mundial americano, através da força mecanizada.

O lirismo aliado à mais intensa dramaticidade da vida.

O tecnicismo, espírito da era da máquina.

Blériot – exclama um deles – estava naquele momento flutuando sobre o Canal da Mancha numa velocidade de cinquenta quilômetros horários! Era preciso escrever esse poema-dos-cinquenta-quilômetros, e jogar no lixo toda a literatura mofada.

Exigiam o acelerismo, o aumento máximo da velocidade das experiências de vida através da biomecânica esportiva e da precisão acrobática!

A renovação fotogênica através do cinema.

Depois, um deles dissera que o homem era um misterioso espaço interior,[…]Alguém disse que era preciso olhar para dentro da alma humana, para fixá-la em três dimensões. E alguém fez a pergunta agressiva e de muito efeito: afinal, o que era mais importante – dez mil homens famintos ou uma obra de arte?” (p.287-288) Robert Musil O Homem sem Qualidades

É preciso mesmo olhar para trás / é preciso apressar o passo para não sermos atropelados pelas vaidades pululantes e exacerbadas, é preciso atenção porque ainda existem lobos, e nossas defesas nem sempre estão atentas, e somos devorados por falta de de energia – é preciso recuar para poder dar o golpe final. Cuidado com vaidade doente porque camufla essencialidades, é preciso paciência para entender, argumentar e ampliar, dar lugar para…, ceder o espaço, não por hierarquia, mas por serenidade. Vou atropelando a história, secando as feridas, tapando os olhos, sorrindo, sem sarcasmo, abrindo espaço os reis que se coroam eles mesmo, como Napoleão! pobre Imperador! Esqueceu do inferno gelado que a Russia guardava para recebê-lo! Não é um duelo, é a própria história que define os vitoriosos. Assim, meus filhos, lutem, todos os dias, durmam durante a noite e ao acordar, estejam vigilantes. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres – sábado de muito sol, muita luz, uma primavera colorida se prepara – que venha!

coisas q Flaubert pode dizer

Afinal os sentimentos são assim mesmo, exasperados, enroscados no momento – hora marcada; por mais que possa me esconder ou fingir coragem, sou absurdamente apavorada, e, medrosa e inquieta: resposta? As costas, os braços, as pernas doem, reclamam… Dúvidas e perturbações e raiva da impotência. Com certeza. Preciso chegar, mas não sei exatamente aonde, nem em qual momento eu me sentirei, outra vez, apenas alegre… Estes sentimentos importam, e a confrontação não é um bom ringue…, preciso do lugar certo para ser desafiada? Ah! do calor cálido do azul, ao cinzento gelado e conturbado! A fragilidade de ser pessoa vai se cristalizando. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

“Croisset, terça

17 de junho, 1856

“[…] Comportei – me como um tolo o fazer ao fazer como os outros, indo morar em Paris, querendo publicar. Vivia numa serenidade de arte perfeita quando escrevia só para mim. Agora estou cheio de dúvidas e perturbações, e estou experimentando uma coisa nova: escrever me aborrece! Sinto contra a literatura o ódio da impotência.”(p.159) Gustave Flaubert Cartas Exemplares

o feio e a beleza

A beleza se esconde na doçura e na bondade – onde a paz acalma e os olhos enxergam / veem…, Conceitos complicados, inadequados. E o feio? A injustiça é feia. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – vou plantar letras arredondadas, nomes sonoros, e me embalar nas teclas do piano, nas cordas do violão, na comida feita em casa, e na alegria da primeira infância quando os primeiros passos, a primeira palavra ilumina a casa –

de noite

Antes de cair no sono ontem à noite, ordenei à minha mente subconsciente que se lembrasse, ao despertar, do último pensamento em minha cabeça – e deu certo. Sonhei contigo e voltei correndo pra ti…

voltei ao Rio de Janeiro, 1973 – tanta vida, tão pouco tempo, 1974 ficou tão completamente diferente!

em fuga, um exilado

“Quando eu estava pintando um quadro – ele explicou – achava que deveria estar cuidando da minha conta bancária. Quando estava cuidando da minha conta bancária, pensava que deveria sair para uma caminhada. E quando, no meio de uma longa caminhada, chegara a três quilômetros de casa, concluía que deveria estar, naquele momento, diante de meu cavalete. Estava constantemente em fuga, um exilado em todos os lugares.” (p.26) Isak Dinesen (Karen Blixen) SOMBRAS NA RELVA

o curioso de pensar o tempo todo, de fazer tanto isso ou aquilo pra segurar a inquietude se transforma numa mesma coisa do nada

quanto a escrever? o que pode ser? já foi dito tanto de nós mesmos que duvido, agora, de tudo

teremos chance de aplaudir o novo, ou voltaremos, em outubro, para o mesmo do mesmo que nos trouxe desconcerto

não consigo pintar uma tela num único dia, nem terminá-la em quatro anos, já tentei doze anos, passei tinta óleo, raspei, recomecei, e não consegui / voltar aos mesmos pincéis, gastos, endurecidos, parece incoerência…

um novo desenho, por favor! tenho pena de mim!

o texto de Karen Blixen volta / gira /refaz a vontade: errar e desconcertar querendo…, o novo: não sei o quê nem como.

preciso parar para me concentrar / um projeto, preciso de um projeto. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres – fora do exílio, em casa outra vez