“A vida é rica combinação de necessidades, desejos, aspirações, ambições, ideais, paixões, amor e entusiasmo que surgem em várias medidas e diferentes versões naturalmente dentro de nós. A vida é uma explosão de significados. Alguns projetam o significado da vida fora de si mesmos e ficam desapontados ao perceber que havia algo ilusório em esperar que o significado viesse de fora. O propósito da vida é abordar com uma canção qualquer coisa que encontramos pela frente.” CarloRovelli, na entrevista, cita o livro de Gabriel Garcia Marquez Amor em Tempos do Cólera (adorei ler este livro), e explica: “Livro com graça e luz que retrata as muitas formas de amar e partilhar com um olhar que sorrir diante de toda essa complexidade. Uma forma de amor é a lealdade da personagem Firmino Daza ao marido. Outra é a intimidade e a amizade de Florentino Ariza com dezena de mulheres. Mas este amor absoluto entre ele (Ariza) e ela (Daza) é uma bela forma de amor que foi venerado e valorizado por décadas até que conseguiu florescer de forma maravilhosa quando os dois já estavam mais velhos.
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inexplicável
“O tempo corre em velocidades diferentes para pessoas diferentes.”
A noite invertida se esconde. Inexplicável hábito: não estar no lugar certo/ no hoje. Fugir do tempo num tipo certo de jogo… Tabuleiro de xadrez, mas não sei jogar! Desnecessário! Desnecessário. Os culpados (se é que existem) de sermos do jeito que somos, nós mesmos. Perdidos a andar/caminhar/ procurar no escuro, tateando. Acomodados (ou desacomodados) com estranhamento. Também com irreverentes fantasmas. Neurose do fácil e certo conhecido. Ser quem sou neste personagem inventado não resolve desajuste, não funciona. Nunca serão resolvidos complicados sentimentos. Pelo/através do mais confortável… Inexplicável apaixonar – se. Estou apaixonada. E neste estado desafiador do encantamento, estremeço. Encantamento estarrecedor das palavras, às cegas. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

“Viajar ao passado é difícil, mas viajar para o futuro é muito fácil. Faça o que fizer você está viajando para o futuro. O amanhã é o futuro hoje.” Carlo Rovelli
esperar
intimidade imaginária
Lugares e situações. Fugas. Penso que ser difícil sair do canto e caminhar, caminhar. Surgir, aparecer, voltar. O canto parece ser o lugar dos lugares, o perfeito. Para sair é preciso enfrentar quem somos, e o esforço para redesenhar reinventar um EU pode ser batalha dura. Que o desejo de amar empurre a vontade! Num prazo de afeto, carinho e paciência explodirá uma nova pessoa. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres
“Mas não apagamos tão facilmente as situações de lugar. Acreditamos que em toda a retirada da alma existem figuras de refúgio. O mais sórdido dos refúgios, o canto. Recolher – se no seu canto é, sem dúvida, uma expressão pobre. […] quanto mais simples é a imagem, maiores são os sonhos. […]assegura o primeiro valor de ser: imobilidade. Ele é a certeza loca, o local próximo da minha imobilidade. O canto é uma espécie de meia-caixa, metade parede, metade porta. […] A consciência do ser em paz no seu canto propaga, ousamos dizer, uma imobilidade. A imobilidade irradia – se. Um aposento imaginário se constrói em torno de nosso corpo que se acredita bem escondido quando nos refugiamos num canto. As sombras logo são paredes, um móvel é uma barreira, uma tapeçaria é um teto. Mas todas essas imagens imaginam demais. É necessário delinear o espaço da imobilidade fazendo dele o espaço do ser. Um poeta escreve este pequeno verso: Sou o espaço onde estou (Noël Arnaud)” p.109) Gaston Bachelar A poética do Espaço
Fotos desenham, elas também, o esforço de ir adiante, vencer o obstáculo. Sair do canto para saber a vida. Chegar…


o passado de hoje

Criar / recriar/ desenhar o passado, voltar no tempo, tem qquer coisa de terapêutico, e dolorido. Alguma coisa a consertar, ajustar. E nem sempre a resposta, ou a ordem prevalece, ainda o vazio. Depois eu me pergunto, existe mesmo este passado do jeito que revisitamos? Somos assim mesmo, desconfiados… qdo eu “volto” tenho a impressão que nunca captei a viagem/passagem, esta coisa de um dia depois do outro.
Acordava cedo para assistir a missa, um ritual meu. Não éramos obrigadas. Os anos de internato definiram a vida: um mundo organizado, bonito, ritualístico e seguro. Algumas internas choravam saudosas de casa, e nunca se ajustaram. Eu não senti saudade de casa. Ou (pensando bem) senti sempre e tão intensamente que esta saudade ativada desde sempre me deixou no passado, e não existia nenhum outro para voltar. Um passado que não vivi, nem conheci, mas desejei… Escrever sobre a rua Vitor Hugo. Colégios e calçadas, aventura continuada… Minha grande viagem pelo exterior foram estes 4 anos no Internato. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres
alguma coisa fora do lugar
Cabelos escorridos. Lavanda espalhada pelas camas. Uma ordem bem a gosto da desordem habitual. No espelho aquele olhar aflito, inquietude. Tempo virado, eles dois perdidos, ou seriam eles três? Foi no final daquele ano, definiram a resiliência, não se embalariam em/por conversas acidentais. E agora esta desordem no remexido idílio. As leituras não aplacam, nem o gosto de outono invernoso. O cinzento tão do meu agrado! As decisões rompidas. E já faz tanto tempo que o dia se fechava produtivo, altivo. O jardim remexido por inventivas colorações vingava. Céus! Como acertar a pontuação, aquietar os ânimos e alcançar o que eu chamaria de produtivo, estamos perdidos nestes beijos demorados, molhados e ininterruptos. Os olhos parecem arder. As roupas me apertam. Emagrecer. As pernas doem, mais exercícios. As mãos precisam de cremes poderosos, os pés apertados no sapato desconfortável. Onde se esconde o meu senso de responsabilidade, ordem e precisão?
Desceu do pavilhão dos quartos arrastando os passos. Os ônibus das externas e semi-internas não estavam no pátio. As Madres se movimentavam ventilando as salas. Hoje a professora de francês daria suas sonolentas e cansadas aulas. Será que eu trouxe o livro de Gide com aquela carinhosa dedicatória da Lúcia! E a encadernação tão bonita! Detalhes do afeto. Acho que estes toques de mágica afinidade me fazem falta. O caderno azul do diário. A lua esteve tão bonita ontem a noite! Demorei para conciliar o sono. Tenho uma pesada preguiça, estou com olheiras. E os lápis de cor para a aula de desenho!? Sem vontade de conversar atraso um pouco o passo. O burburinho das vozes já subia devagar, estavam todas elas com seus aventais impecáveis, o meu tem sempre uma mancha de tinta no bolso.
Lembranças misturadas, afetos comprimidos no espaço de lembrar: sentido amor, vontade de respirar. Foi assim que aquela menina entrou na sala, curiosa, linda e gentil sem gostar de ser gentil. Rebelde. Experiência carinhosa, o sempre. Extraordinário viver. Aquelas trocas engraçadas de escola, do Grupo Escolar ao Colégio Santa Inês na Avenida Protásio Alves; poderia ter sido para sempre, importantes colegas, como a Maria do Carmo com quem a dividia merenda, a dela sempre era a mais gostosa. Vestígios de cuidado e carinho. Num lapso, lá me fui para o Nossa Senhora das Graças choramingando o internato que não recebia meninas de Porto Alegre. Eu consegui e foi conquistar independência organizada. Não é esquisito isso! Queria tanto!
Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2021 – Torres
alegria de amanhã
“Maldito sejas tu, se dizes que és infeliz porque desejavas uma felicidade diferente da que tens… O sonho de amanhã é uma alegria – mas a alegria de amanhã será outra – e nada felizmente se parece ao sonho que se teve, porque cada coisa tem o seu valor diferente.“(p.216) Roger Martin du Gard cita André Gide (Frutos da Terra) no livro Os Thibault.
O que completa a citação da página 212 do mesmo livro, Os Thibault, ainda Gide: “Ousadamente lancei mão de cada coisa e me criei direitos sobre cada objeto de meus desejos…“(p.2012)
Então, eu me encolho um pouco, feliz e tomo toda aquela alegria de ser desejada num gole apenas, mesmo que a fantasia e o tempo nos afaste, eu me autorizo a ser feliz no meu pequeno/voluntarioso desejo. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres https://amorasazuis.com/2021/05/23/vantagens/
Ler e escrever ou se apaixonar ou trançar amizade e confiança, tesão, encontro desencontrado, caminha/vai/se atira na releitura dos livros lidos e amados, também no tempo… É confiança intimidade e segredo. Um passo, um passo no nosso pequeno caminho. Beth Mattos

Ana Maria M. B. Vianna Moog – maio de 2021 – Praia da Cal – Torres
Daphne du Maurier
Tantas vezes falei / contei / escutei e supliquei…, depois de gastar o que tenho, depois de mendigar, vou atrás da palavra / dos dizeres já dito, explicar.
“Falta-lhe confiança; a não ser que lhe incutas. No caso dele tu é que tens a responsabilidade, querida. Que foi que disseste?…Oh! Só o tempo mostrará. Para nós não foi assim? pois então! Onde estarias tu sem mim, e eu sem ti, querida? Claro que há que ter tenacidade. Foi o caso de muitos, foi o teu, foi o meu…Só há duas coisas que importam no mundo inteiro; tu me ensinaste isso. Talvez nos tenhamos ensinado, mutuamente… Quando tudo mais falha, resta o trabalho. Pelo menos isso incutiremos nos três…(p.82)
E depois, meu querido, somos os anos que passaram, voamos como o PATO JUCA. Chega manso o que Du Maurier escreve:
“Fechou os olhos e estendeu os braços; e foi como se uma grande onda de calor subisse do chão e a tocasse; havia um cheiro de terra e de musgo; sentiu o aroma dos gerânios do jardim, atrás dela. / Teve uma sensação de felicidade. Uma sensação que veio de repente e que a envolveu, sem nenhuma razão. Vinha da boca do estômago, subia – lhe até à garganta, quase a sufocando; e não sabia nunca por que era que lhe vinha tal sensação, que era que a ocasionava, por que motivo acabava logo tão depressa quanto nascera, deixando – a ofegante, curiosa, feliz ainda, mas não mais em êxtase.” (p.83) Daphne Du Maurier Os Parasitas

Juca Pato nunca teve uma existência de carne e osso. Foi um personagem criado pelo jornalista e caricaturista Belmonte -nascido a 15 de maio de 1896 com o nome de Benedito Bastos Barreto, na Liberdade, bairro de São Paulo.
Pato Juca

“Soube que no passado houve um pato chamado Juca. Morava numa lagoa linda. Um caraterística especial: voava para trás. Único e inigualável. Lembrei de te apresentar a ele […] Outra razão, não menos importante, linkada no nosso pato aí atrás, é sugerir que, sem desafiar o relógio que vai sempre andar para a frente e será frustrante, empreendas voos para trás em todos os horizontes: do físico, do emocional, dos tabus… as pedras dos mandamentos, símbolo da humanidade cristã, foram quebradas e restauradas a novos costumes. Segue o Pato Juca. Voa para trás como uma fonte de sabedoria e experiência. Brilha. Despe vestes pesadas e aprisionadoras. Curte a plenitude que quem por ser UNICO sabe voar para trás.
Sou apaixonado pelo Pato Juca desde os 6 anos de idade. Acho que fazem 66 anos. Me esqueci de te dizer que ele sofre ameaças, dos que também moram na mesma lagoa. Os jacarés Alcides e Héracles. Ambos querem jantar nosso Pato Juca. Eles são conhecidos pelo codinome TEMPO.
Pato Juca segue lépido, ÚNICO e jovem. Já os jacarés… estes lagarteiam ao sol e se tornaram vegetarianos… o ÚNICO nocauteou o TEMPO.” JMCLKYZ (maio de 2021)
Preciso das tuas histórias. Preciso do teu tempo. Preciso desta alegria. Das tuas caminhadas. Das tuas idas e vindas. Do desaparecer, e depois chegar num repente. Deste tudo que me dás, desta alegria de viver. Das tuas cartas, deste teu jeito. Dos teus castanhos ‘olhos azuis’. Beth Mattos maio de 2021 – Torres – na beira da Lagoa do Violão
O nome dado originalmente a Héracles foi “Alcides“, em homenagem a seu avô Alceu, pai de Anfitrião. O nome alternativo de Héracles (que quer dizer “À Glória de Hera”) foi uma tentativa sem sucesso de apaziguar o ódio de Hera, louca de ciúmes pelas infidelidades do marido.






Lagoa do Violão – Pato Juca
não tens olhos azuis
Quereria se pudesse querer, quereria te amar de amar. Quereria te ver… Inventei vento, chamei palavra: apreendi a me despir, vestir. Pintar a boca, desenhar os olhos, puxar o cabelo. Dancei. Troquei flores de lugar…Desarrumei a cama, inclinei o corpo. Consertei o tempo, fiz preguiça, aprendi amornar o leite, fazer o chá. Abracei o cheiro do teu corpo. Entendi o disfarçado e guloso olhar… Apago vírgulas, retiro reticências, abro parênteses, deixo exclamações. Não tens os olhos azuis. Nem encabulado jeito de tocar… Recuo. Já sei, não vou / não posso nascer outra vez / pensar outra vez. Começar recomeçar. Riscar, apagar… Com certeza também tu inventaste / imaginaste a leveza de ser e não ser: o limbo. Somos a brincadeira de gostar / de querer desejo… Teus olhos não são olhos azuis. Eu não tenho olhos azuis… Não sou eu, nem és tu. Não somos.
Saudade sinto de ti, meu querido! Aquele aperto com lágrima de chorar, despejo na floreira. Toco piano, pincelo verde, esparramo vermelho, o azul, não tenho. Fecho o sol. As escalas se repetem organizadas. Escrevo histórias perfumadas de tristeza. Apenas hoje, eu prometo. Amanhã volto pra mim… SAUDADE daquela esquisita dependência de só te querer.
“Só os míopes conhecem o contraste prodigioso que existe entre a visão confusa e a visão nítida”
Tu e eu, nós dois na embriaguez… lentes invertidas, perdidos anos. Vontade louca de… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

