Existe rotina desorganizada? Beth Mattos se chama o processo, solidão povoada, conversas intermináveis, nunca conclusivas. Silêncios prolongados, céus! Não se pode querer tudo, no meu mundo (como diz Alice) tenho tudo, ou tenho nada, mas agito a memória! E apreendo, aprendo sem decorar/esquecendo, escrevo notas mentais…Detalhes curiosos! Eu vi, eu rabisquei, eu procuro, eu encontro, eu lembrei. Eu. Hoje estou a comemorar estes feitos. Agradecer aos filhos que me cutucam, falam, espreguiçam, querem saber, e longe, tão longe! E aqui ao meu lado também, socorrem. Todos a minha volta, numa roda de azuis, de alaranjados, iluminados como os netos: sinto conquista. Acho que estas sensações são a tal felicidade. Em/ no meio estrangulado da pandemia, ânimos acirrados, e, de tanta controvérsia…Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2021 – Torres, menos frio
“No íntimo de toda alegria há uma presença” Paul-Eugène CHARBONNEAU
Eu leio e me pergunto: como sobrevivo sem a minha “presença” necessária…, sem os companheiros perfeitos/e os perdidos. Uso o plural, não tive a plenitude nem a grandeza, aquele encantamento de um único / certo amor…, não lamento, mas constato. Fico a me dividir e a me recriar, imagino, invento prazer de amar de amor, e esperar…,ou a me encantar com a luz, com o escuro, com a xícara preferida, ou a carne mal passada, depois o assado no molho de vinho. O frango. Legumes cozidos, e coloridos. Fico a me reinventar no amor redescoberto, fiel ao grande encontro, as violentas paixões. Alegria: incontestável felicidade, o encontro de gente com gente, o desenho acastanhado nos avermelhados do mundano, o inconsequente. Eclosão do coração: alegria de transbordar, palavras que se cruzam, advertências e desencontros fazem girar o mundo…, pois é. “Verdade que cada um de nós está só no mundo, mas jamais estarão sós dois seres que se encontram sozinhos na profundidade de seu mistério. Eis por que são conduzidos pela alegria.” (p.17) Charbonneau A crônica da Solidão
E num repente a chave: solidão indispensável: fortaleza que protege a fraqueza. E volto aos pequenos afazeres agarrada na rotina. O pequeno trabalho, a festa de todos os dias: eu comigo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2021 – Torres – …,às vezes, estar/partilhar/conviver e estabelecer/determinar/ escolher o amarelo certo meio as galhadas verdes e o brilho rosado me desarruma. Nadar, saltar, correr, superar. …importante, como escolher a roupa certa, embelezar o corpo, cuidar o prazer já é competir.
Deixo acontecer encolhida, alerta: não interfiro, por um tempo… Depois escrevo/escrevo bilhetes, cartas, pondero. Será que ele quer descobrir como eu reajo a certas ideias de resiliência? Ou ele deixou implícito que quis compartilhar seus tesouros comigo, aquelas formas tangíveis diante de nós como evidências de força e confiabilidade, mas, simultaneamente, surgiram os tesouros intangíveis e imensamente mais fascinante…, e estes não podiam ser dividivos.
Qualquer que fosse sua ideia, eu queria então, como de outras vezes, condescender, queria retribuir, da forma mais discreta possível, a cortesia que ele me fazia de forma tão sutil. Se aquilo era um jogo, uma espécie de meio indireto de descobrir algo que talvez o guardião ou censor de meu inconsciente estivesse ansioso para me esconder dele, bem, eu farei o possível para participar desse jogo, este jogo de adivinhação ou o que quer que fosse.
Assim mesmo, passado, presente, pretérito ou futuro, ou nunca, ou um risco, ou um “assim eu sou” silêncio – invento, respeito, apago, recomeço, invento outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2021 – Torres
Em meio a folhagem escura está aquele brilho dourado dos frutos. E o rio se encontra com o mar, e toda aquela areia… Palavras se encontram, umas com as outras, num alarido festivo, mas ainda faz frio. Conheces a casa, não é mesmo? Apenas não me reconheces com estas meias de lã enroscadas nos calcanhares. Sou eu, sou eu neste inverno torrense. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2021
Toda a energia e toda atenção para não desanimar. Com certeza amanhã farei uma caminhada até o mar e verei o frio rolando na praia e colorido. Beth
“Acabo de terminar uma nova tela que tem uma aparenciazinha quase elegante, um cesto de vime com limões e laranjas – um ramo de ciprestes e um par de luvas azuis – você já viu cestos de frutas meus assim… Ora fundir suficientemente depressa esses dourados e esses tons de flores não é qualquer um que faz, é preciso toda a energia e toda atenção de um indivíduo inteiro.” Vincent van Gogh
Como serão as conversas daqueles que não gostam de ler, nem de filmes, nem de passear como eu gosto, ou não gosto do que se faz todos os dias, inventam? Tô com inveja. E não ter automóvel? Nem andar de bicicleta? Nem trabalhar… Estou errada quando pergunto? Estou azeda hoje, com vontade de não ser Eu e ter escolhido outra Beth. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres
uaiiiii! Inquietudes: altos e baixos de envelhecer, e rasteiras de memória, ou da desordem. Encontros surpreendentes na geladeira, dúvidas depois, exercício de sol na calçada. E a Ângela, uma boa e completa amiga, ouvinte de memórias velhas, e de repente, vivas: balsas para chegar, ou a rota da praia com incertezas. Todas / tantas dunas de areia desaparecidas: primeiros verões. Ângela Barcelos e nossas pequenas caminhadas. Obrigada Beth Mattos
“O tumulto é fundamental, é o sentido deste livro”. (Interrompi aqui a leitura e me distraí a pensar no tumulto -, alguma coisa pessoal minha me atormentando, mas segui a leitura, se trata de literatura.) “Mas é tempo de alcançar a clareza de consciência. É tempo… Às vezes pareceria mesmo que o tempo faltava.Pelo menos o tempo urge. (Clareza de consciência?! Hoje, agora, julho de 2021, perdi, completamente, suponho que não entendo nada de consciência, perdi….) George Bataille segue.
“A literatura é comunicação. A comunicação exige a lealdade: nesta visão, a moral rígida é dada a partir. de cumplicidades no conhecimento do Mal, cumplicidades que fundamentam a comunicação intensa. A literatura não é inocente e, no fim de contas, devia confessar – se culpada. Só a ação tem direito.”
(Outra vez me surpreendi, DIREITOS? AÇÃO?, não estou num bom dia embora esteja azul por aqui, e o frio no lugar certo, mas todos os sentimentos estão desorientados, fora do lugar, e os direitos de ir e vir estão bloqueados por respeito ao outro, ninguém se importa, temos que ir e voltar, chegar, mudar de lugar, comer mais, beber, quem sabe até se abraçar um pouco mais, por que imobilizar? ou eu comigo desajustada, reaja,!!!! culpada, eu ou a literatura?)E segue o texto:
“A literatura como pretendi mostrar pouco a pouco é a infância finalmente reencontrada.Mas a infância que governasse teria uma verdade? Diante da necessidade da ação impõe – se a honestidade de Kafka que não se atribuía nenhum direito. Seja qual for o ensinamento que decorra dos livros de Genet, a defesa que dele faz Sartre não é aceitável. Vistas bem as coisas, a literatura deveria considerar – se culpada.”(p.8 – 9) George Bataille – A literatura e o Mal – Editora Ulisseia – Lisboa / Portugal
Palavras chaves: infância, ação, honestidade, aceitável. Toda a verdade / na infância lembrada ou esquecida, mas…, de qualquer forma perdida. Mesmo reafirmada a infância, estou na velhice. Não reencontro aquele tudo. O festivo. Uaiii,, não resolve. Não hoje, dou retoques, mas nada definitivo, cadê a tal alegria resposta? A rua Vitor Hugo segue / está no mesmo lugar, volto, caminho por lá, estremeço, mas não me reencontro. Hoje estou nublada por dentro, meio sem sentido, azeda. Quero a verdade daquele tempo, daquele inverno severo como este de hoje. Ação. Sem passeios recreativos, mas ação povoada de decisão. Sem futilidade.
E o texto vai mencionar os grandes: Emily Brontë, Baudelaire, Michelet, Willian Blake, Sade, Prost, Kafka e termina com Genet. Uma lista a ser percorrida. Respostas. O Mal e, de certo, também o Bem nas frestas. Escrever pode salvar.
“Esta suprema perspectiva não poderia ter outro sentido senão o de representar a que ponto a vida humana não é mais do que um instante incompleto, porque este gênero de vida (a espera da Terra Prometida) poderia durar indefinidamente sem que nunca resultasse disso outra coisa senão um instante.” (p.185)
E lá vou eu a me enfiar no instante, no agora, na Terra Prometida, na reza. Sem alcançar / imaginar, minimamente, a certeza. E cheia de rancor, de coisas azedas. Perversa e desagregada…, sem dizer, nem pensar. Será que a esperança vai me agarrar? Ou vou me perder numa fotografia, numa frase solta, ou num péssimo filme. Caminhar, caminhar salva. Vou dar mais uma volta e na calçada, olhar para os lados…Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres
Saber a hora certa, ou fazer na hora certa. Definir o certo e o errado, sair do evidente / do objetivo – céus! difícil. E pensar e dizer, escrever vai…, não vai / não acontece, não se reinventa nem se sacode. Espio pela janela, o sol bonito, eles saem, inventam, fazem, por que estou imóvel? Beth Mattos
Frio intenso: agora chuva. Vento assobiando, na calçada da lagoa, três homens / saindo do trabalho / casacos precários, se abrigam aqui, na aba do edifício / encolhidos. Esquina escura e gelada. Sinto um aperto por dentro. Está duríssimo este inverno gelado. Que dure pouco. Dói! O planeta geme, eu acho…, como estará Porto Alegre?! Beth Mattos – julho de 2021 – Torres – Rio Grande do Sul encolhido no frio.
Lágrimas explodem! A represa arrebenta e toda aquela água leva/arrasta a vitória. Alívio Festa das festas. O ouro saí do mar no soluço da vitória. Que emoção Ítalo Ferreira! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2021 – Torres