estranheza

Tiro/puxo/arranco energia de dentro, lá do fundo do corpo / da mente e deposito noutra pessoa, carinhosamente: o meu sopro ajuda o outro a viver, a seguir. Não sei da verdade absoluta desta coisa de arrancar e colocar/ colar e fazer, mas se é verdade verdadeira, céus! É poder! Claro! E assim fico a imaginar que alguém sopra em meu favor, alguém responde ao meu fervor e sou grata. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres ainda madrugando, sem luz, acho que vou voltar a dormir…mesmo sem sonhar

molengooooooo

Dia molengo, vai escoando distraído, morno o desânimo; e agora a dor da úlcera, das aderências e do corpo e do bombardeamento que me deixa surda. Anestesia, cirurgia, solução e certa paz de recomeço. Não sou aquela que LC se esmerou a descrever. Não o espelho, talvez reflexo e trabalho, tentativa de acertar, e blindada…. Mais maternidade, bastante trabalho. Este quadro de exigências na fantasia me fez rir, o ócio traz este equívoco de avaliação mesquinha. Mas, paradoxalmente, gentil: uma parada no deserto. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres

Segue cinzento

1.

Devo viver para completar o ciclo, contar histórias esquecidas. Abrir pequenos baús. Respeitar meu pai e a minha mãe e derramar o brilho. Eles toleram o homem selvagem com quem me casei. Percebo que o jovem e o poder manipulam a lógica e o sensato. Eles dois se acomodavam na generosidade para suprir o possível daquele sonho espremido do jovem casal. Embora ela esteja cansada e permaneça calada, imóvel, tudo se agita e ferve por dentro em agonia. Os dois carregam histórias erradas, projetos mal feitos. Cabeças limitadas, trancadas na futilidade brilhante de ter mais e mais: desassossego dengoso e carente. Como fruta que amadurece artificialmente, nenhum defeito: falta de sabor. O nada brilhante e colorido, por dentro, esfarelada maça.

Isabel pede mais uma taça de café, acende o terceiro cigarro. Abre uma revista. Afunda o corpo na cadeira com o desespero enfiado, feito faca no peito.

Eles sentam na ponta do sofá. Falam futilês, naturalmente, e os presentes, o avô e a avó, respondem, esperam, suspiraram. O chá o bolo o tempo e o sol acompanham a visita inóspita e formal do jovem casal. No centro da mesa redonda as maças verdes, polidas, se misturavam com as vermelhas, e os limões desenham a festa.

2.

Feijão a moda antiga: panela de ferro. Lenta a fervura, alho bacon, água, pimenta. Louro. Espio a com as panelas cozinha, branca, limpa, e o quadro com as panelas de estanho abrindo a parede. No balcão os temperos. Aquela janela da área entregava a paisagem do Morro, então, estávamos de certa forma num ponto alto de tantos morros. Comecei a lavar a louça e arrumar quando ele veio apressado, a me dizer: “não precisa”, “não precisa.” Seus olhos pacíficos agarraram minhas mão eu lhe dei um abraço quieto de ficar enrolada no afeto. Eu sempre apressada… O relógio sabia que o casal ia se demorar na fome, e eu deveria mesmo voltar para casa numa daquelas urgências cansadas e desnecessários, desorganizadas. Estava feito. ElizaBeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres

vazio do abandono, ao mestre

“Preciso de grandes esforços pra imaginar meus personagens e depois fazê-los falar, pois me repugnam profundamente. Mas quando escrevo algo das minhas entranhas, sai bem depressa. No entanto, este é o perigo. Quando se escreve algo de seu, a frase pode ser boa por jatos […] mas o conjunto falha, as repetições abundam, há redundâncias, lugares comuns, locuções banais. Quando se escreve, ao contrário, algo imaginado, como tudo deve decorrer da concepção e como a mínima vírgula depende do plano geral, a atenção se bifurca. É preciso a um tempo não perder o horizonte de vista e olhar a seus pés. O detalhe é atroz, sobretudo quando se ama o detalhe como eu. As pérolas compõem o colar, mas é o fio que faz o colar. […] Para mim o mais elevado da Arte (e o mais difícil) não é nem fazer rir, nem fazer corar, nem despertar o cio ou furor, mas agir segundo a natureza, isto é fazer sonhar. (p.132) Gustave Flaubert Cartas Exemplares –

As costuras de releituras: apenas argila. Não são matéria, mas o tudo do caldo a ferver. Se desmancham possibilidades…Fico agarrada ao fio das pérolas, e seria o tudo, sem ser nada. Não defino a realidade. Palavras soltas, o sonho daquelas outras, as esquecidas. Não consigo me fixar…, trabalhar, logo desvio o olhar, e, volto a te amar / desavisada. E que sentido tem este vigor/esta vontade? Vou a me encolher menina, e tu cresces homem, não temos caminho, nem jeito. Enfim! Volto as costuras bordadas: pequenos quadrados coloridos, quentes, e firmes. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres

vontades

A vida não pode / não deve ser apanhado de vontades…, num ir de um lado para outro a enfeitar prazeres! Se não tenho a mão decidida para pintar ou desenhar, talvez recortar, quem sabe modelar, e depois enfeitar, rasgar, consertar. Melhor plantar todas as margaridas, todas elas… Terei um jardim atrapalhado de exigências, mais floresta, mais capim…Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres atrapalhadas exigências!

histórias de família

Vontade tenho de me agarrar firme nos nomes dos avós, tataravós, tios, tias, primos, primas e desenhar… / puxar a linha, e descobrir a cor escolhida. Desenrolar as histórias por inteiro / por metades / pelo gosto do pêssego ou pirão, ou pinhão? Aquele assado! Puxa não sei do que ele mais gosta, talvez saiba, mas dela eu esqueci, a escolha / gosto da tia, qual era teu prato preferido? Café. Cigarros e sol: isso eu lembro. O nome define alguma coisa? Um nome coberto por flores, gravado na pedra, um nome de memória / de lembrança gorda presente, perfumada desaparece aos poucos atrás da tempestade de raios e trovões… A sensação de violência na doçura do amor destas lembranças enterradas. Atropelam, apertam. Fiquei insone, atordoada, exausta e sem certezas. Não sou apenas Eu refestelada na minha pequena história arrumadinha de certezas, sou o pedaço que restou de cada um, sou estes retalhos que se desenham na vida deles, e são estes inadvertidos retalhos que definem a minha vida. Pai e mãe não desaparecem nunca, sinaleiros. A pensar que apenas um pedacinho, apenas a mão, ou pode ser o joelho e temos o todo indizível do tudo que sou eu, pronome de duas letras, uma letra, três letras no moi…ufa! Eu me derramo a explicar a história que logo vira estória (gosto desta distinção inventada), transito entre as duas. Esquisito viver! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres – das lembranças de pai, de mãe, de avós, de esquecimento. Das certidões achadas, e das perdidas…, o que fazemos destes amarelados e soltos papéis de registros? Onde/quando nos reunimos para enfileiras a memória?

Flávio Roberto

Esther Ida – as irmãs

Pedro Alexandrino – o pai

Gaston Bachelard – a imaginação inventa nova vida, novo espírito…

Resolvi fazer um novo casamento, aliás, estou neste casar / descasar incansável uma vida inteira. Estarrecida e maravilhada quando alguém conta/narra/descreve uma vida linear, bonita / com fissuras, claro, mas decididamente segue uma única estrada perfeita… jeito de ser / experiência positiva / caráter / personalidade: maravilha. Eu vou lá, faço recortes / sou feliz / felicíssima aqui e ali, choramingo outras horas, invento solidão e velhice para dar veracidade e sigo no meu Era uma vez… Contar história curtos, nestes repentes do Amoras parece ser a delícia do meu momento. Claro! Queria o concreto, mas vou assim mesmo a tentar no meio deste nevoeiro invernoso e destas notícias escandalosamente enlouquecidas de mentiras e verdades retorcidas…Céus! Em que terra/lugar/estrada ou caminho estou?

Então imaginação tem linha direta com ficção, Olha o que Umberto Eco acrescenta, claro, depois de ter lido Bachelard e muito mais, certamente: “A norma básica para se lidar com uma obra de ficção é a seguinte: o leitor precisa aceitar tacitamente um acordo ficcional, que Coleridge chamou de ‘suspensão da crença’. O leitor tem de saber que o que está sendo narrado é uma história imaginária, mas nem por isso deve pensar que o escritor está contando mentiras. De acordo com John Searle, o autor simplesmente finge dizer a verdade. Aceitamos o acordo ficcional e fingimos que o que é narrado de fato aconteceu.” (p.81) Umberto Eco / Seis passeios pelo bosque da ficção

Absolutamente pensável a questão: é real? não é real? possível ou impossível? e lá sigo na leitura, no texto, no dizer. Depois desdizer a brincar no bosque. Sensação de maravilhamento quanto comecei a pontar a vida/experiência da minha mãe, do meu pai, da minha tia, das minhas irmãs, num desenho incerto do meu mundo, cuidadosamente desenhado no meu agora feliz…Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres

Amei? Não amei? Encontrei o homem companheiro / amigo, o meu? Sei lá. Estou a tentar sublinhar todos os dias estas questões banais, objetivas (??!!!), escorrega a certeza, depois volta galopante e me diz, encontrarás…

A imaginação RENOVA – Toda poesia surpreende. Por essência ela, a poesia, surpreende a linguagem… fonte de vida.