Não acerto o corpo, termino sem enredo, distraída, desviando. O cenário: prateleiras, ordem dos armários, a quantidade. O impecável. Descrever a casa, a menina, a mãe, o rapaz. Silenciosa tranquilidade do pai. Escadas. Explicar risadas. O fogo das lareiras. A lua deste inverno. O gosto da comida. Venezianas limpas, escovadas. As janelas, a biblioteca. As cortinas pesadas. Sofás com almofadas soltas. As flores, verdes. Voltar para casa. Ser acolhida. As bonecas. As inúmeras ausências. Não sei da tragédia. Não estava em casa quando as coisas ruins aconteceram. O proibido escondido. Tragédia e lágrima. Ou não percebi. Folheava revistas, Despetalava flores. Corria na calçada, subia nas árvores. E dormia bem cedo. Beth Mattos – março de 2021 – Torres
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cobra rastejando nos degraus
Por onde a cobra rasteja, atenção… Olhar fixo, curva sinuosa do corpo: poder de engolir elefante e pedras. Dramaticamente feiosa, cuidado! O domador se enrosca no corpo gelado, atenção aos que a veem passar, acelerando, disfarçada, com raiva. Cuidado com a cobra rastejando… Beth Mattos – março de 2021 – Torres
avesso da realidade
A vida se mistura na fantasia. Estamos/ficamos, nós os dois, a sonhar amarrados no avesso da realidade: juntos. Fantasia. Na fantasia da fantasia nos debruçamos. Trepida a paixão. Sem desenho, sem contorno. Curioso! Arranho estreitos conceitos cotidianos… O sentido exato/preciso das coisas saltam como pipocas.
Poderei tocar nas teclas do piano, será música? Tantas vezes tentei! Eu imagino a dança: corpo colado, apertado, olhos fechados. Dançar. História exigente, não apenas conhecer um ao outro, mas transpor a barreira, descobrir o avesso, desfazer a bainha, acertar os desvios/ e desmanchar a costura mal feita. Que o caminho se faça pelas pedras sem sangrar os pés. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres
zero importância
Pequeno feito, zero importância, apenas sensação: consegui mover a pedra, ou seja, tenho força, ainda posso, não posso deixar de fazer, tentar, tentar e seguir. As conclusões apertadas: ainda não tenho gavetas arrumadas, papelada catalogada, livros por autores, ou qualquer coisa assim que seja ordem. A rainha de tirar o mundo do lugar, de inverter, e da desordem. Enorme confusão invertida, direto para o cansaço. E as comidas conciliatórias me engordam. Nenhum plano objetivo. Talvez a releitura de velhos, velhos textos acalmem a impertinência deste esvaziamento atual. Ou recomeçar a limpeza, verificar os cheiros. Cavoucar a floreira, amaciar a terra com uma enxada. Ver flores, brinquedos nas nuvens e, esta maravilhosa chuva. A chuva que carrega no vento as tristezas abusivas e lava as janelas. Como eu gosto! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – ainda em Torres

atrevida
Esvaziamento de sentimentos: nem bons, nem ruins, nada. Desanimando manso. Atrevida sensação de impossibilidade. Depois, passou tanto tempo! Não é possível! Possível marola: tempestade. Desânimo dobrado. Enfiado nas gavetas de tantos achados. Nas caixas. Nos livros. Se o lápis começar a se movimentar e colorir, eu vou brincar. Agora vou passar um café e olhar / procurar do prazer ao prazer… Beth Mattos / março de 2021 / Torres
trasferível
Cheiro, relações traçadas… Prolixas, exuberantes, misturadas. Recomendar um livro, dizer um poema, pintar um quadro, ouvir música. Intransferível assimilação amorosa.
Sonhei um sonho sonhado. Lenços voando. Linhas ocultas. Esta ex- posição, ou posição posterior, ou anterior, esta vitrine para outro, não importa. Surpresa agradável ou não. Quando / como a comunhão? Os mesmos caminhos. E falamos / falamos. E não sabemos se somos entendidos. Não sabemos. Não é o que achamos ser o melhor, mas a linha cruzada entre o nosso olhar e o do outro. Uma onda. Como surfar eu imagino. Depois, passa a vertigem. Viver: estar no lugar certo com o humor certo, a pessoa certa. Então, a sensação de felicidade. Beth Mattos
saudade do que poderia ter sido
Tenho que deixar estes sentimentos saírem, definitivamente, saírem para não voltar, não se pode apenas definhar… Beth Mattos – março de 2021 – Torres
março 2021
O mês de março se estica com morte e doença… Queixas e dores. Prostração. Higiene, distanciamento. Quietude, paciência. A música do rádio, a notícia apertada. Sorriso comedido. Palavras esmaecidas e frágeis, medrosas. A natureza agradece o descanso, e se fortalece. Logo dançaremos noites, manhãs e tarde até cansar. Hoje, doloridos de tanto dormir, dormir e dormir: sono de tanto tempo! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres
Em 2021 preciso inventar outra
E eu inventei, outra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Pra Pasárgada que inventei.
Sem Bandeira, sem pedra no caminho,
Sem Meireles pra explicar,
Vou – me embora pra esquecer.
Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.
Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,
Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção
Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.
Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…
Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.
Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.
Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!
Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,
Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.
Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.
Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?
Vou-me embora pra Pasárgada.
A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014 / como seria agora, março de 2021 / não consigo inventar/escrever/ nada: um silêncio de morte. Angústia e tanta tristeza!
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou – me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manoel Bandeira
E eu inventei, outra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Pra Pasárgada que inventei.
Sem Bandeira, sem pedra no caminho,
Sem Meireles pra explicar,
Vou – me embora pra esquecer.
Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.
Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,
Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção
Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.
Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…
Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.
Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.
Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!
Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,
Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.
Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.
Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?
Vou-me embora pra Pasárgada.
A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014
desejo por alguém
Nessa questão de ter desejo por uma pessoa, duas confusões têm me chamado especial atenção. A primeira é que grande parte das pessoas não se dá conta de que o mais frequente desejo inicial não é o desejo por alguém. É o desejo da conquista. Mais especificamente, o desejo de conquista do desejo de alguém. Como na música de Caetano Veloso: “[…] pois quando eu te vejo, eu desejo o teu desejo“. Uma vez produzido esse encontro, outras terão de surgir e outros encontros desejo -objeto terão que acontecer para que um desejo pela pessoa possa se construir. Caso contrário, fim. Um caso célebre de fixação no desejo de conquista, de ficar parado nele, era o de Don Juan. Uma vez conquistada uma mulher, o desejo se extinguia. Ele precisava de outra para que o desejo surgisse novamente.
A segunda confusão, muitas vezes derivada da primeira, é supor que desejar alguém é, automaticamente, desejar transar com alguém. Quando Freud disse que em cada relação sexual as pessoas revisitavam toda a evolução de sua sexualidade, desde a fase oral (daí a vontade de beijar, de tocar com a boca ) passando pelos desejos sadomasoquistas, de Domínio e submissão, e exibicionismos-voyeuristas, até se concentrar na prioridade do desejo genital, ele não estava simplesmente falando das “preliminares”, mas da multiplicidade de desejos que antecedem a ideia da penetração. […](p.151)
Volto à história do início do livro: poder ensaiar para viver o que se é, é não ter que representar, é não ter que fazer performances, nem na vida, nem na cama. O aprendiz da sexualidade é o aprendiz de seu próprio desejo, é o aprendiz de si mesmo..” (p.152) Francisco Daut da Veiga O Aprendiz do desejo – A Adolescência pela Vida a fora