delicadeza

Delicadeza, perfeição no cotidiano. Uso doméstico da vida. Se houvesse um jeito de dizer! Qualquer objeto, qualquer luz, e também o acaso. Um casaco nas costas de uma cadeira.

Nada fácil entrar sem quebrar a casca, deixar escorrer o que importa, guardar o essencial, não é fácil. Malabarismo. Desviar das pessoas, dizer a verdade, sentir intensamente. Como todos os sentimentos intensos nos são vedados, somos metade. Nos enfiamos na vida do outro, na metade e respiramos. Os homens foram por muitos, muitos e muitos anos escudos da beleza, da feminilidade, da palavra até de uma mulher. Um jogo estranho, afinal somos seres humanos, e deveria ser irmandade. Não. Há a tal guerra de vaidades, aquele comportamento ligeiro, descuidado de uma pessoa com a outra. Um descaso aparente, mas sempre descaso certeiro.

De certo terei outras oportunidades, outras vidas, ou já sou a sobra de vidas vividas. A minha alegria espanta o dia porque não tenho motivo nenhum para festejar, igual festejo. Costuro os humores carregados. Desligo as vozes cruéis. Protejo os olhos do sol. E deixo a chuva me dar prazer. Uma observação esquerda vira direita. Um jogo de acertar, de perder e ganhar como quebra-cabeça.

Eu volto as mesmas histórias quando se trata de descobrir o caminho de chegar na paz. Serenidade, encontro e amorosidade. Invertida a vida, assim mesmo… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – as mesmas memórias misturadas, sentir.

o amor invadiu a casa, nossa vida

Rosto contraído, fechado, colado na vidraça como se esperasse desde muito tempo. A casa na penumbra. Noite de lua acesa. Seu rostinho redondo se abre num sorriso. Cheguei: as pastas, sacolas despencam para o tapete. Ela corre ao meu encontro. Não fala. Cansada, quieta. Tantos dias separadas! Sinto angústia no silêncio. Arrisco uma pergunta, duas. Lacônicas respostas.

O apartamento iluminado. As plantas abertas nas cestas, perto da porta-janela da sacada. O mar no cheiro da noite morna. Respiro. Sinto as mãos molhadas e quentes. Suas mãos pequenas apertaram meu braço. E o rosto aflito, com lágrimas, afunda no meu peito. Continua, inquieta, dolorida a minha menina. Tão menina! E eu!! Eu!!! Egoísta.

_” Tudo flui, dizia Heráclito. Tudo está em movimento e nada dura para sempre. Por esta razão, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Isto porque quando entro pela segunda vez no rio, tanto eu como ele já estamos mudados”.

 Minha voz aberta, e eu leio para ela. Sua mão na minha mão. Seus olhos entram pela minha pele… Uma canção de ninar, e o som monótono da minha voz. Ler, nesta hora de dormir, ler como mergulhar uma na outra, nosso código. Aquietamos a rotina. Ainda não sei o que aconteceu. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – ainda na Garagem de Arte – ano em que as Torres Gêmeas foram derrubadas em Nova York.

PIERRE BONNARD

voz interrompida

24/08/2020 13:49:26

Dois dias de sol. Pelo/com/no ou através do sol, vida a se contar e a se repetir. Luz e prismas, depois a inclinação da tua voz. O outro/ amigo, irmão, amado ou amante/ marido/noivo/filho escorrega/ ou surge/ ou aparece dentro da tua alma, num filme corrido… Desgarrada por um momento, definitivamente, não sei. Liberta a lembrança boa, também as doloridas e aquelas picotadas. Caminhamos as duas silenciosas. Depois de tanto silêncio não parece importante o som, ou qualquer coisa que se diga… Assim mesmo, atravessar corredores reaproxima nossas almas / e o nosso passado. O danado do impertinente passado, quando dividíamos o mesmo quarto. Um pouco antes de Isabel casar, e sair definitivamente da casa… O definitivamente não seria voluntário, mas as bandeirinhas coloridas daquele inverno, do salão de festas, dos quitutes: queijadinha, pinhão, amendoim, cocadas brancas, doce de abóbora açucarado ficou como pedra, e o sonho espatifou-se com morte prematura. E as danças a se sacudirem nos babados dos nossos vestidos foram interrompidas com a notícia. E já faz tanto tempo deste dia! Alguém esbarrou no braço de Isabel, ela levantou os olhos, lagos azuis. Os redondos faróis que iluminavam o corpo, os gestos. E a voz não veio. Estávamos as duas na despedida ardida. Deixei as lágrimas escorrerem pelo meu vestido. As lembranças se misturaram. Estranha memória. Ninguém disse/falou ou emitiu um som. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

Sempre estou a começar histórias sem alinhavo, escondidos fragmentos… E sem escrever / sem organizar / sem alinhavar deixo fugir a memória tão logo a manhã termine, e o sol desapareça. Ainda não estou pronta para recomeçar. Escorrego para dentro do passado enquanto o dedilhado do piano me embala e volto a dominar o piano o teclado. Por que deixei o tempo passar, por que corri tanto sem olhar para os lados? Por que não estou onde deveria estar? O que exatamente aconteceu? Sou eu que decido ou a vida decide por mim a me empurrar como se fosse uma boneca desengonçada… Onde está o domínio, o poder de ser EU?

– Gosto das tuas histórias, precisas e organizas, catalogadas pelas viagens, ou pelos sonhos. Embora não deseje sair de mim mesma, ou trocar de lugar contigo, eu te compreendo. Não tenho pressa, e o tempo apressado se irrita com o meu sono e com os livros inacabados. Vozes interrompidas, aniversários não festejados. Ironicamente trancada/fechada em lembranças. Tuas/nossas memórias, ou seja, num nada lacrimejante/ brilhante, um bordado inacabado. Elizabeth M. b. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres velhos textos, no velho computador esquecidos.

declarações teatrais, promessas vazias e confissões oportunistas

Confessaram mentiras / equívocos do passado e de hoje, prometeram um amontoado de verdades oportunistas, e se casaram para segurança geral das nações. Céus! Das nações! Para não caírem nas próprias armadilhas. A se realizar o casamento regado,… reticências,… regado no conforto objetivo. E eu assisto o teatro no balcão principal. Céus! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres (risos) – ilusão faz bem…

Flávio Flávio ou Flávio

Voar e pousar, voar. Deve existir rota, caminho, e a hora de chegar…, não tenho certeza. O nome Flávio não é o mais bonito, mas se desenha no imaginário, significativo: tem quase um rio no final, tem flâmulas e a vitória. Dá um nó cego nas histórias passadas, esquecidas. Misturado com narrativas descoladas/ coloridas… Impossível controlar, deixar de medir temperatura. O amor inesperado: afoga tudo. Joga no poço miudezas, deleta… Qualquer carinho dedicado a semente guardada, desnecessário… O vento traz de volta a mesma flor, o mesmo amor amado. Adormeço no silêncio.. Tão quieta! mas tão quieta mesmo, que é para sempre. Não ouço nada que não seja tua voz. Vou encolhendo mansa, sem reagir. Eu te amo. Entro no teu amor. Encolher nos braços amados do amado…Nunca antes esta energia: quero ser feliz. Aceitar a pessoa como ela é. Não tão magro como ele é, nem tão azuis são os olhos, sem ser verdes, são holofotes, os dele. O cabelo deveria ser loiro, claro, nunca castanho nem ralo. Os braços deveriam ser fortes, o corpo não magérrimo, mas aquele que vou beijar e abraçar. E as roupas seriam perfumadas. O corpo de tantos banhos de mar, de rio, das águas do meu corpo. Os sorrisos todos meus, sem nunca se aproximar de um telefone, nem teclar, nem ler, nem pensar, apenas me amar. Risco o nome de todas as outras mulheres e tenho o Flávio apenas para mim mesma, inteiro, completo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres

bastariam flores

Basta dizer prometo que a vontade se dilui imediatamente, sei que não consigo manter, minimamente, a palavra. Menina contrariada e infeliz. Infelicidade, palavra chave da imaginação. Apenas pessoas infelizes chegam ao poder da mágica. As felizes sucumbem em bobice. Eu concordo. Eu posso. Eu farei. Estou disponível, mentiras grotescas.

Sala escrupulosamente limpa, clara e despida. Disponível. A mesa retangular ocupa o canto esquerdo, e a luz ilumina. Cadeira majestosa embora tenha rodas macias. O som do piano.

Flores, todas disponíveis, perfumam: rosas prevalecem, algumas em botões, outras abertas, cravos brancos com algumas ramas verdes. Cortinas vermelhas. O uso dos tons avermelhados e acastanhados definem…

Ao rever/revisitar os textos, rasgo, impetuosamente, e sem piedade. O passado não pode se impor. Branco hoje. Transparente hoje. Enorme vazio, majestoso hoje.

As calças de linho branco, a camiseta tem/é de um cinzento desmaiado. Paletó branco, ilumina. Claro! Os sapatos, mocassins cinzentos, não usa meias. Unhas bem cortadas.

Os olhos se inquietam. Sofá estampado, dois lugares, daqueles que se transformam em cama. Lustre gigantesco se exibe com vários andares de pequenas luzes acesas, desnecessárias, afinal, o sol está mesmo acomodado. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres

efêmero, romântico e indecente

Adjetivos completos. Sentir o perfume e ver a luz no movimento. Tu ganhas um secretariado e pensas que o mundo te ama, te oferecem amor e tu cais na vala comum da indecência. O curioso das biografias está nas entrelinhas, o insignificante não merece uma vírgula, mas… As vírgulas definem o texto. Beth Mattos

clandestino

Vontade de te ver, tirar a cisma, tirar o medo, levantar a fantasia. Seduzir. Ficar presa na teia… não sou quem pensas que sou, nem és quem eu já não espero. Tu és o hoje, este agora possível. Faz dois ou três anos que nos encontramos/conhecemos, ao acaso… Eu tenho o jeito clandestino, escondido, sem contexto, tu também és clandestino. Temos medo? Medo. Do desastre? Da proibição. De romper barreiras. Vontade de te ver! Um susto e pronto! Olhar nos olhos, agradecer. Rir um pouco. Beber juntos café, chá, chuva ou whisky sem gelo, um vinho. Cachaça ou água gelada. Dos olhos cansados. Sempre um sorriso, uma ternura perdida. Deve existir o gosto de coisa boa, de audácia. Ah! Teremos que envelhecer mais e mais para nos proteger! Distraída. Claro! Depois de todas as pedras que coloquei em cima da história levanto uma depois da outra. Esforço sonolento, quase desanimada. Em algum lugar do passado eu te amei. Queria pegar tua mão. Queria te roubar do tempo. E te esconder na praia. Queria te descobrir. Esquisito! Consegues alterar/remexer meu humor. Da alegria pra irritação depois pra uma danada melancolia a se arrastar… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres

Bebermos café, chá , chuva ou whisky sem gelo, um vinho. Cachaça ou água gelada. Agarras a mania de assustar. Eu me agarro em nós dois juntos. Sustos voadores despencam e nos atropelam. Do complicado ao difícil. Foi tão forte quando nos reencontramos que ficou a sensação de intimidade de amor de todos os dias. Não combinamos certo/direito o dia do café… Medo? Do acaso, do certo, do hoje, do amanhã. Não do corpo, da pele ou do envelhecer. Dos olhos cansados. Sempre um sorriso, uma ternura perdida. Deve existir o gosto de coisa boa, de audácia. Ah! Teremos que envelhecer mais e mais para nos proteger! O risco de não ser quem sofre de inquietude, medo de virares as costas… De nunca mais ter desejo e gozo. De abrir o brinquedo proibido. De perder amorosidade latente. Ah! Se não houvesse o outro no meio do caminho! Sentaríamos na grama, deitaríamos nas margaridas e dormiríamos. A manhã/refrescou muito, esfriou mesmo. Eu me enrolei num chambre velho e desci com a Ônix. Distraída. Claro! Depois de todas as pedras que coloquei em cima da história, fico levantando uma depois da outra num esforço sonolento, desanimada. Quero entender e me confundo. Em algum lugar do passado eu te amei. Deves rir de mim. Aliás, teu jeito de ser… Pequenos e grandes pecados se atrapalharam nas redes amorosas. Eu sempre fui clandestina para amar o amor. Então, aí teríamos sido bem felizes. Não sacramentado, mas escondidos no sentimento roubado. Queria poder te socorrer nestas questões de grana e te libertar. Queria pegar tua mão. Queria te roubar do tempo. E te esconder na praia. Queria te descobrir. Esquisito! Consegues alterar/remexer meu humor. Da alegria pra irritação depois pra uma danada melancolia a se arrastar… Teu poder, maior do que a minha vontade. Tua brejeirice mágica. Por isso tenho vontade de quebrar tudo: pratos e copos e risadas. Jogar a insanidade pela janela, a se espalhar. Para começar tudo outra vez. Ah! Que loucura a vida em estado de paixão! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres