extraviada lembrança

Cartas se perdem / extraviam em caixas amontoadas a serem organizadas, catalogadas, relidas, e se perdem… sem som, sem a voz, cá estou a te falar, escuta. Ao telefone vou atropelar na ansiedade. Descubro que as pessoas estão mesmo vivendo cem anos! Assim, quem sabe, pode ser, nos veremos mais uma vez, sem medo. Impacto de tempo, antes regressivo, hoje animado. Olhar nos teus olhos, descobrir onde estás, aonde ficou, o meu príncipe? Aquele que invadiu meus domínios, contou histórias, enfeitiçou, seduziu e se foi… Nós nos escrevemos por anos e anos… Deixamos de nos escrever por outros tantos anos. Tu a caça de amores, do fantástico mundo das atrizes, do glamour e do poder. Da elegância, do mistério e dos caminhos iluminados dos holofotes. Eu fui me encolhendo por aqui, e terminei cariocando, amando o Rio de Janeiro. Abracei a coragem de viver a vida aos/em goles permitidos, possíveis, sedentos. No escuro e nas facilidades, seguindo a vida que não escolhi, mas vivi intensamente, confesso. Sim. O marido foi companheiro / amigo. E as crianças festa, mas tanta preocupação! Ternura. Outras vidas misturadas. Certezas e também um amontoado de desejos. Geraldo guardou a minha fantasia de alegre menina-criança, tão jovem! Tantos filhos! Exigente, eu também. Um dia depois do outro a esmiuçar a certeza desta completa proteção. Tínhamos o melhor. A vida se alargou com filhos, e se alargou no desencontro. Novos e inesperados amores apaixonados, cortes, dores. Abandono de certezas. Acordar no meio da dança, no centro do salão iluminado, entregue a música e ao giro, despidos. A nudez nos escandaliza algumas vezes, ou sempre. E a vida vivida / sacudida se desdobra. A vida vai nos arrancando as roupas… Expostos resolvemos cultuar o corpo, ou a beleza. Ou os livros. Nada resolve. Nem fantasias extravagantes escondem o que de fato somos. Somos pessoas desprotegidas, ignorantes, pequenas, assustadas e inseguras. Cegueira latente (se é que isso existe). Sentimentos contraditórios se amontoam a nossa volta como se fossem roupas a serem lavadas, dobradas, ou passadas, ou poeira, ou terra: surpresas espalhafatosas. Ah! Como é difícil viver! Entender a vida e chegar ao sensato modo de respirar. Nem respirar apreendemos. O exercício do corpo se perde nas elucubrações destemperadas dos sentimentos.

Tu me pediste para contar/dizer/ escrever da vida. De como vivo agora, hoje. Como se passaram estes anos, ou como eu sinto a vida hoje. Fiquei mentalmente organizando e a pensar o dia. A descrição. O momento. E sendo tão igual a todas as vidas a minha se encolhe, se alarga quando te penso.

Moro num apartamento pequeno. Iluminado, envidraçado. Janelas para todos os lados o que me permite ver a lagoa, água e terra, e verde. Também a serra deste lado se desenha. E o céu, esteja onde estiver, inclusive, da minha cama posso ver estrelas… Muita luz, excesso de sol, de chuva de vento. Como se eu estivesse numa bolha. Já te mandei fotos de todas as janelas. Lembras? Não gosto de cozinha integrada, americana, mas não tive escolha. Tenho uma pequena cozinha integrada. Uma sala com livros, mesas com livros. Cheiro de livros. No quarto menor, uma cama pequena. Ali também a janela se abre para a buganvília e os verdes da jardineira (hoje malcuidada, faltam flores, grama, ou sei lá…), e tenho estantes nas duas paredes, livros. O quarto maior tem uma antessala com livros, cômodas e mesas e as caixas, tantas caixas! Subo um degrau e lá está a cama grande. Na parede quadros, retratos, meus, da minha mãe, aquarelas de mulheres, desenhos: pequena galeria. Já deves ter visto no Amoras muitas fotos. Neste quarto um envidraçado em ângulo, luz: a cidade grita desenvolvimento: vejo torres de edifícios, iluminação de ganância. Não imaginas quantos edifícios! Cidade grande, ou quase… Não podes acreditar. O mar está há umas quatro ou cinco quadras daqui. Inventário. Lagoa do Violão, a Serra do Mar, areia, cheiro. A Praia da Cal, também a Guarita, posso imaginar. As furnas, minha Bretanha pessoal: os lados de lá. Como não saio de casa, tudo volta/caminha pela imaginação. Adormeço pensando que no dia seguinte colocarei um maiô e farei uma caminhada pela beira do mar a sentir areia e água salgada. Não vou. Claro que eu engordei. Deveria perder sei lá quantos quilos para me sentir leve, disposta, ágil ou bonita. Amanhece, o céu está mais lindo do que ontem, perfeito e eu me deixo ficar. Já faz muito tempo, não dirijo, não tenho carro. Fico preguiçosa neste caminhar essencial, mas vou diminuindo as passadas. Ônix me acompanha. Minha filha Luiza me pediu para cuidar dela quando se mudou para Pernambuco, Recife. Ela é peluda e preta, pequena, inteligente e atenta. Envelhece como eu, e cuida de mim. Quando fico demais na cama naquela preguiça do amanhecer, ela me acorda. Quando quer comer, quando quer sair. Faça sol ou chuva saímos. Esqueci de te dizer que tive uma deliciosa banheira. Adoro água morna, ou gelada. Intermináveis banhos… Perdi a banheira numa assombrosa reforma. Sinto saudade da velha banheira.

O meu dia. Acordo cedo. Bem cedo, desço com a Ônix, pequena volta, às vezes, cheia de sono, de preguiça, volto correndo para a cama, mesmo sem dormir. Ou decido que já é hora/tempo, mesmo  o céu ainda não ter acordado. Se estou disposta vou passar um café preto, do jeito antigo, comer um pedaço de pão com manteiga, uma fruta, às vezes, leite. Bebo água gelada. Bebo água de manhã. Se estou com fome, posso me aventurar com o filé na manteiga, pão fresco, descongelado e aquecido, é claro, como se fosse para o campo, trabalhar. Adoro manteiga! Queijos e presuntos e salames. Loucuras de vontades. Sou dona do meu tempo. Gosto de mimar as manhãs. Levanto as cortinas, prendo as que esvoaçam, abro as janelas. Sensação de caminhar, pés descalços, pela grama do meu tempo. Sonho ou ainda imagino ter uma casa pequena, mais cães, mais árvores, mais cinamomos, mais natureza, mais cheiro de vida. A vida com odores de ventania. Gosto. Gosto dos perfumes, todos. Uma mulher bem vestida será sempre a mulher perfumada. E bons sapatos ou descalça. Ideia de elegância. Hihhhh! Já me perdi.

Vamos mais depressa. Escrevo de manhã. Gosto de escrever de manhã, ou no meio da noite se acordo insone. Aliás, gosto de escrever todas as horas do dia. Escrevo cartas, textos curtos, escrevo as palavras de hoje, corrijo as de ontem. Começo o dia e ligo o rádio. Tenho discos de vinil, muitos, mas a vitrola não funciona. (risos) Ligo o rádio, eu me submeto as boas ou as horríveis seleções. Adoro música. Adoro! Eu adoro música. Adoro mesmo. Tenho que resolver esta questão do aparelho: luxo de prazer meus chansoniers. Eu já me perdi outra vez. O piano, as sonatas, o violão dedilhado, Mozart, para dizer o mesmo. Detesto cozinhar. Bem, detesto estar na cozinha sempre, e todos os dias. Detesto a bagunça: preciso, compulsivamente, deixar tudo limpo e…, assim! Cozinho duas ou três vezes, e congelo. Até posso gostar (às vezes, gosto) de cozinhar. Enjoo. Então peço comida de um restaurante aqui perto, o que fica horrivelmente dispendioso para meu pequeno orçamento. Como frutas. Leite com chocolate, pequenos lanches engordativos. Cuido da roupa. Lavo e passo (já contei) porque me faz bem, ou cura agitação e ansiedade. Uso/tenho milhões de travesseiros. E, sem ser sonâmbula, troco de cama durante a noite. Ora na pequena, ora na grande. Leio na cama. É péssimo, eu sei, mas leio deitada. Errado. Sempre quero fazer diferente, mas é o meu lugar preferido para devorar livros, riscar por eles todos, fazer anotações ou dobrar as páginas sem respeito, devorando mesmo, depois fico enjoada. Ou escrevo. Tenho cadernos, diários. E o dia se desdobra em escutar música. Abraçar e beijar também (risos). A cama é um fetiche de alegria, não te parece? Acho que vou te mandar esta parte e, de repente, espero as novas perguntas, alguma coisa especial. Engraçado! Gosto das tuas perguntas, e das possíveis respostas, tuas e as minhas (risos). Onde eu estava em 1987? Num segundo casamento, uma filhota nos braços e num estranhamento… A perigo. Traçava planos para outras viagens, talvez, morar em Torres e correr ao teu encontro… Fico a pensar que poderias ter me amado um pouquinho, seduzido outro pouquinho e eu teria cedido. Cuida de ti. Escuto tua voz e falo contigo todos os dias. Um beijo Beth Eliza Liza, Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres

citação

Atrás de uma citação eu me escondo, sempre acho (perdendo)/penso/imagino o menos, não o mais. Complexo doente, insistente, ou tímido. Nunca ousar, mas esconder. Lugar de criança a espiar, nunca coroada. Espiar para aprender/ entender. Espiar para soltar o grito de guerra, ser mais porque sabe que alguém disse, falou, pensou, apontou antes, sempre antes… Sempre no escuro da possibilidade, maldita possibilidade. “Se alguém tem de construir uma casa, não se precipita a agir sua mão impetuosa: primeiro uma linha interior do espírito mede a obra; a pessoa traça, no seu íntimo, uma sequência de operações, segundo um plano definitivo, e a mão do espírito modela toda a casa antes da mão do corpo.” (p.132)

Uma estrutura mental antes de ser uma realidade. Por que errei sempre? Porque me deixei levar, tudo acaso. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021. O que admiro? A habilidade do jogo, do lance, da possibilidade arriscada, da estratégia. Da equipe, e nunca do acaso. Este terrível acaso alucina, o amor se perde, e a poeira cobre tudo, fina, alucinante, sem lógica.

“ O essencial da matéria deve ser circunscrito num âmbito reduzido. Podes comprimi – la de acordo com as seguintes disposições: a eloquência da ênfase exprima muito em poucas palavras […] recuse – se a ouvir duas vezes a mesma coisa; o subentendido dê a entender no dito o não dito; a conjunção não faça a ligação das preposições, deixe -as ir soltas; ou a mão do artista funda várias conceitos num só, de tal maneira que com o olhar da mente muitas ideias sejam abarcadas apenas numa.” (p. 139) Geoffroi de Vinsauf – Do Mito das Musas á Razão das Letras – organização Roberto Acízelo de souza

sono deprimido

Tem um sono deprimido presente a se espalhar bocejando, amolecendo o corpo: não dorme, apenas estica os braços, sente dor nas costas, no corpo sem exercício, sem vontade. Tem um sono apertado e insone a reclamar. Razão tem minha amiga que vai e volta, volta e vai desapegando disto e daquilo, agarrada nas curvas das calçadas, nas caminhadas, no gosto alegre do novo, e do agora. Este verbo ter traiçoeiro e injusto, este indefinido um… Fico a pensar nestas danadas escolhas! Livros lidos, e naqueles impossíveis, inacessíveis perdidos nas estantes. Nos que deveriam ser relidos. O livro Pantera no Porão de Amós Oz deu uma sacudida neste meu jeito novo de reclamar / ou me queixar: por que não trazer a infância para se esticar no papel? Por que não posso contar histórias possíveis e as impossíveis? Por que cortar o tempo sentindo dor? Hoje, agora: todas as possibilidades possíveis, nada impede. Nem o vírus, posto que sigo em casa, fechada em sonhos como antes, como será amanhã. E razoavelmente bem. Se infeliz, bem, se estou infeliz deve ser este apego ao sono deprimido, a ausência. Não de ontem. Nem qualquer saudade, mas a que guardo de nós dois. Ausência do agora. Deste silencio imposto não porque envelheço, mas porque não chegas, não dizes, desapareces. E o novo? O novo se espreguiça também. Preciso assumir o passo e caminhar, caminhar, e caminhar. De mal com as panelas, aborrecida com os cheiros, cansada de mim mesma. Preciso de mar, de sol, da pimenta, da proibição e da valsa. Como está se saindo meu amigo nos Estados Unidos gelado, naquela América gelada, na neve e no vento? Como será o calor? E a primavera? O outono e a incerteza… Quero uvas, pêssegos e um hoje, um agora/amanhã, um instante florido. Flores. Bom que Marina mergulha nas aquarelas delicadas dos jardins. Invejo este jardim florido no papel das tintas, no perfume das rosas colhidas, na delicadeza limpa e imperiosa das cores. O gosto do café me desagrada. O chá não conversa. O vinho faz doer a cabeça. O whisky não chega perto. Azeitonas recheadas. Tomates com azeite e sal. Todos os verdes possíveis. Onde estará aquela alegria natural? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2021 – Torres

Yukio Mishima

“… Estou com saudade de você…”

Mishima segue a tensão diante da descoberta errada de si mesmo. Saber quem somos faz toda a diferença, será que passamos mesmo uma vida inteira a brincar de esconder com a verdade? Bavardage! Será que de fato fugimos do hoje/ do agora, das percepções reais de quem somos? Das descobertas evidentes da nossa personalidade para terminar escondidos atrás de fantasias. Será que a vida a ser vivida não permite devaneios… Por quê? Por isso sempre enterrados no tédio. Encontrar a si mesmo é mesmo um negócio de fortes?! Beth Mattos / fevereiro de 2021 – Torres

“A ausência me estimula. A distância me dera o direito à “normalidade”. Eu havia, para dizer assim, aceitado a “normalidade” como um empregado temporário na sociedade do meu corpo. Uma pessoa separada de outra pelo tempo e pelo espaço adquire uma qualidade abstrata.” (p.131) Yukio Mishima Confissões de uma Máscara – Vertente Editora Ltda. 1958

A pensar este parágrafo:

“A personalidade romântica é impregnada de uma suspeita sutil de intelectualismo, e esse fato frequentemente conduz àquela ação imoral chamada de devaneio. Contrariamente à crença, devanear não é um processo intelectual, mas antes uma fuga ao intelectualismo...” (p.137)

volto no tempo de dançar

Gosto quando amanheço vestida de gala e danço. Gosto de imaginar a quietude enterrada no meu sorriso prazer. E volto àquela alegria despertada por uma gentileza gentil. Volto ao tempo em que Porto Alegre nos abraça… E estou, outra vez, na rua Vitor Hugo 229, em Petrópolis. Beth Mattos – janeiro de 2021- Torres

distraído Paulo Rocha

Se o baile foi bonito, deve ter sido mesmo. Nós passamos por todos os preparativos colunáveis e encontros cerimoniosos necessários. Luiz Augusto se esforçou para distribuir reinos a cada uma de nós, vários momentos. As debutantes. Os vestidos de singelos como o da Maria Araci e o meu, para suntuosos e ricos. As boas músicas. Hora certa para terminar. Éramos tão jovens! Nossa pequena alegria, o luxo de uma noite de gala. As tardes de domingo, os namoros, as reuniões dançantes a serem combinadas durante o almoço. Para o baile deveria ter escolhido um dos meus amigos como par, não. Dancei a valsa com o Paulo, que afinal, sendo do grupo da Suzana e do Marcelo, pouco entusiasmo provocou. Da memória, o conto de fadas. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres ( Sim, tínhamos Torres no verão, obrigada por me fazer voltar, teu comentário, teu estímulo acordou a vontade de escrever e contar.)

indignação

Indignação faz parte, mas ser a diferença, revirar o bom para o melhor. Construir, enriquecer as mãos / o olhar com energia para nascer, brotar, espalhar o melhor, não o veneno, pode ser importante. O vento e o ódio, a crueldade afogam, mas o outro lado do mundo, o planeta importa. A pensar. Cansada da guerra sangrenta. Beth Mattos

de volta

Que tudo surja com naturalidade, se disfarce o gosto da agradável divagação e que uma elaboração capaz oculte todo o artifício. Que tudo surja com naturalidade…Como está sendo difícil voltar. Voltar para dentro de mim mesma e aquietar! Beth Mattos – janeiro de 2021

quando Lispector volta

Esquisito quando a fúria de dentro chega para gritar contigo. Gritar com teu silêncio. Gritar com teu impassível jogo de jogar. Jogar a tua vida…, a tua vida e apontar em direção a minha vida, tua luz. Não a nossa vida. Ou nada que nos diga respeito. Ok! É verdade que não prometeste nada, apenas abriste a porta (porque estava aberta) e entraste para conversar, e eu escutei. E eu me apaixonei. Desavisadamente eu me apaixonei. Entraste para contar das aventuras e das conquistas, dos pequenos desastres. Tuas escolhas, tuas lágrimas, teus cães, teu sonho erótico a me desejar. Contar que eras feliz neste desterro de ser tu, outra vez tu, por inteiro, e infeliz. Feliz. Ora, ora como é verdade! Vozes seduzem, palavras ganham pernas, braços, beijam, esfolam, dão prazer, desesperam… Sinto esta furiosa raiva da tua soberba acomodada. Quieta. Feliz. Estás rindo?! Só entendes que o verão deu tréguas, esfriou o dia, choveu? De repetente a inteligência foi para o bueiro como água do temporal. E eu desavisada , eu me apaixonei por tuas inúmeras e inusitadas paixões. Ora, ora, ora…e eu que volta e meia dobro a esquina. Corto o pé com corte fundo a sangrar, e não choro, mas te penso com desejo solto de desejar. Dobro outra esquina e te vejo. Como posso ser tão igual a ti! Volúvel, volúvel, a me despedaçar. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres

“Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante, levitação e sonhos no dia aberto: vivo a riqueza da terra. Sim. A vida é muito oriental. Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida. É como saber arrumar flores num jarro: uma sabedoria quase inútil. Essa liberdade fugitiva de vida não deve ser jamais esquecida: deve estar presente como um eflúvio.” (p.70-71) Clarice Lispector ÁGUA VIVA Editora Nova Fronteira, – Rio de Janeiro – 1978

alfabeto, corpo, tua memória

Abro a porta e te vejo: louca e desvairada paixão tive /tenho pelo teu corpo, teu beijo! Saudade picada de desejo: o corpo reclama e se agita! Acordo ao escutar o calor da tua voz.  Quantas vezes na madrugada corri ao teu encontro!? Ardíamos em conversas telefônicas. Se o time do nosso futebol ganhou, se as notícias das vendas importavam, se uma tarde de verão seria nossa, ou toda uma noite de inverno, se o livro que lias me interessava! Se as aulas me cansavam / se eu tinha ido dormir cedo, ou na madrugada a corrigir provas / trabalhos sem sono! E tua rotina! A beleza imóvel a te cercar. Ah! Que saudade tenho do teu pequeno apartamento! Céus! Será que vivemos tudo o que podíamos? Que loucura insana nos afastou gaguejando / dizendo ser para sempre o que já era o eterno, e nos enfeitiçava! Amor tatuado nas entranhas: cheiro da loucura, teu gosto que eu gosto!… Não estás mais aqui, mas carregas certezas latejantes, e me esperas do outro lado. É para teus braços que vou correr cega, alegre e eterna. Loucos e incapazes! Teríamos que estar juntos agora, tu e eu. Insana lógica! Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres / do verão gostavas / o mar sabias dominar/ em qualquer estação teu amor me cercava, mas eu te queria / eu te quero / no inverno de nós dois, no tempo roubado…, agora.

amada ANTES , DURANTE e DEPOIS = sempre

c’ est un tabeau… Praia de CARAÍVA –