céu e inferno

O inferno existe. O céu azul e, infinitamente, generoso, ilusão. Aprisionado e encurralado o homem não desiste, mas morre a gritar/protestar. Por um momento a ilusão da vitória, por um momento, apenas um momento. Contante ameaça. Se chego/entro no jardim, não encontro margaridas. As rosas sangram os dedos, e, as frutas a se deteriorar.

Na política, no poder, na ambição mal cheirosa, a guerra continua… Se houve roubo, desvio, imundice, Água Sanitária resolve: o banheiro branco, desinfetado…, mas só por um momento. O Diabo espia /prepara a volta. As condenações podem ser anuladas / o céu da tempestade oscila, os raios não racham a terra. Susto! Alívio! Susto outra vez. O desgoverno, e o bolo de chocolate. Os ratos tomam conta, afinal os gatos dormem. Casas vazias.

Preciso comer, preciso precisar, abaixo a guarda…. E, tudo volta a ser como antes. Desânimo com o desgoverno. Será que houve algum tipo de limpeza, ou vitória? Tantos anos! Tão frágil e complicado este governar/ordenar/ dividir/ distribuir e cavar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

terapia

A possibilidade de remexer nestes sentimentos já estraçalhados, destas constantes fugas, deste desespero colado na pele pode ser a dor daquele vazio tão mencionado, tão sem sentido porque inútil, e a enorme grandeza do nada. Todos estes anos e outros passados e futuros anos terão o mesmo efeito degradante de inferno. Existe um tempo colorido, os pintores sabem descrever o que as palavras não dizem quando usam cinza, preto, marrom, e aquele escuro infinito de onde surge uma nesga de cor / luz, o grito corre para aliviar o aperto de tanto tempo apertado. E a ideia de liberdade se ludibria com uma prisão maior, a gentileza e excessivos maneirismos. Quando posso respirar, e o ar corresponde aos pulmões eu estou apenas comigo mesma. A claustrofobia chega com as portas e as janelas trancadas, mas também com os olhares e as vozes: pessoas, pessoas, e pessoas. Gente. Elizabeth M.B. Mattos – gosto de 2020 – Torres

A noite se acomoda melhor no meu dia / os sons invertidos numa brincadeira de ser eu.

pesadelo

Uma lembrança lembrança ruim atropela outra, como se tudo fosse de um horror absoluto, sufocante. Como pude não ser o suficientemente lúcida? Segui a perder pedaços, atrás de uma libertação escravizada. Precisei levantar para escrever. A memória pode ser um saco escuro de opressão. A angústia de estar presa, numa sala fechada, sem janelas nem portas. Ainda não estou acorrentada, mas logo estarei. Todos os movimentos são vigiados. E sinto um horror crescente, preciso me livrar do inverno – inferno deste sentimento. Todo o conforto, todas as minhas vontades feitas eram o invólucro. A voz, o olhar pedinte, aquela presença presente, vigilante sempre me oprimiu/oprime e aperta. Acordei deste sonho pesadelo entendo bem como foi, o que me alucinou nesta convivência: sempre a querer que todos da casa corressem, fizessem: a tirania. Precisávamos estar/ser vigilantes, atentos: a lenha empilhada, a casa limpa, os cães silenciosos, os pratos limpos, as camas arrumadas, e as visitas aos borbotões. O lugar certo de cada coisa certa, um pesadelo que se aproxima ao ronco do carro. A hora certa, o vestígio a ser eliminado, todos a correrem para servir. Uma exaustão completa me acompanha, não posso lembrar. A escola o paraíso, a casa o inferno. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

E nem sempre temos para onde fugir. Um lugar para ser apenas o lugar. Assim mesmo demorei muito/demais para sair. Ainda me assusto com a campainha tocando. E mesmo quando espero alguém, uma ansiedade estranha senta e levanta comigo. O ninguém, o insperado pode ser a surpresa. A opressão diante da possibilidade cordial de alguém a me surpreender. É sempre um fardo a voz, a presença, o outro. Ruído, voz, presença, ou a insistência me sufoca outra vez. Todos os passos, batalhão que me aniquilará. Ainda pesa / oprime/ sufoca e me atinge. Ameaça o som da voz amolecida, do olhar enviesado, da sedução constante: tudo me apavora. Muitos e muitos e muitos anos de terapia não conseguiriam me livrar deste horror!

contei teus anos

Com a ponta dos meus dedos contei teus anos passando pelos meus, se tivesse um telefone eu ligaria, e diria sem graça, a verdade: ainda te amo com vergonha, sem vergonha, envolvida, sem nenhum envolvimento, eu te amo. E não fizeste os noventa anos. Vamos festejar. Ou deixaremos passar mais este ano branco, sem festejo, Teu apartamento tem qualquer coisa de passado, mas tem a pureza. Todos os livros escritos rasgam teus projetos e explicam o inexplicável: tantas mulheres te amaram e tantos homem te sabotaram! E tu e eu nos amamos e nos despedaçamos também. Che Guevara morreu, e os caminhos ficaram/foram bloqueados, pintados as paredes de azul, e o quarto pequeno de vermelho, e os quadros de Iberê Camargo te esperam, são todos teus. Arruma tua sala principal com eles,. e me ajuda a publicar as cartas para que elas fiquem, assim como as do Paulo H.Filho, guardadas para a história de amar e de amar s de conhecer, assim como as tuas, assim como as pequenas e inacabadas …eu fiz tudo errado, amarei sempre. Quando a força do braço largou meus dedos medroso. Aceitei o medo e desprendi os dedos, larguei teus dedos. Vou sozinha. Tu estarás com alguém, sempre terás alguém esperando..Meu amigo querido, és um amado bastante querido, atravessado numa história de amigos e amores. Tinhas os lábios gelados, o corpo gelado. Mas estavas lá.Vivo. Décio Freitas já tinha morrido. Ser o ultimo parece mais simples. E tu não pensas o telefone, não falas comigo, não importa, eu te amo, e todas elas te amam. Beth Mattos – Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres. Por favor, me espera, lúcido. F. T.

fatia cinzenta

A cada movimento dos netos, em todas as saturações, cansaços, remeto a linha de sombra, a indefinida (e tão nítida!) sombra do Eu. Do quem sou eu, afinal? Retomo as experiências-fatos básicos para reconhecer mãe, tia, irmã, avó. Quem sou? Amiga? Filhos desenham trajetórias iluminadas: nuances coloridas. Inúmeros verdes, e o marrom a se espichar do negro cruzamento. A uma sua galhada. Abstrata projeção colorida. A beleza importa, mas não define. Certeza tenho de que a ideia principal se agarra na inteligência, mesmo escondida. Ou no limite da percepção onde o egoísmo habita. A se transformar dia após dia! Sim, o poeta explica a rima verdejante e ativa. O gesto descreve… Debruçada nas rosas amarela, no branco lúcido e perfeito do traço que descreve com a voz e apaga ao mesmo tempo eu me deixo ficar… Observo, anoto a linha repetida de cada um. As mãos se estendem, agarro uma delas, duas delas, e nos deixo arrastar na definição lúcida daquela voz. A luta/ a vida/ a hora exige solidão. Não aflita / ou ansiosa / ou a gritar/ ou a correr. Solidão pacífica. Reconhecimento. Quero falar/ponderar/ouvir/explicar dizer ao Felipe. José, Júlio, Carlos, Vicente, Luís, Marta, Antônia, Beatriz e Gabriela, Lucia e Maria, Stella e Georgiana, e Isabel. Com todos a última palavra, ou nenhuma. Apenas olhar. Acredito que está tudo impresso. A cada um dos laços emaranhados a nitidez. Corre na água transparente desta via os borbotões de narrativas, cada pessoa um atalho. E todas estas pessoas são o Eu. Não venço esta geografia estranha, mesmo ao florescer. Define / explode em orquídea ou em jasmim, em saúde ou doença… Estou tateando. Todas as cirurgias escavam, e toda doença avança, e a saúde floresce com ramadas selvagens. Descrevo o perfume a entrar invasivo pelo quarto porque os miúdos jasmins desabrocham em perfume. E eu me emociono. Elizabeth M.B. Mattos – agosto em fatias cinzentas de um dia movimentado. 2020 – Torres

Elizabeth Barrett Browning

Ama-me por amor do amor somente. Não digas: ‘ Amo-te pelo seu olhar,/ O seu sorriso, o modo de falar/ Honesto e brando. Amo-a porque se sente/ Minhalma em comunhão constantemente / Com a sua.’ Porque pode mudar/ Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar / Do tempo, ou para ti unicamente./ Nem me ames pelo pranto que a bondade/ De tuas mãos enxuga, pois se em mim/ Secar, por teu conforto, esta vontade/ De chorar. teu amor pode ter fim!/ Ama – me por amor do amor, e assim / Me hás de quer por toda a eternidade.” Elizabeth Barrett Browning

amigos

Amigos, amigos e amigos: pacote de possibilidades alegres, divertidas. Risos cortados com jogos, filosofia. Es comidas curiosas em quieta noite de visitar… Noite prolongadas pelo violão, na música, e somos nós. Sem planos, mas amarrados pelo desejo de estar um com outro, e o outro com todos. Vamos comprar uma bandeja de sonhos, de pastéis,. Sucos, empadas de camarão. Aquele gosto de Torres que nós conhecemos tão bem. Gostosuras engraçadas. Beth Mattos – agosto de 2020 – Torres

vento

Saí para te procurar, tinhas dito que virias, fui a caminhar, desconfiada. Desacredito que viesses, mas eu fui. Sentei, naquele primeiro banco, perto dos hibiscos, na beira da lagoa. Fiquei. Esperei, e fiquei. Demoraste, desisti de te esperar. Não sei o que te acontece, não vieste. Desisti de te esperar quando o vento chegou. O vento grita. Encrespa a lagoa. Lembras? Venta tanto por aqui, talvez já tenhas esquecido… No verão não ventava. Chovia de tarde, e no outro dia, o sol. Íamos para a praia: eu para o mar, tu para as canchas…Beth Mattos – agosto de 2020 – Torres