Citação

Para mí la poesia y el pensamiento son un sistema de vasos comunicantes. La fuente de ambos es mi vida: escribo sobre lo que he vivido y vivo. Vivir es también pensar y, aveces, atravesar esa frontera en la que sentir y pensar se funden: la poesía. Octavio Paz La llama doble Amor y Erotismo

Katherine Mansfield

Revendo, voltando, comparando. Aos trancos e barrancos digo o que penso, ou sonho pensar, imagino, solavancos. Pensar, às vezes, atrapalha os relacionamentos. Ideias soltas, bavardage, apenas conversa, uauuu! Feijão com arroz, pão com manteiga. Ninguém quer mesmo saber. E volto ao velho livro, ao velho texto. Volto a caminhar nas mesmas pedras, leitura renovada. Sinto as mesmas coisas, ou as nova coisas como se fossem as mesmas. E a cada velho livro um sentimento pintado de vermelho…UauuuuBeth Mattos

E, ademais, não tenho paciência alguma com as pessoas que não sabem abrir mão das coisas, que correm atrás delas a se lamentar. Quando uma coisa se foi, ela se foi! Está terminada e liquidada! Portanto deixe-a ir-se. Ignore-a e console-se, se é que quer consolo, pensando que nunca se recupera a mesma coisa que se perdeu. Ela será sempre uma coisa nova. Transformou-se no momento em que se vai. Ora, isso é verdade até mesmo quando se corre atrás de um chapéu que o vento arranca da cabeça da gente; e não quero dizer de modo superficial – falo em sentido muito profundo…Adotei como norma de vida nunca me lamentar e nunca olhar para trás. O arrependimento é um terrível desperdício de energia, e ninguém que pretenda ser escritor deve se dar ao luxo de entregar-se a ele. […] Evidentemente, olhar para trás é também fatal para a Arte. É conservar-se pobre. A Arte não pode e não irá suportar a pobreza.” (p.81-82) Katherine Mansfield – Je ne parle pas français e outros contos– Editora Revan

mágica

Às vezes quero mágica, o poder de transformar, fazer fantasia… Reviro o mesmo, todos os jeitos possíveis, misturo, e depois, bem, depois está/fica igual. Elizabeth M.B. Mattos – 16 de agosto de 2020 – aniversário da Ana Maria, evento importante, no meu coração…

será que eu posso?

Para Elizabeth Barrett – prima querida

Será que eu posso ir e voltar, desistir, largar, e recomeçar de um jeito diferente, mesmo sabendo (inconscientemente sabendo) que não vou chegar, entrarei no desvio atrás da certeza de pertencer. Terei autorização de carregar este azul riscado de bastante amarelo, já a ficar tão verde! Será tanto, e tanto verde, vejo marrom, e tantas riscas pretas… Será que eu posso ir e voltar? Aceitar e desistir. Conversar e não dizer nada, contrariar, apenas polemizar, irritar. Tomar um banho demorado de banheira, morno, quase quente, talvez muito quente. Água perfumada. Não num hotel cansado, mas naquele perfeito que vai consumir o dinheiro de um mês, dois meses, ou três num único dia. Café da manhã colorido com as frutas da época: cítricas. Bananas cortadas com mel e aveia. Omelete, suco de uvas, de pitangas. E a cortesia de correr as cortinas pro mar de Ipanema. Sim. Um hotel na cidade perfeita, porque esta conheço. Não Itália, nem França. Nem na Califórnia, ou México..Pode ser Porto Alegre, sei lá…, poderia ser em casa. Será que posso ter um alguém invisível a limpar, a cozinhar, e perfumar os armários, empilhar os lençóis e deixar os vidros atravessados de luz, e perfumados? A carne mal passada, as saladas verdes frescas: tomates e passas, ameixas secas. Couve-flor gratinada. Depois café e doces portugueses: ovos nevados, avos moles, fios de ovos, o licor. Será que posso levar a tarde colorida e morna comigo por tantas horas? Ou preciso mesmo entardecer azeda, enjoada, cansada, assustada? Estes mundos presenteados com tantas, tantas pessoas solitárias. Quero bater e entrar. Quero ser abraçada, beijada e apreender a escutar (não tenho este ingrediente tão necessário!) Aprender a ficar quieta, imóvel, tão absurdamente tranquila que adormecerei… Universo privado explica Huxley, incomunicável. Tolstoi grita, julga. Tourguéniev, para distrair suas crianças, dança o cancan, explica André Maurois: como eles podem possuem/tem universos tão diferentes!E ser geniais cada um a sua maneira? Como eu posso transitar de um lado para outro sem me contaminar, ou envolver, sem mudar, mas a me metamorfosear, como Kafka, ou explicar a peste como Camus. Como posso viver sem a minha banheira, sem jardim, restrita as camisolas, as meias de lã, na ausência de amor. Bebo um copo de leite com Nescau, quente. Mordisco umas bolachas com manteiga. Eu me excedo. Penso nos morangos maduros, nos pêssegos e nos limões sicilianos. No cheiro de terra molhada, na chuva. Compro um carro com teto solar para ver as estrelas, imagino a viagem que não farei, o tempo que ficarei rodando querendo chegar, sem vontade de sair. Puft! Uauuuu! Esquecer o carro, nem sei se ainda sei dirigir, e gostaria de ousar passear pelo eu comigo. Por quê? Para flertar, ser eu, entrar e sair. Dormir um dia e caminhar outros dois num lugar deserto, mas seguro. Arriscar e rir fora de hora. Falar holandês, inglês, japonês e mandarim… A surpreender a voz /o som com sotaque francês. Entrar no castelo certo, e encontrar o príncipe certo: ocupado a trabalhar atabalhoado e um pouco triste, mas vai se surpreender…, e vai me reconhecer. E nos daremos as mãos. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

Torres ou Porto Alegre, ou Rio Pardo; quem sabe Santa Crus do Sul? Ou São Paulo? Não, não. Certamente, o Rio de Janeiro, subindo a serra pela velha estrada até Petrópolis. E depois, cuidando da horta, das galinhas, dos sonhos, e lendo, num exercício cuidado para apreender. E gozar a cada palavra nova. Reler André Maurois – Mes Songes Que Voici – Editions Bernard Gasset

Tantost je resve, tantost je dicte en me promenant mes songes que voicy. Michel de Montaigne

Pour Montaigne, je proposerais :
Às vezes eu sonho, às vezes eu dito, enquanto perambulo, meus sonhos eis aqui.

La dificulte est dans “je me promène” employé dans um sens particulier à Montaigne. C’est “promener as pensée” comme em marchant, ici pas em marchant réellement, mais au gré des bifurcations qui se présentent. Ça tient de la rêverie, de la rêverie philosophique. Je pense au portugais ‘” devaneios” comme  divagations, mais je crois qu’il y a um peu l’idée d’être perdu, et Montaigne “se promenant” ne se perd pas. Et c’est plus actif que “devaneio” au singulier. Mais mon dictionnaire pour le verbe “devanear” me donne “se fanner”, “paniquer”, donc ici “devaneio” ne convient pas. Alors je m’arrête, grâce à son sens em latin, à “perambulo” avec l’idée de “ visiter des lieux successivement, traverser un lieu vers un autre lieu.” J. M. Grassin

Carta para Cristina

Temos uma balança interna que mede a vida: a energia entra e sai. Quem está perto capta o positivo, e o negativo. Busco energia nas plantas: mexer, remexer. Converso com elas: pobres jasmins escravizados, limitados por vasos… Como pássaros em gaiolas, sem quintal… Noutra escala, nós somos também domesticados por limites. Sem vontade própria: somos o que os outros esperam que sejamos… Como as plantas, os pássaros nos adaptamos para sobreviver.

Olho o verde, escuto a música, e tento acalmar minha inquietude enquanto te escrevo.

Paradoxalmente temos que entender a cidade que nos aprisiona: as escolhas erradas, ou certas são internas, perigosamente nossas. Compreendo o que sentes, vejo como tu, esta cidade que paraliza, mas exercito o olhar, namoro jacarandás e paineiras. Caminho todas as manhãs pelas ruas do bairro abastecendo a casa com frutas, pão, busco o cheiro do café energizante que já fizeram as cabras saltitarem vivazes… como conta a lenda… E posso sentar por uma hora ou duas nestas mesas que ocupam as calçadas. Retomo a cidade ainda vazia, mas sempre verde. Entendo que pode sorrir, ou abraçar. A cidade. Por que somos estranhas? Ela é maior do que nossa percepção, ou nosso quarteirão. Os limites são internos, nossa a rebeldia. E o cheiro do mar traz nostalgia. Saudade de antes, do que já tivemos e não conseguimos segurar. Porto Alegre das ruas estreitas, arborizadas, com pefume de terra. É preciso sair do lugar, ousar, ou morremos presas ao ninho. Possuímos amarras. O dolorido da situação é que assim como queremos voar, ser novos/outros, nos sentimos presas ao ranço do lugar conhecido, presas ao familiar, e frágeis para grandes vôos. Sucumbimos.

É preciso livros, filmes…vontade, determinação. Fazer o espetáculo acontecer. É preciso olhar e sair do palco, soltar as amarras.

E tu, minha pequena, tens o amor, o beijo, o aconchego, o vinho quente de uma noite em concha. Sinto falta de um par. Das noites/conversas, e dias com o amado… Com ele, apenas estar, era bom… Que aproveites a vida! A irmandade enriquecedora. Assim, Porto Alegre pode ser o mundo inteiro, basta abrir os braços, e fazer acontecer lá dentro de nós mesmas a transformação… Acho que me prolonguei. Como chove! Fiz uma boa limpeza nos vasos, e nas plantas. Varri a sacada para esperar a chuva, e como!E como! Gosto. Sinto um pouco de frio… Elizabeth M.B. Mattos – 2005 – Porto Alegre

ameaça

Havia uma ameaça, o possível, a boa ameaça: eu ir ao teu encontro, ou (remota) de vires ao meu encontro. Promessa florida. E as chuvas, o sol quente, as temperaturas de ir e vir nos acompanhavam festivas. Hoje tudo mudou: silêncio e ausência se misturam, eu compreendo.

Chuva forte, frio e eu volto para as cobertas desanimada: mais um dia, menos um dia. Teu nome se arrasta cansado. Viagem longa de esquecer… Beth Mattos – agosto – 2020 – Torres

As vidraças respondem ao gritedo desta chuva, sem vento, uma água pesada…

fora do lugar

Ficou tanta coisa fora do lugar…pressão, alguma coisa aperta, outra estica e não faz sentido, não é manta, nem cachecol, nem casaco, faz frio… vamos rei ventar o inverso e o cinza, não as imaginas, vamos puxar as cores.Eu quero o presente do Pedro. A alegria da Luiza, a disposição da Joana e as aulas da Ana. Sim. Quero tudo de volta. Vou dar uma volta. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020

negligente e distraída

Horas, vagares e possibilidades…, sobrando. Escrever e cuidado, tão pouco! Derramar o vinho, o leite, toda a água e esperar. Talvez a chave seja esperar. O outro lado da lua. Há um nonsense nesta epidemia. A reclusão abre as portas para ser Eu, eu com letra maiúscula, escorrego sem interesse. Abro as gavetas a procurar alegria, disposição. Boa vontade, mas um certo desencanto, a frustração se impõe. Será que estou vendo mais do que deveria ver / alucino? Duplico o real? Olhos abertos. As coisas como elas são, ou deveriam ser, mas quero mais. Cansaço localizado na ponto dos pés. Caminhar, caminhar, deixar as pegadas para voltar, tolerar. Estou exausta, mas sequer saí do lugar. Culpo o frio. Este cinzento misturado no céu a desvendar um dia que se esconde gelado. O mistério do inverno se prolonga.

Arranco pedaços da leitura: ” uma das mãos sonhadora em seu colo de estampa colorida” (p.235) Nabokov / Lolita . Especial a roupa descrita desta forma. Depois uma coleção de recortes: lassidão amorosa, na lucidez dos meus ciúmes, fico alguns segundos a pensar no ciúme, sentimento cortado, maligno, e ainda lúcido? Em que momento da vida somos lúcidos? Ao casar? No primeiro baile, ou quando a amiga morre e o amor termina, porque nunca existiu, quando lavamos a louça somos lúcidos, não fazendo amor. Será que a lucidez te agarra quando a desilusão chega? …ensolaradas ninharias, duas palavras fantásticas. ” […] “abarrotado de crianças e do hálito quente das pipocas“. (p.199) Maravilhoso! Sessões de matinée. E constato: não apenas uma ideia, ou um enredo, uma história. Um autor/poeta/escritor nasce de uma semente cuidada. Há que se somar educação, meio, estudo e estudo, conhecimento linguístico de um idioma, dois e três… Então, o que já sabemos surge numa roupagem de purpurina, lantejoula, bordada e rebordada, numa renda feita por mãos mágicas. E das leituras guardadas /absorvidas/ revolvidas… De escrever escrever, não um livro por ano, mas uma vida para o brilho. Uma linha, um acaso depois depois ocasos…, este fazer que se parte dividido, mas uno. Alucinante experiência de encontrar a conjugação sonora de um verbo conjugado em todos os tempos e modos, com a sofisticação peculiar a gramática, ao som música/sonata/melodia de um tempo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020- Torres

Ainda estes retalhos: “zebras encarnadas” “vozes luminosas” (p.87) ou, ” Embora eu jamais conseguisse me acostumar ao estado de ansiedade constante em que os culpados, os grandes e os mais sensíveis costumam viver, julgava que estava fazendo o melhor possível em matéria de imitação.” Ainda.”[…] “e para baixo na Thayer Street em sua linda bicicleta novinha: pondo-se de pé para pedalar com mais vigor, depois mergulhando de volta numa postura lânguida enquanto a velocidade se esgotava; […] apertando a língua contra um lado do lábio superior enquanto dava impulso com o pé, e novamente lá ia ela, debaixo do sol e das sombras claras.” (p.219) “uma dor surda n própria raiz da minha existência”(p.66), “fim-de-mundo, a solidão, os antigos pastos encharcados“(p.173). Ou “irrupções de flores azuis” (p.183). Ou esta descrição: “tédio desorganizado, queixas intensas e veementes estilo escarrapachado, descuidado”(p.172). “firmeza, à maneira de meninos desordeiros” (p.178) também quero encontrar o “jardim de magnólia“. Vladimir Nabokov – LOLITA – tradução de Sergio Flaksman – posfácio de Martin Amis

Inquieta vida, povoada

Inquieta vida, povoada.Pigmentação de ouro, seiva verde das florestas … Perfume/cheiro do gramado. Orvalho. Esconderijo. Floração. Céu vermelho e dourado. O homem e suas esmeraldas… Unhas de marfim, braços e pernas de ébano. E a voz? A voz se faz a resposta. Inquieta vida, povoada, e assim mesmo, solitária. Ser apenas tu e eu, eu contigo, nós, ou a ilusão mesmo de ser um. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres