utopia da vida exata (Robert Musil)

“Pode ser um comportamento rude acomodar-se a uma coisa dessas, mas os meios de comunicação rápidos de hoje exigem mais vítimas do que todos os tigres da Índia juntos, e sem dúvida a inescrupulosidade, inconsequência e negligencia com que toleramos isso nos traz por outro lado sucessos inegáveis.” […]

Poderíamos dividir as atividades humanas segundo a quantidade de palavras de que precisam; quanto mais palavras, tanto pior o caráter das atividades. Todos os conhecimentos através dos quais nossa espécie passou, das roupas de pele de animais até a aviação, não ocupariam, com suas provas acabadas, mais do que uma biblioteca de bolso; mas um armário de livros do tamanho da Terra não bastaria nem de longe para conter todo o resto, sem falar naquele discussão vastíssima que não se realizou com a pena mas com espadas e correntes. É de se pensar que conduzimos muito irracionalmente nossos assuntos humanos, se não os atacamos conforme a ciência, que teve um progresso exemplar.” (p.177-178) Robert Musil O Homem Sem Qualidades

E não me perguntes porque faço a citação sem contexto, desgarrada. É uma pedra. A cada um sua leitura criando/imaginando/escrevendo um começo, um porquê, e um fim, ou nenhum sentido. Uma pedra encerra/possui a história: ela é o completo. Uma trajetória desvendável, apenas, por especialistas, filósofos ou curiosos. Ou apenas um mistério. E, sei lá, estamos assim a rolar de um lado para outro e a repetir o indizível, a julgar, a colorir e projetar cada um na sua quadra, a sua própria sombra. Da janela vejo outra janela, e novas sombras. De um passo na calçada outros tantos pelas ruas/estradas: distanciamento até do olhar. Não consigo ficar apenas silenciosa dentro de mim mesma. E ninguém imóvel. Agonia, o movimento curador. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020

maio

Lua linda! Temperatura de amar: dia rosado amarelo como deve ser o dia, alegre, entardecer majestoso, avança. Clima convida com vida: depois de uma sesta de tarde comprida o espelho mostra mulher bonita, bonita: a beleza se avizinha ao amor. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

filhos

Agitado sim. Quero aproveitar tudo. As gostosuras e as desavenças… Escavar no passado, recordar agita…, tu sabes. Acertos da memória, fogos cruzados. Cada um tem lembrança particular e diferente julgamento: reunião de família. Os pais muitas/tantas vezes se sentem culpados. As escolhas feitas determinam / desenham / forçam, e depois, soltam… Estas conversas parecem acertos de contas…  Os pais têm compromisso com os filhos: educar ou manter!  Discutimos a responsabilidade econômica dos pais sobre os filhos, por exemplo… Será para sempre a dependência? Há um momento em que a responsabilidade termina… Parece. Eu acho que estamos sempre envolvidos com os filhos… Acho que nós temos SEMPRE compromissos com os filhos, mesmo não tendo mais por lei / oficialmente.  Não podemos/conseguimos apenas usufruir um egoísta fazer quando temos condições de ajudá-los. Responsabilidades em família são permanentes. Enfim! Sei lá! Beth Mattos

 

 

 

no mercado

” – Aqui parecemos estar além das seis ondas da fome e da sede, da velhice e da mortes, do sofrimento e da ilusão – disse Shidartan – Que paz imensa!  É como se fossemos removidos incessante redemoinho da vida para o centro imóvel onde se pode respirar profundamente. Escuta, como é quieto aqui! Digo“quieto” porque exclamamos ” quieto”! quando queremos escutar e só se pode escutar onde há quietude. Pois esta nos permite ouvir tudo que não seja inteiramente mudo, de modo que o silêncio nos fala como no sonho e nós o escutamos também como se estivéssemos sonhando.”(p,23)  Thomas Mann  Cabeças Trocadas

E tudo que eu possa pensar ou dizer não faz nenhum sentido porque tudo o que sinto e o que digo é para que eu mesma possa entender.  OU será para que recebas uma palavra e te aquietes como eu faço. ( Não faço, eu me agito.) Vamos explodir em alegria quando nos encontrarmos: abraço bom. É apenas um fio André, uma mágica que Fernando e Ricardo e a Magda proporcionaram: caridade que florida esplendorosa. O silencio, mas  teremos as palavras também. Eu não não fui  cuidar do cabelo, das unhas, da boa forma para te agradar, mas faz tantos anos que te espero! Que tenhas paciência para brincar /descobrir/ fazer acontecer pequenas alegrias… Faremos um castelo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 Torres

rotina empurra

Não posso parar, interromper a rotina: Ônix exige: isso ou aquilo. Posso deixar um dia de fazer a limpeza, ou a comida, ou não dobrar as roupas,  não ligar o celular, mas ela  exige intrigada, estupefata, e se movimenta: pede para caminhar/passear, ir e voltar e a comida e abrir a janela e o afago. A rotina me empurra para a música, o passo necessário, molhar as plantas e limpar. Não ligar a televisão, entrar nas nuvens. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

cozinha e flor e bananas

a casa

Talvez a casa fosse do melhor tamanho, sem escadas, com aquelas porta-janelas festivas abrindo para duas fantásticas varandas e o pequeno gramado. As flores se acomodam bem ao longo do muro. E o silêncio quieto, como convém ser. No amanhecer muita piação chega dos cinamomos. Um despertar de luz pela fresta da janela. O café com leite, o pão dormido, um pouco de geleia e o dia já pergunta: Então? Vamos fazer? O quê? Isabel e a vontade inquieta de revirar o mundo.  Sem saber o motivo de tanta energia  começa a listar deveres…Beth Mattos – maio de 2020 – Torres

narrar

A loucura de voltar, ou de sentir o mesmo depois de remexer em tudo, e perder a letra e o som, a vontade. Apagar o horror, com agulha fina livra o nó, seguir a malha. Que jeito que não tenho de dizer, mas rodear…sou eu. Voltei para O Grande Sertão: Veredas que só título vai pedir explicação, mas dizer Guimarães Rosa ajuda.

“Para que referir tudo no narrarjeito, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseando, como do que só  jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrando e verdadeiramente entendo – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo.Do que o que: o real roda e põe diante. – Estas são as horas da gente.[…] Por que?Diz – que – direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter  amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado , maior do que o miúdo, a gente ama interiço fatal, carecendo de querer, e é um só facear de surpresas. Amor desses cresce primeiro, brota depois. (p.186-187) 

E jeito de dizer /dito se joga e não explico. É amor  e PONTO. E o amor explicado se mistura e confunde, mas fica. É isso. Vou explicar. Beth Mattos

rastrear

O tempo todo, rastrear. Vou ao encalço da ideia, do elo, do alguém…, do livro, da flor. Penso no encontro: prazer / cheiro / olhar. No escrever / dizer. Se beleza importa, ou existiu / ou sendo horrível / feio, deformado, a  danada e esplendida diferença. Rastrear a experiência amorosa, a cor exata do casaco, daquela blusa, do cabelo, dos olhos azuis, ou verdes, não castanhos. Descobrir o em volta, olhar para os sapatos. Buscar a vibração do andar. Da temperatura do café, e do gosto pelas balas de menta. Olhar. E os equívocos! Quantidade enorme imensa quantidade de reviradas incertas nos equívocos. O meu Outro se esconde atrás do biombo e joga, por cima, pedaços de alguma coisa, depois pergunta se eu entendo, se eu posso descobrir o que ele está fazendo…

Nenhum livro deve ser indicado ou mencionado se não ilustra o pedaço escondido. E de repente, uma única frase, sussurro já é o caminho equivocado. Da primeira e fundamental leitura ocasional um enfiado de outras possíveis, não fica indo e a voltar e a recomeçar Beth, vai ser logo Elizabeth, aquela do primeiro esforço… Então eu fico a mencionar um livro, outro, a me esconder numa exposição curiosa. Abre o livro…

“Mas eu poderia facilmente trocar Proust e Musil pelas revistas People e Vanity Fair, atibuindo – lhe um gosto persistente por rock and roll, em vez de apresentá -la como apreciadora das grandes peças para corda e piano compostas por Schubert em se último ano de vida, após descobrir que estava com sífilis, concluindo, pobre ovem, com razão, que logo iria morrer. […] Polly gosta de Schubert porque eu quero assim, pode parecer contraditório que uma mulher que aprecia e que se diverte com romances difíceis possa, de vez em quando, mostrar – se tagarela  em casa, mas nem sempre as pessoas são um modelo de coerência, embora a maioria assim pareça nos romances, exceto nos romances de Dostoivéski, em que todos os personagens são pelo menos meio loucos, o que os faz mais próximos das pessoas que conhecemos e das pessoas que somos. E Dostoivéski é meio louco também, como todos nós.” (p.83-84) Joseph Heller Retrato do artista quando velho

Engraçado como perseguir, rastrear leva/conduz ao caminho perfeito. Empilhei na mesa de cabeira: Retrato de artista quando jovem, James Joyce, e também  O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde que escreve no prefácio: O livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo. E o Beth se atira / corre atrás da caça com rifle, faca, pertinência estupidez, cuidado ou distraída.  Deve ser fascinante o momento de começar, limpar a arma, preparar a munição, colocar as botas, preparar o farnel e entrar na mata para caçar. Faço analogia com o laboratório chamado cozinha, d alquimia, misturar com cuidado e paciência, ciência. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

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atropelada

Tens razão: atropelada pelo susto, apavorada, sem saber exatamente se deveria ser este ou aquele o caminho, esvaziada, sem pensar. Escrevi no plural, mas acabo de colocar na primeira pessoa. Estou / não é estamos. Apavorada ou apavorados. O esquisito desta angustia se tranca no medo. Imagino o quanto! (explicas na carta) estejas a trabalhar mais, muito mais do que antes, e sem hora, ora! Pessoas presas em caixa (imaginária ou real / obedecendo ou desobedecendo as ordens da pandemia) sem tempo, e o tempo…, dizem que tudo deve voltar ao normal, recomeçar, ou sei lá… Deve ser. Não é a primeira guerra, nem a segunda, mas a terceira guerra mundial. A superfície se altera, e também a profundeza. Qualquer foto, nenhuma foto capta a completo, e tu és boa em fotografar! Em fazer escorregar para as sombras o essencial e apontar…Sabes. Eu ando em desatino / flutuo. Acho / penso / imagino. Ao te escrever vou divagando sobre sensações porque acredito: voaremos, as duas, mais e mais longe a encontrar soluções. Estou perdida. Não porque a pandemia chegou, mas porque envelheço, e envelhecendo (feliz porque existo, mas triste por ter que aceitar, existe um fim) sinto os limites, as perdas, o não feito, e o tanto que poderia ser sentido, tocado e não será. As perdas do possível amado, a finitude de estar sem ter, e ao mesmo tempo com a lucidez alucinante de que ter nada significa se não somos… E este emaranhado de sentimentos e sensações balançam entre alegria e raiva, e noite no meio de um dia ensolarado. Ainda me engasga a vontade de ter um livro físico entre as mãos e dizer que fui eu que escrevi. Vontade de desenhar freneticamente os limites do que vejo fazendo o vulto / a coisa / o objeto, ou a ideia transbordar. Como percebes, quando eu te escrevo estou / fico / eu me atiro em alto mar. Segue o Amoras, tropeçando, e menos preso ao meu compromisso de alimentar com aveia, água e misturas verdes, ou frutas, ou espiadas os textos… O que posso te contar? Os dias passam rápido se venço as manhãs, e o susto me assusta ao entardecer. Eu, de natureza alegre e forte, tropeço durante a noite. Tenho / penso no passado sem nostalgia. Posse e desapego. Desinteresse. Revejo velhos textos e me surpreendo com a energia daquela pessoa que eu já fui… Persigo o impossível. Que se tornou impossível porque alimentado pela imediata tristeza de vazio. Ninguém virá, os amigos se foram, e estamos todos enjaulados. Deve ser isso o nada: ninguém virá para encantar, ou atravessar o perfume, não consigo encontrar o quintal, ou plantar jasmins, ou assistir um filme, acompanhar um jogo, acreditar que somos atletas.  E tenho tantas estranhas e fantásticas estórias para te contar! Esta distinção existe? História ou estória? De certo como o pronome “a gente” (agora usual), a gente espera / diz / faz / viu / quer saber, como a televisão apregoa. E a Lya Luft pacientemente explica que é casual o uso. Eu respondo, o francês, tem on dit…, e já me canso de pensar, e me coroo como a chata, a ignorante, a inquieta. Nós definimos quem somos, e tudo o mais é fantasia, carnaval, externo, não é nosso. Haja batalha! Sabes que me aborrece pensar que não me dei conta do tempo de apreender e fazer com atenção. Se volto atrás eu percebo o quanto fui ‘passagem’ em tudo… Sobreviver sem meta. Tenho um amigo que se dedicou ao esporte, negligenciou (diz ele) outras coisas, fez apressado a vida e / mas jogou com paixão. O jogo. Como eu o compreendo! E invejo. Atropelo enquanto te escrevo. Enfim! Acho nossas cartas essenciais. Sem medo. Eu me dou conta que quando te escrevo não sinto medo. Estou destemperada. Não tenho te escrito regularmente. Lembras? Eram duas ou três ou até quatro cartas. Agora vai este teclar num jato, verdade, mas esporádico. Vou retomar/preciso. Preciso deixar de ter medo. Deve ser ainda o medo, minha amiga. Que vocês estejam bem. Corajosos e fortes neste Rio de Janeiro que amo, tanto e tanto.

mesa um linda