Pensei em ti porque tens esta/aquela enorme biblioteca que ocupa a casa inteira: fascinante; eu me desfaço dos livros, não tenho espaço: pouco a pouco reviso, elimino, coloco em caixas e levam… Alguns pedem / perguntam, outros carregam o destino. Bibliotecas? Não se interessam. Ler ler mesmo, poucos leem, e as virtuais entraram para ficar… Nelas o mundo real e o imaginário , outro universo. O que te explico, ao acaso, envolvida com os poetas a medir traduções e carregar poemas, encontro os Haiku, o tal livrinho que o Érico escolheu para me dar naquela visita e saudade. Escondeu no inglês minha paixão pelo francês. Não ouviu, se emocionou… Dedicatória hermana, e …outra história por trás, atrás. Mafalda me presenteou, mais tarde com volumes do próprio Érico, carinhosa: nunca sei se é a mãe que importa, ou a Friga, o Moog, outra fatia. Ou tudo misturado. Cá estou com o livrinho entre as mãos conversando contigo… As fotos se perdem, voltam na minha imaginação, seguram momentos, instantes e se soltam… Tanta coisa para dizer, nada para contar, vou voltar escrever. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
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engrenagem
Perco vontade coragem, o ânimo, perco o rumo. Não sendo eu mesma neste exercício de ser inteira boa completa justa para o outro, como que representar, eu me afundo. Se os outros não sabem como sou e o que dou de mim para ser eu, termino por não saber eu mesma, não sentir. Este esconde esconde para que o sentimento seja adequado ao que o mundo exige da nossa capacidade de convivência de boas relações desmonta a nossa engrenagem interior. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 Torres
outro beijo
Sabes do mundo, dos planetas: tuas dores. E me conheces – eu te peço desculpas
Sabes como fui /sou esquiva. Não entendo os motivos, nem o silêncio.
cruzando poemas Yeats e Bandeira
A ilha lacustre de Innisfree
Vou levantar -me e ir agora, e vou – me para Innisfree,
E lá farei uma choça com barro e vimes torcidos;
Terei feijão, nove filas; e abelhas terei ali;
E estarei só, na clareira entre os zumbidos.
E lá vou achar a paz, paz que pinga devagar,
Que pinga dos véus da aurora para onde cricrila o grilo;
A meia-noite ali brilha; o meio-dia é esbrasear;
E o poente… pintarroxos vêm cobri – lo.
Vou levantar – me e ir agora, porque sempre dia e noite,
Ouço o marulho das águas que no lago vêm e vão;
Se na estrada me detenho, ou sobre a calçada fria,
Escuto – o bem, lá dentro do coração. W.B. Yeats
Tradução de Paulo Vizioli
(A will arise and go now, and go to Innisfree,)
Vou – me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manoel Bandeira
E eu inventei, outra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Pra Pasárgada que inventei.
Sem Bandeira, sem pedra no caminho,
Sem Meireles pra explicar,
Vou – me embora pra esquecer.
Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.
Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,
Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção
Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.
Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…
Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.
Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.
Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!
Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,
Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.
Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.
Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?
Vou-me embora pra Pasárgada.
A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014
agradecer
ao João o Amoras, ao Lucas seguir sendo nós, a Valentina o futuro, hoje nesta amorosidade,
irmãs amigas, sobrinhos alertas, e aos amigos, a presença
obrigada enorme e colorido
aos amados, o amor… claro! nunca estive sozinha! Luiza, obrigada pela Ônix!
ao Pedro, o futuro inteiro no hoje. Beth Mattos em maio, materno

Sonia Moreira Lobato Ninguém disse nada nesta coluna hoje e você fala em “agradecer”! Eu que agradeço, a porta estava aberta, entrei e partilhando sua beleza me empolguei. Escrevo com as palavras que despencaram dessa sua organizada postura de deusa, toda quase, quase assim (pela distância que vivemos uma da outra) cinematográfica! São fotos, gosto admiro e me empolgas a imaginação a entrega atenta à elegância dos objetos, a beleza dos nomes desde a criança: Valentina! Ônix aos seus pés encantada dessa sua gratidão soprando suave na cara de quem entrar…Obrigada Elizabeth Menna Barreto Mattos!
não
ainda não parei de pensar em ti
esquisito isso!
deves achar/pensar na
Caixa da Pandora (tua aparição)
nestes dois anos, esquisita:
eu te encontrei e te perdi:
um jato! …
nem me dei conta!
outro acesso de sedução!
o teu e o meu: cinquenta anos e me deixaste passar…
Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
por quê?
História de Pandora e sua caixa: narrativas mitológicas dos antigos gregos. Conta a história que o titã Prometeu (aquele que vê antes) e seu irmão Epimeteu (aquele que vê depois) criaram os animais e os homens. … Porém, enfureceu Zeus ao roubar o fogo dos deuses e dá-lo aos homens. Foi o que tu fizeste comigo: roubaste todas as possibilidades. Enfim… Eu envelheci, tu também ficarás velho. E o que nos importa?
violeta e mar
Escrevo frente ao mar: cinzento e tranquilo. Sinto o cheio que entra pela fresta da janela. Logo vou caminhar, preciso amar meu corpo – parte da terapia. Escrevo este bilhete com a minha preciosa caneta-tinteiro, ficas mais perto… E me sinto, então, elegante (se é que isso importa -, sentir ou ser?). Ser é o verbo, a ponte certa. Horrível o que acontece no momento: choque ideológico, juros estratosféricos: comprei os jornais depois de termos assistido na televisão as notícias. Assustados, não impassíveis… Lembrei Hiroshima, o amor, não a explosão. Prepotência do poder: o que escrever? Neste momento, recolhimento, certeza de que não é este o mundo que queremos para nossos filhos, nossos netos.
Estou te gostando. Sem vontade de abrir o computador para trabalhar. Aproveito o silêncio da casa, eu a minha desordem… Terminar de arrumar as gavetas e os pacotes para o Natal, guardar os vestígios do tumultuado fim de semana, emoções juvenis, carências afetivas, da saudade de amor. Tua presença e a festa. Egoisticamente prolongo e curto as horas matinais, minhas. Amanhã vem a moça polir limpar e me ajudar, ah! Se eu conseguisse fazer sozinha, faria. Gosto de ter a casa só para mim! L. ligou e conversamos. Eu me senti feliz com o feliz da voz dela. A distância, reforço de amor, também pode ser assim… Eu estou te gostando, ser feliz no amor, tão bom!
Pausa
Reli o que te escrevi…, perdi a voz, vou voltar aos diários e escrevo para nós dois, outra vez. Se não for a carta para correio, leremos juntos, entre lençóis…
Perdoa o tanto que te chamei ao telefone hoje de manhã: inquietude amorosa por não estar ao alcance da tua mão, do teu beijo. Ao mesmo tempo valorizo os espaços: a galeria e a casa. Sei que necessitamos deste equilíbrio para seguirmos, o trabalho nos salva. Eu que me digo introspectiva e silenciosa! Converso com o mar com os livros, mas me apresso contigo, ansiosa…
É a saudade da fazenda e do silêncio verde. Dança das plantas. Cheiro de terra…agora, o mar. Reviravolta. Cheiro de tinta. Cheiro-perfume. Eu te percebo/sinto/entendo que me percebes/sentes por inteira quando insistes que eu caminhe junto ao mar todos os dias… E sublinhas o lentamente, devagar. E eu me embalo nas tuas palavras e no cheiro do amor. Seria bom se eu aprendesse a nadar: adoro a água! Escrevo mansamente, sem susto. Estás a me olhar! E pronta para aconchegar meu corpo no teu. Volta logo.
Quero o teu retrato…não esquece. É a menina quem escreve. Vou te mandar uma violeta do meu vaso para colocares dentro do livro, e eu penso
Rádio – som – imagem – sonhos – casa e tu. Tu és querido! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
“tudo corre e chega tão ligeiro / se sonha, já se fez…”
“tudo corre e chega tão ligeiro / se sonha, já se fez…”
Não vai terminar nunca este prazer da palavra. Desatino amuada, aborrecida, quase furiosa de tão esquisita…
Com raiva, com dor, com jeito esquisito de ser. Abro um livro, não. Não quero. Bebo Coca-Cola, mastigo um pedaço de pão com manteiga. Olho pela janela. O telefone? Não ligo. Volto atrás. Reclamo. Eu me aborreço do beijo, do desejo. Depois abro Grande Sertão: Veredas, vou acalmando, riscando. Céus! Que coleção incrível, já usada, eu sei que se despenca em beleza. Transcrevo.
“Sua companhia me dá altos prazeres.
Em termos, gostava que morasse aqui, ou perto, era uma ajuda.
Tempos foram, os costumes desmudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada.
Uma tristeza que até alegra. Mas, então, para uma safra razoável de bizarrices, reconselho de o senhor entestar viagem mais dilatada.
Quando o senhor sonhar, sonhe com aquilo. Cheiro de campo com flores, forte, em abril:
Depois dali tem uma terra quase azul. Que não que o céu: esse é céu-azul vivoso
Ventos de não deixar se formar orvalho… Um punhado quente de vento, passante entre duas palmas de palmeira… Lembro, deslembro.
Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz – se que tem saudade de ideia e saudade de coração… (p.51-52) Guimarães Rosa
Cada recorte um recado. Tenho mesmo a sensação do silêncio sussurrante destes sentires que sinto porque te desejo e soluço. Eu me despeço porque não largo canto / lugar seguro de ser eu comigo em linha reta. Mas, tu sabes, tudo te falo, tudo te conto, tudo sussurro. Podia ter sido acaso de morares aqui, e não ali, mesmo longe…
Seria um perto possível visto que o tempo de viver se apequena e a coragem de ir também. Podia ser vizinho. Eu atravessava a rua, pedia uma xícara de açúcar, uma colher pequena de sal e eu te olhava. Tu tocavas minha mão, desenhavas meus pés e oferecias um copo de café, e eu ficava sentada na beira da escada com os pés na grama do teu jardim…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres
70 anos, os teus
1. carta
Saudade nostálgica (é claro) maior do que a idade, a minha, envelheço, já a tua, tão jovem em produção e vida! Acho que este foi um dia dos primeiros, entre outros, de certo, que não lembrei/não lembrarei teu aniversário… Preciso olhar e anotar em todos os calendários o que não pretendo esquecer, assim mesmo! Deve existir um elo, um fio, alguma coisa invisível, mas certa/ justa que une as pessoas, gruda para sempre uma a outra mesmo em tempo distante ou vida apartada/separada/ ou sei lá eu o que acontece…
No dia do teu aniversário eu estava a ler desorganizada e dispersiva, como sou, o livro que traz tua presença… Ri de mim mesma. É preciso rir em algum momento já que estamos a tropeçar em tantas coisas esquisitas!
O carinho nos amarrou, que bom! Tão raro te ver!
Tempo de apostar que amanhã seria sempre fantástico! Manhãs apressadas, o trabalhar! Que a vida não volta que o tempo também não, e que envelhecemos! Ternura carinho e desencontro! Nada perdido nem esquecido. O carretel… A criança joga o carretel e o fio se estica, quer que a mãe volte e olhe e… , sim, Além do Princípio do Prazer, a reler Freud. Tenho ansiosa inquietação no/sobre o tempo. Pura nostalgia e memória. Estou rindo! Leio, leio, leio muito. Atrasada comecei a tomar jeito com Guimarães Rosa. O Grande Sertão: Veredas:
“Ah! vai vir um tempo, em que não se usa mais matar gente…Eu já estou velho.
Bom, ia falando: questão, isso que me sovaca… Ah, formei aquela pergunta, para compadre meu Quelemém. Que me respondeu: que por perto do Céu, a gente se alimpou tanto, que todos os feios passados se exalaram de não ser – feito sem-modez de tempo de criança, más-artes. Como a gente não carece de ter remorso do que divulgou no latejo de seus pesadelos de uma noite. Assim que: tosou-se, floreou-se! Ahã. Por isso dito, é que ida para o Céu é demorada. ” (p.47)
Ou
“ […] o mais importante e bonito, do mundo, é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando” (p.48) Tudo na/da 20 Edição Nova Fronteira, 2001 – RJ
Lembro quando o mencionavas, e o desvendavas! Os atrasos! Eu enfiada nos franceses e maravilhada com Gide, Maupassant e Monthertand, Exupéry, lendo Proust aos pedaços, esquecendo os nossos autores. Vês, meu amigo, de tudo tenho saudade! Salada de tantas frutas! E não terminei de escrever. Nunca vou terminar. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres, Balonismo
canibalismo
Histórias de amor se sobrepõem, se reeditam e se realimentam com outras histórias, também de amor. Canibalismo amoroso. Todas importam! Não fuja, não desperdiça paixão de amor e encontro!
Viveria tudo outra vez…
Repetiria, de certo, os mesmos erros! O aborrecido se chama envelhecer, e assim mesmo, tão bom estar viva/vivo. Beth Mattos
“Rosa fazia-se obedecer e amar sem estardalhaço nem sentimentalidades.” (p.248) Affonso Romano de Sant’Anna O Canibalismo Amoroso – O desejo e a interdição em nossa cultura através da poesia – Edição do Círculo do Livro