noite sem dormir, branca

Esta história queimou / ardeu na minha imaginação. Houve um filme, apaixonada que sou pelo cinema… Imagens precisas da bruma, do frio, da noite branca em que ambos conversaram, conversaram, conversaram,  corações  desdobrados… Escorrego para dentro do desejo-sentimento=vida / imagino… / eu me arrasto pela fantasia. Recortes do possível / impossível. Outras vidas / as mesmas que brotam / voltam… A mais borralheira acorda na poesia de abrir os olhos / respirar / chorar, e seguir presa por um alfinete ao sortilégio de sofrer. E foi apenas um encontro, ou foi apenas um café, ou foi apenas uma xícara de chá, ou foi apenas um olhar. Foi apenas um fortuito encontro: explode sentimento inexplicável, incandescente. Aperto ao ver tua lágrima escorregar! Hora encabulada: descrever o prazer daquela conversa teclada, o que vai ou não acontecer… Enorme / gigantesco silêncio neste vento que anuncia inverno: eu te mando mais esta mensagem, e te espero, meu amigo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres

Tenho uma velha avó. Fui para casa dela muito pequena, pois perdera o meu pai e a minha mãe. É de crer que a avó foi rica em tempos, pois ainda hoje recorda esses dias melhores. Foi ela que me ensinou francês e, depois, me contratou um professor. Quando fz quinze anos – tenho agora dezessete – abandonei os estudos. Foi nessa altura que cometi a tal tolice de que lhe falei. Não lhe direi que tolice foi; basta que lhe diga que a falta não foi grande. Apesar disso, uma bela manhã, a avó chamou-se junto dela e disse – me que, como era cega e não podia andar atrás de mim, resolvera prender a sua saia à minha com um alfinete, acrescentando que, deste modo, iríamos passar toda a vida presas uma à outra, a não ser que eu me emendasse. Em suma, nos primeiros tempos não havia maneira de me conseguir afastar: para trabalhar, ler, estudar, tinha de estar sempre junto da avó.” (p. 71-72)

Fédor Dostoievski – Noites Brancas Romance Sentimental (Recordações dum sonhador) – Publicações Europa- América

epígrafe

epígrafe

Ou não teria sido criado apenas para permanecer por um instante na proximidade do teu coração?... Ivã Turgueniev

 

 

homens e mulheres

quando ele está fisgado, ela deixa seu carrinho na garagem e vai pro mundo no carrão dele… confiante (ele ou ela?)

medidas de amor, esquisitas! vai andando a importância de ter / quem nunca comeu mel, céus! fica mesmo lambuzado

onde mora o poder? ainda não sei

guardiões os filhos! desativados estes pais apaixonados depois dos sessenta anos… se invertem certezas na carência de uma voz mansa… estranha vida, estranhos vizinhos! maquiavélicos de voz mansa! (ele ou ela?)

Branca de Neve! a mãe madrasta, o pai padrasto, a estranha no ninho! piando e bem viva! a vida ensina nas histórias que não são apenas de fadas, cheias de vilões!

 

ERA UMA VEZ um rei que vivia num reino distante, com a sua filha pequena, que se chamava Branca de Neve. O rei, como se sentia só, voltou a casar, achando que também seria bom para a sua filha ter uma nova mãe. A nova rainha era uma mulher muito bela mas também muito má, e não gostava de Branca de Neve que, quanto mais crescia, mais bela se tornava.

A rainha malvada tinha um espelho mágico, ao qual perguntava, todos os dias:

– Espelho meu, espelho meu, haverá mulher mais bela do que eu?

E o espelho respondia:

– Não minha rainha, és tu a mulher mais bela!

Mas uma manhã, a rainha voltou a perguntar o mesmo ao espelho, e este respondeu:

– Tu és muito bonita minha rainha, mas Branca de Neve é agora a mais bela!

Enraivecida, a rainha ordenou a um dos seus servos que levasse Branca de Neve até à floresta e a matasse, trazendo-lhe de volta o seu coração, como prova.

Mas o servo teve pena da Branca de Neve e disse-lhe para fugir em direcção à floresta e nunca mais voltar ao reino.

Já na floresta, Branca de Neve conheceu alguns animais, os quais se tornaram seus amigos. Também encontrou uma pequenina casa e bateu a sua porta. Como ninguém respondeu e a porta não estava fechada à chave, entrou. Era uma casa muito pequena, que tinha sete caminhas, todas muito pequeninas, assim como as cadeiras, a mesa e tudo o mais que se encontrava na casa. Também estava muito suja e desarrumada, e Branca de Neve decidiu arrumá-la. No fim, como estava muito cansada, deitou-se nas pequenas camas, que colocou todas juntas, e adormeceu.

A casa era dos sete anões que viviam na floresta e, durante o dia, trabalhavam numa mina.

Ao anoitecer, os sete anões regressavam à sua casinha, quando deram com Branca de Neve, adormecida nas suas caminhas. Que surpresa! Com tanta excitação, Branca de Neve acordou, espantada e rapidamente se apresentou:

– Eu sou a Branca de Neve.

E os sete anões, todos contentes, também se apresentaram:

– Eu sou o Feliz!

– Eu sou o Atchim e este é o Miudinho.

– Eu sou o Sabichão, e estes são o Dorminhoco e o Envergonhado.

– E eu sou o Rezingão!

– Prazer em conhecê-los. Respondeu Branca de Neve, e logo contou a sua triste história. Os anões convidaram Branca de Neve a viver com eles e ela aceitou, prometendo-lhes que tomaria conta da casa deles.

Mas a rainha má, através do seu espelho mágico, descobriu que Branca de Neve estava viva e que vivia na floresta com os anões.

Então, furiosa, vestiu-se de senhora muito velha e feia e foi ter com Branca de Neve. Com ela levou um cesto de maças, no qual tinha colocado uma maça vermelha que estava envenenada!

Quando viu Branca de Neve, cumprimentou-a gentilmente, e ofereceu-lhe a maça que tinha veneno.

Ao trincá-la, Branca de Neve caiu, como se estivesse morta. A malvada rainha fugiu e, avisados pelos animais do bosque, os sete anões regressam apressadamente a casa, encontrando Branca de Neve caída no chão.

Muito chorosos, os anões colocam Branca de Neve numa caixa de vidro, rodeada por flores.

Estavam todos em volta de Branca de Neve, quando surgiu, no meio do bosque, um príncipe no seu cavalo branco. Ao ver Branca de Neve, o príncipe de imediato se apaixonou por ela e, num impulso, beijo-a. Branca de Neve acordou: Afinal estava viva!

Os anões saltaram de alegria e Branca de Neve ficou maravilhada com o príncipe!

O príncipe levou Branca de Neve para o seu castelo, onde casaram e viveram muito felizes para sempre.

Então! É preciso alargar o coração e deixar viver! A cada um o seu destino, e sua fraqueza! Sua vulnerabilidade. Importa o amor! Amor salta e adoece e todas as teias de aranha não serão suficientes para destruir o sentimento… Do farol se pode ver a tempestade a violência e a ingenuidade, também as pedras, as ondas e o mar ora azul ora verde ora cinzento  com riscas brancas. O infinito. Elizabeth M.B.Mattos – maio de 2019 – Torres, no Rio Grande do Sul

covardia

Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novas línguas. Pensei ter adquirido poderes sobrenaturais. Muito bem! devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças!” Rimbeau in Adeus

Somos tão pequenos e insignificantes, que luta!

…vontade de desistir! Beth Mattos

um dois e três

1.

gavetas perfumadas / armário com alfazema /aroma de limpeza

doce de leite feito em casa / verde  mais verde porque chove.

ternura mistura abraço, exaustão e desejo.

pernas, braços, e os dedos conversam comigo:

reclamam dores sobrecarregados e machucados.

respondo com evasivas exclamações e proponho estratégias…

esqueço.

2.

frutas enchem bandejas e pintam a casa de alegria; durmo toda a tarde, a tarde inteira, embalada pelo piano na escala de teus dedos.

um gomo de bergamota, uma banana, meio abacate com limão, um bocado de mamão

tua voz, o pincel, o barro da argila.

3.

Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou

Esqueço voz, nome, teus pequenos quefazeres,

sinto o cheiro da terra na tua voz  e me debruço sobre os dias de falar, falar, falar…

que pressa tiveste de me dizer, e depois me esquecer, resiliência.

4.

Envelhecer traz urgência de ver / dizer /estar e fazer

Fantasiar / disfarçar / protelar o adolescente encanto de estar

E se despedir: amanhã…

Quando passas pela janela, não te chamo, se olhas, recuo, mas assustada e aflita no meio da noite, eu te chamo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019

 

 

 

 

quando envelheceres

Quando velha e grisalha e exausta ao fim do dia

Tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear

Lentamente este livro, e lembra o doce olhar

E as sombras densas que nos olhos teus havia;

 

Quantos, com falsidade ou devoção sincera,

Amaram – te a beleza e a graça de menina!

Um só porém, amou tua alma peregrina,

E amou as dores desse rosto que se altera.

 

E junto às brasas, inclinando -se sobre elas,

Murmura, um pouco triste, como o amor distante

Passou por cima das montanhas adiante

E escondeu sua face entre um milhão de estrelas.

Tradução de Paulo Vizioli in W.B. Yeats / POEMAS

 

WHEN YOU ARE OLD

When you are old and grey and full of sleep,

And nodding by the fire, take down this book,

And slowly read, and dream of the soft look

Your loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,

Murmur, a little sadly, how Love fled

And paced upon the mountains overhead

And hid his face amid a crowd of stars.

W. B. YATS

Nota: “Quando velha e grisalha”: estes versos tiveram como ponto de partida o segundo soneto dos Sonnets pour  Hélène de RONSARD: ” Quand vous serez bien vieille”

 

 

urtigas

O corpo comanda sentimentos que se apertam nas juntas, em extremos, e por dentro também. Vozes saem mansas a explicar tristeza, angústia. Olhos fechados. Por onde andará aquela menina vivaz e tímida? E a mulher alegre e disposta? E o menino a remover inço e urtigas? O festivo, ordenado, os bons comandos? Certeza e hoje. A música, a leveza, as flores? Em qual mudo espreguiçamos?! Não quero inventar desculpas, apenas admitir que 2019 não está sendo um bom ano, estou com fome. Farta de passado. O presente voraz assusta com gritos: ‘agora, agora, agora’ – estás a perder amigos, contatos e jeito. Logo será tarde demais.’ Sinto a queda, não tenho forças nem coragem de olhar no tempo, não consigo recomeçar. Agarrada nas letras e nas palavras desespero. Fabrico chaves e abro caixas, não estou atenta nem alerta. Pequenos projetos se debatem ansiosos, presos no fundo indefinido do amanhã. O fundo pode ser qualquer coisa: a calçada interrompida por buracos, estragos e nenhum interesse, a lagoa a se alargar maltratada. Luzes acesas  dia e noite. Árvores podadas com descuido. Aquela moça já senhora se espreguiça nos horários e reinventa o que não sabe. Agarra o momento de gritar, mas não reclama: sobe e desce o dia inteiro, motorizada. O inverno se sacode no vento. Portas e janelas fechadas. O ar se rebela asfixiado e tenso. Os velhos se apertam uns contra os outros, depois, num esforço último, empurram a rotina salvadora. Ela não se sente confortável e azul, empaca imóvel.  A música, filmes seriados, os livros não interessam, nem as palavras. Repito os mesmos sons sem sentido, sem eco. Os pés algemados na cadeira velha da sala. Sem saudade, nem mínima nostalgia eu me pergunto, e agora? Ninguém vai entrar, nem eu posso sair. Sinto os ossos. Não pendurei os espelhos, não acendi as luzes. Não tem reflexo. Desliguei estas notícias beligerantes e insensatas. Esvaziada repetição. Esguichada raiva. Pedras, espinhos, e dificuldades a cada passo: raivosos! Confrontar / dificultar. Pacientes enfermos se deixam ir sem ânimo, exaustos. Imóveis. A doença? Uma saúde inoperante. Constante desajuste carnavalesco. Prisão voluntária. Armadilha pronta. E todos alertas, com frio na transição de um verão escaldante e suarento, atrapalhado. As letras se misturam, as palavras se agrupam, o texto pode ser claro, mas as ideias se confundem em questões desgovernadas e beligerantes. Não hoje, nem amanhã, muito menos o melhor, apenas luta de vaidade e poder. Desligo a televisão, apago nomes. Cansaço maior derruba o tempo. Desânimo! Não sinto sono. Lamento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres

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despir

Queres que eu me cure dos amores, esqueça amados, apague rabiscos. Queres minha voz na tua voz, os olhos nos teus olhos, e tua boca a devorar a minha.

Queres tudo e nada: queres o estado de ser sem ter e me esqueces, mas eu não. E.M.B.Mattos – maio de 2019 – Torres

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher.

Deus de onde tudo deriva

E a circulação e o movimento infinito.

 

Ainda não estamos habituados com o mundo

Nascer é muito complicado.” Murilo Mendes – Reflexão Número 1

relógio e máquina

amor marítimo, o meu

Demoraste tanto para chegar! Já estou enfiada nas velhas meias de lã e botei aquela casaco do fundo da gaveta com cheiro de naftalina. Encolhida, cinzenta, ventosa. Não posso mais esvoaçar nas vestes transparentes do verão. Guardei o sorriso. Chegou um danado de sono triste.

Fiz um chá, não bebi. A xícara aberta…passei um café aguado, e comi os biscoitos que sobraram na lata. As frutas encolheram, eu te conto, ainda estavam doces, meladas. Pensei que não fiz as comidas que gostas, não abri o vinho. O poema se desmanchou aos sussurros. Pensei no teu abraço, meu querido.

Demoraste tanto para chegar! Elizabeth M.B.Mattos – maio de 2019 – Torres com chuva

 

 

“As mãos têm hélice, tempestade e bússola.

Os pés guardam navios

Aparelham para o Oriente

O olho tem peixes,

A boca recifes de coral;

Os ouvidos têm noites e lamentos e ondas.

 

A vida é muito marítima.”

Murilo Mendes – O homem e a água

 

tentação de existir

Cioran: “Exilado por natureza, o homem pode sê – lo também por vocação” diz  Sylvie Jaudeau no seu livro CIORAN ENTREVISTAS. “Cioran escolheu as ‘ vantagens do exílio’ para estabelecer – se na ‘cidade do Nada’ (p.41)

Há pensar na palavra exilado, vocação, estabelecer – se e o NADA.

Turbulência não apenas interior, confusamente misturada a outros humores, e atabalhoada. Gosto de palavras. Elos que se tocam: amorosidade porosidade idade amor, cidade. E.M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres

 

cartas

carta 1

Un journal est un miroir qui vous renvoie vos propres grimaces…” Paul Bowles (acabei de encontrar num velho jornal francês, estou a organizar, jogar fora velha papelada). Além dos diários que nos devolvem as próprias caretas, a correspondência. As cartas…

Tuas palavras e teu jeito único de dizer as coisas dança comigo. Quero reencontrar: o escrever solto, vida escolha -, tenho certeza da bagagem preciosa da tua memória. Estou envolvida com notícias, com a revirada do país um pouco sem graça, sem palavra, outro pouco querendo que o temporal traga uma leveza menos imunda, menos menor do que já é. Deste mínimo que foi o pronunciamento.

Estou a te escrever faz tanto tempo! …, penso na correspondência, na intimidade, e escorrego. Esquisito isto de escorregar e súbito insegura. E outras vezes eu também me sinto/vejo/percebo ser forte, uma fortaleza meio de sobrevivência. O meu pecado é cair na amorosidade. No desejo contínuo de encontrar o parceiro certo, o homem que eu imagino ou que está ali ao meu lado, escondido. E cá entre nós, este tempo terminou / acabou. Não faz sentido. É o meu lado infantil / de menina. Estranho que amadurecer seja um processo tão longo! 72 anos tem uma imponente estatura. Fatidicamente condenada a arruinar o próprio tempo de ser pessoa/mulher? Estou a divagar/perdida…Gosto de imaginar que vamos nos encontrar para o chá com bolo biscoitos e uma tarde inteira só para nós duas. Escreve. Te gosto muito e de nós duas conversando.

carta 2

Obrigada por teres ligado, por escutares, pacientemente. Eu lá fico pensando nas coisas ditas às pressas, nestes sentimentos atrapalhados que nos prendem, tanto quanto nos fazem voar. Um dia depois do outro, muitos, e uma parada no tempo. Quanto ao dinheiro gastei, meio sem pensar, em coisas bobas como lençóis, uma caneca aqui, um bule, uma fantasia. Um par de brincos. Revistas. Bobagens. Torres ajuda. Não tenho tédio, aliás, não dou conta do tempo, é rápido demais. Tenho problemas interiores adquiridos (antigos), pânicos, apagões, incapacidade… Gostaria de fazer de verdade, ter coragem. Fiz sempre mais ou menos. Não estou me lamuriando, são as culpas. O que é mais forte que a consciência? E roubamos assim, alguma coisa da leveza de nossos filhos. […]

 

carta 3

estranho como hoje tua lembrança veio forte e poderosa

 

carta 4

Lavando as roupas nível mínimo, prestando atenção aos saltos e ostentosa gritaria da lavadora, vou, aos poucos, eliminando o amontoado de lençóis, fronhas e toalhas da cesta. No intervalo arrumo a gaveta, reviso notas, passo endereços e telefones recentemente perdidos para a nova agenda 2014. (Maquininha infernal o celular!) Novos pregos na parede para novos quadros. Curioso toda esta agitação doméstica! E leio o jornal. Ação contínua de um bom domingo ensolarado, ventoso, assim bem fresco. Hoje cedo fui ao supermercado comprar pão, refrigerante, manteiga nova, detergente, e a Zero Hora.  Lendo de trás pra frente, destaquei a coluna do Santana escrita pelo interino Moisés Mendes, Gato ou Cachorro: “A vida e suas escolhas. Você acha que uma das grandes decisões da humanidade é esta que deve tomar agora, no vestibular, por exemplo, entre Engenharia e Medicina. Outra escolha: você tem que optar entre pegar logo aquela bolsa e ir para Paris, ou ficar por aqui mesmo, porque a Sorbonne já não tem tanto charme e a Bruna pode arranjar outro: você vai estudar o fim da pós-modernidade em Paris, volta insuportável e ainda perde a Bruna. Ou fica aqui não evolui como pessoa e perde a Bruna de qualquer jeito. Ou esquece a Bruna e se inscreve como candidato a colonizar Marte, com passagem só de ida. No fim as grandes decisões mesmo são as cotidianas que podem mudar muito mais a vida de alguém do que dois anos na Sorbonne. Uma decisão grave, que o mundo ocidental enfrenta é esta: gato ou cachorro? […] Gatos são femininos, cachorros masculinos. […] Cachorros, com certeza, sorriem.  Gatos são impassíveis, mas intuitivos. Dizem que os gatos previram, por agitação noturna, a crise de 2008 que quebrou Lehmann Brothers e as bolsas, um cachorro menos apegado a bens materiais, não entende nada de capitalismo. Mas, enfim, questões práticas dividem e unem gateiros e cachorreiros. […]” E segue citando nomes e motivos, muito engraçados porque as pessoas gostam ou desgostam deste ou daquele. Só faço pensar em ti e nas danadas das escolhas. Tuas, minhas, na loucura das decisões, no tumulto interno, no silêncio necessário, neste ir e vir das pessoas porque é verão. Para nós a estação do sol é boa como a das chuvas, e o mar está sempre lá nos recebendo, os cestos cheios de amoras, e todas azuis, o som das canções é francês, e as noites se invertidas, sempre divertidas, embora no mesmo lugar, sem ir e vir, mas ficar. Quanto a máquina de lavar encontrei solução. Uma delas é usar óculos todos os dias e ver longe e perto fica resolvido… Leio as letras miúdas das instruções. E escuto tua voz: “Nunca usei esta máquina de lavar!” Penso nas vezes em que estiveste perto e longe. Em Paris, ou Berlim, Boston ou Verona. Ou era Veneza? Depois o Rio de Janeiro, outra vez Porto Alegre, muito pouco Torres para usar a lavadora. A tua lavadora. Projetos urgentes, depois mutantes. Com as decisões do cotidiano priorizando as outras. E a vida acontecendo depressa como e fosse mesmo um risco no céu, um cometa, ou veloz como carro da Fórmula 1, ou surpreendente como o dia nascendo, e a noite chegando, o trajeto da roda gigante. Enquanto eu sigo sentada na poltrona da sala, pés nas almofadas, evitando aquela danada dor, lendo ou costurando, ou apenas olhando para trás. E tu neste ritmo todo, ora aqui, ora ali, cheia de sonhos e planos que dourados, azuis, ou verdes acontecem, acontecem na ponta da tua vontade corajosa. Penso em ti o tempo todo. Estará hidratando a pele, usando os produtos certos, cuidando do cabelo? Comendo o necessário, não pão, manteiga e café preto como a mãe, não dormindo muito tarde, mas vendo o sol nascer, fazendo exercícios para guardar a beleza, a boa beleza da saúde que a pele, as curvas mostram, e a juventude aponta. Tratando os pés, e os cotovelos. Segue tendo aquela imagem que só eu tenho, o cheiro que apenas eu sinto. Eu te vejo e te penso sendo tu mesma o tempo inteiro.

velhas cartas – hoje em maio de 2019 – madrugada