contagem regressiva

Ao longo da vida …, depois dos primeiros encontrões e sustos, eu me protegi, cuidei para não sair do quintal. Espiava por cima da cerca. E por longos compridos e tranquilos anos, tudo deu certo. Neste envelhecer, nesta contagem regressiva …, desavisada despreparada, a tua sedução explode. Que voltes ao início, ao começo, ao princípio …, tudo bem, eu entendo teu cuidado. Eu te peço, outra vez, que voltes ao fim, para repetir o que já sei …, mas eu te vejo, eu te escuto. …, a última vez, depois será para sempre. Não volto mais. Beth Mattos – dezembro de 2018 – ainda em Torres

perfumadassssssss 1

PARÊNTESE

Prometi carta e  fotos. Faz calor, calor sem sol, com chuviscos. O verão chega barulhento, mole. Ócio, vagar. Não, nada disto. Por aqui não se dorme. As horas se embaralham confusas na rotina sem sono, ruidosa, inquieta e trabalha-se o tempo todo. Toda a programação interna se modifica. Oxalá pudesse fechar a casa. Paz de serra, ou de mar com areia e rede, sem gente. Os sonhos se misturam com a vida ela mesma em pesadelo. Entender o ritmo? Não consigo. Continuo recuperando memória. Não parece tão simples.

 

Olho meu menino: olhos luminosos: porcelana transparente entre azul e verde. Tardes concentradas na risada com banhos, engatinhadas, bananas, maçãs, mingau. Às vezes vou caminhar: vejo o mar.

Volto a ler devagar: releio o capítulo anterior cada vez que retomo o livro. As histórias se misturam no cotidiano, discuto com personagens.  Não lendo eu olho. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 1999

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PAULO HECKER FILHO de Celestina…

Com paixão de apaixonado abro o pacote. Amontoada na cama começo a ler. Quero engolir o livro. O prazer  atordoa. Leio, leio rápido. Cisnes selvagens pela metade. Homem sem qualidades iniciado: indisciplina. Ansiosa para falar contigo. Pegar o telefone e perguntar. As respostas já tenho. Delírio meu.  Paulo apenas mandou um presente, e não se fez presente.  Abraço risonho. Estou a te escrever. Boa tradução de Celestina, devolves alma ao livro. Quero o mundo, quero sol. Calor da chuva. Choramingo desilusões desencontros.  Quero dizer tantas coisas! Quero remexer neste baú, misturar tudo, acordar tudo, e  viver.

“[…] porque viver vai além da cultura e é o que temos de fazer imediatamente. Há Deus no céu, conceda-se, mas por aqui cada um anda atrás de seus interesses, sem maiores contemplações com conceitos ou com os outros. ” (p.39)

Três horas da manhã. Risada, avidez, desordem ou ordem. Na cama  um telefone, embaixo do travesseiro. Lápis bloco, meu caderno vermelho, um prospecto. Livros em leitura.  Casaco com furo,  guardei do meu pai. Travesseiros, controles de televisão: tudo na cama, e eu. Desordem. Do espírito zeloso, amigo, eu recebo num golpe só — de volta –, num impacto a pieguice. Loucura ingênua de paixão obstinada que me obceca, imbeciliza: vou sair deste lugar. A leitura prossegue fácil, revela. Irônica verdadeira,  e simples. Louca eu sou. Continuo lendo metida no livro. Enxergo mais do que vejo: desperto. No susto amadureço. Sucumbo ao feitiço: quero de volta a juventude: conversar e comprar uma Celestina, a mágica. Quero tudo de volta. Sinto raiva de mim mesma, de todos, do mundo, droga! O ópio de chineses.

Droga! Leio em voz alta, decoro. Estudo e repasso os ditos populares, sábios: “Bem, Palermo, deixa para outra ocasião. Avisaste e eu te agradeço.[4] Vou ler, vou tentar dormir, vou escrever. Vou pensar. Obrigada meu querido, amanhã te escrevo mais. Elizabeth M.B. Mattos

[1] Chang, Jung. Cisnes selvagens: três filhas da China. São Paulo: Companhia das Letras.1994.

[2] Robert Musil. O Homem sem Qualidade

[3] A Celestina, Fernando de Rojas. Tradução Paulo Hecker Filho.

[4]  A Celestina, Fernando de Rojas

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Paulo Hecker Filho Vitóio Gheno  Nádia e eu

ABRACADABRA

Vai levar todo o verão, e mais uns dias, para dizer este gosto, este não gosto, este quero, este não quero. Digo, não digo…, fico, releio. Espero. Não no galope. Manso, manso caminhar. Tempo de fazer sol e chuva e trovoar. E perguntas: como é isso de ‘a memória me sacode?’ versos…, versos, versos: quem sabe? Memória sacode tempo / passado / presente, e pela janela espalha vontade / desejo e explica medo, preguiça, e susto. Não faço, não sei…, se escolho um / apenas um entre dois versos, esqueço o outro. Se mergulho naquele, renego o seguinte:  versos versos versos versos, não sei nada de poetar, imagino, eu te imagino, porque, um dia, esqueci de te olha… Elizabeth / Beth M. B. Mattos, ou Liza, não, Liz,  – seria azul – 30 de novembro 2018 – Torres

Longe, cresce a sombra do teu corpo:

Vou roubar versos: perdoa.

[…] “O tempo passou:

passou o tempo

e não passou.”

 

Pedras duras e voz fria…

Pedaços, …transcrevo. E não basta, não adianta, não tenho voz.

“Quem poderá afirmar que o mar

será eterno entre Arpoador e o Leblon

e que serão para sempre jovens

suas ondas verdes?”

[…]

“Mas …que dizer para não desapareceres?

Que palavras mágicas proferir

para tornares a elas verdadeiras?”

DESEJOOOOOOOOO

Versos, versos, versos, versos, versos.

que males pagoooooooooooooooo

O Príncipe Irreal  – Fernando Cacciatore de Garcia

CAPA DO LIVROOOoooo

 

 

 

caminho partido

Difícil, complicado, complexo amargo caminho.

Estamos a sangrar. Não consigo pensar resolver sentir, ou apenas estar presente. Amigos amados queridos poetas escritores pesquisadores, intelectuais. Paralisados. Que a luz ilumine e a noite me tranquilize no abraço. Não sei escrever, colorir, ouvir ou dizer, muito menos julgar. Tanta  dor, tanta tristeza, tanto desespero! O escuro, a pausa se faz necessária… Condenar punir culpar perdoar entender. Indulto/ perdão… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018

desconfiança

Onde há convencionalismo, há desconfiança, e da desconfiança nasce toda a espécie de intrigas. E, com um pouco mais de sinceridade, tornaríamos a vida mais fácil para todos.” (p.65) Vincent Van Gogh – Van Gogh CARTAS a Théo – Rebeldes Malditos

amizade estelar

[…] sigo a pensar: o amor esfacela interdita, e tira empenho do caminho: buscar. Enquanto tenho planos, ideias, confabulo, os dias se apequenam, e as noites insones se abrem no trabalho / no fazer / na luz de conquistar. Estou sempre a me agitar. Instalada, abraçada no amor amado sinto uma pacifica paz. Vazio preenchido,  encontro o ponto, o porto.  Há que viver o furacão da desordem, da solidão para recomeçar a sentir o perdido desejo de chegar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 de alguma forma / maneira eu te imagino / desejo a me pensar / a me desejar, mas te confesso que o tempo enruga a pele a alma, e os dias. E não chegas, eu te espero. Velhos, a nos reconhecer …

Nós éramos amigos e os tornamos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos nos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois barcos que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa, como já fizemos – e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado a seu destino e ter tido um só destino.  Mas então a toda-poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo – ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos que nos tornar estranhos um para o outro é a lei  acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar também mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas  como pequenos trajetos – elevemo – nos a esse pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido dessa elevada possibilidade.  – E assim vamos crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos de ser inimigos na Terra.” (p.96-97) Friedrich Nietzsche  O caso Wagner

Paty eu velhaaaaaaaaaaaaaaaaaa

coisas de amor

Fazemos tudo pela pessoa amada, menos voltar a amá – la.

Saudade é SER depois de TER diz Guimarães Rosa, cito assim do nada, sem referência. Anotado em algum livro porque tudo pode ser Guimarães Rosa, anárquico este citar e dizer o que vem na cabeça aleatório. E como é do meu jeito, remexo nos livros esparrados na mesa porque se atravessaram enquanto fiz a sesta. Sem dormir, sou eu. Não consigo. Hoje escutei rádio e me diverti e gostei. Alguém disse, a música e as fotos dominam o mundo. Canções, instrumental, som e fotografias azuis, rosadas ou brancas e pretas. Uma foto uma história. Uma canção poesia. Uma orquestra, o mundo.

[…] “Ele pode parecer um homem um homem como qualquer outro, pelo espírito democrático com que descerra seus problemas existenciais, comuns a todos. Na verdade tem um talento danado. Com coragem e modéstia inéditas (toda verdadeira modéstia é  modesta), se apresenta sempre tal qual é, inclusive no mais árduo como a realidade familiar e sexual. Não apenas diz a verdade, mas toda a verdade sobre si mesmo, ao ponto de que, ao seu lado um Henry Miller, pródigo de recursos líricos e humorísticos, soar como literatura, ainda que às vezes de boa qualidade.” (p.185) Paulo Hecker Filho Saudades de Voltaire  – Sulina, Porto Alegre 1998

Transcrevo, volto e vou me debruçando no que já foi escrito e dito. Paulo tem razão, se não houver absoluta e completa honestidade, nada importa, tudo já foi vivido, escrito, dito, falado. Repetimos, inúmeras vezes, a mesma coisa. Miller e Alexis em sua AUTOBIOGRAFIA EXTRAORDINÁRIA consegue. Vou citando  e voltando aos livros lidos. Tomo fôlego, mas repito. Pensar e voltar. Difícil ser inteiro, e dizer da mágoa doida, e o incerto se contrai… Por que não olhar nos olhos… Não sei. Eu fujo, protelo. E não conto. Sem dizer está tudo explícito e tão claro! Beth Mattos / Elizabeth M. B. Mattos / Torres