Tu sabes o que aconteceu com a minha memória? Ela se jogou / se agarrou na tua lembrança. Quer reconstruir o menino que és e a menina que sou. Beth Mattos – novembro de 2018

Tu sabes o que aconteceu com a minha memória? Ela se jogou / se agarrou na tua lembrança. Quer reconstruir o menino que és e a menina que sou. Beth Mattos – novembro de 2018

Dia difuso, tomado de saudade… Ora! Ora, ora! Não vivi isso / não sei onde estás: imaginação / alucinação… Não faz parte / não pertence / não é a minha vida. Loucura desta desenhada e colorida imaginação. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 – Torres
Paul Auster em Diário de Inverno – memórias : “Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas o tempo está – se a esgotar. Talvez não seja pior poderes de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo dede o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais.”

“Esses livros são as colheradas com que tenho medido a minha existência.” Ian McEwan
Histórias de amor suado, esquecido, naufragado ou findo … Termina antes, antes de começar: dolorido esquisito. Se não amo desespero, se amo eu me atormento. Quero e não sei. Fujo e entristeço. Se é azul, ou castanho, verde ou …, pois é sempre naufragado. … ou apenas isso, dolorido esquecido, largado, o amor. Como é mesmo amar e se apaixonar? Que droga! É desespero ou vazio? Elizabeth M.B.Mattos – Torres

A leitura se completa na memória dos livros lidos. Cada idade uma foto-história. Santa Cruz do Sul. Vida generosa. E.M.B. Mattos
“Tinha a impressão de encontrar-se num lugar que conhecia, mas não sabia conhecer; ou percorrendo um livro que já lera mas relia com a mesma emoção, porque não tinha memória de tê – lo lido. ” Orphan Pamuk
Livros em caixas. Louças nas cestas. Engradados. Abre outra garrafa de vinho. Escolhe um dos cálices de vinho que se alinham aos de conhaque, as bolhas. Ainda tem três pacotes de biscoitos, damascos, um pouco de café, uma lata de leite condensado, e uma de sardinha. Bananas e laranjas. Meia dúzia de ovos. Duas garrafas d’água, e nenhuma fome. Precisa terminar de embalar o que falta. Senta no banco de três pés perto do fogo. Coloca um nó de pinho na lareira. Gelado este agosto. As venezianas entreabertas.
Isabel boceja! Deita no pequeno sofá, puxa até ao pescoço aquela coberta de lã de ovelha. E onde fica o esvaziar, limpar, classificar, selecionar, eliminar? Precisa reagir. A estante de livros ainda abarrotada. A mesa retangular em desordem: lápis, régua, estilete, esferográficas, pincel atômico. Fichas, uma pilha de papel A4, duas canetas tinteiro, um caderno quadriculado, capa verde, aberto. Um peso de papel. Livros em torre, por autor. Não dorme, volta aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo. Os objetos transitam, se movimentam pelo chão. O mundo de dentro estripado no tapete. Ou mesmo grudado nas portas, em lembretes. Estas sucessivas mudanças adoecem o espírito e o corpo. Choveu e ventou a noite inteira. Vasos em caixas de plástico. Manhã escura! A chuva e o movimento sacudido das samambaias arrastam sombras verdes. Abre a caixa que deixou na cadeira azul… Ajoelha no tapete e começa a tirar as fotos dos sacos plásticos. Visita cuidadosa ao passado catalogado: 1936, 1946, 1956, depois 1970, 1980.1999. O telefone? Não. É a campainha. Enfia os pés na pantufa, pego a chalé amarelo da mãe, passa as mãos no cabelo. Parece ser ainda mais miúda, as franjas sacodem nas pernas do pijama de flanela. Desce os degraus para chegar à porta. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2013 – Porto Alegre
Amortecimento de afeto exacerba. Sou colorida e madura. O desejo surpreende . E.M.B.Mattos
Detesto usar estes óculos pesados. A miopia limita. Queria só beleza, e esta esquisitice! Os dentes doem, o aparelho machuca. O cabelo, com a chuva, encrespa.
O vento sacode a janela. O vento assobia. O vento entra no meu quarto. Não me concentro na música. Estou de castigo. Adianta? Faço tudo às pressas … Detesto o acanhado deste quarto, o frio, e não ter televisão. Nenhum filme, nenhum jogo, nada. Esta música me atormenta. Dizem que o Bolero foi um sucesso! Moderno. Ruptura. Droga! Ravel importa? A liberdade de escolher, neste caso, parece arbitrária. Apenas dois. E se preferisse Vivaldi? Imaginar o pequeno instrumento de cordas, o cravo. História bonita! Aquelas roupas de seda, veludo, renda. Nos cabelos fitas, jóias! Intimidade com o músico… A moça de olhos azuis, loira e linda, aquela para quem ele toca. Gosto de violinos! A professora pediu para escutar o Bolero de Ravel. Escolhi a gravação da Orquestra Filarmônica de Munich! É famosa! Gosto do espetaculoso, do brilho. Os grandes músicos são alemães! A posição de alerta não me deixa sentir. Fecho os olhos para pensar. Detesto exigências impossíveis. Sentir ser possuída pela música. Estou perdendo a sessão da tarde! Se eu não conseguir nota boa em Redação este ano, reprovo. E o pior, leitura em voz alta. Aquele momento em que os colegas escutam minha voz. O que estou imaginando? O deserto. O deserto do filme Lawrence das Arábias. Os olhos azuis. E a marcha no deserto. Estou vendo a música. E também areia. A ventania. E tudo desaparece. Sorvedouro de pessoas, de animais. A música está subindo, mas esta marcação continuada, rítmica, monótona, e então grandiosa entra no meu corpo. Recomeça a marcha! Alucina, encanta, vibra! Sou chicoteada pela areia. Estremeço de prazer. O deserto me desafia. O céu vermelho, azul. Beleza que desconheço. Recomeçarei. No deserto escuto todas as músicas ao mesmo tempo! Compasso violento batido. Não, … Apoteótico. E não é Beethoven, deve ter apreendido com ele este Ravel. A repetição nos estremece, e se confunde com o vento que fustiga, não, não é o vento, mas areia. Vou escutar sempre o Bolero de Ravel. Não. Prefiro Piazzolla, latino e quente! Adoro jazz. Em Gerry-Mulligan o inquietante. Quero o Piazzola. E dançar, e ser apertada num tango sem tango… Tudo nunca é do jeito que a gente quer. Quero mesmo escutar/ouvir sempre. Escutar Years-of- Solitude. Melodiosa. Gosto do anonimato de bar, do nada no improviso do hoje. Sem grandiosidade, sem deserto, mas assim mesmo bem sozinha. Terminei a redação. Ganhei o Ravel! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2013 – Torres – Oficina Criativa
Villon
“Morro de sede junto a fonte
Rio em pranto e aguardo sem esperança …”
David Rousset
“Les jours de notre mort
L’ autre royaumme ”
Nossa morte, outro reino …, ou
Agrada – me bastante (beaucoup/ trop) quando podemos nos apaixonar / entrar / sentir as mesmas coisas.
Fragilidade que pesa e arrasta. Pelo rio navego sem bússola, sem rota. Sem texto. À deriva no tempo/ na hora do dia. No sopro desta preguiça, a espera. Sacode o barco. Sacode angústia. Silêncio. Quietude = N A D A , sem antes ou depois, apenas esta água … Elizabeth M.B. Mattos – setembro 2013 – Porto Alegre
Passo a noite a imaginar como você vive, sente, e respira. Quantos jogos assistiu, quais, de fato, importaram. Em quantos gritou, ou levantou da cadeira, de quantos participou intenso. Quantas vezes abriu a porta da varanda para respirar a noite, ou olhar para o escuro. Ou pensar no que deveria escrever depois… Quantos livros você abriu ao acaso. Quantas mulheres desejou. Segurando uma cerveja pensou no dia comprido, e nas tarefas matinais. Pensou na vida com cheiro de terra, não de mar. Quantas vezes falou com a filha ao telefone. Quantas vezes sentiu saudade do antes, do de sempre, ou lamentou o hoje / este agora, quem sabe festejou? Quantas vezes chorou? Histórias de amor e o amor (nominado / imaginado invasor). Amor a trepidar, constante esta confusão… O que eu sinto por você.
“Eu me dava ao prazer de imaginá -lo, a cabeça debruçada sobre o papel até bem depois da meia-noite, quando você se levanta da sua mesa triste e desesperado para arrastar os pés até a geladeira, abrir a porta e examinar o que contém com um olhar distraído, sem nada pegar, como contou em uma das suas crônicas; e depois vejo você vagando pelo apartamento, ou andando em círculos em volta de sua mesa. […] Por todos esses anos, só fazia pensar em você enquanto lia suas crônicas. Me dê seu endereço, eu imploro – ou pelo menos me diga alguma coisa”. (p.415) Orhan Pamuk O Livro Negro
“Você é sua bem-amada, e sua bem-amada é você; ainda não entendeu?
Acho / penso. Entendo. Não existe amor encanto, ou sentimento a definir. Agarrar como seu. Aquele que se possa segurar /possuir inteiro, e triturar. …, e / ou se complete. Imaginação, fantasia, palavreado, ou depuração. Intenso. Estou no outro e o outro está em mim. Sinto a mão na minha pele, tenho o beijo. Toque sensação prazer. O sonho me acorda . Vou até a geladeira para beber o leite com chocolate, energia com vontade; ouço outra vez a música, sua voz. Abro as janelas. Você sereno, tranquilo. Somos parceiros e amados. E ainda não nos tocamos …, sabe por quê? Não envelhecemos.
“Cada uma dessas histórias de amor levava a uma outra história num encadeamento infinito, em que cada porta desembocava em outra. E todas aquelas histórias de amor – quer se passassem em Damasco ou nos desertos da Arábia, nas estepes asiáticas ou no Horassan, em Verona, ao pé dos Alpes, ou em Bagdá, às margens do Tigre – no Rio de Janeiro, na Lagoa do Violão, Porto Alegre, Belo Horizonte, Montevidéu, Buenos Aires ou em Torres – eram tristes, todas eram melancólicas, todas eram pungentes.” (p.422-423)
São muitas e nenhuma. Tão particular o encontro, o momento, o gesto, a certeza. Todas as descrições e os sentimentos segmentados, e únicos. A cada um no seu tempo, a cada idade, outra intensidade. Esquisito esta coisa de amar o amor. Amar não termina, atropela. Respira e sobrevive. Fantasia. E sente medo, muito medo. O amor é você a me procurar e a desejar e a querer me encontrar, depois, desaparecer. E ficar assim, grudada em ti a te pensar /amar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018 – Torres
Não sei exatamente qual o ponto mais apertado, … uma pedra, uma dor! Um cinzento amolecido, quebrado. Ausência. Mistura agitada, desconfiada do horizonte. Beleza consumida pelo frio gelado deste nada. Zerada por dentro. Bom seria esvaziar gavetas, rasgar cadernos, fogo. Colocar na boca da lareira, acompanhar labaredas. Aquecer. Uma casa inventada. Tempo. Tempo enorme! Frio. Bastante frio. Cheiro de inverno. Este frio entra pelos pés, o gelo da terra. Os dedos congelam. O nariz. As bochechas vermelhas. A menina se encolhe. Desconfiança incontida. E a leveza da infância desaparece. Estamos em novembro. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 – Porto Alegre