Noite linda! Beleza no céu.
Uncategorized
Vício
Compulsão vício, não sei explicar. Aparentemente inofensivo. Solitário mesmo quando me penso / imagino ser povoada. Hoje eu me extasiei com a cascata de jasmins que vi pela janela …, e me alegrei. O dia não precisava nem de livros nem de escritos, apenas ficar olhando … Viciada abri o livro de Rushdie. E transcrevo. Outro vício.
“Foram dias amorosos, uma espécie de retorno a inocência.”
A palavra amorosos me deu amorosidade. Voei para perto de quem amo de quem gosto de quem eu sinto, e tudo se interrompeu: o dia o tempo a leitura. Entrei no prazer gosto gozo. Não posso explicar.
“Ele deixou a Índia sentindo-se repleto: carregado de ideias, argumentos, imagens, sons, cheiros, rostos, histórias, sensualidade e amor.”
E pensei em todos os lugares onde morei. Também nos que deixei para trás …. Recomeçar. Para recomeçar precisei apenas de mim mesma. Ainda estou inteira, e isso é bom. Rushdie se reencontra com o pai.
“Anis segurou a mão do filho e murmurou: ‘Eu fiquei zangado porque cada palavra que você escreveu era a mais pura verdade.’
Nos dias que se seguiram, eles recriaram o amor mútuo, até que ele aflorou, estava ali de novo, como se nunca tivesse se perdido. Na magnífica série de romances de Proust, o objetivo é recapturar o passado não pelo prisma distorcido da memória, mas sim como ele era. Foi isso que eles fizeram com o amor. L’amour retrouvé. Uma tarde, ternamente, ele pegou um barbeador elétrico e barbeou o rosto do pai.” (p.89-90)
Senti vontade chorar. Lembrei das inúmeras brigas com a minha mãe. Na última, não tive tempo de segurar sua mão. Ela morreu. Eu continuo viva. “Foram dias amorosos, uma espécie de retorno à inocência.” O vício dividimos ela e eu. Viciadas em livros na beleza no amor, nas longas e compridas conversas de dizer … Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018 – Torres num inverno frio, frio / gelado.
exposição
Arte imita vida, mas a vida sempre supera a arte, – repetido chavão. Penso exposição! Exposição da figura do sentimento: expor-, mostrar como sou, objeto coisa, objeto homem. Quando há exposição estamos sujeitos ao julgamento. Expor é permitir que o outro veja, analise e acrescente através da sua sensibilidade, percepção. Evidente ao primeiro olhar ou a muitos olhares …, e surge outro detalhe. Falta coragem para nos mostrarmos por inteiros. Escondemos através de um símbolo, de um recuo, e nunca nos despimos. Temos medo de dizer se um quadro, um desenho, uma expressão é ou não bonita, boa …, pouco de verdade, muito de passado, de ideia. De repente escrever pode ser desnudar. Dizer é exposição. Angustia transborda. Palavra atropela, queima, adoece. E o sentimento, tua mão. Desperto …, acordo. Beth Mattos – agosto 2018
equívoco ridículo
- querer quando o outro não te quer, não é amor
- desejar sem ser desejado, patético
- envelhecer sem espelho, ilusão
- o bonito fica feio
- sentimento sem raiz – é sensação
- pressa preguiçosa
- remoer velhas histórias
- perdoar sem esquecer
- esquecer e fazer de novo, e de novo a mesma coisa
- deixar de ser você por medo
- e …,
e vou pensar noutros absurdos desde desencontro, meu comigo mesma, muito, muito bem desenhado! inacabado. Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres
colorido indecifrável
- Sono necessário, sono inútil: divagação. Pessoa fantasma. Entra e sai cinzento. Por dentro colorido. Ele se esconde e se assusta … Gelo fogo água. Terra seca vento, e falta de ar. Quero outono quero frutas. A criança menino se aconchega nos próprios braços. Pensa na mãe e segura o embalo. A mala segue encostada na parede, esparramada, remexida. Desordem, uma solução. Não consigo chegar. Olho sem ver sem estar …, sou passagem. Indefinido estado de chegar. Emocional indecifrável: desordem. Caos transitório. O que importa? Não estou neste lugar, nem este lugar está em mim. Ainda não cheguei. Talvez, nem fique. Sim, talvez eu não precise ficar. Enquanto os brinquedos estão esparramados pelo chão uma presença. Não sei quem é, mas vai acontecer colorido … De repente eu volto para mim.
- Associações e sensações. Sentimento experiência, e quase um nada. Leituras se misturam andarilhas. Tanto a ser recolhido destas ruas, destes olhares e desta chuva. E, eu te digo, estaremos sempre na roda. Não importa o distante do lago, nem o arvoredo, nem o quanto a vida seja pacata vital, sentado num café da esquina tu esperas.
- “Poderia ele, nessa crise da alma, começar a perder o juízo? E poderia, em sua demência, fugir para bem longe, percorrendo a metade do mundo, esquecendo que quem foge às pressas não consegue esquecer o que deixou para trás?” (p.75)
- E seremos tu e eu embora distantes um do outro, embora eu lembre do menino, e de um tempo tão grande que eu fui menina distraída, e nesta distração descuidada…, seremos estranhos e íntimos. Sabes o que eu penso? Que não morreremos. Eu vou te olhar e tu vais tocar no meu rosto.
- “[…] a grande questão de como o mundo se juntou, não apenas como o Oriente fluiu para o Ocidente, e o Ocidente para o Oriente, mas como o passado moldou o presente, enquanto o presente mudava nossa percepção de passado do passado, e como o mundo imaginado, o campo dos sonhos, da arte, da invenção e, sim, da fé, extravasou para o outro lado da fronteira que o separava do mundo cotidiano,’real’, em que os seres humanos erroneamente acreditavam viver.”(p.73)
- Todas as reflexões soltas ou amarradas na memória de cada um em particular segue um curso / rumo, uma leitura aos soluços, gaguejante, incompreensível para quem busca linearidade. Enquanto escrevo vou mesmo aos saltos. Digo sem completar, sem …, pois é, sem que tu possas entender, ou como naquele sorriso nascente, alguém já disse explicou que era meio esquisito isto tudo que eu escrevia, não dava para entender. Divagações românticas, azuis ou esvaziadas. Falta um pedaço, uma explicação, o enredo, a história. Falta a experiência, pode ser? Elizabeth M.B. Mattos – agosto menos frio, com chuva. Madrugada acordando insistente. 2018 – Torres
- Citações do livro JOSEPH ANTON Memórias de SALMAN RUSHDIE
“Duas almas perdidas no continuum desabrigado dos desalojados. Eles seriam seus protagonistas” (p.75) ou
“Como narrar as histórias de um mundo desses, um mundo em que o caráter do homem já nem sempre era seu destino, em que a sina desse homem podia ser determinada não por suas próprias escolhas, e sim pelas de estranhos, em que a economia, ou uma bomba, podia ser o destino?” (p.74)
o livro negro
“Aprimeira vez que GALIP viu RÜYA
Insisto perco sentido/rumo …, mas insisto. Palavras exercem fascínio, descem como elixir, ou veneno …, mas não resisti, li a primeira página e transcrevo: “Rüya estava deitada de bruços na cama, perdida na suave e quente penumbra, coberta pelas muitas dobras e ondulações da colcha quadriculada de um azul delicado. Do lado de fora, elevam -se os primeiros sons da manhã de inverno: o ronco de um carro de passagem, o clangor de um velho ônibus, o estrépito das panelas de cobre que o fabricante de salep compartilhava com o doceiro na calçada, o apito do guarda encarregado do bom funcionamento do ponto dos dolmus, os táxis coletivos. Uma luz fria e plúmbea infiltrava-se pelas cortinas de um azul escuro. Ainda zonzo de sono, Galip contemplava a cabeça de sua mulher, que emergia da colcha quadriculada: o queixo de Rüya se enterrava no travesseiro de plumas. A maneira como ela reclinava a fronte tinha algo de irreal, despertando em Galip uma grande curiosidade pelas visões maravilhosas que se desenrolariam na sua mente, ao mesmo tempo em que lhe inspirava medo. A memória, escrevera Celâl numa de suas crônicas, é um jardim. ‘Os januadins de Rüya, os jardins de Rüya…,pensara então Galip. ‘ Não pense, não pense neles, vai ficar roído de desejo’ Contemplando a testa da mulher, porém, ele seguia pensando.” (p.11-12) Orhan Pamak – O Livro Negro – Companhia das Letras – 2008
“perdida na suada e quente penumbra”
E…escreveria tudo outra vez. E sou tu e somos nós … Apaixonada por Istambul, – aqueles que viajam pelo mundo passam/precisam conhecer os livros de Pamuk. Particularmente. Já paguei minhas cotas, fiz a volta ao mundo somando quilometragens; … testei carros, acompanhei a mecânica, talvez ainda compre um fusca, mas será num pequeno desatino de avó … Elizabeth M.B. Mattos o terrível nas minhas leituras é que apenas eu entro em êxtase… Agora quero tudo da Turquia porque estou na Turquia.
A pergunta, resposta possível
1.
A casa de Santa Cruz do Sul sonho. Vida na Travessa Canoas com alunos particulares de francês, alegria. O pessegueiro de jardim florido, Doris Lessing: Exilada em seu país, Carnê Dourado e todos os outros livros lidos desta amiga corajosa, fantástica … Escritores assombram a vida. Eu tenho marcas. Lareira acesa cordialidade, e o cheiro da fábrica de óleo, ainda sinto. O Ford Galaxie azul claro cheio de crianças. Idas e vindas ao colégio Mauá. Festinhas dos meninos na garagem. Dançantes reuniões até meia noite. Cachorro quente com molho, especialidade do J. na cozinha. O meu pastor alemão, os dálmatas. Duas goiabeiras. Em dias frios o fogão a lenha, atração naquela enorme cozinha. Cidade cuidada, fábricas de fumo funcionando. Para os filhos de estrangeiros as aulas de francês. Beleza e luxo nas construções perto do Country Club. Aulas de golfe. E a fazenda Santa Branca, em Rio Pardo, se fazia com o charolês / invernadas e construções. Ana Maria e seus quinze anos, Pedro com treze, e Joana tirando medalhas com seus onze anos: no esporte, na escola. E todos aprendiam o alemão.

Antes desta súbita mudança alugamos um apartamento na rua Santo Inácio, Moinhos de Vento, e os meninos frequentaram o colégio marista, o Rosário. Eu adorava aquele apartamento ensolarado e …, mas estávamos sistematicamente na estrada em idas e vindas de Rio Pardo para Porto Alegre. E numa brejeirice apaixonada as azaleias da Capital do Fumo viraram minha cabeça. Era aquela cidade e aquele era o sonho. Contrariando qualquer lógica. Tempo de princesa voluntariosa e rei atento. Nos mudamos num mês de abril ou maio, de repente.
Torres? Torres sempre existiu nos verões da infância. Antes de casar, lua de mel, verões e verões. SAPT de ser menina-adolescente e …, e o apartamento da rua José do Picoral, 117 estava lá …, esperando por mim, parte de mim mesma. Nos anos de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo, veraneamos no continente de Santa Catarina: Armação da Piedade. Nos anos que morei no Rio de Janeiro, veraneava em Torres, às vezes no sitio Arapiranga em Carangola, Petrópolis, no Rio de Janeiro. Alguns ou muitos verões escaldantes na fazenda aguando o pomar, entretidos com curvas de nível, açudes. As crianças nestes verões seguiam para o Rio de Janeiro. Lá, onde certamente, enterrei meu coração.
E me perguntas por que Torres? Se não seria porque a filha e netos estão aqui…, a resposta parece longa. A pergunta me fez voltar na história. Não. Ana Maria foi para Berlim, e lá estava na queda do muro…, na grande festa. Um ano inteiro na Alemanha, depois dois anos em Roma, na Itália. A bem da verdade, por mim, não teria voltado. O Brasil desmoronava …, mas ela decidiu voltar. Surpresa, inquieta por não ser mais Santa Cruz do Sul. Nesta ocasião eu já era professora estadual, já não tinha reinado, nem rei. Recomeçava a vida em Torres, em Torres eu tinha um lugar uma memória e uma casa. Talvez esta seja a resposta certa: memória e casa. O pai e a mãe já não existiam. O filho morava no Rio de Janeiro. Ana Maria na Europa. As duas pequenas e eu, no velho fusca de meu pai, pela Tabaí Canoas chegamos no litoral. Nunca mais voltei para Santa Cruz do Sul. Depois, Porto Alegre outra vez, e Torres outra vez. Outra história. Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres e este danado inverno sem salamandra, nem lareira. Chá café preto. Sol que não esquenta. Logo será primavera, depois verão. É assim, não é?

velha aparência
Não tão politicamente justo, ou nem tão correto como estar no céu, ou no inferno, ou no limbo. Importa é pensar no conflito, na guerra, ouvir o que precisa ser dito, ou… Pois é. Estou neste ou…, estou covarde. Sem posição. Sem saber porque volto ao século XIX. Enquanto leio autores contemporâneos, ou… Sem saber a direção. Perdida mesmo. Perdida nesta minha pequena e vulnerável maratona de um beijo recusado, ameaçado…. Socorro! Se tudo já foi feito, será que só preciso esperar o improvável da sexta feira!? Beth Mattos
“Quando o velho céu se enruga, inútil tentar manter a sua velha aparência. Inútil tentar manter os velhos valores. Eles estão mortos. […] Há mundos dentro de mundos de vida e de alegria desconhecidas dentro dele. Mas, de cada vez, ele precisa de uma espécie de cataclismo para sair do mundo velho e entrar no mundo novo. É preciso com muita dor despojar – se da velha pele. […] E uma vez que se tornou uma prisão intolerável, não adianta presumir o que está do lado de fora. Nós não sabemos o que está do lado de fora – não podemos nunca saber até que saiamos para fora.” (p.336-337) D.H. Lawrence in Mr. Noon
“Neste romance iniciado em 1909 e abandonado, ainda incompleto, em 1929 (talvez porque fosse muito difícil sobre uma vida em pleno curso) já estava presente o melhor de D.H. Lawrence: irônico, lírico, erudito e erótico, despudoradamente romântico e acima de tudo um crítico feroz da sociedade vitoriana, arauto do amor e da sexualidade livres.” Capa do Livro da Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1988
curiosidade
“É curioso como é muito mais fácil ser idealista nas coisas grandes do que nas pequenas; como é muito mais fácil dar cem libras para o Lar dos Pernetas do que ver um hóspede comer dez colheradas de mel; como é mais fácil morrer de uma morte heroica do que vencer suas próprias fraquezas.” (p.122)
“Embora trabalhasse, e se atarefasse, e escrevesse, e teorizasse, e pipocasse aqui e ali como um coelho inesperado no viveiro do saber e da teoria, tudo isso lhe era artificial. Estava perdendo alguma coisa. O que era? Era a vida. Ele estava perdendo a vida, com seus livros, e sua teoria, e seus papéis. A sua parte mental estava sobrecarregada e entediada, e no entanto o que ele haveria de fazer? Estava condenado a teorizar.” (p.123)
Segura a xícara enquanto pego a cafeteira. Bem, não estou te vendo. Não consigo deixar de sentir, e sentindo ter medo… Envelhecemos. Não somos mais, por isso estou encabulada, e estás aí, descontente. Volta para nós …, não desisto do tempo, embora o tempo vá, aos poucos, desistindo de mim. E tu sabes. Entendo todas as tuas fidelidades: físicas e espirituais. Elizabeth M.B.Mattos
“Tanto não é possível provocar, deliberadamente, uma esplêndida tempestade de paixão sensual entre você e sua mulher quanto não é possível provocar uma trovoada nos céus. Todos os artifícios, todas as intensificações deliberadas não passam de artimanhas e de pressão da vontade. Temos de libertar do controle mental as fontes profundas da paixão; e, depois disso, tem de haver o salto para o ajuste polarizado com a mulher. […] A profunda familiaridade do casamento é a única forma de preparação. Só aqueles que se conhecem um ao outro nos negros e intricados caminhos do hábito físico podem passar através dos sete infernos escuros e dos sete céus radiosos da realização sensual, E é por isso que o casamento é sagrado.” (p.223-224) D.H. Lawrence Mr. NOON

amor com tampa
“ O relógio de pulso que usava era uma das poucas coisas tangíveis que herdara de seu pai. Uma bela antiguidade fabricada no início da década de 1960. Se ficasse sem usá -lo por três dias, ficava sem corda e os ponteiros paravam. Mas Tsukuru gostava dele justamente por sua inconveniência. Era um belo e genuíno aparelho mecânico. Não, talvez fosse melhor chamá – lo de obra de ate. Não havia nenhum fragmento de quartzo nem micro-chip. Funcionava com exatidão graças somente a molas e engrenagens precisas. E, mesmo hoje, depois de trabalhar sem descansar por quase meio século, continuava marcando as horas de forma surpreendentemente correta.”(p.316-317) Haruki Murakami – O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação –
“Tsukuru Tazaki é um homem solitário, perseguido pelo passado.” Acordei depois das dez horas da manhã. Acabo de fazer o café que não me pareceu tão bom assim. Escrevo às pressas lembrando festejos do dia, mas que bobagem! Não existem dias de calendário para pessoas que amamos, nem aniversários …, na verdade, estes dias parecem apenas limitadores. Quadrado a sinalizar amor com tampa. Neste dia, abrimos a caixa para ventilar … E nem sou original pensando assim, meu pai tinha horror a estereótipos. Vejo seus olhos verdes arregalados e quietos a se submeter …, não. Não sei explicar o homem que eu vejo. Talvez a visão seja apenas alucinação. Volto a Murakami. Homenagem a Ana Cristina e ao João. “ Para falar a verdade, não se lembrava bem dele, nem sentia uma saudade especial. Não se lembra de ter saído com ele ou ter tido uma conversa íntima com ele, nem na infância nem depois de adulto. Seu pai, para começar, era de falar pouco (pelo menos em casa ele quase não falava), sempre estava bastante atarefado com o trabalho e quase nunca voltava cedo para casa. Pensando agora, provavelmente tinha outra mulher.” (p.317) Sim, os livros são contrapontos que a vida desdobra. Memórias coloridas novas velhas inusitadas inventadas ou reais. E assim começo este dia silencioso. Desfocado. Elizabeth M.B.Mattos – agosto 2018 – Torres