exaustão

Meu querido:

Escrevo às pressas, desculpa. E nem te conto do dia, da casa, das pequenas tarefas domésticas porque tudo se mistura com a saudade que sinto de ti. Fico, como te expliquei: exausta. Exausta no sentido matemático. Mas, redimida de um fazer repetido e contínuo. Paixão exaustão vem/chega no alívio. Entregue ao que estou sentindo …  Não é preciso dar nenhum passo, fazer gesto, ou mesmo …, estupefata. Conquistada, ou vencida. Encerro o verão e o vento. Fecho janela, cortina. Escureço sala, quarto cozinha.  Embora faça sol na calçada, na lagoa, na praia, no horizonte, … aqui a sombra. Pequenas buganvílias florescem floridas e se espreguiçam. Nós dois entre um degrau e o outro: livros pelo chão, desordem, descaso: sou eu, és tu.  Estupefatos. Pequeno lotado aberto este nosso lugar. Embora janela cortina fechada paredes de vidros surpreendem a nudez. O mapa do teu corpo se estende no manuscrito do meu corpo: línguas estrangeiras, curiosos textos datilografados e digitados. Levaremos cem anos para entender o que acontece. Não teremos paz, meu amado. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2018 – Torres

brotando em fevereiro buganvilea

Definição ou significado de exaustão:

https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/exaustão

exaustão. e.xaus.tão. izawʃˈtɐ̃w̃, nome feminino. 1. esgotamento; cansaço. 2. MATEMÁTICA método matemático de análise que consiste em esgotar a dificuldade, aproximando-se indefinidamente de um limite. Do latim exhaustiōne-, «ação de esgotar» …

eu fevereiro de dois mil e dezoito.jpg

confidência pequena

Já não importa a tua pequena confidência, nem a grande pesada que saltou da minha voz, importa o desnudar. No primeiro encontro, no primeiro  verdadeiro e único olhar …, no escuro das cortinas e janelas fechadas, da luz apagada, dos murmúrios beijados, estamos tu e eu,  sem roupa, sem pejo. Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2018

O princípio residia em dizer o mínimo possível. Se as pessoas nunca soubessem a verdade a respeito do meu pai, não poderiam voltar – se depois e usar isso contra ele. A mentira era um modo de comprar a proteção […] O que os outros viam quando meu pai se apresentava diante deles, portanto, não era o meu pai, na verdade, mas uma pessoa que ele tinha inventado uma criatura artificial que ele podia manipular, para manipular os outros. Ele mesmo  permanecia invisível, um titereiro que operava os cordões de seu alter ego, a partir de um local escuro e solitário, atrás das cortinas. […]

Solitário. Mas não no sentido de estar sozinho. Solitário não no jeito que era Thoreau, por exemplo, que se exilou para descobrir onde estava; solitário não como Jonas, que rezava pela redenção dentro da barriga da baleia. Solitário no sentido de recolhimento. No sentido de não ter de ver a si mesmo, de não ter de ver a si mesmo sendo visto por outra pessoa.“(23-24)  Paul Auster  – A INVENÇÃO DA SOLIDÃO – tradução de Rubens Figueiredo – Companhia das Letras 1999.

A língua escrita exime a pessoa de lembrar muita coisa do mundo, pois as lembranças ficam armazenadas nas palavras.”(p.184)

 

 

 

tirar a roupa devagar

Talvez não seja possível, talvez seja apenas isso: tirar a roupa devagar, distraída. Não apenas um braço uma perna, mas uma estória. Como será colocar meias, calçar sapatos, e andar, caminhar para que me olhes/vejas. Depois vou tirar a roupa, devagar? Esqueci como seria/ou é. Estou a pensar! Loucura!

Faço tudo apressada.  Impossível. Eu compreendo. Quero descobrir o beijo, apenas um beijo…, outro beijo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2018 – Torres

magia pura

…, muito querido, muito amado. Acordei diferente hoje. Ter uma cama grande de casal estranhei. …, engraçado. Uma Albertina resgatando alguma coisa boa. Não sei. Ficar adulta de repente, num susto assusta: Albertina livre, Albertina sem preconceitos. Existe? Deve existir. Penso em dinheiro e no trabalho, outra vida: leve depressão. Espanto. Coloco um disco bem alegre, alto o som. Toma espaço …, e, … eu mesma, … e céu e terra.  Canção francesa …, músicas dos anos 60/70 …, para dançar para rir para estar de pés descalços. Começo a melhorar e a descontrair: sonho com a França, com aulas de francês com pequenas (ou imensas) paixões de jeune fille. A vida feita de pedaços alegres nostálgicos, tristes não. Nunca fiquei/fico triste ao teu lado … Estar contigo foi ACORDAR e olhar para o sol, para cima, para o amor . Leve e tudo azul , ah! teus olhos claros! aqueles que eu sonhava …,  do jeito que eu gosto, tudo nos moldes Albertina menina. Fico assustada outra vez. E eu? E eu hoje MEU DEUS!  Como estou construindo/ fazendo esta minha vida? Arrumar este vazio praiano do apartamento! Louça nova, máquina de fazer sonhos, de lavar louça, o tapete, um quadro com verdes (decorando a sala), não do Iberê, é claro, ou um anel bem lindo com esmeralda, ou ametistas … ametistas penduradas em brinco. Ir ao cabeleireiro …, não. Viajar, viajar para o Nordeste ao encontro do mar mais iluminado do mundo, ou será que não é? Usar óculos escuros, lindíssimos, sofisticados … Armani ou Cartier. Não pensar, não pensar. Quieta, muito quieta para que esta euforia alimente. Lentamente reabastecida.

Partilhar problema, remexer ferida. Tomar decisões, … rir menos porque tudo é tão estupidamente sério e duro e difícil!!!!!! Já sei. Não vou telefonar porque te passo minha tensão, já explicaste, não ficas tranquilo …, mas bem que eu queria ouvir tua voz…pensa! tudo o que precisamos é saúde e tempo para nós, mais nada. Sei lá!!!! Bom te conhecer, doce te amar! Alegre pra mim. Vida transborda do meu corpo, bem estar … Muito bom muito bom muito bom. Sou feliz quando te penso, mesmo quando estás longe estou feliz porque vais chegar: pura magia. Elizabeth M.B. Mattos  – 22 de outubro 1994 – Torres

carta para o FLÁVIO

FT e eu

 

não quero ser triste

” Na realidade, a angústia  que cerca o dinheiro é muito maior do que admitimos para  nós mesmos. Não estou falando de ‘riqueza’ e da ‘pobreza’, ou seja, dos conceitos teóricos, mas do dinheiro, essa matéria cotidiana indefinidamente perigosa e única, essa coisa mais explosiva que a dinamite, dos dezoito florins e dos trezentos e cinquenta florins que ganhamos ou não ganhamos, que entregamos ou negamos a outro ou a nós mesmos … Sobre isso ão se fala. Sobre isso não se fala. As angústias diárias da vida assim se reúnem em torno dessas quantias lamentáveis, as tramoias, as fraudes, as denúncias, os pequenos gestos heroicos, as renúncias e os sacrifícios diários, sacrifícios que se transbordam em tragédias no âmbito das possibilidades de trezentos e cinquenta florins. A literatura fala sobre a economia como se ela  fosse uma armação.  Também no sentido mais profundo da palavra … (p.156) Sándor Márai – De verdade

E afinal, sinto um aperto por não ter a liberdade do dinheiro fácil. Das soluções fáceis. Do sorriso que abraça sem constranger, porque tudo é fácil. De repente a incompetência de não ter pesa nos ombros, e acabo triste. E eu não quero ser triste. Elizabeth M.B. Mattos fevereiro 2018

 

intermináveis telegramas

Amar não termina, … lembrei tanto e tanto de ti e do tamanho que éramos, tu e eu, eu e tu, grande enorme, redundante! O amor afoga devora agitado insone e preguiçoso, … eu sei. Não quero repetir nem voltar atrás. Quero hoje.  Encontrei … aqueles intermináveis telegramas! Ansioso, intenso.  …, não eu não queria tudo outra vez …, não vou explicar. Um vazio no tempo. Respiro. Refaço. Avanço. Mas …, tu não prestas atenção quando falas comigo, …digo outra vez: dia 12 de julho estarei em Porto Alegre, aniversário de 79 anos de minha tia, não prestas atenção.  Quem arrebentava de saudade era eu: “Lundi segunda liguei ninguém encontrei tentarei chegar PAlegre anoitecer  quarta telegrama da estrada confirmado exatidão após cruzar Chui vg espero não estejas Oiapoque como hoje vg arrebento de saudades beijos abraços Gafa

telegrama

explico …

VESTIDO 

 

…, enroscada na fantasia reinvento o amor. Bom quando chove chuva forte como agora: o cheiro da terra molhada … o cheiro/ perfume e gosto do corpo! …, atravessa espaço rompe a distância. Isso é bom. Comer abacate faz bem para a pele, estar apaixonada faz também muito, muito  bem para a pele.  Respiro melhor. Estico beijo. Este gostar faz tudo ser, escandalosamente, colorido.  Elizabeth M.B. Mattos – 19 de fevereiro de 2018. Torres

 

amor rombo estrago

É como eu disse, nós nos gostávamos / gostamos. (…, é o perigo). Sempre que se usa a palavra gostar é disfarce porque gostar é diferente …, não é conversa, não pode ser pouco, nem mais ou menos, não pode ser amigo, não tem medida pequena, sempre fica muito e transborda, atropela, passa por cima de todo e qualquer bom sentimento, vira paixão, rombo, estrago. Gostar de/ amar apaixonar não tem idade, chega de um jeito tordo azedo, definitivo violento. Destes amores queria contar. Na verdade, não é um único amor, não é aquele, mas muitos de jeitos diferentes. Acesos. Perfeitos. Intensos e, que o tempo apaga. Elizabeth M.B. Mattos Torres em que ano, no passado ou começando o número mágico, – o nove 2018. A conta? 8 + 1 = 9 ( meu número), restam/  sobram, ficam 2 , tu e eu, ou eu e tu, como achares melhor.

E agora vou lhe dizer uma coisa, caso você não saiba: o amor, se for de verdade, é sempre mortífero. Quero dizer que seu objetivo não é a felicidade, o idílio, a mão na mão, o devaneio, até a minha morte, até a morte dela, sob a tília em flor, atrás da qual, no alpendre, arde o brilho manso da luminária e o lar resplandece com seu perfume fresco … Isso é a vida, mas não é isso o amor. Ele é uma chama mais sombria, mais perigosa. Um dia vem na vida o desejo de conhecer a paixão exterminadora. Sabe, quando não queremos mais guardar nada para nós mesmos, não queremos que um amor nos proporcione saúde, paz, satisfação, mas querermos ser, por inteiro ainda que a preço de extinção. Isso vem tarde, muitos não conhecem o sentimento, nunca …. Eles são prudentes. Não os invejo. ” (p.241)  Sándor Marái De verdade

o mesmo

afinidade idade, enfim

Enquanto procuro uma coisa, perco outra e encontro o que já não estava mais a procurar.  …, numa frase, num sorriso, o estranho. Nunca falamos, sequer olhamos. E, de repente esbarramos.  Posso me esconder atrás da árvore, na sombra, no silêncio! Nenhum lugar esconde. Olhos abertos, pele exposta, …não, não sei explicar. As histórias se prendem umas nas outras. Temperamento, afinidade, descaminho. O que importa nesta roda é a legitimação de ser como somos … , amorosos. Elizabeth M.B. Mattos – 2018 Torres

Sua vida é feita na medida exata da sua alma. […]  os eventos acontecem a cada um  conforme suas afinidades peculiares.  Cada um encontra o que lhe convém. Assim, se a pessoa se contenta com o medíocre que tem, prova que este medíocre corresponde à sua dimensão, e nada diferente acontecerá. Destinos feitos sob medida. Necessidade de romper suas roupas como o plátano ou o eucalipto, ao crescerem, rompem sua casca.” (p.44) André Gide PALUDES