ambivalência

…, sentir fazer acontecer…, verbos incompatíveis com a correria da idade. Intensidade soluço e amanhecer no meio da tarde. Não entendo, não aceito, aperta. Virado e fora do lugar. As coisas não se desacomodarão … Desordem. Caos. Ninguém controla ambivalência … nos afogamos. Normalmente caminho pela calçada, cuido buracos, saliências, raramente tropeço. Ninguém deveria mergulhar onde não deve…, deveria não acontecer, mas acontece. Estes estranhos fenômenos da natureza deixam o mundo virado. Cabeça virada, corpo do avesso. Não faz sentido. Estou com mais de setenta anos … mais, muito mais.

Monções, o siroco, ou sei lá quantas ventanias … sinto medo. Antes não era assim, não me assustava, apenas estremecia.  Certezas próprias adequadas perfeitas. Noites insones, dores no corpo, ou cabeça fervendo, normal, agora, sinto medo. A desordem me atormenta. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2018 – Torres

desordemdesordem dois

se eu me deixar levar

se eu me deixar levar eu vou toda feliz, alegre entregue errada ou certa, desgovernada, assustada, mas vou; o que foi dito é, e …e bem…sem …. não tem dito/explicado, – importa tão pouco! E o sentido se confunde qualquer palavra não é. Então não escrevo. E ponto. Vou me aquietar e respirar fundo. Parar. Estou contigo, estás comigo, tenho sono… E.M.B.Mattos fevereiro 2018

não devia

tem um dia que quando termina não precisa significar, um dia vazio de vontade, de velhice exaustão cansaço …. de ponto:  não vou me esforçar, não vou abrir a porta, não quero ver ninguém. Estou tão completamente triste acabada dolorida. Qualquer bate-boca pode ser inútil mesmo regado com Whisky:  o velho barreiro terminou, vodca terminou….e terminou, o vinho, e terminou a comida, apenas o violão tocou, terminou o dinheiro para o táxi e terminou a vontade e terminou a humildade e civilidade terminou… Não contando o café da manhã, a massa ao meio dia, as omeletes as caipiras, as risadas da despedida tardia das 23 horas. Ficou a louça para lavar e um enorme cansaço vazio e tudo amontoado para depois:…… a pia  a transbordar….Esta coisa de lavar deveria ser dividida. Esta coisa de lavar/ falar tinha que ter cronooooooooooooooooooooooometro, conversa e sorriso, copo com água, felicidade.

Foi assim … um dia feito e costurado em casa de 11 horas da manhã até 23 horas da noite…e ainda faltou R$10,00  para o táxi. Dois dias ….ha !..ha! as danadas divisões que se perdem em centavos. E eu esvaziando estantes com risada. Terminou. Exausta exausta, cansada, desiludida até das risadas, …. já passou. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro Carnaval – Torres  2018 – preciso dizer das coisas medidas organizadas e divididas, e nenhum obrigada. Acho mesmo que fiz tudo errado, nada ficou no lugar certo, nem o agradecimento, errei em tudo …

nunca te vi sempre te amei

Dou /faço faxina em meus livros toda primavera, e jogo fora os que nunca voou ler de novo, assim como me desfaço de roupas que nunca mais pretendo usar. Todos ficam chocados. Meus amigos são gozados, a respeito de livros. Leem tudo que é best seller e o fazem tão depressa quanto possível, desconfio que passam por alto de muita coisa. E NUNCA leem nada pela segunda vez, de forma que um ano mais tarde não recordam uma só palavra. Mas ficam profundamente chocados, quando me veem jogar um lixo da  cesta ou doa -lo. Do jeito que eles reagem, o negócio é comprar um livro ler, colocar na prateleira, nunca mais abrir, nunca mais, mas não se pode jogar fora! Por que não? Pessoalmente não me ocorre nada menos sacrossanto do que um péssimo  / mal escrito, ou até mesmo um livro medíocre. […]

E ouça, Frankie, vai ser um longo e frio inverno, tomo conta de crianças à noite E PRECISO DE MATERIAL DE LEITURA; portanto, não fique aí paradão. Trate de me catar uns livros.” hh

Rua 95 Leste, 14 – Nova Iorque – 18 de setembro de 1952

O filme me encantou, vi muitas vezes, e posso ver outras e outras. O livro mal feito, tradução péssima, mas amei Londres: penso/viajo a cada carta lida… Obsessiva, comprei o livro.  O filme, muito melhor. Queria mesmo ter outra vida para me dedicar, completamente, as leituras. Queria ter um espaço só meu…, e fazer o sonho. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2018

outras correspondências, poderosas!

a pensar

estudei bastante, ocupei tempo com livros e livros. E a língua francesa. Deixei de fazer o viver, o dançar, o namorar,o festear, enfim, ser a moça com lista de compromissos …, agora envelheci: quero encontrar apenas as tuas palavras o o teu abraço. E.M.B.Mattos – Torres – 2018

Estás

no carnaval, ou a folia  atrás de ti. Eu te espero. Dia abafado engole lembrança/presença. Penso que te amar, te amar assim o tempo todo…, bem, tu sabes, sou eu menina/criança: nada me importa, quero apenas te tocar… Saudade pesada de nós dois. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2018

amanheci casada

No dia 9 de fevereiro eu me casei. Acho que perdemos a memória, aos poucos, ou será mesmo num repente? Perdemos quando a vida acontece neste agito … Tanta coisa na hora/ no tempo de apenas sentir a vida se aquietando. Adoro o verbo aquietar que chega do quieto, do tranquilo.

Até hoje não sabe ao certo quantas memórias perdeu Não sabe quanto dele se perdeu justamente com essas memórias. Perder memórias não é o mesmo que perder um braço – disse -me.  – Quando perdemos um braço sabemos que perdemos um braço. As pessoas olham para nós e sabem que perdemos um braço. Com as memórias, não. Não sabemos que as perdemos, ninguém dá conta, mas, como as perdemos, alguma coisa no nosso espírito deixa de funcionar. Sabe, às vezes aparecem criaturas aqui que me conhecem. Eu não me lembro delas. Finjo que me lembro, por cortesia ou para não ter de dar grandes explicações, mas não faço a menor ideia. É gente saída desses dias que eu perdi, talvez semanas, talvez meses, talvez anos, desses buracos enormes na minha memória.” (p.43)  José Eduardo Agualusa –  A Sociedade dos Sonhadores Involuntários –

Estou no conflito de agarrar, pegar de volta a memória, ou esquecer, esquecer mesmo …

Bela e Fera EVA Sopher

Conto / repito repetidas histórias. Amarradas no imaginário: traduzidas, e ainda apaixonantes… Fantasma – herói da selva e de destroços. Ou a explicativa A Bela e a Fera com amor jamais esquecido, tomado, avolumado, intrépido e valente, … Picotado por desencontro, mas eterno a cada dia fugaz … Sim, a mesma FERA e BELA de Flávio Tavares. Eterna a nossa Eva em notícia que não pode silenciar,  estará presente a cada espetáculo do Theatro São Pedro, joia de Porto Alegre.

Elizabeth Mattos – fevereiro de 2018 -Torres

tavares e eva a fera.jpg

 

paixão desvairada

A SOCIEDADE DOS SONHADORES INVOLUNTÁRIOS

José Eduardo Agualusa

A impressão geral não era de decadência, e sim de um fausto fatigado, talvez por causa do luxo daquela luz magnífica, que entrava livremente pelas enormes janelas sem cortinas e reverberava nas paredes.”(p.15)

Só tenho duas camisas, duas calças, duas meias, duas cuecas e um par de sapatos. Ter consome muita energia. Vigiar o que se tem consome ainda mais, desgasta, corrompe a alma. Bom mesmo é desfrutar. Eu não quero o veleiro, quero a viagem, não quero  o disco, quero a canção. Entendes? […] Sofro dessa ânsia de não ter […] A minha maior ambição é ter cada vez menos. quem nada tem, tem mais tempo para tudo o que realmente importa.” (p.15)

” – A paixão é um instante de desvario.” (p.15)

Talvez amanhã, … hoje saudade fervente. Desordem espalhada: ser organizada, precisa e tranquila.

luxo daquela luz magnífica

mais tempo para o que importa

e, respirar, respirar

sol e sono

saudade do amor que eu amo

pausa.

E.M.B. Mattos – fevereiro 2018

MARAVILHOSA ESTA

Francisco Brennand Recife/ maio de 2017

 

pela imaginação

Imagino/ percebo/ vejo um mundo melhor: pessoas casas. Plural que transborda. Surpresa! …, ninguém quer, realmente, ver/olhar. Atrás da fantasia a ideia fixa, obstinada.  E não dizemos nada. Não se trata de dizer nem de fazer. Não querer a questão, nem a pergunta: imaginação. Tempestade. Escuro! Ou criação …, a vida/ na vida uma escolha. Fotografado o engano, não se volta/ ou se retoma o olhar. Muro sombra, ou fantasia se impõe. Não há possibilidade de reconsiderar o equívoco. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2018 – Torres/ Rio Grande do Sul

Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. […] E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais […] Cada existência individual baseia – se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.” (p.331) A.P. Tchekhov A dama do cachorrinho e outros contos. Tradução de Boris Schnaiderman, Editora 34,  São Paulo 1999

nós dois a nos olharmos

Toda história a ser escrita/ contada/ explicada mil vezes: um olhar sendo um outro olhar, o mesmo.  Ainda outra colagem/ desenho a interrogar, e se repetir. “ Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá- lo. Nenhuma delas fora feliz com ele.”  (p.332) A.P. Tchekhov A dama do cachorrinho e outros contos. Tradução de Boris Schnaiderman, Editora 34,  São Paulo 1999