seguraste a lágrima

…, poema palavra, teu olhar inclinado. A doçura devolve o riso. Volto ao teu abraço outra vez, outra vez tuas mãos. E escreves:

“  Legítima querida do tempo de querer

e ainda

Não são apenas palavras soltas, são pensamentos de sentimentos a brotar, e que saem pela ponta dos dedos ...

és tu a me escrever.

“Gosto muito de ti, mais do que possas imaginar ou sonhar.”

És um pensar, o pensar que me acorda …

“…, quero me afogar em ti” 

quando tu me encontraste estavas iluminada

“gosto de estar contigo, de conversar, deste nosso ficar …

Precisas desabafar e não deixar o corpo sentir.” 

…e, o tudo mais. Depois de te escutar é mesmo fantasia. O corpo se arrepia sente se abre, e se entre… Mas, sendo corpo, acorda. A lembrança tem um pedaço de mel outro amargo e outro vivo… Não sei bem o que lembro e o que esqueço neste avançado setenta anos que lacrimeja. Eu te penso. Elizabeth M.B.Mattos – novembro de 2017

amei a rochapedras e chão e areia

Fotos de Luiza M. Domingues – Alagoas 2017

a escrever

Volto a escrever porque já não sei o que fazer que não seja lavar louça e pensar, aspirar outra vez, arrumar camas, beber um chá? …empurrar o sono. Acordar. Este vinho Carmenere (desta uva não gostei). Não gostei, ou gosto?… Não sei. Vontade de comer doces: tenho logo que beber água e mais água. Ver o mar, olhar o mar, estar no mar e esquecer esta coisa de casa a ser perfumada. Deixar de polir e lustrar. Apertou a garganta, e sigo sentindo o cheiro do pó. Se eu pudesse colocar tudo no sol a esquentar! Esquecer dos cheiros! O sol limpa. Eu me sinto escrava enquanto lavo e estico. Outro sentimento desta liberdade maldita. A fazer. Se não faço? Bem, não sei. Escrevo. Outra loucura seria mudar de casa. Tão simples! Esvaziar tudo e limpar, pintar… São os livros que acumulam pó e cheiram. Ou sou eu com este meu olfato ativo, bem sou eu com o jeito de ser Liza Beth Elizabeth ou Eliza seria melhor. Sou eu tão distraída!  Não sei. Respiro primavera, cheiros se acumulam e me perseguem. Volto para As três mortes de Che Guevara! Estou a contar as minha… Quantas eu tive? Ainda não todas: falta uma. Vou caminhar… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres

com flavio

impacto amoroso

…, ciúme da memória – impacto amoroso. O que foi vivo em paixão com entrega arrasta a pessoa para o inferno amoroso. De lá espio o desejo da eternidade, do para sempre. Vivo a conversa que não termina. Agarro este amor de te amar. Volto as falas intermináveis do monólogo: um ouve e o outro escuta: adormecemos abraçados. Sem resposta, sem registro importante …, um corpo apertado em outro corpo.

Adoro o dedilhar do piano, e o som interminável de teclas, de cordas em sonatas noturnos concertos que fervem e povoam. Ordenam, nenhum possível conserto deste desarrumado …  Estou outra vez apaixonada enterrada na cor do amor … o que faço agora? Lembro esqueço deixo acontecer? Penso desmedidamente enlouquecidamente: mente e corpo. Lógica, fantasia … bom que o som do piano me faz voltar… adoro Chopin, ou Mozart, ou Haydn, ou Beethoven … volto para a música. Hoje não tem vento. Abro a garrafa de vinho e o prazer … Gosto de ser livre e de estar amarrada. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2017 – Torres

 

grandes amores nunca terminam, mudam de lugar, se sacodem, mas estão lá sentinelas Elizabeth. MB. Mattos – novembro de 2017- Torres

não lembro dos sonhos

, … animais especiais além dos cães – gatos e cavalos – aos pés de São Francisco de Assis. Se eu te sonho é porque existes … E se existo é porque sei que existes. Estamos/ somos, ora essa!  Esta coisa de pensar é muito complicado! Bom que a Ônix me entende porque me sente/percebe … Então, … viver é apenas continuar a ser eu mesma e ponto. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2017 – Torres

” O fato de uma pessoa não se recordar de seus sonhos não significa que não sonhe. É, principalmente, uma questão de prática. […] Não me lembro nem mesmo – pelo menos, não no nível consciente de percepção – no que fiz na quinta-feira passada, às 16h35. Teria de dar uma olhada no meu calendário para me lembrar do que aconteceu.

Além disso, tenho tendência a me lembrar de coisas em lampejos, não em detalhes específicos. Ou será que os lampejos é que me ajudam a me lembrar dos detalhes? […]

A recordação dos sonhos é uma arte que pode ser cultivada durante um certo período. Sonhar é um aspecto importante de nosso processo de criação de imagens, mas não é o único. […] […] as imagens são mais poderosas por causa da reação emocional que evocam em você. Elas transmitem mensagens não-verbais cuja lógica você pode registrar e identificar mesmo se  o seu sentido não ficar claro desde o início. Elas atingem todos os sentidos simultaneamente, estimulando respostas intensas e profundas contra as quais você não dispõe  de muitas defesas intelectuais. […] Por ora, só quero que você reconheça o poder das imagens e que perceba que sua construção é uma tendência natural. Sonhar é apenas um aspecto dessa atividade universal. A atração que sentimos pelo processo criativo é instintiva, espontânea e inata; elaboramos imagens e reagimos a elas porque temos de fazê -lo. As imagens nos atraem, exercem uma influência irresistível, lembrando- nos que somos aquilo que sentimos, não apenas aquilo que pensamos.

Para reforçar:  as imagens são mais poderosas do que as palavras porque põem em jogo a totalidade, não apenas uma parte do self. ” (p.91-93)

Sandra G. Shuman  A Fonte da Imaginação – Editora Siciliano,1994 – São Paulo

gatos cavalo e sapo

 

O QUARTETO de Alexandria

Alcancei um agora e uma força que me prende e me transforma. Não estou sendo racional, perco referências. Estou confusa. O sentimentos se mistura e cobre o que falta a ser entendido. Território perigoso, arenoso. As bifurcações do amor. Os atalhos. Talho. Elizabeth M.B. Mattos  –  outubro de 2017 – Torres

sofá ótima

Percebi então algo que não deveria constituir nenhuma surpresa: nossa amizade alcançara o ponto em que, de certo modo, nos tornáramos parcialmente donos um do outro.” Lawrence Durrell – Justine(p.47)

Este livro, O Quarteto de Alexandria, tão estranhamente perturbador, bem feito, intimista revelador de sentimentos indescritíveis remexe com as lembranças. Não consigo descrever/ nem contar um dia do meus dias! O tempo está passando e a memória um fatiamento de emoções: os fatos as ações elas mesmas parecem todas tão igual! E são particulares.

“- Ela não pode ser julgada de forma abrangente até que o pensamento em si possa ser julgado, pois nossos pensamentos também são ações. É a tentativa de estabelecer juízos parciais sobre ambos que nos conduzem à  dúvida.” (p.40) Lawrence Durrell

deveria ser mais simples

Deveria ser a melhor hora a do amanhecer. Deveria ser bom um dia depois do outro porque a carroça anda, as abóboras se acomodam, os cães festejam latindo. A estrada se transforma, e se ilumina ao amanhecer. As árvores conversam com a passarinhada que acorda. As flores abrem porque o sol está ali, ao amanhecer. Deveria ser a melhor hora quando o mundo se apresenta passado a limpo, liso. Perfeito. Mas nesta manhã está tudo diferente. É a história. Nem sempre o fio condutor da manhã é o melhor tempo. Nem sempre as noticia são boas, nem sempre podemos apenas seguir e sorrir. Tem dia que amanhecemos assim, estremecidos com o que vai acontecer, ou já aconteceu. Nem todas as manhãs são produtivas, nem todas as tardes nos adormecem, nem todas as noites são cúmplices. Existe o tempo de chorar. O tempo de lamentar. De festejar, e há (gosto deste verbo antigo, o haver no sentido de existir porque está no Eclesiástico, na Bíblia, e a Bíblia é o livro dos livros) também o tempo do perdão que se espreme aflito entre alívio e raiva.

A história está começando, e como todas estas estórias de vontade de escrever, não devem terminar porque o tempo de passar tem esta gota importante da exaustão, esvaziamento. O que se está pensando neste momento, pronto, completo, feito para nascer e sair de jorro já se esgota num outro segundo. Esquecer pode ser triste também, como esvaziar, como choramingar, como se queixar, como toda coisa que se coloca na balança do apagado. E a história se prepara avolumada para explodir, eclodir, nascer, e pronto, num repente termina. Ou sei lá, quem sabe se completa no imaginário do leitor. Se for a história de um menino, se pensa na menina. Tinha-se avó, se imagina o avô, se pretendia explicar abandono, se imagina liberdade. E a independência flutua sobe as ruas como festa, e era para ser solitária. Estar só pode ser mais completo do que estar com o Outro se este Outro não nos vê. Estranha história de olhar… Esta diferença, esta incógnita do olhar, do desejo de compartilhar, pode ser tão frustrante! E por isso nos dizem que estar bonito ao amanhecer, pentear, perfumar, frisar a roupa, desenhar os olhos tem que ser alguma coisa pessoal de nós para nós mesmos. Assim, todas as estórias, ou histórias se completam no leitor que atento e ativo se retrata, se pinta, se desenha, e se enxerga em cada letra. Não vou explicar porque hoje é um dia triste. Elizabeth M.B. Mattos  – maio de 2016 – sempre Torres

martelo e objetos

absolutamente feliz

…, coisa de escrever. Estou atordoada com os ventos da primavera que cantam o dia inteiro. Queria parar de fazer, queria férias, férias de mim mesma, das vozes, da respiração, deste lavar passar (eu gosto de lençóis perfumados e lisos), de cozinhar, limpar, esfregar, do vento, do sol, De suprir. Resolver, escutar, ser feliz. Sorrir, entender. Hoje deu vontade de chorar, ser triste, resmungar, deixar de fazer. Ser livre, completamente livre de todos os ranços escondidos. Não quero responder. Não quero cuidar. Houve um tempo que eu fazia tudo isso, e respirava. Hoje é diferente. Houve um tempo que eu tinha três cães, jardim, flores nos jarros, fogo na lareira, árvores, gramado, groselha e doces. Hoje é diferente.

Estou num daqueles dias que o cheiro da comida, o cheiro do pó, o cheiro do sabão, das flores, das pessoas, o cheiro da vida… Pois é, a vida tem cheiro (risos). Tudo demais. É o vento. É o vento que entra pelas frestas e fala diz canta sem parar. É a primavera resmungando. É ser feliz sem merecer. É amar sem compreender. É falar e falar sem entender. É estar o dia inteiro apenas enfiada no dia de estar contigo. E não estar. É o medo do tempo passar, medo de envelhecer depressa demais, medo de não voltar, do fim do caminho. Medo de estar tão absolutamente feliz sem compreender. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres

casa dois

engasgada na lembrança

Retomei o meu escrito no teu escrito. Uma dor saudade, ou foi um nada Tu és o texto maior, e eu sempre me apequenei encolhida. Agora enciumada? Não faz sentido. Amei tanto e tanto e amo ainda no depois…  Saudade do que não fiz, talvez do que perdi de mim mesma,… tu seguiste em frente, ergueste a vida. Eu larguei o amor de te amar, e era tanto meu querido! Agora fico a espiar. Não adianta espiar. A vida engolimos, ou ela nos devora. Eu preciso acordar deste torpor/dor que sinto e não defino…. Tão pouco de nós dois, mas foi muito, sempre muito… foi muito, querido. Tornei-me esquizofrênica da memória de mim mesma: o que quero e desejo agora me impacienta em seguida me cansa e já me aborrece. Eu amo este amor enfurecido de beijos e abraços que ocupa todo o meu tempo e a minha memória. Tu/o meu você.

Não sei em qual lugar esqueci larguei deixei de amar, ou de valorizar o que escrevo. Transborda agora. Ao reler teu livro, o livro que guardaste entre os teus… Eu me dou conta que a generosidade existe / se adianta / se impõe, ou se ergue acima de qualquer outro sentimento. E eu te amo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres ( o período de te inventar na minha vida…JCKCAA

dois gigantes

El Misterioso, lógico fin

El veinticinco de deciembre de 1920 el curpo de Monk Eastman amaneció en una de las calles centrales de Nueva York. Había recebido cinco balazos. Desconocedor feliz de la muerte, un gato de lo más ordinario lo rondaba con cierta perplejidad. (p. 63)  Jorge Luís Borges – História Universal de la Infamia – Emecé Editores, Buenos Aires, 1954Camargo_Ibere_Signos I

Iberê Camargo