Esqueço o livro

Gosto desta correspondência silenciosa, não diria cifrada porque conversamos um com o outro e sabemos o que o outro sente ou vai dizer ou vai escrever. Já te disse outras vezes do meu sentimento. E repito o comentário formal, o recado. Eu, eu transito entre um livro e outro, entre um alguém  e outro alguém. Entre paixão raiva amor e tristeza. Na euforia do encontro uma certa melancolia porque já terminou… Sempre termina. Outro livro e outro livro para substituir o gosto do anterior. E o amor também termina. Eu me sinto desnecessária, impotente. Fora da viagem, da volta, da quietude: invadida. Largada. Aquele sentimento estranho de despedida. Última página. É sempre assim quando estou na história do livro, no texto, ou na viagem do outro. Depois um nada. Um pouco ansiosa. Ofegante. Um cheiro de fracasso. E vou saindo do romance para entrar logo no outro romance. Leviandade, inconsistência, imaturidade, inconstância. Leitura. A melhor aventura é interior. Descabelada, única, inconsequente eu já sabia. Absolutamente pessoal e intransferível. Esta coisa pequena do apego, não adianta querer ficar...  O livro se fecha desaparece, ou passa com sua mochila abarrotada: acampa noutra paragem noutra memória. Fico aqui neste canto da lagoa sem gramado a esquecer a palavra, a capa, o título, o porquê. Fico aqui a esquecer o amor, a paixão, o homem, o desejo: esqueço o livro. Outro culto. Outro lugar. Outra história. Ou então pode ser a viagem que se resume numa foto. Elizabeth M.B. Mattos – março 2017 – Torres

Rio de Janeiro, Viúva Lacerda, Largo do Humaitá – 1974

O tempo dos setenta anos e tantos – abril de 2021 – Torres – Rio Grande do Sul

Desaparece

Desapareceu aparece fica vai flutua pensa esquece na folha de jornal a notícia não mais do que notícia a palavra tua voz. E o espelho reflete vaidade sem saudade. Sombra sem sombra sem sentido sem elo sem fio sem chegada. Nada. Só a fantasia amiga do amigo. O jornal diminui  ou se extingue se reforma numa forma de revista sem cor, sem notícia, só o ia/vai … Há que ser resumo opinião o certo e o errado o bom lado do inferno escaldante e louco desta política malcheirosa deste sem caráter sem ética sem o outro, mas sempre só o eu do eu aberto exibido, e assim despido farsante…palhaço malabarista narcisista…Pois é, dia sim outro não, leio o jornal, apressada, nas escadas o jornal do vizinho que se esquece nem liga ou guarda o jornal da escada no vão da outra escada, esquece. Venta aqui. Venta um vento forte e morno. Do vento e do morno o bom do perfume doce dos jasmins. Espero a chuva. De notícias nem bilhetes nem cartas ou telegramas. Nada. O telefone toca apressado e grita estranho, desconfio, não atendo não falo desaprendo. Não ouço. Leio. Leio muito de tudo…Assim te envio mensagem ventosa no meio da noite que assobia e não espera, desaparece … marvao-portugal

Nesta desta cheia de azul

Se eu voltar pro mar vou ficar nesta água jade nesta espuma branca neste tépido mar… Vou ficar no fresco desta água delícia lotada de amoras azuis. Se voltar pro mar vou me deixar ficar sem me importar desta manhã ser tarde. Vou ficar na noite cheia de azul … Elizabeth M.B.Mattos – Torres – 2017

Pessoas com coisas

Idas e vindas não te levam para nenhum lugar. Estás em trânsito sempre no meio do caminho lavada de incerteza infantil que  se   imagina especial.. Não existe. Sou eu. És tu, e depois o amontoado de referências que escapa…  uma certa urgência. Olhar nos teus olhos  e dizer a verdade: não a tua verdade, nem a minha. A verdade. Aquietar o teatro, a representação ruidosa. Calor é um tumulto  que derrete, e o teu sorriso tem fome, no entanto, não te perguntas de onde vem a voracidade. Aquieta teu coração. Arranca a tristeza e vamos nos fantasiar, dançar e dançar…É carnaval! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2017 – Torres

Pessoas com coisas, pessoas sem coisas, coisas  sem pessoas, pouco importa, eu espero poder varrer tudo isso em pouco tempo. Não vejo como. O mais simples seria não começar. Mas sou obrigado a começar. Quer dizer que sou obrigado a continuar. Acabarei talvez por estar muito cercado,  numa confusão. Idas e vindas incessantes, atmosfera de bazar. Estou tranquilo, vamos.”(p.6) O Indomável,  Samuel Beckett

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Idas e vindas não te levam para nenhum lugar. Estás em trânsito de passagem …

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Mulheres marrons

Mulheres marrons, carcomidas pelo sol, circulam pela nossa cidade e chamam a isto de beleza de verão. Meu Deus! E as mulheres brancas, alabastrinas, cuja pele nunca foi desfolhada por nenhum raio de sol, onde elas se encontram, em que país, em que parte do mundo habitam? As escarpadas rochas marinhas escalavradas pelo vento, pelo mar e pelo sol lembram a pele das bronzeadas morenas brasileiras.” (p.18)

Diário, volume II Francisco Brennand

Atrapalhada. Atropelo a vontade de escrever. Eu me curvo à ventania morna de Torres, e entro no calor, nem os peixes se movimentam na lagoa. Não resisti ao parágrafo do Diário. Segundo volume. Atabalhoada. Ansiosa, ou agitada, acumulo ideia tarefa e desejo vontade sem chegar lá … As cartas se perdem as contas esperam. O dia sufoca. Asfixiado o tempo de ler. Esqueci o primeiro volume no Rio de Janeiro.

Está quieto aqui dentro! Fechado … Tão devagar … Sou eu mesma a consumir esquecer lembrar  voltar  esquecer este tempo de envelhecer. Esquisito engraçado gozado nostálgico saber que a vida termina com ponto final, não é virgula, nem exclamação ou interrogação …  Três pontos. Não entendo a finitude  nem o sol nem as mulheres marrons.

Que o verde das montanhas encante e o sol pequeno se esconda no regador …

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Que o verde das montanhas nos encante, e o sol fique pequeno e se esconda no regador. … não quero a caverna, mas a frescura da água.

Utilidade prosaica

Já deves estar no meio dos acontecimentos, bem vivendo o acho o penso e a própria especulação do bom sentimento. Depois de uma longa ausência. Este presente/ cadeau/ gift particular belo único e excêntrico do amor.

Bom não ter escrito antes. O antes estava cheio de pressentimentos contaminados e contrários ao sucesso do encontro. O reflexo de tantos assassinatos, doenças e acasos me agarrou pelos cabelos, e me arrastou sem dó. Nada dá certo porque nada é correto e justo. A lua cheia balão iluminado por lamparina precária.

Graças!  O mês de janeiro terminou, ou caminha para o fim … Como tu limpei, cozinhei, e fiz acontecer dentro de casa até sentir prazer dever cumprido. A lida doméstica  tem este cheiro de obrigatoriedade útil e complacente.  Utilidade prosaica e vida, vida acontecendo … Vida urbana, leve, e quem sabe, adequada. E  me pergunto o que deve ser exatamente útil e por que complacente? Pois é amiga, não deveria estar escrevendo, não estou pronta   …. Tudo me irrita e aborrece. O ruído insistente do cortador de grama, o uivo do vento, os olhos ardidos. A canseira no corpo da noite vigilante e mal dormida. O cheiro da chuva que vem caminhando … E, como sempre, muita coisa fora do lugar porque sigo limpando escolhendo isso e aquilo preparando as gavetas abrindo espaço e …  E … e … acho que desperdiço tempo, hora, mas o iluminado encantamento insistentemente gruda na pele e me salva. Penso amor,  depois, antes, e hoje e já o prazer … brinco na música, na dança, e acho graça do azedume.

Sinto falta das tuas conversas compridas e abertas. Sacudindo aqui e ali mazelas e alegrias. Pensei na tua saúde e fiquei atordoada. Nunca sabemos como é adoecer …. Eu me assusto com olho direito que acordou inchado, com a dor nas costas, a enxaqueca, e o desânimo, a maldita ansiedade que me segue a passo curto. Então o silêncio pode ser inimigo. Se me contas, comentas, reclamas, gritas ou choras, pronto, terminou. No dia seguinte estamos plenas de vitalidade. Se guardamos, amiga, amolecemos …, e a alma fica como que entupida de doenças. E as do amor são as piores. Não deveria ter escrito, mas se espero para amanhã será tanto amanhã, amanhã …

Se espero o amanhã não vejo a neve da estrada, nem a natureza cinzenta particularmente linda. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2017

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Susan Sontag

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Fragmento de um conto escrito em 1996 chamado Uma carta para Borges

“Você disse que devemos à literatura quase tudo o que somos e fomos. se os livros desapareceram, desaparecerá a história e também os seres humanos. Tenho certeza de que você está certo. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e memórias. Eles também nos dão o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é apenas uma forma de escapismo: uma fuga do mundo “real”cotidiano para um mundo imaginário, o mundo dos livros. Mas os livros são muito mais. São um modo de sermos plenamente humanos.” Susan Sontag

 

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as cartas não escritas

Minha querida, minha amiga querida, pensada, pensada, imaginada e distante. A última carta que te escrevi era uma coisa comprida cheia de emoções atrapalhadas, misturadas e esquisitas… E o tempo. O tempo que não nos espera. Às vezes vem a minha memória o jantar que vocês me ofereceram naquele restaurante italiano na beira da lagoa, e falei, falei tanto, e sem pausa, e tanto falei e nervosa que mal comi, … e me afligi … Esquisita sensação. Por que deixamos de ser apenas nós para nos impor uma representação teatral, não fosse saber que estamos sempre nesta exposição enlouquecida que é viver. E agora lembro do acaso quando eu me deliciava com utensílios de cozinha sensacionais numa loja de importados te vi passar. Bonita iluminada numa conversa feliz. Passo alegre. E foi um abraço gostoso. As lembranças! Hoje o dia amanheceu todo mais claro depois de chover cinzento, enfiado a trovejar por três dias e três noites…. Muita e muita chuva. Viajo pelas estantes limpando livros, separando os que não lerei, os que vou doar, os que vou esquece, mas também separo aqueles que possivelmente vou reler se tempo houver. Misteriosa relação  Misteriosas saudades.

Por que deixamos de ser apenas nós para nos impor uma representação teatral, não fosse saber que estamos sempre nesta exposição enlouquecida que é viver.

Enquanto espero você

Escrevo, mas você não está aqui. Outras vezes escrevia sabendo que você estava perto muito perto chegando ao escritório, ao jornal. Escrevendo uma carta, assinando um texto… Em Buenos Aires, São Paulo, na Itália. Ou na Suíça, e perto. Sempre estava comigo. Atravesso o portão, e já na calçada sonho com o outro lado, perto. Estou em casa depois de um dia de bastante trabalho, trago suas cartas. Enquanto leio estou ao seu lado, escuto a voz, e sinto o cheiro… Os animais se reconhecem pelo cheiro.  Eu me agarro de carta em carta. Espero pela manhã a carta da noite, e encontro na volta, a carta da manhã. Teus enormes telegramas. Não raro leio de pé antes de subir a rua, e muito me escapa porque caminho, tropeço, e também porque leio com avidez. Leio sem tirar o casaco para não perder tempo algum, estar contigo. E muito me escapa, há que reler, e no fim há duas cartas, uma primeira que soa como música, e uma segunda que é feita de palavras. Não vais chegar na hora nem no dia marcado. Houve outro contratempo. Vais telefonar. Não atendo ao telefone porque engasgo com tantas datas prometidas e adiadas. Uma carta olhos azuis, outra a magreza, e já na outra o dia incerto e a espera. Eu te amo. Leio o outro lado do mundo, imagino como você se movimenta, o que faz, ou se está com medo. Talvez você sinta medo. O medo está nas ruas. Bandidos engravatados. Esperando…  Respiram este medo, e, tecem macabros assassinatos, ou sinistros desvios. Medo é o sentimento chave do momento. Também esperar. Crimes e tantos acidentes inexplicáveis!

Lamber a faca numa refeição, ou depois dela, é no mínimo solitário, esquisito, mas sempre proibido, interditado. De guerra o gesto porque nela existe a liberdade de tudo poder. Mas não podemos tudo. Comer batatas cruas.  Mas não estamos exatamente em guerra, e a mesa posta para o chá, linda! Empurrar o prato é um gesto de enfado e impaciência. Esticar as pernas, mais enfado. Eu me escandalizo, não reconheço você. E penso que pode ser descuido de envelhecer… , não é intimidade. Falta de educação. Será que eu também estou/ sou assim largada gulosa glutona, voraz? Engasgo. Lamber não pode acontecer. Equívoco? Não te reconheço. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro – 2017 – Torres

Penso. Você esqueceu de me levar para o nosso mundo, e me largou a esperar por você…  Vou brincar no banco da praça, e depois reler as cartas. Diurnas, notívagas. Cartas insones mais tarde, enquanto penso que me pensas.

Desencontro no encontro

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… não sei exatamente o que escrever hoje dia 26 de janeiro porque estou a pensar no dia 27 de janeiro dia que  Valentina nasceu… A vida segue com encontros e desencontros. Inusitadamente mágica.

“Um dia quando/se eu tiver uma casa com peças muito grandes e paredes nuas vou compor um quadro enorme que contará melhor do que qualquer livro a história dos meus amigos; e um outro que contará a história dos livros que importaram na minha vida. Colocarei um na frente do outro, e estarão cheios impregnados um do outro, de tal forma que cada um apagará o significado do outro. Nenhum homem pode esperar viver o suficiente para contar com palavras todos os acontecimentos, todas as suas experiências insondáveis. Isso é apenas possível através de símbolos, sinais, constelações que descrevem seu mysterium no céu meio as estrelas consteladas …” Henry Miller

“Un jour, quand j ‘aurai une maison avec une grande pièce et des murs nus, j’ ai l ‘intention de composer un immense tableau ou grapphique que dira mieux que n’importe quel livre l ‘histoire de mes amis; et un autre qui racontera l ‘histoire des livres dans ma vie. Un sur chaque mur. l’un en face de l’autre, qui  imprégneront l’un de l’autre, qui  s ‘effaceront l’un de l’autre. Nul homme ne peut espérer vivre assez longtemps pour faire, à l ‘aide des mots, le tour de ces événements, de ces expériences insondables. Cela n ‘est possible que par le truchement de symboles, des graphiques, à la manière de ces étoiles qui écrivent leur mysterium constellé. ”(.p33)

Un diable au paradis Henry Miller