desapareceu aparece

desapareceu aparece fica vai flutua pensa e esquece na folha de jornal a notícia não mais do que notícia e o espelho reflete vaidade sem saudade. Sombra sem sombra sem sentido sem elo sem fio sem chegada. Nada. Só fantasia amiga do amigo? O jornal diminui se extingue se reforma numa forma de revista sem cor, sem notícia, só o ia. Há que ser resumo opinião o certo e o errado o bom lado do inferno escaldante e louco de política malcheirosa deste sem caráter sem ética sem o outro, mas sempre só o eu do eu aberto exibido e assim despido farsante…palhaço malabarista narcisista…Pois é, dia sim outro não, leio o jornal, apressada, nas escadas o jornal do vizinho que se esquece nem liga ou guarda o jornal da escada, esquecido…e te leio.

venta aqui. Venta um vento forte e morno. Do vento e do morno o bom do perfume doce dos jasmins. Espero a chuva. De notícias nem bilhetes nem cartassssss ou telegramas…. O telefone que toca apressado não atendo não falo desaprendo, mas leio. Leio tudo do muito… Assim te envio mensagem ventosa no meio da noite que assobia e não espera, desaparece aparece Albertina 

Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2016 – Torres

Direto nos setenta anos

Esqueço de dizer que envelhecer faz parte … e, afinal quer dizer que vivemos, ou já vivemos, e se passa setenta anos, que estamos vivos. Que bom! Que eu chegue aos oitenta. Mas vou confessar uma coisinha esquisita que de um modo geral não dá pra entender. O compromisso com a beleza ou o compromisso com o fazer,  ou ser e, … neste sentido a beleza pode atrapalhar. Acho que me atrapalhou. Ou abrimos mão dela, o que não é justo com o fato, ou atropelamos descuidando. Nunca consigo explicar. Queria ser lembrada por ser quem sou, mas como esquecer  a tal facilidade … Dizer parabenizar  ou vencer o feio seria pior … Esta foto, por exemplo, adoro! Bem, e lá chego nos/aos setenta, inquieta. Nem Dinamarca, nem Noruega…, mas aos setenta anos. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2016 – Torres

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A boneca

Estou naquela idade de conselhos perigosos, desnecessários, e ou arbitrários. E incapaz de preencher com a devida energia o que precisa ser feito ou dito…  Quero pensar, falar, discutir, mas tudo sendo urgente é inútil, ou desnecessário. Estranho sentimento. Um desabafo. Sempre na corrida, na hora da fresta o cansaço, ou  não, não importa. Vagar e paciência na conversa, necessários. De natureza combativa estou no viés. Sei lá como explicar. E sem paciência, embora a idade deveria ser coroada de pacífica harmonia. Estranho que ao te perder eu te encontro. Encontro pedaço esquecido, desconectado. Assim mesmo, sabendo que o importante se desfaz na explicação abro o vinho como recomendaste e penso nas exigências prosaicas: manteiga, pão, carne macia. Salada tenra, doce português. O copo de cristal, os pratos alemães, a prata dos talheres, o linho do guardanapo. E as margaridas. Exigências idiotas que a vida inspira. Bebo o vinho. Penso outra vez que te perder é estar contigo neste momento. Um capricho teu, não meu. Rezo um terço do rosário, e me debruço na janela. Fotografo a boneca, imagino histórias. Estranha lucidez. Vou inventar a história de amor, de paixão, ou loucura que não vivemos. Elizabeth M. B. Mattos setembro – 2016 – Torres

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Por quê?

Envelhecer. Paramos para pensar, articular, mapear e pensamos, ‘não vai dar tempo‘. Curiosidade. Não fazemos, mas imaginamos o tempo sem tempo. Juventude. Não fazemos nada, e deixamos tempo hora, e, a imaginação corre. E o tempo passa igual. O mesmo. Seja velho, seja jovem: fazer e fazer fazer sem pensar na hora, fazer. Por que não faço? Por quê? Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2018

Estar cheio de ser é viver como corpo-alma. Nosso nome para a experiência de ser pleno é alegria.” (p.89)  Elizabeth Costello de J.M. Coetzee

KARL OVE Knausgård

 

“Não vivemos nossa vida sozinhos, mas isso não quer dizer que vejamos as pessoas com quem vivemos. Quando meu pai se mudou para o norte da Noruega e deixou de ser para mim uma pessoa física, com um corpo e uma voz, um temperamento, e um olhar, de certo modo ele sumiu da minha vida, no sentido de que foi reduzido a uma espécie de desconforto com o qual eu por vezes me defrontava, por exemplo quando ele me ligava ou alguma coisa me fazia pensar nele, uma espécie de campo em mim que podia ser ativado, e nesse campo estavam todos os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas não ele próprio. Tempos depois eu li nos cadernos de anotações dele a respeito do Natal que ele havia ligado das Ilha Canárias e das semanas que se seguiram. Nesses cadernos aparece como ele próprio, no meio da própria vida, e por isso essa leitura seja tão dolorosa para mim, porque ele não apenas ele é muito mais do que os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas infinitamente mais, uma pessoa viva e completa no meio da vida. ” (p.292)

Minha Luta, volume 4 – Uma temporada no Escuro de Karl Ove Knausgård

Ainda um trecho do livro, as anotações do pai de Karl Ove encontradas após a morte:

“Sábado 10 de janeiro. Dormi até tarde. Quebrei uma garrafa de xerez na cozinha. Passei a tarde na companhia de uma Smirnoff azul! Domingo 11 de janeiro. Quando acordei senti que o dia seria mais uma vez doloroso. E eu tinha razão! Segunda-feira 12 de janeiro. Dormi mal na noite de domingo para segunda. Fiquei me revirando na cama, ouvindo ’vozes’. Fui trabalhar. Comecei com uma aula de inglês. É difícil quando estou fora de forma. E ainda mais estressante com as aulas ao entardecer. Terça-feira 13 de janeiro. Mais uma noite em claro. Parece que o corpo não aceita ficar sem álcool. Fui trabalhar. ” (p.294)

Não voltar

Não posso esquecer de contar. As pitangueiras estão floridas, as amoreiras carregadas. Amoras azuis apontam nos galhos esticados. O pomar da lagoa se manifesta. E faz cinza na beira da Lagoa do Violão.

“ Eu podia ir à Dinamarca no verão. E eu não precisava mais voltar. ‘ Eu não precisava mais voltar’. Eu nunca tinha pensado nisso antes, mas essa possibilidade mudava tudo. Com a luz fria e clara no rosto, sob o céu cinzento de outono, no meio da floresta à beira do rio, foi como se o futuro se abrisse diante de mim. Não a maneira esperada, como todos faziam, prestar serviço militar no norte da Noruega, depois cursar uma universidade em Bergen ou em Oslo, viver por seis anos numa dessas cidades e passar as férias em casa para então arranjar um emprego, se casar e ter filhos que seriam os netos dos pais. Mas simplesmente ir embora e desaparecer. Se afastar de todo mundo. Nem ao menos ‘daqui uns anos’, mas naquele exato momento. Dizer para minha mãe naquele verão: estou indo embora para nunca mais voltar. Ela não podia me impedir. Eu era livre. Eu era uma pessoa independente. O futuro se abriu como uma porta. As faias da Dinamarca. As pequenas casas de alvenaria. Lisbeh. Ninguém saberia quem eu era, eu seria apenas um recém-chegado, que logo iria embora. Eu não precisava voltar! Ninguém jamais precisaria saber qualquer coisa a meu respeito, eu podia simplesmente desaparecer, me afastar do mundo. Era uma possibilidade real.” (p.221) 

Minha Luta 4  – UMA TEMPORADA NO ESCURO,  KARL OVE KNAUSGÅRD

Pode ser esta a biografia. Autobiografia? Recorte de leituras. Um dia meu filho disse: estou indo embora para nunca mais voltar. O feito no desfeito que possa ter sido …, foi. Tantas decisões descabeladas tomadas na juventude dos 16, dos 17 anos. Ou justas, e ou precisas decisões. Ou sonhos realizados. Filhos corajosos. Não fui a Dinamarca, nem a Noruega, e a França se concretizou tantos anos depois do meu estou indo embora. Os filhos saíram para morar na Alemanha, na Itália, Estados Unidos ou para serem, apenas, livres. Revisitação a leitura dos livros do norueguês Karl Ove. Biografias convergem, retalham, aproximam … uma viagem.

Coração desocupado

Valor questionado. A vida na virada. Susto e abandono, depois reencontro. O que muda? Novo olhar. Sem mérito. Diferente. Posso abrir qualquer livro lido: Canetti, Kafka, Camus, Proust, Manuel Bandeira. Lispector. Sábato.  Diferente. O amor se traslada também, o que importa? O sentimento. Os animais são de natureza pacífica. Onde se encontra a revolta? No coração desocupado.

 

A foto conta a história toda.20140707_203838

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A desordem do afeto. Ônix.

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Política no lago

Há qualquer coisa de macabro no ar, na terra, nos mares. Somos reféns de Monteiro Lobato. Todos os animais nos ameaçam, avançam conversando, sorrindo.  O mundo do faz de conta assusta. O sítio do  Pica-pau Amarelo, o da nossa infância, encantava. O verbo aprender estava no contexto. Agora, vamos ser apreendidos, apanhados … Campo minado sem guerra declarada. Que horror! Monteiro Lobato sabia das coisas… Quem vai nos explicar que mundo é este? História do Brasil, ou apenas mais uma estória de faz de conta?

Setenta anos

Estes setenta anos apontam estranhados. Será que vou crescer? E já me visto de princesa, remexo nos velhos discos de vinil: Jacques Brel, Gainsbour, Ferrat, Sacha Distel , Catherine Sauvage,  Georges Brassens, Léo Ferré, Françoise Hardy,  e a voz de Aznavour, Piaf. E todos os que esqueci. Já estou no teclado a escrever, escrevendo, escrevendo, e escrevendo. Ouço o meu francês, e penso no meu norueguês. Levanto a cabeça. Não sei por onde começar. A leitura de Karl Ove me desafia, alucina, e já vai terminar. Fico então uma semana, dez dias para ler oito páginas…

Adormeço no sonho de escrever. E os pincéis, a tela em branco, ou o desenho rabiscado no caderno… A fotografia. Atrás de tudo está o olhar. Depois cheiro, tato, ouvido, gosto e a vontade. Atmosfera. A vontade é que precisa dominar. Existe um trilho amigo, existe a inquietude esquisita. Aquela alegria quente desta primavera, quase verão que se anuncia em agosto… Logo será setembro. Vontade tímida. tropeço. Vamos escutar os chansonniers. Tento voltar para a terra e aquietar. Estende tua mão. Hoje, Ônix e eu completamos duas lagoas ainda de manhã bem cedo. Pode não te parecer muito, mas para nós! caminhar, ler, escrever, ouvir música, caminhar e te escrever: o dia, a viagem. Elizabeth M.B. Mattos – agosto 2016 – Torres

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Ônix – Foto de Joana Vianna Moog

Fazer coisas é escrever?

Um sábado com feira livre do outro lado da lagoa. Estou com o verde da salada, espinafre, brócolis, feijão. As mãos com aquele cheiro doce das mexericas, bergamotas, tangerinas. Não comprei flores. Tenho os olhos molhados de expectativa… Quero dizer, mas não digo. Escrever pode ser confessar, ou é só conversa de dizer? Acho que a chuva chega hoje. Esquentou. Parece verão nesta primavera, ou ainda é inverno: estações misturadas.

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Não terminei de te escrever, já é domingo. Do sol, o dia se acinzenta, quente. Será que ainda chove?

Sigo lendo o norueguês, não é apenas o texto, tampouco o que ele conta/diz/explica que importa, mas o rastro das leituras. Tão nórdicas! Impossíveis para mim! A mágica prende. Como conseguiu “agarrar” a narrativa, esta autobiografia criança que adolesce, e se joga numa paternidade festiva no meio de amor tempestuoso… Noutro tema, outro livro, não sei se teria me posto nesta agitação. Este último volume, aliás, o quarto (ainda faltam dois, e não li Proust inteiro, e não li Musil, nem Broch)), ele descreve como foi ser professor aos dezoito anos. (E já me encontrei no mote: por que fui ser professora, foi em sala de aula que eu me fiz inteira? Vou escrever sobre isso.)  Aqueles vilarejos, montanhas, fiordes, mar!  E a febre da idade. E eu aqui na beira da minha lagoa, sentindo o cheiro do mar, querendo estar comigo mesma, e neste turbilhão. Os meus fiordes, as minhas montanhas, o meu tédio, a minha solidão, as minhas angustias, onde estão plantadas? Como posso ficar assim tanto tempo exposta ao vento, ao perfume, aos desejos sem conseguir escrever? Sonhos. Passos hesitantes. Não é o autor que importa, mas a narrativa, não é a narrativa, mas a vontade que fico de escrever. Prazer completo, sensual. E o tempo me afoga, mas liberta porque agora posso, tenho todas as horas, o dia inteiro. Se digo qualquer coisa, não importa, apenas escrevo. Vou logo fechando as janelas, desligando os telefones. Interrompo a música, e me concentro no dia. Mas o dia está cheio de ruídos, latidos, vozes, sombras. Como é complicado se isolar! Uma buzina, o alarme daquela casa… A fome, a sede. E logo um certo cansaço pesado. Uma curiosidade idiota guardada naquela caixa. Estou velha! Que chato! E estas questões de quanto mais obrigações mais energia voltam a me impacientar. Lembro do meu quarto no Rio de Janeiro. O chão cheio de livros para serem lidos, e eram lidos. Insônia do prazer. Os chansonniers. Os meus discos. Estudar e ser mãe. Audácia e entusiasmo. As crianças? Sempre estive com os filhos a minha volta. Risadas, brincadeiras, conversas preguiçosas neste mundo silencioso e confortável, cariocando. Reverencio a vida e a sorte. Muito estranho quando o último filho saiu de casa para casar, viajar, ou viver a própria vida. Estar completamente sozinha aconteceu tarde. A primeira caixa materna, a caixa família, outra caixa paterna, outra caixa de dependência, a caixa dos estudos, a caixa da obediência, não esquecer a caixa dos maridos, dos namorados. Das escolas, como professora. A caixa dos amigos, a mais confortável. Desejei sair destas caixas todas para ter a minha própria solidão criativa, de gente grande. Este desejo de eu comigo desde que me entendo como gente, mas só aconteceu agora, tão tarde, mas deve ser cedo…. Não vou contar anos, nem horas, mas me debruçar nos livros possíveis, muitos ao mesmo tempo. Em olhares, no silêncio. E recomeço. Começo e respiro agitada. Medo do tempo, da doença, da morte, e deste cheiro de vida que todos os dias escapa, pode escapar…, mas está aqui nas minhas mãos. Tenho que aproveitar. Elizabeth M. B. Mattos –  agosto de 2016 – Torres

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