Penso que és menina porque temos quarenta anos de diferença. Quarenta anos! Tanto! É a metade da vida. É tanto e sendo assim um nada. Estás distante, do outro lado do mundo, na outra história. São tantas para se contar! Não aquela que te deixei sozinha, e fiquei sozinha no hospital. Nem a do arroz integral. Não aquela em que tapavas a boca, os olhos e ficávamos apertadas uma na outra. Não aquela de te deixar em casa. Não aquela de te levar para casa. De gritar. De ficar. De pegar a estrada. E de mudar tudo. Eu te imagino sorrindo, tomando sorvete, suando e chorando. Outra história com muito sorvete.
Lágrimas brotam na tristeza isolada, pequena, picada, diária. Nos teus olhos, nos meus olhos. Lágrimas da luta, da superação, e do esforço para não fazer nenhuma concessão. Procuras ilusão, amor e o abraço, o beijo. A mão pousada no braço. Temos vivido o espanto, minha menina, e a sombra, a ilusão. Então, olho dentro deste teu olho de Anita e confesso: a estante de livros, a música, os pratos empilhados, as fotos no papel, e teus escritos, as flores daquele vaso, os tecidos empilhados são o mundo. O teu e o meu misturados na história desta ficção… E como posso te explicar? É a procura do sólido, da certeza, mas tudo se desfaz neste tempo que não é o tempo, mas ilusão de que estamos, as duas aqui, agora, juntas. Buscas desenfreadas, desnecessárias. Eu te escrevo e vejo que te remexes na cama insone. E bebes o último copo de vinho, e toda a água da jarra … este agora é real. Se eu pudesse te dizer que não se chega, e nem importa chegar! Passamos. É a cadeira, a mesa, o armário, esta mistura de lá e cá que faz a diferença e fica real. Se eu pudesse te contar, com detalhes, que todos os lugares são os mesmos … E nossos! E não são nada, apenas ilusão. Que tu és inquieta, sonhadora, e triste como eu. E somos felizes. Não tem medida, somos nós, assim, alegres e felizes. Vou terminar de ler. Vou terminar de pensar.
Consegui um jardineiro para o meu canteiro. Poda – se as buganvílias, coloca-se o novo gramado, talvez um jasmineiro. Mas é só um canteiro suspenso… penso em gerânios, nas azaleias. Ou apenas o muro verde? Poderia ser azul, cor de rosa, ou amarelo? O sol chega sempre. Não comprei os pincéis, nem tinta, nem papel. Vou desenhando assim, só na imaginação.




Depois de uma caminhada no calor. Sim. Está quente hoje. Mormaço, clima de verão, e ainda é agosto. Mormaço. Preguiça. Um pouco de nostalgia, desacerto. Desencontro neste encontro amoroso. Sinto ciúmes. Revolta, raiva, vontade de bater… Qualquer coisa roída de malévola. Como explicar? As tais escolhas definitivas, e nem tão definitivas. Desviadas, enviadas como raios, mas também a essência. Karl Ove Knausgård escreve: “como é abissal a diferença entre nossas vidas.” Ou “compreender o mundo requer que se mantenha certa distância dele.” Uma distância. É nela que flutuo, e te encontro. Estás incompreensivelmente nesta distância. E te sinto tão perto! Tantas vezes estive neste abismo das diferenças. Como explicar? Talvez muito pouco acomodada no meu próprio corpo. Sempre procurando um lado etéreo, eterno, religioso ou pagão, mas essencial. Não existe essencial. Existe o agora, o hoje como tantas vezes repetes. Não encontrei o meu corpo, o desejo, o gosto, a violência, a paixão. Sempre comedidamente comedida. Tímida para espanto da lógica, do sorriso. Hesitante. O tempo vai engolindo o tempo, e não estás aqui. Não estou aí. Nunca estivemos no mesmo lugar. Sim, lembro à calçada. Lembro na tua lembrança. Fantasia do capricho. Estás fervendo no meu sangue. Como se fosse o vinho que sempre me enrubesce. E a vida doce… Encanto de imaginar. Não está “tudo igual” porque existem territórios interiores intocáveis. Então te aproximas e te apossas. Releio tua carta: “Para mim fizeste uma parceria com tuas angustias e crises existenciais. Estás tão acostumada a viver desta maneira, que já não tem como mudar ou querer mudar. Tua zona! Tua história! Não briga com os fatos.” Fico procurando aqui e ali teu rastro. E a raiva impotente do silêncio, desta minha história me toma por inteiro, se apossa …me entristece. Desenhei a estrada, e me fui por este caminho torto. Desviei da história certa, ou eram todas incertas? Estou atrapalhada. Tu me alegras. Tu me confundes. Tu me inquietas. E não é hora para atrapalhações. Preciso arregaçar as mangas, e trabalhar. Releio:« Vou dizer como te sinto. Estás vivendo a tua vida totalmente do teu jeito. Curtindo da tua maneira! Esta é a tua forma, engrandece isso, sem culpas, nem críticas. Não queiras a esta altura, ter uma grande solução para tuas dúvidas. (Esquece). Estamos nesse mundo louco e difícil de achar saídas. Estou contigo neste desafio.»Pois é meu querido amado… (Gosto de te pensar querido e amado) Não estás comigo, no entanto, estou contigo. Como se fosse este o único caminho, te encontrar… Estás rindo. E não há mais tempo para fazer diferente. Cultivei a angustia como rosa exótica, tens razão. Sempre tens razão o que de certa forma me exaspera. Quero eu ter razão quero eu justificar. Quero eu estar na zona do prazer. Quero eu ser o foco, tua rota. E tudo isso é como visitar a Lapônia, estar com Papai Noel. Pés fincados na neve, acariciar as renas, e… Claro! Quero te beijar.