Pesadelo grampeado

 

Choveu durante a noite, bastante. Segue caindo água batida. Sacudida pelo vento. Refrescou. Sonhei sonhos enormes. Pesadelo grampeado. Ouço repetidas vezes a voz do horror. Casa remexida. Janelas abertas. Luzes, todas, acesas. Já do jardim sinto o medo a me invadir. Atravesso o alpendre, empurro a porta entreaberta, e me surpreendo escabelada. Vísceras remexidas… Repugnância.

A porta da geladeira aberta, restos de comida em cima da mesa, garrafas esvaziadas, duas cadeiras viradas. Ostensivo vandalismo. Angústia e desalento. Escárnio. Roubaram a paz, e junto com ela  a dignidade.

Cinco movimentos

1.

Pisoteamos, não pedimos licença, pisoteamos pretensiosos. Enverdece, floresce o caminho da violência. O país se sacode. Perdemos o cheiro do pão, do mingau com canela. Desesperamos. Isabel imagina um caminho diferente. Retira do forno as duas tranças de pão doce. . .

2.

O piano dedilhado ligeiro, cheio, mas assim mesmo vazio. Remediada dor no ao embalo da música. Lucia se ilumina enquanto o som entra pelos olhos.

3.

Lençóis macios, travesseiros empilhados. O estalo da lenha. Nós de pinho sangrando, escorrendo… O cheiro da cera. Os cães, os jacarandás.

4.

Investiga-se a memória. Nada fica claro, nem sonho, nem intenção. Os motes devem estar no detalhe que esquecemos, guardamos na gaveta…  A conversa atravessa o escuro, não define, mas sinaliza. Sofia pensa: eu queria ter ficado no teu abraço por muito mais tempo.

5.

Não ter mãe, não ter pai. Sentar no fio da calçada. Não pedir licença, nem perdão. Não comer. Choramingar. Desaprender. Violência a cada empurrão matreiro. Peteleco corretivo. Sem palavra. Desavisada beleza se espalha pelos ombros de Isabel. Dançam os pés pequenos. Tímido bailado de pele morena. E a história está apenas começando.

William Faulkner

Se eu não tivesse existido, outra pessoa poderia ter escrito meus livros, Hemingway, Dostoiévski, qualquer um de nós. A prova disso é que há pelo menos três  candidatos à autoria das peças de Shakespeare. Porém, o que importa é HamletSonhos de uma noite de verão  –  não quem as escreveu, mas que alguém o tenha feito. O artista não tem importância. Só  é importante o que ele cria, já que não há nada de novo a ser dito, Shekespeare, Balzac, Homero, todos escreveram sobre as mesmas coisas, e se tivessem vivido mil ou dois mil anos a mais, os editores não teriam precisado de ninguém mais.”(p.9)

Citação seguinte fica presente para uma pessoa especial.

Entrevistadora

Como um escritor pode tornar-se um romancista sério?

Faulkner

Noventa e nove por cento de talento… noventa e nove por cento de disciplina…noventa e nove por cento de trabalho. Ele nunca deve estar satisfeito com aquilo que faz. Nunca está tão bom quanto pode ser feito. Sempre sonhe e atire mais alto do que você pode fazer. Não se preocupe somente em ser o melhor do que seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser o melhor do que você mesmo. O artista é uma criatura arrastada por demônios. […] ” p. 10

 

1 volume  As entrevistas da PARIS REVIEW, Companhia das Letras, São Paulo, 2011

 

Bem perto bem longe

Logo estarás longe. Bebe um bom vinho tinto espanhol por mim. Logo estarás bem perto. Faço um jogo bobo com as palavras. Desculpa. Prometi uma carta, prometi te escrever. E me agito. Quero te contar que este exercício físico que me imponho parece punitivo. O corpo reclama. Alguma coisa está fora do lugar. Não é a idade, mas sou eu mesma deslocada do que as pessoas nomeiam/dizem ser tempo, solução, vida. Um amontoado de assertivas. Talvez não apenas deslocada, mas enfiada, literalmente, na tranquilidade mansa de ser eu mesma. Noites compridas abarrotadas de notícias descontroladas porque o momento é assim mesmo enlouquecido. O Brasil se agita inquieto, aflito. Grita estranhado. Mas posso desligar o botão, e te contar outra história. Quem sabe brinco com as bonecas? Não. Vou te esperar no jardim. Vou colher crisântemos, hortênsias. Ou rosas amarelas, abertas, ou em botão. Ou ramos miúdos de violetas. Uma braçada de flores para te alegrar. Preciso fazer alguma coisa feliz, diferente, preciso fazer maior… Preciso pentear o cabelo, comprar roupas coloridas, colocar uns brincos.  Enquanto te espero enfiar os dedos na terra, arrancar o inço, cavar para plantar outras flores. Podar os galhos secos. Sentir o cheiro da grama. E te abraçar. Abraçar é bom quando se conhece o cheiro, e se reconhece a voz.  Não gosto mesmo de ficar acordada de noite, mesmo com lua e estrela no céu. Gosto de espiar para o escuro e dormir. Se não consigo vou para o jardim te esperar. Bebo um cálice de vinho.  Ou um copo com muita água e dois limões. E agora te escrevo. Enquanto as letras vão se amontoando toco na exaustão. Acalmo. Por que o corpo não se acomoda? Não compreendo. Todos os travesseiros em posições estratégicas. Lençóis limpos, perfumados. A casa escura. A inquietação perturba. Notícias pipocam, e a curiosidade se acende. Os músculos das pernas reclamam. As costas. Os braços. Tenho que dar voltas pela casa. E me aborreço feito criança: deveria poder chorar aflição, deixar escorrer as lágrimas. Lavar o corpo com esta inundação da alma.  Reclamar, colocar angústia no grito… , aflição porque não durmo na hora do sono. Porque estou inquieta, esvaziada. Não sei o que deveria mesmo te escrever. Esqueci o principal. Ficou a espera assim com cheiro de terra, de flor, e alegria também, tu sabes. Estás no lugar certo.  Bem perto, mas logo estarás longe.20140825_164658

 

Otimista

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Pacífico dia. Comida deliciosa, feita por mim. Bom vinho. O vento festivo. Lagoa amistosa. Buganvílias alegres. Filhos em bons planetas. Netos no mundo. Estou/sou tão jovem!  Pura alienação. Só passarinhada na conversa, e desordem amiga esparrada pelas mesas… Mesas e cadeiras abarrotadas. Amigos sinalizam. Steve Jobs diz: Gosto de coisa boa na fruta descascada. Então, reafirmo, pendurada nos meus sonhos: estar em casa é deleite. Janelas debruçadas na luz. Pensamento em letrinhas apressadas. Viver hoje, agora, tem razão meu jovem amigo, e resmungo risonha:  confesso envergonhada: verdade: estou mesmo escondida na melhor das cavernas possíveis. Minha horta, meu quintal, meu jardim, meu portão, minha comida, minhas uvas, meu reduto aberto. Restrito. Aberto, independente,  livre, único. Estendo a mão, e posso rir junto, porque te penso… Elizabeth M. B. Mattos – Torres – 2016

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Não acabarão nunca com o amor

Vladimir Maiakovski: “ Não acabarão nunca com o amor, nem as rusgas, nem a distância. Está provado, pensado, verificado. Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço juramento: Amo firme, fiel e verdadeiramente. ”

Fragmento de Eduardo Alves da Costa: No caminho com Maiakovski

“[…]

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;

pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

[…]”

Sentada diante da tela brilhante do computador penso o poema.

Penso na repetição marcada dos versos que fazem música, e alertam. “E não dizemos nada. […]E já não podemos dizer nada.”

É terrível acordar amedrontada pelo fazer do outro que atropela. É difícil apagar o sentimento acovardado: cedo ao grito que surpreende. O imutável, trivial reprimido. O verdadeiro escondido. Desejo apertado. E já não é mais. Sei que não devia ser/fazer assim, mas não digo nada. Silêncio permissivo, opressor. E já não tenho mais. Esvaziada me acostumo a tanta coisa proibida, a tanto desejo fatiado, tanta explosão desnecessária! E o passo, o acerto se apertam cada vez mais no quarto pequeno do esquecimento. Sem memória cinzenta ou azul. Esqueço de querer, de lutar, de desejar. Sigo abstraída, retraída, lenta. Medrosa. A massa humana conduz na mesmice regulada. E de tanto tempo passando já não consigo mudar nada.

Diz Marina Colasanti: Eu sei, mas não devia.
“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”

É preciso lembrar que me acostumei a não sair de casa, a não falar o que penso, nem fazer o que desejo, mas não devia. Deveria, isto sim, voltar a ter coragem. Voltar a caminhar pelas calçadas, pelos parques. De manhã, de tarde, ou, e de noite sair. Sair sem medo do assalto, do atropelo, sem medo do medo. Mas a gente se acostuma ao péssimo Jornal da televisão ao futebol as novelas ao seriado, e não dizer nada, não fazer nada. Não altera a rotina que também se acomoda, se acostuma. Eu não devia ser velha, cansada, muito menos assustada.  Não devia acreditar em bruxas, sapos e princesas. Não devia sorrir na hora errada, nem gritar na minha risada. Não devia sair tropeçando, nem cantado. Eu não devia, mas é o impulso que vai, o desgoverno que sai, então, constrangida, errada, aperto o sentimento, o desejo, mas sei que não devia. Vou adestrada a rir menos, tropeçar menos, gritar menos, e amar menos. Porque o amor é solto, desajeitado, livre, encarnado, azul ou amarelado, diferente, suado, esfolado. Eu sei que a gente se acostuma a medir, comedir, falar suave, sorrir, nunca rir, aceitar, mas não devíamos. Não devíamos mudar o cheiro, o rumo, o desejo deste amor galopante, comprido, solto, desgovernado, errado. O amor desta noite inteira a ler, deste dia todo a escrever, desta cegueira teimosa de não compreender. Do ódio que visita, esmaga. Não deveríamos querer, admitir ou sentir tanto sentimento errado.  A gente se acostuma a ser igual a todo mundo, a copiar, a ensaiar, a representar. E não devia! Eu não devia ceder. Devia sim experimentar e gozar! Elizabeth M.B. Mattos – março 2006 – Porto Alegre

O hoje escreve

Segue a situação inquietante de que não havendo um hoje, volta-se para o ontem sem pensar que futuro pode ser apenas hoje. Então te escrevo convicta de que somos amanhã, e se estivermos olhando uma para outra com as convicções internas ativadas, estamos felizes. Grande, medíocre, quente ou ventoso, o hoje escreve. Esquisito isso de cultivar a ilha da solidão, que não é bem solidão, mas isolamento. Então recebo um bilhete, e já me debruço no amor. Ora, ora! Tantas e tantas vezes desejei este lugar tão apenas meu, meu. Janelas abertas, portas fechadas. Aquele sabor doce de uma conquista tão ao gosto do meu sonho. Escuto Françoise Hardy, não Carla Bruni. Um pouco de antes chega nesta desordem dos discos de vinil, dos livros. Dos papéis, dos lápis obsessivamente apontados. A vontade febril de limpar ordenar. Caminho. O velho prazer de presença se estende preguiçoso.

As pontas do casaco

Isabel limpava as estantes. A escada de quatro degraus, aberta. Já tinha escovado e separado os livros por assunto. Os volumes estavam em pilhas na mesa encostada na parede ao lado. As crianças brincavam no quintal, sem gritar. E Francisco consertava o rolamento da janela, distraído com as hortênsias azuis, demorava.

Ela entrou agitada com os papéis na mão, e com peculiar entusiasmo largou no tapete junto à escada, não sem antes reclamar a posição dos dois quadros de Marcel, recém-colocados, na parede, e falou depressa: ‘Terminei. Não está na boa sequência, aliás, invertida. Do fim para o início; acerta isso para mim, Isabel. Os desenhos ficaram ótimos, vais ver.’Francisco olhou para a sala somando urgência. Ela saiu, feito vento passageiro, convocando as crianças.

Isabel desceu da escada, olhou para as folhas. Uma sequência erótica de momentos domésticos. A saia se enrolou nas suas pernas quando deitou no tapete. Francisco se inclinou para examinar os desenhos. Suas mãos tatearam o corpo de Isabel que encostou a cabeça no assoalho. As pontas do casaco roçaram seus pés descalços. As mãos dele  percorreram, carinhosamente, seu corpo por cima do vestido de lã.

O colecionador

Tropeçamos, afetivamente, na vontade, ou posse desenfreada. Colecionamos. A vaidade alimenta este compulsivo involuntário. Colecionamos objetos, mas também pessoas. Se associarmos fatos específicos, tipificados, catalogamos o arquivo particular que pode estar no amor, na intolerância. Por raiva, por frustração. Colecionamos sonhos e enredos. Somamos reações, resultados, atitudes. E, tudo acontece de forma mais ou menos inconsciente. Caímos na rede de uma boa, ou má aranha. Ficamos colados, presos, na engenharia de outra pessoa. Como Alice no País das Maravilhas, buracos, mutações, encontros, sorrisos misteriosos, autoridade, fuga, mutações. Colecionamos, mas também somos objeto do colecionador. Sedução, solução fácil. O encantamento esconde o jogo,

Definimos intimamente o limite do outro. No entanto, o amado interfere, ou se apossa do nosso tempo. Estar à disposição, alertas. Máquinas acionadas para rir, escutar, falar, tocar ou silenciar. Queremos ir e voltar definido por vontade própria, mas, comodamente, nos deixamos ficar. Não voltamos. A sedução paciente, justa ou injusta do outro define o relógio. Embalados por mimos, carentes, ou impotentes dançamos o minueto, e ficamos ali instalados no sonho do outro.

Colecionar, dicionário: reunir, erros ou desenganos. Sinônimos: adiragruparajuntarcoligirgruparjuntar e reunir

The Collector é um filme de suspense anglo-americano de 1965, dirigido por William Wyler, com roteiro baseado na novela homônima de 1963, de John Fowles.

 

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