Pelo menos

“Envelheço mas o sol pelo menos não me pune. Continua a nascer a cada dia.”

Pelo Menos, P.H.Filho

A HORA“E como vou morrer o mundo morre. No agora vem o ontem, e outros ontens, já sou tantos! Soa a hora. De acordo. Mas não sem sofrer a pena de abandonar tanto mundo. P.H.Filho

“Amar sempre me surpreende. Depois é que vou amando, mas não sem comprovações. Não é de ti que eu duvido. Me desdobra é estar amando sem sequer ter decidido nem poder deixar de amar.”

SURPRESA P.H.Filho

DESILUSÃO de ÓTICA

“Fecho os olhos e dou com o fundo do abismo. Sumir nele, fugir?

Abro os olhos e desapareceu …”

Paulo Hecker Filho, Aqui e Agora,  Porto alegre, 2003. Editora Alcance

Não haverá outro apartamento

poltrona-couro-nat

Grande, bem grande. E se prolonga no que deveria ter sido uma varanda, agora envidraçada. A luz se espalha na peça. Além da cadeira de balanço tristonha a reclamar da palha escabelada do assento (precisa ser restaurado) o elegante armário de louro explica/ agiganta o quarto. Uma mesa redonda com diâmetro para acolher uma bandeja que comporte uma xícara de café um açucareiro um bule pequeno e um prato para dois brioches. Luz de um abajur de alabastro, uma escultura com dois personagens, um inclinado sobre o outro, voltados para a pequena cadeira estofada de couro castanho avermelhado. O lustre central tem cúpulas com listras apertadas esverdeadas, estampa que se repete na colcha da cama. Um grande tapete persa macio ilumina o quarto com suas faíscas vermelhas, e nas laterais da cama os escuros com suas franjas penteadas. Um bom colchão acolheu o jeito moderno.  Estrutura de madeira que se faz cabeceira. Estante horizontal.  Livros, caixas de tamanhos diferentes, pequenos objetos. Livros. Mais livros. E, nas pontas das cabeceiras outros pés de alabastro com cúpulas discretas. Almofadas, muitas almofadas.

cadeira de balanço gerdau

Francisco apoiou o cálice de vinho na mesa. Vestiu o suéter que estava nas costas da cadeira, e sentou esticando as pernas.  Descansou a cabeça, apertou os olhos. Desenhou mentalmente o projeto para o novo apartamento. Tirou do bolso uma caderneta pequena e fez contas. Sempre precisou de muito espaço para viver, sempre caminhou pela casa contando as peças, orgulhoso da largura das paredes, certo de que este seria o seu lugar definitivo. Não importava estar sozinho. Sorriu para si mesmo, não haverá um novo apartamento, disse em voz alta. Elizabeth M. B. Mattos, Torres.

Mesa-Redonda-em-Madeira-Maciça

Vaidosas e cintilantes amarras

bonito

 

Fico aqui falando comigo mesma e pensando nisso e naquilo. No que fomos/somos: um somado ao outro. Esgaçados, intensos, adolescendo em praia, sem segredo. Eu a me sentir culpada: coisa minha. Grande culpa bíblica escancarada. Tão falante e murmurante sem dizer o que importa. Deveria ter ficado ao teu lado ouvindo devagar esta alegria. E teu rosto aberto em sorriso a me espiar. Sempre apressada corri para este longe que sou eu.  E tudo que queríamos era mesmo estar/ser. Que castigo!  Não precisavas ter morrido apressado, também tu, inquieto. Por que fugiste?,  … assim neste teu mal súbito,entre um boa noite e um silêncio. Debruçada sobre mim mesma te imaginei já dormindo e me consolei no meu próprio sono. Amanhã. E não houve amanhã.  Atravessei a distância, exausta.  Eu dormi, e tu morreste. O começo amado, não o fim, não desaparecer. Não morrer. Mas os medos saíram correndo apressados, antes de mim. Correndo assuntados como se pudessem compreender o grito. E na palavra, na voz, na volta seríamos dois.

Sabíamos que não eram de amor as tuas prisões, não eram amorosas, mas apenas vaidosas e cintilantes. Elizabeth M.B. Mattos

Labirinto

Não encontrei o livro A trégua de Mario Benedetti. Os livros caminham livres ao impulso de qualquer mão, eles se mudam … Desisto de procurar.

Estou sempre a comprar/ procurar, os mesmos, sempre os mesmos. A viagem não termina. Bons livros voam. Este LABIRINTO é de Jorge Luis Borges em Um ensaio autobiográfico, partilho o descaminho. Abro portas, fecho janelas. E digo obrigada, merci beaucoup. “Num dia do homem estão os dias do tempo, desde aquele inconcebível dia inicial do tempo.Não haverá nunca uma porta. Estás dentro da terra. E não tem nem anverso nem reverso nem externo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho que teimosamente se bifurca em outro, que teimosamente se bifurca em outro tenha fim. É de ferro teu destino como teu juiz. Não aguardes a investida do touro que é um homem.” Que Borges me perdoe! Não haverá biográfico, nem dança, nem desenho, nem recortes, nem beijos.

Não existimos. Não esperes nada porque tudo lhe foi devido. Descansa.

Elizabeth M.B. Mattos

bibliote inglesa com vidro

DESCONEXÃO

Histórias de interdições do amor, cartas duplas de um duplo momento: dúvidas. Fio do ontem, e do amanhã sem o agora.  Duplo na desconfiança do primeiro movimento: “porque, geralmente, é o bom”. E nós não o consideramos bom. Recusamos, escolhemos o segundo momento.  É uma elaboração secundária, a inteligência não permite saboreá-lo. Imagem da realidade tal como eu preferia que fosse, e não imagem da realidade como ela é. Existe o espelho, estamos lá e cá, ao mesmo tempo. É no duplo que se localiza a interdição das primeiras experiências. Trágica impossibilidade do imediato. Desconfio do imediato, precisamente, porque duvido que ele seja realmente o imediato. Este imediato que se apresenta como o primeiro; mas não seria, antes, o segundo? Aqui está o sentido da reminiscência. Nada jamais é descoberto: tudo aqui é reencontrado, trazido novamente à memória graças a um reencontro. Em suma, para ser real é preciso copiar alguma coisa, repetir alguma coisa, fixar-se em algo já conhecido, real, pelo menos para nós.            E o segundo lance nos parece uma repetição de alguma coisa já vivida, inacabada, mas sentida, e, definitivamente vivida, presente na memória. Talvez estas emoções não sejam nada mais do que a desconexão. Abandono. A lembrança, luxo presente. Para a percepção do eu, do que eu sou, são úteis certas lembranças do passado mesmo  que se anulem no presente. Elizabeth M.B. Mattos

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Conversar a conversa

Daqui a cinco minutos serás enterrado, ou não sei o que farão com teu corpo, não estou lá, estou desfeita. Longe. Queríamos a estória. Posso contar dias, minutos, repassar mensagens, ouvir os áudios, voltar a cada encontro. Poderei voltar no tempo, estarei eu comigo mesma.  Não estarás aqui. Não posso te olhar, nem te tocar, nem ser beijada, nem te beijar. Não acredito que foste embora …  Não compreendo por que me largaste aqui no meio do nada. Tinhas que ter pedido mais tempo. Tempo para nós dois. Não sentirei teu cheiro, teu gosto. Nem posso dizer te gosto. Nada mais será tu e eu. Não vestirás o jeans, nem os tênis. Não chegarei com cabelos desarrumados, bolsa superlotada, unhas sem esmalte. Nem vamos rir e conversar a conversa. As perguntas que não fiz, as respostas que querias não existem mais, desapareceram contigo. Textos autobiográficos que se cruzavam travados agora se enrolam no vento. Atravessamos a linha proibida e na urgência de sermos apenas nós fomos atropelados. Querias olho no olho, mão na mão. E agora nada. Talvez estejas ao meu lado. Estar ao lado parece sempre possível quando nos penduramos no amor. Talvez eu escreva o livro por nós dois. Talvez eu me sinta confiante. Talvez tu voltes. Talvez consigas entender, e me escutar… abril de 2017 – Torres – eu não estava presente. Elizabeth M. B. Mattos – Torres – inventamos uma conversa, e, não conseguimos terminar.

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Quando jovem

Quando se é jovem temos coragem, audácia. E o sexo não faz medo, – é fácil confiar. E mesmo quando há entrega não se tem a dimensão da perda. Quando se é jovem a confiança está toda depositada na nossa própria consciência, posição lógica. Não temos medo quando somos jovens, nem mesmo nos perguntamos se seria possível ser diferente. Ou isso ou aquilo. Acreditamos que É como É. Beth Mattos – 2017 – Torres

Perigoso e solitário

A vida quando chega viva lá de dentro da pessoa transborda…   Trovões e raios. Tanta água! E depois tanto sol!  Tudo ao mesmo tempo, e,  já não sabemos se é bom, ou se é ruim, bonito ou assustador. Tudo ao mesmo tempo. Na areia ou em alto mar? Estranho viver engasgando… E bem que desejaria apenas me embalar tranquila, e sorrir, depois chorar. Viver não sobreviver. Não agarrar, mas solta, livre, e, sem me machucar. A liberdade parece, assustadoramente, perigosa e solitária. Por que estou nesta confusão toda? Elizabeth M.B. Mattos – março de 2017 – Torres

Não sou

Existe/há uma vida que se esconde de mim mesma, e do outro. De todos. Ela some, não explica, depois assusta. Se me aproximo, desaparece. Por mais que eu tente ser eu, sou outra. Sempre outra que se interpõe, reage e se impõe…  Digo, digo, eu explico, aliso o tempo, aplaino o caminho, e me exponho, ou desapareço. É outra. Não chego, não é nada. O ia se contraria neste ia que não vai…  Mutante. Já sou outra, escorrego, mergulho. E este par, este outro que me toca já se esfumaça sem chegar. A vida tem mesmo uma vida que se esconde em outra vida. Não sou. Por mais Eu que eu possa ser, não sou. E assim, meu querido, sou tua sem ser, e tu és meu, também, sem ser. Somos muitos. O muito / excesso de nós mesmos, tu e eu, e por isso não somos…  abril de 2017 – Elizabeth M.B. Mattos, Torres.

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Mulheres Azuis

DJ em Paris

“Le brésilien D. J.: era assim  que a gente chamava D. J. naquelas noites em que ficávamos até não sei que horas batendo papo no bar ‘Flor de Minas’, lembro que os trens apitavam lá na estação Central do Brasil, era uns apitos chorados e roucos e mui tristes, doía como uma faca furando uma coisa que a gente nem tinha mais (mão ou perna amputada), e D. J. que não bebia nem nada, só tomava sua água tônica, tossia aquele nó na garganta e falava que em Paris havia mulheres azuis. Era na hora em que os trens apitavam e dava aquilo em todos nós que D. J. lembrava das mulheres azuis, chamava – as de femmes bleus, D. J. era professor de francês e até para pedir sua água tônica à garçonete Odete ele falava em la bouteille et le verre; e nós esvaziávamos uma fila de Brahmas (mas faço questão de não deixar dúvida: D. J. só bebia água tônica, quando muito tomava uma Coca-Cola) e ficávamos ouvindo D.J.contando aquilo das mulheres azuis: elas iam à Île de St. Louis, falavam com uma voz  de frevo tocando e — é como se eu ouvisse de novo a voz de D. J.  — quem tivesse sorte podia ver as sardas nas costas delas, umas sardas feitas pelo sol de      algum mar. D. J. parecia outro, os olhos dele brilhavam e ele dizia que ia para Paris no mês que vem. […]  ‘A gente fica como se uma lua tivesse entrado dentro da gente.  Mas é preciso estar em estado de graça para ver uma femme bleu... D. J. teve quantas quis, até o dia que descobriu que só as mulheres azuis faziam os homens felizes.” (p.75.76.)  

A morte de D. J. em Paris – Roberto Drummond, segunda edição, Ática,1977