Ensaiando, – o tropeço

Ensaiando a dor, – tropeço.
Depois da dor, daquela dor dura e persistente, o corpo parou de suar. A cabeça afundou no travesseiro. A mulher enrolada nas cobertas, braços apertados ao corpo, ou presos, ou amolecidos… O volume humano na cama. A cadeira de riscas geométricas ficou menor, a mesa abarrotada de livros, papéis, e caixas completou o desalinho. Desordem. No chão vestido, meias, sapatos virados. O quarto foi mudando de cor: azul, violeta, depois vermelho. Finalmente o perfeito da noite. Ruídos da rua sobem pelos degraus com a velocidade natural do som; entram lentos, comovidos. Janelas se fecham mansas. Ela não acordou no dia seguinte, apenas no meio da tarde do outro dia. A dor desafiando, pretensiosa, com pompa. Eugênia se conformou. Olhou para os comprimidos, o copo vazio, levantou medindo os passos. Abriu janelas pro vento fresco. O rosa, o branco, o amarelo das folhas se dobraram… Tempo enganoso. É preciso medi-lo com relógios, badaladas, números. O sentimento se acomoda no medo. Ela não sabe por que está ali tão cansada! Não há motivo. Apenas sentiu a dor, tomou o remédio, e se entregou.
A beleza daquele copo esquecido na mesa, junto as frutas, perto do pote violeta, transparente, neste momento redefine o espaço… sentimentos. O banal precioso. Olhar o tempo através dos objetos. Recontar a história matizada… A percepção zela este caminho. E se não puder olhar, pode escutar o silêncio, o gato, os carros, a luz no movimento das cortinas. Pode? E o cheiro de jasmim, doce, enjoado também descreve…
Deixou a água escorrer, encher a banheira. O cabelo ficou azul, o corpo uma espuma. E voltou para o mergulho. Repetidas vezes brincou com o perfume. Acomodar-se na vida do outro, entender, ouvir e ficar. Uma ideia confusa sobre a convivência. Expandir a dia numa hora solta com aquela conversa banal sobre peras e maças, farinha e beijos. Uma matemática difícil. Uma gramática impossível. Da dor para o olhar, do olhar para a ideia.
A dor invade, atrapalha. Volta para a cama. Desta vez as pernas se alongam, retoma a medida certa do colchão. Ocupa o espaço inteiro da cama, e volta a dormir.

Então?! Temos que voltar a escrever. Como? Assim mesmo, sem pensar, como se fosse um?!…Exatamente o quê? Diário? Carta, uma carta. Relato na terceira pessoa? Um nada. Um pulo. Tropeço. Sou Eu.

A casa do Incesto

“Sou a mulher mais cansada do mundo. Estou cansada quando me levanto, A vida requer um esforço que não consigo fazer. Por favor, me dê aquele livro pesado. […] Sinto um grande terror de sua compreensão pela qual você penetra no meu mundo; aí, estarei revelada e terei que compartilhar meu mundo com você.
Mas Jeanne, o medo da loucura, somente o medo da loucura nos impulsiona para fora dos recintos da nossa solidão, para fora do sagrado da nossa solidão. O medo da loucura incendeia as paredes da nossa casa secreta e nos manda ao mundo a procurar contato caloroso. Os mundos autofabricados e autoalimentados são tão cheios de fantasmas e de monstros.
Conhecendo apenas o medo, é verdade, um medo tamanho que e sufoca, que fico de boca aberta e sem fôlego, como uma pessoa privada de ar; ou em outros momentos, sem ouvir, de repente surda para o mundo. Bato os pés e nada ouço. Grito e nada ouço do meu grito. E aí, às vezes, quando me deito na cama, o medo me toma outra vez, um grande terror do silêncio e do que virá deste silêncio em minha direção, a bater nas paredes das têmporas, um grande medo crescente, sufocante. Bato na parede, no chão, para afastar o silêncio. Bato, canto, assobio insistentemente, até afastar o medo.” (p.166 – A casa do Incesto)
A casa do Incesto & Outras Histórias, Anaïs Nin. Ed. Rosa dos Tempos. 1991

Porque escreves

Estou aqui a escutar meus discos de vinil em francês. Rejuvenesço cintilante. Quero de volta os anos de coragem para esticar o fio, e conectar. Escrever. Ler mais. E a música. Desenhar, se não sei, então colorir. Caminhar neste frescor chegando.

Esquisitas estranhezas fechadas, silenciosas. Gosto quando despencamos em longas cartas. E citas o poeta: … essa felicidade que supomos, / árvore milagrosa que sonhamos / toda arreada de dourados pomos / existe, sim: mas nós não a alcançamos / porque está sempre apenas onde.  a pomos / e nunca a pomos onde nós estamos.” (Vicente Augusto de Carvalho). Depois da carta, o prazer, o gosto. Tua presença invade a sala. pontifico: a distancia se apequena porque escreves.

Abril

Se o inverno chegar não vou me importar. Abril tem sorriso certo neste il, tem o r carregado, e l no final. Escolho casacos, separo mantas, coloco um gorro, e vou caminhar, se o inverno chegar.

Se o inverno chegar o mar enverdece. O vento corta. A lagoa cintila. Na praia, areia molhada, pegada, concha, e ninguém.

Se o inverno chegar vai ter cinza no céu. Adormeço logo.

Murmúrio, vozes ...

Vou gostar da chuva na vidraça, se o inverno chegar.

FELICIDADE com Valter

“Ser o que se pode é a felicidade.

“Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer esperar o impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.”(p.77)

Não adianta querer explicar, não consigo. Querer escrever, não consigo. O que é preciso dizer já está escrito. Valter Hugo Mãe conseguiu dizer. Explicar. No meio da história, da poesia toda  dO filho de mil homens.

Escrever, parto difícil como da mulher anã. Vida de Isaura, enjeitada. Ou a força do pescador, do homem que chegou aos quarenta anos, e queria um filho, um feito, o sonho. Livro de sabor, odor, aberto.

Prazer de escrever a escrita, prazer do leitor. Derramado o leite que brotou da árvore, da terra, sorver transbordada felicidade. Sem barreira.

“Longo tempo a Maria se fora sentindo divergir de quem era. Pensava a Isaura que a infelicidade da mãe estava simples de compreender, porque desviada da sua identidade, não pode seguir sendo quem era.” (p.77)

Felicidade:

A casa do pescador, aos olhos da Isaura mudada e no mundo novo em que vivia, estendia-se como rendada pela espuma do mar e era o melhor palácio, um palácio feito pela felicidade com os lustres pendurados na eletricidade do coração.”

Fotos de Pedro Moog

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Ainda Valter Hugo, ter

Tinha, tenho a louça, os copos, os lençóis, as estranhezas que colecionei. Livros, e mesas. Oito mesas, não, são nove nesta sala de janelas. Muitas janelas também. Estantes abarrotadas com livros. O conforto vem do vento, do mar, da lagoa, do sol e da passarinhada. Das buganvileas. Atravessam as vidraças debruçadas no parapeito das  muitas janelas. Espinhos e flores, tenho.

Tinha a casa, a coleção de conchas e das coisas esquisitas que o mar trazia, algumas desconhecidas como se viessem dos cometas, e tinha os melhores anzóis, as canas de pesca, tinha três bons lençóis de linho que já haviam sido da sua avó, tinha louças com muitos anos que haviam pousado em mesas repletas de gente em tantas conversas. O Crisóstomo tinha até cuidado com o conforto da casa, para que fosse sempre um lugar agradável onde as pessoas quisessem entrar. Mas tão pouca gente entrava.” ( p.14) 

Valter Hugo  Mãe, O filho de mil homens

Valter Hugo Mãe

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“Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo.

Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas,, metade da casa e dos talheres, metade  dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas.

Ia-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se pra evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os princípios ou poços s fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.”(p.11)

Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens

1912, Editora Cosac Naif, São Paulo.

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Violência ALBERTINA

Arrependimento, profunda tristeza, luta, desespero. Medo. Violência, e amor.

Lembro cada canto, todo detalhe. Inacabada construção. Nostalgia. Saudade não. Tristeza. Nunca se pode reaver o tempo. Esquecer. Sentir menos. História quebrada. Inacabada. Arranca-se pedaços… Excesso de poder avilta. Foi maltratada, castigada. Depredada. Esbofeteada. Guardou, assim mesmo, espírito altivo. Pedras, vigas, lareira, escadas. Ao longo do processo deteriorou. Esperou reconciliação. Sofreu. Mutilada, aviltada pela raiva, incompreensão. Mas, assim mesmo resistiu: terra, pedra. O cheiro permaneceu. Não fiz nada que pudesse diminuir a tormenta. Lentamente, desapareceu, soterrada. Separação dolorida, dele, da casa, deste passado. Guerra danosa. Lágrimas. Sofrida, e dolorida perda. Escuto vozes. Acordo antes de amanhecer. Abro as portas pro jardim, festejo frescor e  silêncio.

Repito infinitas vezes: sou feliz, muito feliz…,e,  nos amamos.

Separação! A violência que não podemos esquecer. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2015 – Torres

Materialidade

Enquanto tento ordenar o tempo, arrumar esta, aquela estante, vou refazendo trajetos. Histórias. Revisar as caixas abarrotadas de fotos. Reler uma carta. Voltar. Sinto o cheiro obsessivo deste apego. Envelheço. Tropeço. Esqueço. E compreendo o que Maurois escreve. Os objetos não decepcionam, nem traem. Os livros conversam, o precioso ilumina. O prazer da posse. Cristal, porcelana. Prata. Estanho, cobre. A maciez do algodão, cetim, renda. A beleza do objeto conversa com a alma dolorida, acalenta. Afinal…O mundo nos faz falta com toda sua materialidade.

“Mas tive um bizarro sentimento de amargura ao rever aquela casa que foi minha. Como burguesa francesa, gostaria de conservar tudo. Prefiro Cristiano a meu primeiro marido, por certo, mas tenho saudades da minha biblioteca, meus móveis. Fiquei impressionada ao constatar que à proporção que envelheço apego-me cada vez mais aos objetos, as casas. O Dr. Marolles disse-me, um dia, que as mulheres como eu amam apaixonadamente os brilhantes. Mas, não são somente os brilhantes; são os livros preciosos, as peles. As coisas assumem a importância de seres. Os objetos não decepcionam; proporcionam sempre exatamente o prazer que se esperava deles. Os objetos não traem…” (p.377) Terra de Promissão, André Maurois.

Compreendi então…

“Eu não havia compreendido até agora porque ele tenta sempre exprimir suas ideias através de mitos que em geral me parecem obscuros. Mas me explicou que os mitos e fábulas são, a seus olhos, os pensamentos mais verdadeiros, e mais antigos da humanidade:

– Ninguém cria uma lenda, disse ele, ela se cria por si. E se carrega de todas as emoções daqueles que a sentem. A arte nada significa enquanto não penetra profundamente nas carnes.” (p.258)

Terra de Promissão, André Maurois.