Não te escuto

Não, não é incrível a vida. É a vida. Clichê. A gente se esgueira, se acomoda, tem tremores nas pernas, nas mãos. A gente a trata com carinho, adestra, se apega a ela. É a vida. Existem os corajosos e aqueles que se acomodam. É tão menos cansativo se acomodar…

Bloqueada. Amarrada. Amordaçada.

Desnudado é  tão pior! Permissividade, embate, perplexidade.

Ao vivo,  a saltar do visor, imundice.

Não encontro Papai Noel, nem  vestígios natalinos. O Brasil nos engole. E já não sei se é limpeza, ou imundice. Não consigo respirar.

Sem palavras, sem visões. É muito ruim o que acontece.

Como posso te mandar rosas? Beth Mattos / Elizabeth M.B. Mattos / Torres

Rubem Fonseca proibido

Cheguei com três ou quatro livros comprados na Livraria Travessa. Aquela compra da pressa, da gula. Logo constato o absurdo do preço. Enjoo deste meu  excesso. Não sou leitora voraz, mas consumista. E, fora de moda se penso nos digitais enfileirados nas nuvens…  A conversa travou o prazer no tropeço dos livros de Rubem Fonseca. Desprazer do grupo. O chope perdeu o gosto, mas bebi mais dois apressada. Escutei. Não contestei. Embora impulsiva, arrebatada, sigo lenta, insegura. Não disse nada. O livro Romance Negro e outras Histórias ficou guardado, como todos os outros.

Lembrei de Lucia McCartney. Impressionante. Atravessei noite envolvida com Feliz Ano Novo, um de 1967, outro, 1975. Ritmo trilhado exibido erudito. Ranço encontrado na leitura que flui? E eu lá me atrevo a dizer da genial forma de puxar o tapete da burguesia, da acomodação e da malandragem?  Encosta o leitor na evasão sedativa ou alienante não só  da música, mas constata: ”Escritores e leitores, por saberem que não são eternos, evadem-se, nietzscheanamente, da morte. Quando se lê ficção ou poesia está-se fugindo dos estreitos limites da realidade dos sentidos para outra, a que já disseram ser a única realidade existente, a realidade da imaginação.” Mas aqueles livros não eram ficção, mais retrato. A surpresa da afirmação, Rubem Fonseca é péssima leitura.  Não esqueço. Não gostavam do escritor, do texto, ou do homem Fonseca? Já não lembro. Confundo nomes, datas e geografia. Foi mesmo no Rio de Janeiro?  Guardei a advertência. Quero respostas.  Ser delegado de polícia, concursado, morar em Brasília? Por que não Rubem Fonseca? Escritor de bastidores? Superficial? Erudito exibido? Vou investigar. Descubro, tardiamente, ando gostando muito das novelas curtas, das crônicas e dos contos. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2015 – Porto Alegre

O prazer está na inteligência

No prazer o vagar é particular ao sexo, ao uso dos cinco sentidos. Não se deve reduzir o entendimento de prazer, mas alargar. O sexo na premência fugaz de um encontro, ou atropelo da procriação, ou mesmo esquecimento do corpo no tempo, não está pleno. Nestes casos, talvez, a solidão seja o motor. Prazer não é apenas dividir, mas acumular energia. Intriga esta questão tão mal resolvida do excluído do prazer, ou do privilegiado.  Balançar o mundo pelos olhos do outro, e não pelo que sentimos pode ser armadilha. No discurso monótono e solto traçamos a ideia precária de prazer. Diminuto e desconhecido sentimento de felicidade. Privilégio? Bebemos café, tomamos água, e a conversa esconde desejo. Prosaico sentimento. Afinal, quem são os excluídos do prazer? Deste prazer prolongamento do ato sexual.  Do prazer do morango, da cachaça, da seda. Do prazer como requinte. Deste prazer libido. Prazer sexual que necessita ser cultivado. O sexo não deve seguir apenas o instinto. A sexualidade necessita da mesma tenacidade usada para desenvolver o intelecto. O prazer está na inteligência, no potencial de cada ser humano. O uso da inteligência nos qualifica, e o uso da sexualidade nos ilumina. Desenvolver sexualidade, usar sexualidade, saber que o prazer depende desta possibilidade intelectual, da complexidade, da interioridade do homem, e está vinculada a inteligência não é incompreensível. Talvez o prazer seja limitado pela própria necessidade de sobreviver, não de viver. O excluído do prazer se abandona na mesmice. Não conhece o limite do eu, e do próprio corpo. Não cobiça, apenas sobrevive. Não sonha o sonho do que poderia vir a ser. Não há plenitude, mas deformação. Esquece o conhecimento interior, pessoal. Preservar sexualidade, ou desenvolvê-la é como reconhecer o sentido de vida. O prazer não é alívio imediato de tensão. Não tem função mecânica.  O gozo não se faz trancado em segundos, ou minutos.  Não é apenas necessidade física. O gozo transforma o homem. Atravessa a inteligência e aguça a sensibilidade. O sexo não é paliativo como o álcool, o cigarro. É requinte. Completa o desenvolvimento mental e físico do ser humano. Com este aprendizado e cuidado, o homem aprende a se respeitar por inteiro. Enriquece sua relação com o corpo. O excluído do prazer pode estar bloqueado pela necessidade primária da sobrevivência, ou excesso de poder. A inteligência fica focada apenas no trabalho mecânico, não pensa os sentidos. De agir exacerbado desconhece limites físicos naturais, e desconhece o prazer.

Desenvolve barreiras naturais que o impede de enxergar a si próprio. Este distanciamento impossibilita a visão do que está de fato acontecendo. Não sei quem eu sou, conheço apenas o homem que caminha na multidão. Trabalha surdo a sua própria voz. Obstruído com o ruído do mundo. Obcecado pelo movimento e pela voz do comando. E, se está surdo ao olfato, ao gosto, perde o prazer.  O sexo se esconde dele mesmo. Olha sem ver, chora sem sentir, come sem fome nem gosto. Fala por falar, vive por viver. E faz sexo.  A despreocupação com o que pensa o outro sobre o mundo, sobre como deve ser feito não é alienação, mas parceria com o prazer. Com o Eu individual, completo. A inteligência aflora, e desenvolve o potencial sensitivo. O luxo do prazer. Ócio inteligente, necessário.  O sexo pensa sexo, o olhar pensa visão, o nariz pensa cheiro, a boca pensa gosto, o corpo pensa corpo, o homem se pensa.  Seres especiais convivem, e sabem do corpo e da alma, e do prazer. A sensibilidade precisa ser aguçada, trabalhada em parceira com a inteligência. O ofício, o fazer desenfreado que o homem chama trabalho pode ser apenas fuga.  Não comunga com o prazer solto, aberto. Livre.

O poder, às vezes, substitui este olhar ocioso de prazer. O que é externo se torna pernicioso. É o poder entendido como resultado final. Um poder esvaziado. Apenas comando.  Sem odor, sem toque, sem audição, sem o olhar que molha o corpo. O divino do sexo é o prazer lento da descoberta contínua, e sem pressa. Nós dirigimos corpo e mente.

Aquele que possui a sensibilidade criadora para se fazer homem, encontra na inquietude, o prazer completo. Carrega consigo o conhecimento essencial para a explosão da sexualidade, e simultaneamente, da longevidade. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2015 – Torres

Reagir

O desânimo agarra silencioso, forte. Não é depressão, mas tristeza aguda. Não é apenas a  lama que avança, nem o apito do vento, ou esta chuva cortando. Talvez o efeito de estações desarrumadas. É novembro, sinto frio, e  medo. Às vezes sinto medo. Elizabeth M.B. Mattos – 2015 novembro

 

 

Questão africana

[…]”ler não é uma recreação tipicamente africana. Música sim, dançar, sim; comer, sim; conversar, sim; – muita conversa. Mas ler, não, principalmente, não a leitura de grossos romances. Ler sempre nos pareceu, a nós, africanos, um negócio estranhamente solitário. Nos deixa inquietos. Quando nós africanos, visitamos grandes cidades europeias, como Paris e Londres, notamos como as pessoas nos trens tiram livros das bolsas, dos bolsos, e se isolam em mundos solitários. Cada vez que um livro aparece é como uma placa levantada. Me deixe em paz, estou lendo, diz a placa. O que estou lendo é mais interessante do que você poderia ser. 

Bem, nós somos assim na África.  Não gostamos de nos isolar dos outros e nos retirar para mundos privados. Nem estamos acostumados que nossos vizinhos se retirem para mundos privados. A África é um continente onde as pessoas participam. Ler um livro sozinho não é participar. É como comer sozinho ou falar sozinho. Não é o nosso jeito. Achamos isso meio louco.”(p.47-48) 

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee. Companhia das Letras, 2004. São Paulo.

Elizabeth Costello é a biografia de uma mulher mãe, irmã, amante, escritora. Ocupa um espaço entre a ficção e o ensaio.  J. M. Coetzee  desenvolve profunda e perturbadora meditação sobre a natureza do romance.

Albertina desaparecida

Esquizofrênicas as tuas cartas, ou o conjunto delas. Em qual delas posso confiar? Na mulher que me ama e me induz ao amor, ou na outra que me ordena que me afaste porque ela própria já me antecipa que resolveu estar distante?

Ontem recebi tua enxurrada de cartas. Li cada uma delas. E por ordem cronológica, a partir do selo do envelope. O problema é saber com qual das cartas fico, a qual respondo? Agitei-me, no início, com as duas primeiras cartas, quando me propões, ou sugeres arrumar a mala, deixar tudo, e viver contigo. Aí, algures, alhures. No meu remoto e ignoto inconsciente, me vi chegando a Minas Gerais, logo Vala Seca, malas na mão, e tu me recebendo com o sorriso que te faz melhor que tu, o que és, e que é muito. Li essas cartas-convite sentado junto ao bureau. Quando, em seguida, tocou a vez de outra carta. Mudei de lugar. Fui direto ler na cama, onde ainda permanece teu cheiro, nosso cheiro, mas no fundo só o teu perfume.  Li a carta do rompimento deitado para que o golpe fosse menor. Em poucos minutos,  passei da euforia de sermos definitivamente um do outro, a depressão de não mais te ter, não mais te ver, jamais voltar a te sentir. Esquizofrênico amor o nosso. Elizabeth M.B. Mattos – 2015 – Torres

“Sem dúvida, do mesmo modo que, tempos atrás, eu dissera a Albertina: ‘Não a amo’, para que ela me amasse, ‘Esqueço as pessoas quando não as vejo’ para que ela me visse muitas vezes. ‘Resolvi deixá-la’, para prevenir qualquer ideia de separação – agora era por querer absolutamente que ela voltasse dentro de oito dias que lhe escrevia: ‘Adeus para sempre’, porque desejava revê-la que lhe escrevia: ‘Acho perigoso tornar a vê-la’, porque viver longe dela me parecia pior que a morte que lhe escrevia: ‘Você tinha razão, juntos seríamos infelizes’. Ao escrever-lhe esta carta fingida […]”. 

Albertina desaparecida, a versão de A fugitiva alterada pelo próprio Proust. Inédita até 1986. (p. 54) Editora Nova Fronteira, 1989. Rio de Janeiro

“‘Que conhecia eu de Albertina? um ou dois perfis contra o mar… Amamos em função de um sorriso, um olhar, um par de ombros. É o quanto basta; depois nas longas horas de esperança ou de tristeza, fabricamos uma pessoa, compomos um personagem ...’  Nosso sentimento pode ter se tornado muito forte porque o nutrimos de angústias e hipóteses, mas está construído sob alicerces muito frágeis para aguentar o peso do edifício. Além disso, a pessoa que amamos, como todas as outras, é incognoscível, de forma que, mesmo se a conhecêssemos mais, não  a conheceríamos de todo. Após anos de vida em comum, que sabemos, que conhecemos de quem nos acompanha? Algumas frases, alguns gestos, alguns hábitos. Mas os pensamentos secretos que constituem sua essência permanecem – nos, por definição, inacessíveis, enquanto seus pensamentos são deformados pela linguagem, pela vontade de agradar, pela incapacidade de se explicar em que quase todos estamos. ‘a gente sempre se decepciona,’diz Proust, ‘com o pouco que há de uma pessoa real nas suas cartas.’ Podem ser cartas brilhantes, carinhosas, comoventes, mas é raro que exprimam toda a natureza de alguém.”(p. 176) Em busca de Marcel Proust,- André Mourois Editora Siciliano, 1995. São Paulo.

Volto a me debruçar

A coisa mais difícil é não se interessar por nada. Não ler, não ter nenhuma distração. Alcançar o silêncio e a escuridão. No entanto, é no silêncio que a realidade se acende. É no silêncio que as vozes chegam.  E preciso ouvir a palavra. Mas é  a imagem que conversa…  Não escuto.

Estranho! Sempre temos vontade de viver na imaginação de alguém. O outro atravessado no olhar… agarrado/agarrando…

A janela devolve o movimento. Luz e som. Corro atrás das coisas e perco a alma. Esvazio o coração de pesares. Dúvidas, arrependimentos. A experiência sufoca. Guardo a inspiração.

Copiar é o exercício do artista. Copiar o gesto, a palavra. Para copiar é preciso ver, observar, olhar. E, para ser feliz é preciso eliminar pensamentos. Fugir para longe do corpo, o corpo nunca está satisfeito.

Sinto preguiça. Volto a me debruçar na janela.

B. A. 17 de maio 

Estou perdido no mundo. Não sei sequer que horas são, meu relógio de pulso, sem pilhas, não me dá o norte do mundo. Estou sozinho no meu apartamento, no meu, não no nosso). Sei que é de tarde pela inflexão do sol. E que é muito tarde porque estou famélico e o frio aperta mostrando que estou sem me alimentar. Aqui estou desordenado, desorientado, perdido. Todas as coisas foram para o apartamento novo e escrevo -te da mesa da cozinha, no pouco que aqui restou intacto. Creio que  que eu restei intacto. Intacto, mas começo a sentir o tiroteio. Ontem recebi tua enxurrada de cartas. O porteiro as havia guardado no nosso apartamento para me entregar em mãos.  Isso atrasou-as uns dez dias. Talvez tenha sido bom. Se as tivesse recebido antes, talvez não houvesse enviado tantos telegramas. F.T. E eu digo saudade / esvaziar um amor demora.

Saudade utilitária. Cuidado com a palavra saudade! Tem um sentimento que se diz saudade, mas é antes necessidade. Necessidade de companhia, de apoio, um utilitário. O sentimento amoroso fica soterrado. Não se trata do outro, mas de uma bengala. O depósito, a segurança. F.T. Elizabeth M.B. Mattos – 2015

LEITOR

 

Leio, e faz muito,

desde o tempo dos tempos

ou de mim.

Transformei-me num leitor.

O que me sobra de gente

às vezes nem dá por ler,

aonde fui me meter!

Era o saber, era a vida, era a possível saída,

apenas caminho a andar, 

sem chegar e sem parar,

coisa de perder o ar!

Que horror,

transformei-me num leitor!

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Paulo Hecker Filho

Vento, Águia, Coelho, editora Alcance, Porto Alegre/RS 202

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Prêmio Jabuti 2015

3609Sucesso ao livro, ao autor, ao amigo, ao meu professor!

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“Acho que te falei que o meu livro Do mito das musas... ganhou o prêmio da Academia Brasileira de Letras, não? Pois bem: o dito cujo emplacou outro prêmio, na categoria Humanidades, da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias). E está entre os 10 finalistas do Jabuti, na categoria Teoria / Crítica Literária, Gramáticas e Dicionários. O resultado final sai antes do fim do ano. Pode começar a torcer, por favor. Enfim, o livro parece ter emplacado, o que me deixa bem contente.”

“Saiu o resultado final do Jabuti, e o livro Do mito das musas ganhou o prêmio. As musas do título estão me favorecendo, e ainda há quem diga que elas não existem”.

Meu amigo querido, fiquei na torcida com a certeza. Estou completamente feliz!