O recado que trazem é de amigos, / Mas debaixo o veneno vem coberto, / Que os pensamentos eram de inimigos, /
No mar, tanta tormenta e tanto dano, /Tantas vezes a morte apercebida; / Na terra tanta guerra, tanto engano, / […] Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a vida curta,/ Que não se arme e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno? (105-106), Canto Primeiro, Os Lusíadas de Luis de Camões
Generosidade. Compreensão. Pessoas amargas. Vaidosas. Outras inteligentes, mediadoras. Medíocres. Não se consegue classificar. Ditados populares. Discurso pronto? “Sou velho, posso dizer o que penso”, “são jovens, não sabem o que dizem”, ou ainda, “crianças repetem o que ouvem em casa”. Justificar. Generalizar pode ser a receita.
Planamos. Flutuamos.
Acho que a vida pode se desenhar colorida na esquecida generosidade sorridente. Cheia de adjetivos. Estou no balanço do perdão. Quero entender a dor, este aperto, a falta de ar. Será que tudo assim ao mesmo tempo enlouquece?
Não sei o que dizer. Vou me esconder na caixa azul. Guardada, extraviada. Amarela. Vermelha a caixa de cima. Estou a respirar pelo rasgo. Triste. “As coisas acontecem ou não acontecem, só isso. Nada é realizado pelo suor e pela luta. Quase tudo o que chamamos de vida é apenas insônia, uma agonia porque perdemos o hábito de adormecer. Não sabemos deixar as coisas correr. Somos como o boneco de uma caixa de surpresas pendurado na ponta de uma mola e quanto mais lutamos mais difícil é entrar de novo na caixa.” Estou na caixa azul. Guardei a lama tóxica de Mariana no vidro de palmitos, aquele da tampa enferrujada. Em Minas Gerais, o rio Doce, contaminado, morre. Paris chora. Estremeço. Encostei o velho roupeiro contra a parede externa, assim escondo o buraco. Não vou me mexer, nem explicar porque amo a França inteira, ou Minas Gerais, ou o Rio de Janeiro, ou o balneário de Torres. Logo vou ficar outra vez alegria. É assim mesmo, sem sentido. “Sentia pena da raça humana, da estupidez do homem e de sua falta de imaginação.” Henry Miller, Trópico de Capricórnio.
Terapia da leitura, ou leitura terapêutica? Palavra, significado, preguiça…O livro atravessa a ponte, instiga, trabalha. O corpo se alonga. Corrida apressada. Ressaca. Excesso. Estupidez, genialidade. Palavras, e palavras. Personagens, pessoas. Alucinação. Ressaca. O sono amolece, distorce. A leitura da metamorfose. Cheguei ao último capítulo. Avareza. Medo.Onde se esconde o bicho homem?
Está outra vez cinzento. Exaustão física se aperta no desânimo.
Este ano não quero aproveitar as milhas do cartão com passagem. Vou me concentrar nos livros. Ficar afundada na cadeira preguiçosa. Trocar milhas por travesseiro, panela, chaleira, coberta. Vou deixar o prazo expirar. Sossegar. Viajar pelas gavetas, prateleiras, estantes… Decidir, afinal, o que vou me desfazer. Repassar velhos e rabiscados diários. Datar fotos antigas. Vou percorrer as ladeiras da casa. Subir escadarias, selecionar livros, descer ao porão. Reler cartas antigas. Sentar na varanda. Escutar música. Renovar lençóis, toalhas. Comer uvas. Beber um vinho nos cálices da vovó. Colocar flores nos vasos. Este ano vou viajar em casa: sem fazer mala, sem entrar no aeroporto, sem percorrer distâncias. Não vou mesmo para a África. Elizabeth M. B. Mattos – 2015
Troco os móveis de lugar. Tiro da estante o livro. Velhas observações. Cada leitura, lembrança específica. Repasso este, aquele. Tudo em desordem. Arrasto armário para lá, levo mesa. E aquela mesa pequena? Resolvo quebra cabeça das cadeiras. Fujo do computador. Da tarefa. Sou eu o centro. Interessa o que escrevo? Abro o livro.
Experiência perfeita da leitura. Descubro o nosso retrato, fico a nos perseguir em qualquer página, em todos os livros… Talvez seja isso. Se reconhecer um milhão de vezes. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2015 – Torres
“Finalmente compreendi que a solução para o dilema, o constrangimento de escrever sobre ‘problemas pessoais insignificantes’ era reconhecer que nada é pessoal, no sentido de que é exclusivamente próprio de uma pessoa. Ao escrever sobre si mesmo, está-se escrevendo sobre os outros, pois os problemas, sofrimentos, prazeres e as emoções do autor – junto com suas extraordinárias e notáveis ideias – não podem ser apenas do autor. A maneira de lidar com o problema da ‘subjetividade’, essa chocante questão de estar preocupado com o minúsculo indivíduo que é ao mesmo tempo apanhado nessa explosão de terríveis e maravilhosas possibilidades, é vê-lo como um microcosmo e, assim, irromper através do pessoal e do subjetivo, generalizando o pessoal, como na verdade a vida sempre faz, transformando uma experiência particular – ou assim se pensa quando ainda se é criança: ‘Eu estou me apaixonando’, Eu estou sentindo esta ou aquela emoção, ou pensando isso ou aquilo ‘ ‘- em algo muito maior: crescer é, afinal de contas, nada mais do que aceitar que a única e incrível experiência que se teve é o que todo mundo partilha.” (p.13) O Carnê Dourado, Doris Lessing. Editora Record. RJ. 1972.
Não é cinza porque hoje fez sol. Não é falta de energia, levanto de um salto, bem cedo, caminho. Na ponta da lagoa, feirantes esticam lonas: verduras, frutas, flores. A lagoa corre, levemente, crespa. Estou caída aos encantos da crônica. David Coimbra na Zero Hora de sexta-feira, 06 de novembro de 2015. “Este mundo não é fácil. As pessoas são tudo, menos cristalinas, e, por mais que você tenha certeza do que é certo, nunca é certo que conseguirá fazê-lo e, se fizer, não é certo que acertará. A vida, definitivamente, não segue em linha reta.” Sobre canções, e poesia. Elizabeth M.B. Mattos
“A vida, definitivamente, não segue em linha reta. A selvageria do coração de Belchior não é a selvageria do tigre e do leão, é selvageria de cervo e do passarinho, do bicho pacífico e arredio, que não fará mal ao homem, mas não será domesticado. Este mundo não é para seres humanos como Belchior. Ele não se encaixa nas exigências desta vida e, assim, afastou-se dela. O coração de Belchior é como vidro, como um beijo de novela. Por isso, por não aguentar, desistiu. Pelo menos é o que sinto. Porque como Belchior, às vezes também tenho vontade de pedir para a vida: Vida, pisa devagar. Meu coração, cuidado, é frágil.”
“Os pelos dourados sobre a pele morena, as pernas esguias, os braços leves, de músculos flexíveis, os olhos cismadores, na apaixonada contemplação de si mesmo, cada pedaço do ser refeito e desfeito, amontoado na curiosidade, no espanto, que me arrepiava todo, em ondas sucessivas – e o corpo cheira a maresia.Foi num desses quartos de porão habitável, na realidade um verdadeiro andar térreo com entrada própria, que mais tarde me desmanchei em gozo lendo A carne de Julio Ribeiro.” (p.88) A casa do meu avô, Carlos Lacerda
Comprei um lustre horrível. E não foi na promoção. É muito feio. Retirar imediatamente. Mas, tenho medo do próximo passo. Esquecer? Encaixotar? Tudo que acende aqui em casa tem luz fria de laboratório. Convivo assim mesmo, impactada. Não conformada com estes pequenos horrores. Compro geladeira esquisita, com espelho. Cafona. Claro, num site, menos dispendiosa… Divertido. Resultado? Olho, diariamente, para meu monstro metálico. Doar? A cozinha se enfia na sala ou a sala avança até a cozinha? Modernidade. E eu tão século dezenove! Afeita a boas cozinhas que guardam o perfume concentrado do assado, bolo batido, aromatizado. Rosa, lírio, o cheiro forte da madeira, do encerado nos quartos, na sala de estar. Enfim! Espaços geograficamente distintos na minha cabeça. Que desastre! Estou a conviver com os monstros escolhidos, comprados. Loucura. Posso pendurar o lustre em cima da geladeira. Terei uma instalação. Para enquadrar melhor a trajetória de horrores impulsivos, acabo de comprar um fogão branco. Por que branco? Porque normalmente são brancos. Não pensei na geladeira avizinhada? Estou tendo alucinações. A maligna megera se apossou de um recôndito, remoto bom gosto. Engolir o veneno, morte lenta. Acudam por favor! O kitsch veio morar ao meu lado. E não é o clássico pinguim em cima do refrigerador. Nonsense. Impropriedade completa. Raiva. É pra chorar? O fogão tem dois fornos, e chamas assim, assadas. Apitos. E não gosto de cozinhar. Isso existe? Em oferta. Será que estava? Dizem que os velhos precisam de cuidadores, são perigosos. Impulsos, abstrações, histórias sem contexto, fantasias. Minha galeria de coisas feias parece significativa. Não é nada engraçado.
Esta coisa de envelhecer, encolher não é só dos velhos, mas das pessoas em geral. Do mundo. Desta parada que, a seu modo, cada um vai fazendo enquanto cresce. Desânimo impreciso, ou focado nesta outra coisa que todos nós fazemos, diariamente, consumir. Se sair com a lista de compras, aventuras de vitrine, voos de rotas imprecisas, o mundo interior se transforma, aplacamos ansiedade. Usufruímos. Esquecemos o que vai acontecer… Respiramos. Muito bom. Ufanismo colorido. Lucidez, felicidade engarrafada, alegria transbordante. Festa de todos os dias. Sorrisos e beijos. Esta coisa de ser feliz nos segura, e nos insulta também. Como posso entender tanto otimismo na mesmice? Agarrada em compulsiva solidão vai gemendo a vida surpreendida. A enganação se espalha esquisita, o que foi mesmo que fiz ontem? O que vou fazer amanhã? Por que estou imóvel e assustada? Tem alguém me ouvindo? Espera, quero ir contigo conhecer a América do Norte, espera por mim. Elizabeth M.B. Mattos – Outubro 2015 – Porto Alegre