Coisa difícil…

Um rasgo de luz no céu. Frio, como se fosse inverno, mas é outono. Das laranjas, dos cítricos, e do fogo, aquecendo, ainda pouco, sem pinhão. Ou com pinhão? Vagares esquecidos. Cristovão Tezza:Todos os significados reais estão fora das palavras.” Gostei da liberdade, do casamento aberto. Respeito ao amor. Mesmo amor aos filhos que não compreendemos, e aqueles que abandonamos, sem o desespero de envelhecer, apenas uma costura para encontrar o sentido da vida. Assim o livro O Professor vai se compondo, fácil assim, mas não é. Ainda: “É impressionante a rapidez, a eficiência com que o ouvido brasileiro procura e descobre todas as nuances ocultas de significado no evento da fala enquanto as palavras todas discorrem sobre outras coisas que não têm nada a ver, e é impressionante como também respondemos com palavras que estão longe do que importa, mas deixando nas frestinhas da sintaxe os sentidos secretos do que realmente queremos dizer. ” 

” – Em outras palavras, professor: o ouvido brasileiro é o ouvido mais apurado do mundo para interpretar o não-dito e responde a ele. Ele se alimenta daquilo que não é dito. A percepção brasileira navega quase o tempo todo no subentendido.” (p.140-141) 

Portão Azul, depois do começo. Ainda em junho de 2014. Elizabeth M.B. Mattos – viajando nos livros…

Imperfeito Dia

Meu amigo:

Segue cinzento. Desfiz as malas depois de viagem inteira sacolejando nas voltas da angústia. Gavetas abertas, duas portas do armário escancaradas, e as roupas na mala. Escolhi chá, como tu sabes, evito café preto. Protejo as noites da vigília. Sentei naquela cadeira perto da janela olhando sombras. “Quem é que conhece as verdadeiras razões dos seus temores? ” Voltei a repetir em voz alta a frase. O suor no inverno, o fogo no corpo, e esta respiração ofegante acusa medo. Fico imóvel, espero que passe. Não sabemos de onde chega, mas sentimos. Se olhares o desenho das nuvens, também tu, meu amigo, vais estremecer. Encobre esperança, esconde o riso, silencia o piano. Faço um esforço para abrir os olhos. Medo. Temor, insegurança. Esbofeteada no meio da calçada, surrada, espremida na voz ríspida da notícia que se espalha. E a cada empurrão, duas, três horas para recompor o ânimo. Estes esbarrões, estes gritos, nomes indizíveis flagelam. O cheiro da maconha, do álcool, deste desmedido alienamento assusta. Já nem sei se quero encontrar razões para temores. Acostuma a covardia. Ingenuidade, credibilidade, palavra nem importa. Agressão nos envelhece num átimo. Estou covarde.  Da viagem posso te contar que as feras na África oferecem menos perigo do que as nossas esquinas.

Nota:

Imperfeito dia! As propagandas, e as ‘figurinhas’ das revistas estavam repetitivas… Desanimador o jogo!

 

Portão Azul, ainda 19 de junho de 2014.

Das cartas de junho

Como é que se escreve uma carta depois de tanta ausência? É preciso dizer, confessar o meu engano. Começo a entender a situação. A vida que planejei – sonhei -, planos, expectativas -, essa vida se apaga entorpecida. Não posso voltar ao ponto zero. Como explicar? O futuro como uma cidade nunca visitada. Uma cidade do outro canto do país. Viajei de um lado para outro, com todos os pertences empacotados, chegando tantas vezes, e não encontrando… O percurso marcado claramente no mapa, mas quando chego, dou-me conta que o lugar não é aquele, não mais, ou nunca foi. A cidade que procuro desapareceu – talvez nunca houvesse existido. Uma sensação de ruptura. Numa vida, havia uma cidade para a qual viajava. Em outra, se tratava apenas de um lugar que havia inventado. Desta incerteza, ou desta obviedade o meu terror! Não vou conseguir chegar, e já não tenho mais forças para recomeçar. Buscar o que nunca existiu? Voltar para casa. Acertar o tempo de ficar, de permanência sem espiar, sem sonhar, sem querer avançar. E avançar justo para o lado que não tem estrada, nem cidade, nem nada. Interromper a esquizofrenia da invenção. Da poeira. Dos embates, quixotadas. Este descalabro por estar lá, ficar, ser reconhecida. Nunca deveria ter ido, nem tentado! Não existe pode ser entre as pessoas, não existe voz… Há qualquer coisa de mágico no saber ficar, entender que mesmo pela janela, o outro lado da sua rua é a referência perfeita. Se existe âncora, se existe paz, não está nas cidades visitadas, no caminho percorrido. Não se trata de prisão, mas certeza. E sequer de contar para o outro, ninguém ouve. Palavras são moedas. Desconheço numismática. Estou equivocada. A saída? Escrever para você.

Acabei de reler os dez capítulos da tese: Um só Pintor, tantos olhares! Recolhi velhos cadernos de francês, folhei livros separados em pilhas, por assunto, ideia sua. Sentei no sol do meu tapete, mas não compreendi nada sobre o lugar para onde voltei. Estou perdida, meu amigo.

Albertina Martins Cardozo

Portão Azul, 19 de junho de 2014

Elizabeth M.B.Mattos – junho de 2014 – Porto Alegre

Rio Grande do Sul

Nesta tarde de novembro alagada de sol, a minha consciência positiva de proprietário é um dilúvio de orgulho. De orgulho generoso e patriarcal. Dez homens, uma comparsa de esquiladores, no extenso galpão eventualmente assoalhado de couro e tábuas, beliscam o silêncio – só o silêncio? ”, desta forma começa o livro de Aureliano de Figueiredo Pinto.  Puro requinte.

Há cheiro de rebanho – respiração, transpiração animal, dejetos, lãs vivas – em cada objeto e cada canto. ” Ou ainda: “ Estou rápido, ríspido nas ordens, nas providências, no comando de meus serviços e das lavouras. ” Também uma descrição preciosa assim, tudo continuação, nada excesso, perfeito: “ A  tarde amansa-se de longas sombras, que as árvores estiram nos gramados rentes, à maneira de chalés e fichus de vovozinhas, corando, quarando nos últimos ouros do crepúsculo.” Precisão, beleza. No primeiro capítulo, já em três páginas. Não posso transcrever completo, mas afirmar, primoroso. Memórias do Coronel Falcão.

Era verão

Dores. Estranho movimento: acelerar, interromper. Problema para respirar, incômodo, dor, e ansiedade se misturam. Cheguei cansada. Costas partidas. Dor. Bastante dor. Mais à esquerda. Aperta. Aborrece. Dificuldade para dormir. Incômodo. Alívio depois do diagnóstico. Remédio certo o aperto é contornável.

O corpo pesa e pende para o lado esquerdo. Embora as persianas estejam fechadas não consigo me isolar. Vento, mormaço, movimento contínuo de carros. A luminosidade oblíqua explica: estou em casa. Tudo é bem-vindo, estou em casa. Busco intimidade comigo mesma, serenidade. Necessito do espaço, deste silêncio sem dor. Maldita dor!

Que acúmulo de objetos! O excesso, desmedida importância. Desqualificada exaustão. Amolecimento. Incerteza pestilenta.  Sentimentos batidos no centrifugador, picados. Confusos.  Medo de morrer. A dor sinaliza a chegada, o ponto. Limitado caminho. Medo personificado, vivo. Um envelope com surpreendente conteúdo: o que deveríamos priorizar nesta vida, neste momento? O próprio olhar, a mão estendida? Como expressar, colocar em palavras aquilo que nos parece o melhor, ou interferir no injusto, no atropelado pela ansiedade de cumprir, experimentar? Toda observação é descabida, descabelada, sem propósito. A cada escolha uma avalanche de cor, sabor, e obviedades. Sinalizadores inúteis. Por que não poderíamos parar de provar? A lágrima desce na emoção da felicidade, ou como válvula. Pressão maior, descuido, intimidade que se solta? Não sei. Um só dia com as características de mês, ou ano. Resultados imperfeitos num tempo que se propõe ideal.

Histórias são repetições: o véu, as alianças, as cadeiras, o sino, as pessoas, o deus, a confissão, a incerteza, o amigo, a pessoa, a delicadeza das flores, exuberância, volta, fotos: excesso de fotos que se cristalizam. Identificam? Fotos para o permanente, imortalidade. Alma do momento. Sopro da felicidade.  Foto que foca o espaço entre os dedos. O modelo. O suspiro. Não sei. A revelação aberta das imperfeições que se querem perfeitas. O porta retrato, a poeira do tempo, o abraço, o copo, a garrafa, os pratos. O doce. O movimento da luz. A música. A dança. Já o corpo se apresenta inteiro, doído, apertado, mas inteiro. O sono, a cama. Travesseiros, cheiro, leveza, peso, os carros acelerando, freando, o som da televisão. Desconforto. Felicidade? Estou viva. É o começo que assinala o fim. O concluído. A exuberância da voz nos abraços, no encontro com gosto de café, de laranja, de pão fresco, ovos, o espaço. O conforto do carro, velocidade, chuva e música. Outras histórias. Saudade. Água, luz e sono. Muito sono. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 – entre Porto Alegre e Torres

 

Madrugada Suja

Miguel Sousa Tavares, o autor de Equador. Gosto do jeito ligeiro. Das histórias. Descrições mesmo que repetidas. Fluência. O esperado, mas pesquisa. Fotografia. Diferente de estar no trem, no trem questionamos, pesamos, voltamos atrás, nem avançamos…

A leitura tem aquela coisa de intenso, mergulho e um hoje / agora. Findo o livro num relampejar: o que faço deste domingo? Domingo chuvoso que já termina. Vou te escrever. É isso? Gosto de começar, do início. Nada a lamentar, como diz um amigo querido, mas aquele jeito de interromper, deixar-se ficar tão a meu gosto, por quê? Não sei. Por trás do apaixonado o escritor se esconde na rotina interior, armazenamento. Isso o Tavares deixa vivo. No entanto, Madrugada Suja passou pelas estantes das livrarias, passou. O fundo político, a corrupção deslavada, esta bruta dificuldade de ser limpo… O autor resgata. Seremos resgatáveis? Não sei. Talvez, com a mesma urgência, se queira partir pra Medronhais da Serra, não Lisboa, mas sempre Portugal. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 – Rio de Janeiro

Levemente

Levemente, ou inevitavelmente, mal humorada, talvez resfriada. Dor de cabeça. Aquele mal estar que aborrece, chateia, aflige. Talvez resfriada. Dor de cabeça.  Mal estar presente, indefinido. Atrapalha, espalha, junta, retoma a dor do corpo. E não é corpo, mas  lá de dentro a dor, do não sei onde é. Dor do pensamento. Esquisitice pura. Vontade de gritar sem som. Estremecimento. Bom que tem sol, e o pulso não se despedaça neste repuxo. Alívio. Os óculos pesam, castiga o rosto, o nariz. Pesam estes óculos… Desgosto.  E nem estou vendo tão bem como gostaria. Que coisa esquisita isto tudo. É esperar… Elizabeth M. B. Mattos – 2014 – Rio de Janeiro

Nenhum recado, o jogo

Hoje vou pintar o cabelo, arrumar o armário, comprar aquele casaco. Hoje vou fazer uma caminhada mais longa, até ao mar. Hoje eu vou, e depois, depois afundo na cadeira, na dor nas costas, na incerteza de estar mesmo aqui e agora, sem ir. Depois volta a pontuação esdrúxula, esquisita de conversar apenas comigo mesma. Nenhum recado de volta!

Saudade das velhas cartas que abarrotavam a caixa de correio. No entanto não é o outro, mas este reflexo que gostamos… Narcisos, egocêntricos, estamos estacionados em nós mesmos. Na primeira linha. O jogo de futebol somos nós com a bola o tempo todo. Os gritos são nossos, as mãos torcidas, o descaso também. Silêncio, Imobilidade, nós. Afinal, como é mesmo participar? A cada filho sua história, a cada neto seus perigos. Ao amigo a distância. O desconhecido, curiosidade. Quero voltar a França, ir a Portugal. Quero viajar ficando. Ficando! Elizabeth M.B. Mattos – 2014 – Torres

Amar ficando…

Engraçado! É verdade que amar, apaixonar-se tem a inteireza da alegria, no entanto nos escamoteamos, por quê? Estar nos braços do outro, beijar, entregar-se com certeza de afeto, de uma qualidade de prazeres genuínos pode ser tão lúdico, como sério. É aquele medo esquisito de ser descoberto, ser visto como de fato somos, o medo de exposição tanto quanto a vaidade de ser reconhecido que nos assusta? Amar, ou ficar? Estas angustias paradoxais se misturam a cada amanhecer. Estão mesmo embutidas no amor?

Também o SE

Ah, se eu soubesse o segredo deles, o de minha avó Filomena e do meu avô Tomaz, também eu poderia ter sido feliz! Mas também sei que vivemos apenas o que nos acontece, não o que sonhamos. Somos resultado de circunstâncias: onde estamos, quando estamos, com quem estamos. E, hoje temos demasiadas circunstâncias para que tudo se torne simples ou evidente por si mesmo. (p.62)  Noite Suja, Miguel Souza Tavares.

Na grande dor, na grande perda injetamos algumas, apenas alumas certezas após o susto do limite. Nunca acreditamos, ou pensamos na finitude do tempo. No que pode, ou vai terminar. Há qualquer coisa de permanente, de pra sempre quando somos jovens. Depois, a solidão se consolida. Fortifica. E, na espreita do tempo vamos usufruindo sentimentos de agregação. Importa o toque, a insistência, a certeza. Mas, às vezes, na pressa do novo, do inusitado, nos afastamos, senão de nós mesmos, de pessoas que poderiam, afinal significar. Queremos apenas o essencial.

Equivocadamente levantamos um muro. E nos esquecemos da fluidez, da leveza, do ócio, da despreocupação passiva do amor. Das amizades de sempre que também envelheceram…

Pequenas e espicaçadas lembranças nos identificam. Situações limite. Se eu tivesse ido para o mar, se tivesse subido aquela montanha, se não tivesse medo, se fugisse, ou se não fugisse do que me perturba. Se o sentimento de ser menos, menor não tivesse me vergado…  Se fosse menos amadora, mais engajada! Se não tivesse me apegado aos modelos precários. Se…

Aquela brincadeira de imaginar outra vida, outro resultado, outro eu. Se o rumo fosse outro.

Se eu estivesse ao teu lado, meu amado. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2014 – Torres