Javier Marías

Meu amigo:
Acordei muitas vezes de noite. Abri a janela pra sentir o cheiro do vento, da terra. Doem minhas costas, as pernas respondem. É o tempo que vai passando lento, ansioso e cheio! Urgência, e lentidão exaustiva do nada. Mergulho nas velhas e repetidas leituras. E desejo que tudo volte ao mesmo lugar. Até os sentimentos deveriam ser catalogados.
Chove, faz sol, chove, faz calor. Já deves ter chegado a Porto Alegre. Embora se tenha passado um par de dias juntos, pouco foi dito. Como dois apaixonados, as raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. A saudade plantada nesta presença fugidia. Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Posse de silêncio conciliador. Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Os erros se transformam em acertos, as queixas se volatizam. A beleza do corpo adormecido transforma o ambiente; as cortinas estufam ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala. Posso medir tua mão, teus pés sob os lençóis, tuas ancas: o vestido está colado no corpo suado. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas.
Adormeço sentada. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.Queria tomar um café contigo. Caminhar contigo. Ficar sem falar, ao teu lado. Eu penso: Se um dia tivesses me perguntado …, não contar pelo contar, mas responder é diferente. Elizabeth M.B.Mattos – Porto Alegre, 05 de julho de 2014.

Minha memória está tão cheia que às vezes não a suporto. Queria perdê-la mais, queria esvaziá-la um pouco.” (p.109) Vol.1 Febre e Lança da trilogia Seu Rosto Amanhã. Javier Marías

 

Chico César

Durante o tempo em que estivemos juntas imaginei, pensei, ponderei, revisei o sentido de cada palavra que poderia dizer… Imaginei o diálogo. Perguntas e respostas. Busquei pretexto. Separei qualidades e defeitos. Confundi amor com responsabilidade. Felicidade com abnegação. Reconsiderei pontuando. Repassei leituras adequadas, procurei autores que auxiliariam, apoiariam uma advertência, a nova posição.
Silenciosa, dobrava, ordenava o armário. Seguia abrindo caixas, retirando roupas…
Servi o café com leite, comemos bolachas. Não nos dissemos nada, seguimos escutando a música de Chico César.

 

As crianças deviam ser educadas em contato com grandes bibliotecas particulares. A convivência diária com espíritos sérios, o ambiente sábio, escuro, silencioso, a contínua adaptação a mais meticulosa ordem, no espaço e no tempo – que meio seria mais indicado para ajudar criaturas sensíveis a atravessar a juventude?”

(p.15, Ed Nova Fronteira, 1982. RJ) Auto- de-Fé, Elias Canetti

No mesmo lugar

Noturno, enorme, o silêncio deste mar… Quero sentir o mar, voltar para casa. Abrir a gaveta. O quebra-cabeça de madeira, o jogo da memória, a boneca, as bolas de gude. A estrela do mar, a concha, a torre, o balde azul… Quero brincar na areia deste mar. Em casa, encontrar tudo exatamente, no mesmo lugar.

Descaso acidentado

A sombra desta mulher desenha empenho. Presente em qualquer tempo. Desejo de homem certo. A disponibilidade esconde mistérios. A vida se imagina em orgia: fumaça, álcool, e noite. Impressiona o cigarro aceso que descola ansiedade, incerteza. Cigarro aflito. Ou consolo. Segura o tempo.
A lagoa inteira se acorda. A vizinhança desperta ao ir e vir contínuo destes passos andróginos. Dos cães que acordam. Dos pássaros que acordam. Não importa qual dia da semana, todos iguais para ela. Amoreira sem  folhas. A chuva pinga dos galhos.
Estatura mediana, feia. Queixo proeminente, olhos apertados. Cabelos tingidos, esforço na cor. Maus tratos explicam oscilações. Ruivo, alourado, depois preto. Curtos. Calças ajustadas, nunca saia rodada, nem pregas. Cachecol, casaco apertado. Ligeira para se deslocar, óculos de sol, mesmo em dia nublado. Mãos bonitas, dedos longos, ociosos. Nesta corrida entre ser, parecer, estar presente, despeja  o olhar… Mede o poder dos oito  andares cinzentos deste edifício. Ambição de calçada gramada. Ideia que faz subir escadas, lances, degraus, ou elevadores panorâmicos.Rosto pálido, desgaste de crueldade astuta. Conquistar é sucumbir. Rebater o possível desprezo. Feia, esguia, de olhos acastanhados de felino esta mulher.
Pessoas se acolhem meio ao desprezo. Por insegurança. Quando vejo a moça atravessar a rua apressada em dias de chuva, ou de sol, em horas impróprias, particulares, sinto descaso, e mal estar. É o jeito apressado. O feio apressado, e lavado? Descaso acidentado das relações. Nada se define no afeto, mas no uso um do outro.

Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2014 – Torres

O JOGO

A força divide, estanca insegura. Pondera. Desânimo! Obstáculo. Burilar, ressaltar, descobrir o sentido. Desarmar, e retirar este azedo amanhecer. Facilidade sem esforço. Recolhimento. Dos monges, do sacerdócio, da própria dedicação. Defesa. Silenciamos a consciência, dormitamos sem vigilância, amolecidos pelo vento, pelo frio, pela chuva: janelas abertas, escancaradas venezianas… Os galhos desta árvore, desta ventania se agarram nos batentes, invadem a sala… Lá estou sem reservas… Deixo a natureza entrar. Não competir, apenas ser. Vigiada leveza desta apatia sadia. Há que se vencer. Competição calada. Exercitar a confiança silenciosamente. Sem reagir. O cansaço carrega o excesso. Felicidade descuidada. A chuva entra… Ganhamos o jogo.

Química

Humor picado da reclamação, do susto, abusa. Tiraniza o subterrâneo.

Desperta. Abra sorrisos. Dedilha o piano atenta ao violino. Cantarola. Leva flores para casa. Entra no mar. Molha os pés na água gelada. Corre. Correr da saudade faz bem. Debruça nesta alegria. Larga o peso pesado de dor amarga no frasco de remédio . E bebe um copo cheio de água com bolinhas…

despedida

No fundo de seus olhos azuis, um lampejo. Um brilho intenso de tristeza. E raiva. Que cena tão simples havia sido lembrada? Mansa e dilacerante. O dia de terminar. Ou a falta de luz… Entrega sem volta, sem pergunta. Esvaziada expressão. Altero a voz, o olhar.

Sonhos se partem: os teus ali, os meus aqui. Não somos mais. Ou apenas, odor… Rosas, petúnias, hortênsias e cravos, laranjas, pêssegos e morangos. Sem esquecer das amoras azuis, e das lágrimas. Na despedida beijo teus olhos. Elizabeth M.B. Mattos –  Rua Redentor. Dia de paz. Rio de Janeiro – 2014

 

Portão Azul

Escreve Javier Marías, o espanhol: “[…] e o que tinha falhado era o tempo, que talvez nunca passe totalmente, ao contrário do que costumamos acreditar, como tampouco nunca deixamos de ser inteiramente o que fomos, e não é tão raro escorregar no passado de um modo tão vivo que este se justaponha ao presente […]” Então eu me ponho a ler devagar, errado, desconcentrada. Dispersiva, parando, bebericando chá, comendo abacate, querendo café, suco, fatia de bolo, bergamota. Ou vou solta num olhar através das vidraças, imagino o outro lado. Procuro, volto à página interrompida… Qual página? Já não importa, está na trilogia Seu rosto amanhã. Inoperante. Atabalhoadamente, adoro esta palavra, resolvo te escrever sem preencher, minimamente, o programa. Amadeu, em Trem Noturno para Lisboa, discursa sobre o uso necessário das palavras, e afirma estarem gastas, vazias do sentido primeiro, sem sentido, ou escondidas num contexto diferente, já código, ruídos, comunicação, nem poesia, nem cuidado. Palavras perseguidas, ou preenchidas por visões pessoais. Lobo, preto, lustroso, inquieto, pequeno, desconfiado, fiel, medroso, teu. Atabalhoadamente volto a escrever. Vou abrir a porta, acender as luzes. Elizabeth M. B. Mattos – Portão Azul, junho de 2014.

100 anos de Iberê

Iberê Camargo:

Pintor brasileiro. O sentir colorido pressente o espaço de um mundo, acede a verdade na obra.  Nele não apenas o traço definitivo, mas a cor. Não é pura representação, enfeite, ou adorno, a arte, mas também ar. A verdade do sentir. A diferença da percepção, as estruturas intencionais. Ou não? O sofrimento da ausência, irrisório. Pensar a tela Solidão. Quem perdeu definitivamente o contato não tem consciência nem do contato nem da perda. Nossa intimidade com o mundo é flutuante, a pintura definitiva, como cartas. Vamos sublinhar as pessoas, a arte, assim permanecem. Cem anos de Iberê. Elizabeth M.B. Mattos – 2014

Junquilhos

Meu amigo, em tempo:

Também eu assinalei esta passagem. Amadeu introspectivo, vigilante. Ao ler o fragmento, de imediato, parei. Levantei os olhos, fechei o livro. Voltaram, enfileirados, acontecimentos que antecederam escolhas. O velho amargado desejo de casar. O silencioso momento do nascimento. O medo que antecede ao filho. A tomada de decisão apressada. As inexplicáveis rupturas. Mentalmente, fiz a lista destes cortes doloridos, todos, mas ainda assim, propulsores. A dor, a resolução, a caminhada. O silencio imperioso. Prosaicamente se acomodaram nas caixas, nos maços de papel, nos arquivos, paradoxalmente presentes em objetos, fotografias. Segredos dos segredos que levam ao inferno. Ou para o inferno? No entanto, sem estrondo, sem notícia no jornal, sem grito se torna definitiva a escolha. Sangue escorre como lágrima, escorre.

“ Na verdade, a dramaticidade de uma experiência decisiva na vida é de uma natureza inacreditavelmente silenciosa. ” (p.48) Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier.

Sim, meu amigo, a tua leitura caminha com a minha leitura. No mesmo tempo!  Hoje escolhi junquilhos para colocar no vaso. Elizabeth M. B. Mattos

Portão Azul, lugar nenhum, em junho de 2014.