Uma risca de limite

A balança interna que mede a energia. Positiva ou negativa. Convivência! Não podemos embrutecer paralisados! Observo as plantas. Converso com elas. Pobres jasmins escravizados! Também conhecem as gaiolas douradas, o limite do vaso. Também domesticados! Tantas vezes sem vontade própria! Somos o que os outros esperam que sejamos… Como as plantas nos adaptamos…Olho o verde, escuto a música, e tento acalmar minha inquietude enquanto escrevo. Temos que entender a cidade que nos aprisiona: escolhas erradas, certas, perigosamente nossas! Namoro os jacarandás, as paineiras! Caminho todas as manhãs pelas ruas do bairro abastecendo a casa com frutas, pão. Busco o cheiro do café energizante que já fizeram as cabras saltitarem vivazes, como conta a lenda… E posso sentar por uma hora ou duas nestas mesas que ocupam as calçadas. Retomo a cidade ainda vazia, mas sempre verde. O quarteirão. Uma risca de limite. O nosso limite. Interno. Particular rebeldia. Saudade do antes, daquilo que não conseguimos segurar. Porto Alegre das ruas estreitas, arborizadas, com perfume de terra, minha cidade. É preciso sair do lugar, ousar. Pode ser um olhar singelo o que liberta. Um olhar de paz. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2012

O desenho principal

Como escrever despojado quando escrevemos para nós mesmos? Sempre há intenção, sempre há julgamento, e interpretação. O outro lado. Não escreveríamos se não quiséssemos ser lidos. Sonho recortado nas imagens do desejo. Onírico, profundo: livre. Explicar quem se pensa, quem gostaria de ter sido… Quem sou. Tantas respostas prontas. A narrativa de fazer define: quantas vezes limpamos a casa, fazemos a comida, molhamos o jardim, lavamos e passamos roupas brancas? Ou cuidamos do filho, lemos. O que não lemos enquanto escutamos música. Quantas vezes nos sentamos frente a televisão! Nos reinventamos nos gestos. É o desenho principal.  O que se vive ou se pensa (ou pensamos que somos). Estamos tão pouco tempo sozinhos! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2012

Modulação

Meios sorrisos perguntam, ou afirmam sem respostas. Frases diretas, linha única, sem modulação na voz, sintaxe correta. O pensamento desnudo de um fazer que chega ao fim. Existo, molho o corpo de prazer neste verão. O silêncio da palavra escrita descreve, desnuda fantasia de memória inventada, descoberta. A doença custa a sarar, não importa o remédio. A beleza brilha e se esconde como sol, mas tem a lua. Mudanças e as palavras, palavras, palavras em tanto papel! Reciclado, tombado recentemente? Desmatado?Roubado.Juntar as letras do vício: roer as unhas, roer todas. E, depois, esperar crescer para roer outra vez. A vida como engrenagem… Este ir e voltar…Ornella Vanoni, Chico Buarque, Françoise Hardy, Jacques Brel ou Violeta Parra?

Ingenuidade

O apito do guarda noturno, o gosto do açúcar, o olhar agudo sobre o desconforto. Depois o pão quente  devorado com manteiga, o chá bebido como água  quente,  velho? A pressa de comer em casa, de enrolar-se na manta que trouxe. Os olhos na poeira dos móveis, a falta de ar… Engolir a comida. Comer com voracidade, desgovernar-se… Angústia de estar fora do seguro universo conhecido. A língua ligeira pra apontar o errado, a intimidade que constrange. Uma vez, duas, depois o outro, aquele que ouve, começa a sentir cansaço, mesmo exaustão. E o silêncio se instala. Estar calado, ou enfurecido no tédio também pesa. Espiando atrás da vidraça as pernas tortas desta, o chapéu daquele outro, a gordura do velho, a roupa esquisita, a histeria do cachorro… Um ser enfurecido, um temporal de chuva pesada no quintal da tua casa. Nenhuma paciência ou tolerância!  E todos se minimizam na simplificação negativa de um mundo estereotipado. É preciso esterilizar as pessoas, e resguardar-se. Atrás de um sorriso acolhedor escorre o veneno diante da ingenuidade do trato.

Não sou gato

Ele não é gato, mas tem personalidade de gato. É a raça do Dalite Dog! Criado em mosteiros: espírito livre. Pode inspirar, escolher, ser e fazer! E os humanos não podem aceitar o domínio manso de um cão. Não foi domado! Se olharem para língua tem a marca da história! Beth Mattos novembro de 2012

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O cão Chimarrão

Torres. Muito sol. Temperatura agradável. Ontem Ônix chegou, curada. Hoje o Chima segue para a Colônia com o Tainor. Pobre Chima! Ou feliz! Quem sabe encontra um lugar seu! Neste ir a vida dele fica solta, e os afetos se perdem naquele olhar amendoado. O cão amarelo. Eu me sinto culpada por ele, por mim. Por não conseguir guardá-lo. Não consegui mantê-lo comigo, e poderia. Como posso deixar que o levem! É minha indecisão que o abandona. Se eu já tivesse as raízes fincadas em Torres, eu o guardaria. Mas em Porto Alegre, complicado. Gosto de seu temperamento independente, gaudério. Gosto da forma como ele olha. Vejo a melancolia, e vivacidade no olhar dele. O medo, e a patética resignação?! Prevejo o sono, e algumas alegrias. Oxalá goste dos outros cães que estão por lá. Fico entre o alívio por saber que será cuidado, e o medo que fuja…Elizabeth M.B. Mattos – tempos incertos. 2012

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É longe a Colônia São Pedro! Vou tentar me acalmar! Já não importa mais: tomei a decisão! Ontem eu deveria ter ido buscá-lo. E assim… Os sentimentos doloridos são socados para o fundo, para um canto qualquer, desaparecerão. Esquecerei?

Cito passagem que Canetti descreve a mãe: “Você é como o terneiro; finalmente ele acaba se entregando!’ Ela não escolhia os meios. Isto era reforçado pela convicção de que os sentimentos humanos só devem valer para os homens; se os estendêssemos a todos os seres vivos, perderiam sua força e se tornariam vagos e ineficazes. (p.299 – A língua Absolvida – Elias Canetti).

Eu me entreguei. Todos os possíveis arroubos que possa sentir pelo cão se desfazem na minha imobilidade. Ele está indo embora, o nosso Dalite Dog! Cheio de histórias! Ainda nosso?

Nota: Chima morreu este ano (2017), apareceu morto no campo. Envenenado. Culpa. Sempre a culpa espiando.  Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2012

Foto: ricardo moure

Fita verde no cabelo: nova velha estória

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê,e das horas, que a gente não vê que não são. E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque toque, bateu:- Quem é? – Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou. Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou. A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo. Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou: – Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes! – É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou. – Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados! – É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou. – Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido? – É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu. Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

ROSA, João Guimarães. Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p.81.

Lygia Clark

Sublinho Lygia Clark. Não se pode minimizar a importância do exercício do Eu no mundo.  É preciso entender  a vida de dentro para fora. Apenas escrever o mundo, e reverenciá-lo seria como estar debruçado na janela. O difícil é cavar este poço interno. Expor este eu aos outros, um motor para o agora.  Quem puder ver o trabalho de LYGIA CLARK em São Paulo na Casa da Imagem (r.Roberto Simonsen, 136 N,S.Paulo) até 25/de novembro pode reavaliar. Retomo suas palavras, na mesma carta, página 86: “ Você vê, a participação é cada vez maior. Não existe mais o objeto para expressar qualquer conceito, mas sim para o espectador atingir cada vez mais profundamente o seu próprio eu. Ele, homem, agora é o ‘bicho’ e o diálogo agora é com ele mesmo, na medida da magia que ele pode emprestar de dentro dele mesmo.”

Toda esta exposição interior do artista, este esforço para pensar o eu, explicitar, e se abrir para o essencial. Escrever, pintar, dançar, fazer música, esforço descomunal! O artista segue nesta luta solitária. Escreve Lygia Clark:  “ Perco cada mais a minha personalidade aparente, e entro no coletivo buscando um diálogo e me realizando ainda através do espectador.”

Escrever, e ler tem o mesmo diálogo. A pintura, a dança, toda expressão pressupõe troca…

Quanto a ideia da participação, como sempre existiu, existem artistas fracos que não podem realmente se expressar com pensamento e portanto ilustram o problema. Para mim existe sim e é o mais importante. É exatamente essa ‘relação nela mesma’, como você diz, que a faz viva e importante. No meu trabalho, por exemplo, desde 60 é o meu problema e, se formos mais longe ainda, em 55 realizei a maquete da casa: Construa você mesmo seu espaço a viver. Mas não é a participação pela participação e não é dizer como o grupo do Le Parc que arte é um problema de burguesia. Seria simples demais e linear. Nada profundo tem essa simplicidade e nada verdadeiro é linear. O que eles negam é o importante: é o pensamento. Acho que agora somos os propositores e, através da proposição, deve existir um pensamento, e quando o expectador expressa essa proposição ela na realidade está juntando a característica de uma obra de arte de todos os tempos: pensamento e expressão E para mim tudo está ligado. Desde a opção, o ato, a imanência como meio de comunicação, a falta de qualquer mito exterior ao homem que o satisfaça e ainda, na minha fantasia, se ligando com o anti-universo onde as coisas estariam lá porque está acontecendo agora. Seria talvez pela primeira vez a consciência do próprio absoluto no agora. Outra coisa que muito me impressiona é a juventude que também como nós quer se dar sentido de dentro para fora em vez de ser como sempre foi, de fora para dentro. A verdadeira participação é aberta e nunca poderemos saber o que damos ao espectador-autor. É exatamente por isso que falo num poço onde um som seria tirado de dentro, não por você-poço, mas pelo outro na medida em que ele atira sua própria pedra…(p. 83-84): Hélio Oiticica  CARTAS 1964-74 , organização Luciano Figueiredo.

Fora do CORPO

Insônia. Mais do que falta de sono, falta de energia, falta de sentido. O amor neste tom confidencial que empresto à vida. Fico a contar a falta, o desejo. Faço projetos que parecem tão próximos do possível. Com o passar dos anos o sentimento de reconhecimento desaparece. Sou estrangeira de um mundo esquisito, o meu. De repente, isolada! Uma voz sem continuidade. Queixas cheiros indesejáveis, o movimento de ir e vir das pessoas, inúteis! O corpo dói: costas pernas pés. As mão, até os dedos doem. Qualquer movimento, pedalar, andar, dançar, nadar, experimentar parece sem sentido. A pessoa que importa não está mais aqui, não existe.  Sinto medo. Sentimento da insônia, ou a própria e seca insônia no comando? Sem fome, sem sede, mas desperta, ataca. Nada que não possa se resolver com um comprimido. Nada que possa desaparecer. Amanhã de manhã estarei igual. Desânimo! Enquanto escrevo escuto as vozes dos vizinhos praianos. O mar murmura.  Carros buzinam, não importa que seja noite e tão tarde. Cães ladram assustados.  Paradoxalmente o isolamento se impõe. É preciso permanecer na caverna: esconderijo certo.

Tenho aquela ideia de que todos estão perfeitamente perfeitos nos lugares onde estão: alimentados, sem sono, aquecidos, sorrindo. Não queremos ser necessários, queremos ser transparentes, mas no fundo, lá dentro a questão é mais séria: gostaria de poder me enxergar no centro, mas não sou o eixo, sou o galho que começa a vergar porque não consigo seguir o fluxo. Perde-se o hábito de querer o amor. Desistimos de desistir para desviar, terminar para encontrar, recomeçar, a solidão chega como o fim do papel, com a ponta do lápis quebrada, o livro com ponto final, o copo vazio. A solidão pesa com o próprio peso do corpo. Fica tudo invertido. Nem um cálice de vinho, depois outro, pode resolver. Nem o banho de mar, nem o sol. Nem ressuscitar o amigo, a coragem, nada modifica este estranho vazio. E estranheza vem do tempo que  perdi a casa, o centro, a segurança; quando resolvi deixar para traz a vontade de alguma coisa, apenas seguir… Do tempo de casar porque era preciso casar. Vem do tempo de largar o casamento. Aquele vazio do fracasso afetivo. Do amor sem amor. Vem do tempo que me deixei ficar no Rio de Janeiro. Do tempo de voltar para o Rio Grande do Sul. Vem do tempo de apagar incêndios. Vem do tempo de sucumbir aos tropeços, e se deixar levar… Enfrentar o trabalho. Largar os livros, e estudar. Deixar de estudar. Esquecer a menina. Largar o trabalho, a escola. Vem do tempo que me apaixonei por um amontoado de palavras, pelo virtual. E depois entender que nos apaixonamos por um personagem, não por um homem. Ou se chegamos a amar um homem, ele se transforma subitamente em personagem.  Ou num desconhecido. Um estranho que mora na mesma casa que moramos. Depositei tanto sentimento, tanta força, tanta energia num sentimento que desapareceu como desaparece um saco de areia na beira do mar. Claro que existem os filhos, os irmãos, o amigo, o amante, o desconhecido que atravessou a rua, os cães, as crianças, os netos, os tios, os primos, os conhecidos, os sorrisos, as perguntas, os sobrinhos. Mas na insônia ninguém existe. Existe a sombra da angústia de uma noite interminável e solitária. Bom! A pensar, mas é apenas ela, uma noite insone, depois o dia fica cheio de janelas. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2012