pela fechadura

O ciclone não veio, senti medo assim mesmo. O ‘furacão’, na verdade, o meu ciclone particular é este pós operatório e estes colírios e este não poder ler –
mudança de horários, aquietação forçada! Dia 11 tenho hora marcada,
estarás de volta, eu acho. Desanimada, cansada, não tenho vontade de
nada. Envelhecer parece uma, parece um monstro…, não porque
envelhecemos e ficamos feias, ou coisas assim, mas o limite parece uma
grande injustiça. Escrever tem sido mais complicado, meio às cegas.
Insisto. Talvez a gente não pense em morrer, nem na possibilidade de
acontecer. Não é estranho? Estou meio muito bastante negativa, mas vou
em frente… Amiga! O que me preocupa são os lapsos, entendo a urgência
de intensificar o  A G O R A, depois, penso e me parece sem sentido,
como as nossas eleições e a política. Vi um seriado coreano que me
impressionou, NO AR -, lembrei da minha mãe, ela não queria mais ver o
dramático, o triste ou o feio, apenas a beleza -, hoje eu a compreendo. tentei ver o
documentário sobre a Marilyn Monroe / fiquei chocada! Céus! Queria te
contar que a Ônix esteve doente / bem ruim / e ficou boa, eu acho
(risos), queria te contar coisas boas, e saiu assim minha carta, este
estrupicio de espantos. Vai desse jeito mesmo. Era isso. Beijo

sonho depois do amanhcer

“Salve! natural desejo! Salve felicidade! divina felicidade! e os prazeres de todos os tipos, flores e vinho, embora uma murche e o outro inebrie;[…]”

Salve a leitura! Salve o silêncio de um texto perfeito, ou tão ruidoso no excesso! Como a chuva molhada, necessária e abundante chuva! silenciosa e ruidosa…

” Salve, pois, felicidade e, depois da felicidade, salve não aqueles sonhos que, tal como fazem com o rosto os espelhos mosqueados da recepção de uma estalagem do interior, inflam uma imagem nítida; não aqueles sonhos que fragmentam o todo e nos fazem em pedaços e nos machucam e nos desmembram durante a noite quando deveríamos estar dormindo; mas o sono, o sono, tão profundo que todas as formas se desfazem em pó de infinita maciez, em água de opacidade inescrutável, e ali, dobrados, enfaixados como uma múmia, como uma crisálida, deitemos de bruços sobre a areia, no fundo do sono.

Mas esperem! mas esperem! não iremos, desta vez, visitar a terra cega. Azul […]” (p.192-193) Virgínia Woolf Orlando

Então, vou salvar a visita da neta, e da filha! Depois o silêncio agitado de quem se acustuma ora ao silêncio, ora ao riso, e também ao sono e a vigília, e depois se surpreende. O que será a vida, o tempo, nas ausências, ou nesta presença ruidosa??! A vida começo / vida de ser criança no sono perfeito e no despertar surpresa! A visita da Valentina no meio de otubro com chuva, tanta chuva! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

sentir

A chuva se alonga fértil, um outono cinzento, e frio, eu já me pergunto que verão nos aguarda? e o tempo e os dias, e a chuva e esta esperança esquisita de resistir! É preciso voltar e fazer. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

uma despedida esquisita

o tempo não se segura, nem se espreguiça, aperta: e os sonhos contam constantemente na cabeça, pode ser loucura, podem ser fios a se desconectarem, pode ser saudade, e exautão

investigadar? não sei se posso. exigir também não. querer um companheiro, também não, atemção, acho que não.

” Contemple a velha sonhora levando o cachorro para a um passeio, a moça exibindo, um tanto torto, seu chapéu novo pela primeira vez. Contemple-os todos. Ainda que os céus tenham misericordiosamente decretado que os segredos de todos os corações permaneçam ocultos, de maneira que somos sempre tentados a imaginar algo que talvez não exista; ainda assim, vemos através da fu a muça do nosso cigarro, irromper, em chamas, saudando-a, a esplendida realização de naturais desejos por um chapéu, por um barci, por um rato numa vala; tal qual como uma vez vimos arder – a mente dá esses pulos e saltos bovos quando se derrama toda desse jeito e o realejo toca tal c omo o vimos arder uma fogueira, os minaretes ao fundo, num campo, perto de Co nstaninopla.”(192) Virgínia Woolf

E tudo que eu possa escreverer será tão solto, tão inconsciestente… qualquer meia duzia de pensamento se desgarra do real, do possível para passear num pazer slto e incoerente, os motivos se espatifam, os novos são bouques selvagens…Elizabetn.M.B. Matts – outubro de 2022 = Torres

FT

FT tinha sessenta anos quando o conheci. Não. Ele não leu todos os livros que afirmou ter lido em entrevista… E eu levei vinte ou foram vinte e cinco anos para entender o que ele disse. Céus! Não entendi. Ingenuidade, vaidade! Estupefata. A modéstia, a humildade, e os passos são incompreensíveis quando a carruagem passa. Se tanto tinha lido de Virgínia Woolf, tenho certeza que preciso reler e não estarei nem no começo…

Estrias de roxo, rubro, laranja e azul irrompiam pelos interstícios das folhas e cintilavam na esmeralda que levava no dedo.” (p.187) Virgínia Woolf Orlando

…escrever / ler / pensar e conversar são tarefas árduas, infindáveis e não posso explicar. Passou tanto tempo! Tanto! Perdi. Inutilidade / nulidade e não…, não acrescentei. Coisas de amar: detalhes. Bocejar, bocejar, deixar passar. Coisas de amar… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

modernidade

” A vida, concordam todos cuja opinião vale a pena consultar, é o único tema apropriado para o romancista ou o biógrafo, a vida, decidiram as mesmas autoridades, não tem nada a ver com ficar sentado sem se mexer numa cadeira, apenas pensando. O pensamento e a vida são como polos opostos. Portanto, como ficar sentada numa cadeira apenas pensando é o que Orlando está fazendo agora, não nos resta outro recurso senão o de recitar o calendário, desfiar as contas do rosário, assoar o nariz, atiçar o fogo, olhar pela janela, até que ela termine com isso.” (p.175) Virgínia Woolf ORLANDO

Eu? Eu sigo o pensamento, e fico citando Woolf..,pensar e ou fugir do livro, impossível: beber coca-cola, comer biscoitos, descascascar uma bergamota, mordiscar uma maçã, ligar a televisão atrás de uma série, errar o canal, evitar a propagando deslavada que a Globo faz para seu partido especial, seu futuro patrocinador, não sei… Dormir está na lista e acompanhar este gosto de temperatura cálida. E me sentir feliz! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

escolha

Dia de sol. Caminhada curta. A perna esquerda segue doendo. Incomodada o corpo, reclama demais. E não se define. Incômodo constante. Ilusão. Durmo. Vou acordar e tudo estará bem, organizado, não. Nada funciona. As flores, bem, as flores brotam. Se a palavra exuberante for adequada eu sublinho. Certeza: não estou no ponto certo. O fato atropela, interrompe. A decisão se descabela. A esvoejar, a sair do lugar, a recomeçar, ou solucionar… O dia tem que estar acomodado entre quatro paredes, as janelas precisam abrir e fechar, e, as frutas, bem, as frutas maduras precisam ser mastigadas. Memória, lembrança: caprichos. Na biblioteca, ordenados, limpos, escovados. Há que se priorizar a boa luz. Acordar.

O dia boceja nublado. Percepções escorregadia, nenhuma certeza. Ora, as certezas empurram, ora se erguem e caminham nas vontades. Vamos ordenar o batalhão. Hoje marquei encontro com elas (as vontades), e vamos até a praia, se a perna não incomodar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

difícil, mas vai terminar…

dia difícil…,expectativas, soluções, mas vamos chegar, vamos conseguir…, estou sem forças, mas não importa, amanhã conseguiremos…

cada dia, um dia, es as vozes, as vozes, as vozes seguem…

vai teimar, eu sei. vou comprar uma braçada de flores, colocar os pés no mar, semtar na areia…e o mar leva, e o mar trás… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

sem armas

sem ânimo, sem armas, sem vontade, na despedida, entregue…

“Pois se é temerário entrar sem armas na toca do leão, temerário cruzar o Atlântico num barco a remo, temerário se equilibrar num pé só no alto da Catedral de St. Paul, é ainda mais temerário ir para casa sozinha com um poeta. Um poeta é o Atlântico e o leão reunidos num único ente. Enquanto um nos faz afundar, o outro nos abocanha. Se sobrevivemos aos dentes sucumbimos a maré alta. As ilusões são para a alma o que a atmosfera é para a terra. Recolham essa tênue camada de ar e a planta morre, a cor se desbota. A terra sobre a qual caminhamos é cinza estéril. O cascalho a que pisamos e carvões em brasa o que nos queima os pés. Pela verdade nos perdemos. A vida é um sonho. É o despertar que nos mata. Quem nos tira os sonhos nos tira a vida…(p.134) Virgínia Woolf – Orlando