
romance
“Ler um romance depois de ouvir as sonatas para violoncelo de Bach é como virar as costas ao pôr do sol e descer a um porão.” (p.382) Kar Ove O Fim
Sem a música, sem as sonatas, sem o piano, sem a doçura estamos todos no porão, com um rasgo de luz, ou completamente no escuro. A gentileza e a doçura salva, nos permite subir as escadas, mas o silêncio nem sempre explica/esclarece, corretamente, a inversão da verdade / a representação. A inverdade e o desconhecimento de coração, de saber quem sou eu, complica, complica a sobrevivência e tropeçamos na própria sombra. Agimos como fantoches, embevecidos pelo outro. Queremos subir o Everest, mas estamos no porão. E sequer temos um nome… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres


alucina
A vida pode mesmo ser um círculo de horrores. O estranho da fúria / da raiva é a não explicação. A inconsciência do monstro, ou a dor / o machucado / o pecado transborda. Não há explicação. Deste chicotear violento e descompensado, desta nudez feia a bomba atômica se desenhando no céu…, então, chorar, gritar, e sucumbir pode aliviar. Outra vez um campo de margaridas, e o perfume do gramado molhado pela chuva. E num repente que a verdadeira história abre os olhos…, repassamos, lembramos, dobramos o tempo. Perdoar? Nunca perdoamos, apenas esquecemos aos poucos, não porque a ideia seja esquecer, mas porque viver é imperioso se não somos suicidas. Há uma semente alegre que se agita. E nos recuperamos. A lucidez dói / alucina também, mas há que reagir. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

leitura e ler
Um hábito ou uma obrigação. Hábito quando gostamos ou nos permitimos interromper/parar o fluxo da vida/ do fazer, e, nos aventuramos no pensamento. Viajar de jeito/forma nova: nem de avião, ou trem, ou ônibus, nem caminhar, apenas pensar/mergulhar no livro e se entregar. E sozinhos. Sem acompanhantes. Apenas tu contigo! Ah! Nada fácil. Ou ler é estudar/aprofundar/ decidir saber para seguir/ seguir a frente dos outros, competir. Lazer não é leitura, ouso dizer. Bah! Não vou me aventurar mais! Tenho este súbito desejo/vontade de estar em sala de aula, mediar os jovens / apreender m pouco mais. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres
Abrir as portas. Todas!



distraída, porta aberta
Sem vontade, distraída com o vento, com este aberto de tempo para cansar! De parar!! E este mal estrar da indisposição que já é posição, lição. De repente a vontade grande de embalar, embalar a vontade num ninar contínuo / continuado do bem feito… Depois da fotografias: as encontradas, as perdidas! Quantas! Tanto tempo! Tanto tempo! Beth Mattos, vontade de voltar!




beleza de viver
cuidadosa
Cuidadosa, não necessariamente de caso pensado, não provavelmente não, mas aquele elemento constantemente introvertido sugere isso: não queria que o próprio interior fosse visível para os outros, não queria que fosse uma coisa que o olhar e os pensamentos dos outros pudessem explorar. Assim seria/é quem eu entender / ou narrar. Atrás de uma carta não existe apenas uma história, mas várias narrativas, ocultas ou evidentes. Pode olhar a lagoa imóvel, antes do temporal, da paixão, do inexplicável existe esta imobilidade gritando, e este olhar brilhando desejo. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres – esta agitação descreve a chuva, nem mansa, nem evidente, apenas o suficiente para encharcar por dentro.

Paulo Hecker Filho / “a vida em sociedade é um jogo” escolher / escolher a leitura / decidir…, ou apenas jogar, fazer parte da equipe
Sinto falta de grandes amigos, sou afortunada, eu os tive. Saudade! Eles não estão aqui, ou, tão longe… Paulo Hecker Filho foi um destes grandes e poderosos amigos. Embora morássemos na mesma cidade nós nos escrevíamos, um jeito solto de dizer a verdade / era um missivista e eu, adoro cartas, o sentido da correspondência! Ah! “[…] o social é um jogo que segue regras predeterminadas, certas coisas são escondidas, certas coisas são mostradas, e de que vivemos de certa forma em uma ilusão. O jogo depende da participação de todos, a ilusão, de que todos acreditem nela.”(p.331) Engraçado! O que eu queria dizer?! Paulo e eu criamos um jogo nosso, as cartas. Guardei a dependência insana de partilhar tudo com ele, perguntar, dividir, discutir, arrastar as tristezas pequenas dos meus amados, os arrufos! ah! Sinto falta! Como sinto falta dele! Estas amizades seguem, nos acompanham como parte, intensidade! SOS amigos silenciosos! Onde estão? Quero saber e estar. Estou a ler Karl Ove Knausgard / jovem e vigoroso / audacioso, potente. E tropeço na memória / neste livro O fim ele faz um inventário / uma cartilha / uma trilha do que importa da/na literatura, e…, pois é, não me atrevo, o Paulo diria… Ele dominava o circo. Podia rir! “A risada é, nesse sentido, uma força social poderosa, um dos mais fortes mecanismos de correção que existe; poucas coisas são mais humilhantes do que ser motivo de riso em público, e para evitar essa situação o jeito é não se destacar, mas permanecer onde todos os outros estão.” (ainda na página 331) Estou divagando na saudade! Por que desatei a pensar e a querer que volte, ou que me escreva, ou converse, ou seja? Apenas para que ele sinalizasse a leitura. Risse comigo, ou me fizesse tomar outro rumo. Não. Ele estaria comigo, no mínimo diria, este jovem Karl Ove leu, leu e leu muito, enquanto escreve ele está na releitura dos grandes livros! Ah! E não podemos perder tempo / ou não deixamos de ler um segundo, ou temos que escolher os grandes, sem passar por eles não iremos a lugar nenhum…E eu encontro neste livro o primeiro conselho sobre Dostoievski e sua obra prima O IDIOTA / ele sinalizou: não serás especialista no grande russo, então, antes dos Irmãos, antes de todos, os outros livros, lê com cuidado O IDIOTA. Claro, eu li, com cuidado, com paixão, absorvendo e entendendo (eu acho). Karl Ove ensina, e comenta literatura, gêneros literário e define, e sublinha! Há que se acompanhar respirando! “ O Idiota é o oposto de Dom Quixote e Madame Bovary. O Idiota é uma anticomédia. O romance inverte por completo a lógica da comédia, porque é o cinismo do mundo que é revelado, são as pessoas que riem do vazio do mundo que são desmascaradas através de uma pessoa não hipócrita. Ah, mas que tipo de qualidade é a ausência de hipocrisia numa pessoa, que põe todos ao redor em desespero, faz a inquietude aumentar e eleva o caos a níveis ameaçadores, sem no entanto fazer nada além de existir para que tudo isso aconteça? O príncipe Míchkin acredita que aquilo que vê, aquilo que as pessoas mostram, é o que é, e que aquilo que é dito é dito com sinceridade. Ele não sabe nada de pensamentos ocultos, não entende ironias, não compreende a interpretação de papéis. Não tem a menor ideia de que a vida em sociedade é um jogo. Ele é um consigo mesmo, e parte do princípio de que todas as outras pessoas são assim. Mas elas não são, e o fato de que ele não sabe disso é o bastante para virar o jogo, porque Míchkin oferece a estas pessoas um lugar de onde podem observar tudo isso, um ponto fora da vida em sociedade, a partir do qual o próprio jogo torna – se visível, e com ele a arbitrariedade do jogo. Os papéis fazem sentido no contexto do jogo, mas quando o jogo é reconhecido como aquilo que é, eles perdem a razão de ser. Quem são as pessoas a partir desse momento? Elas mesmas? O príncipe Michkin é ele mesmo. Um ser indivisível, sem gêmeos, nem duplos. Mas em consequência disso ele também está condenado a permanecer fora da esfera humana. Uma sociedade composta por pessoas legítimas que mantêm uma relação de um para um com tudo aquilo que é dito e mostrado é uma sociedade onde nada pode ser escondido, nada pode ser ocultado, nenhuma diferença real pode ser criada. Em outras palavras, o legítimo é o oposto do social. O social divide, exclui, oprime, exalta. O social é um sistema de diferenças, um mundo onde tudo e todos são avaliados e diferenciados. O idiota acaba com todas as diferenças, no reino dele todos são iguais. Não é a bondade dele que cria problemas enormes para o social, mas a autenticidade.” (p.332-333) Ufa! Enorme a citação, mas não saberia dizer tudo e tanta clareza! E eu me lembrei do conselho, tenho que encontrar a carta onde ele indica e aponta e ajuda a escolher! Eu o segui, posso dizer religiosamente?! Não porque sou anarquista / desorganizada e tantas vezes apaixonada! E lembrei do Tavares! As leituras eliminam o social / excluem também, adormecem? Não sei. O que eu posso dizer seria a leitura sacode, a boa leitura! E não há tempo a perder! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres
“A grande ameaça em todos os romances de Dostoiéski é o niilismo, o ruidoso e reluzente parque de diversões do social em plena festa da ausência de sentido sob a noite escura do vazio, e ele se protege contra isso tudo co unhas e dentes, por repetidas vezes, valendo-se do sagrado e da simplicidade.”
Não posso continuar, posso dizer, é preciso estar lá e ler O Idiota / também entrar na aula de literatura / no pensamento / na ousadia de Karl Ove Knausgard
subidas íngremes
“Um dia, estávamos caminhando por uma estrada que subia íngreme, perto de casa, provavelmente, minha memória está cheia de subidas íngremes, devo confundi-las todas.” (p.123) Samuel Beckett Malone Morre
Fotos, lembranças, objetos, coisas. Enquanto limpo um livro, troco de lugar. Volto a ordenar a minha contínua e particular desordem. Eu me encontro com o passado / ou ainda no presente? E caixa de fotos!? Dentro do vento e desta chuva, da luz, a lembranças desfiadas, arejadas. Ah! Este esforço enorme para saber onde eu estava quando me senti extremamente feliz? E depois, infeliz, traída. Como consegui agarrar tudo, e fazer outro lugar ser meu, não sendo? Como foi mesmo estar na Garagem de Arte, e, depois ser despedida sem dó nem piedade, na surpresa surpreendida. Bem, afinal, era um possível precipício antes de ser arrematada. Foi tão inconsequente largar o magistério! Resolver interromper o trabalho de um concurso, de um tempo laborioso. E, ser, de/num repente rio cascata! Sou grata também de ter sido acolhida / surpreendida! E foram anos de marchand , muitos bons. Fiquei a mudar de casa de lá pra cá, pra lá, até chegar em Torres com as caixas, os livros e a metade das coisas. As que eu guardei comigo, ou que, ficaram apesar de (relembrando Lispector). Remexida nas lembranças de livros lidos. Ah! Frenéticas leituras estimulantes. Antes e depois.
Samuel Beckett in Malone Morre : “Só são minhas as coisas cuja situação eu conheço para poder me apossar delas, se precisar, essa é a definição que adotei para definir o que é meu e o que não é, senão, não terminaria nunca, o que, de qualquer forma, eu nunca terminaria mesmo. (p.98)
Algumas leituras não terminam, autores definitivos, lidos, amassados e triturados, esta voracidade eu sempre tive / e certos, específicos livros (como este que estou citando) me devolvem a hora, o momento, o ar do momento em que li. Curiosa sensação!
“Sinto estar, talvez, me atribuindo coisas que não possuo mais, e dizendo que estão me faltando coisas que não me faltam. Eu sinto que há outras, por fim, lá no canto, que pertencem a uma terceira categoria, a das coisas sobre as quais eu ignoro tudo e sobre as quais, portanto, há pouco perigo de eu estar certo ou errado. Eu me permito lembrar que, desde a última vez que conferi meus pertences, muita água correu debaixo da Ponte Butt, nas duas direções. Pois já morri o suficiente dentro deste quarto para saber que algumas coisas saem e outras entram, não sei graças a que poderes. E entre as coisas que saem, há algumas que voltam, depois de uma, mais ou menos, prolongada ausência, e outras que nunca voltam. Com o resultado que, entre as que entram, algumas me são familiares, outras não. Não entendo. E, mais estranho ainda, existe toda uma família de objetos, que parecem nada ter em comum, que nunca me deixaram desde que estou aqui, mas que ficam quietinhos no seu lugar, no canto, como em qualquer recinto desabitado”(p.99)
Eu já perdi o fio. O que eu pretendia escrever escapou. Distraída com as fotos do filho, do neto, da casa, da boneca, do tempo. Esta coisa de insistir em prender o tempo…, perdida em encontrar o ano certo para o evento certo. A tal memória emocional se agarro no sentir. As boas sensações, as lembranças ruins brotam para deixar nascer as boas. E enquanto tentava contar vou me dando conta, ou reafirmando que a coragem de viver existe na hora de viver. O fertilizante deve ser alegria. Ah! Lembrei! Eu ia / vou transcrever uma carta do FT em resposta a uma carta minha, no tempo dele estar lá e eu aqui. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres / Torres agarrou tantas histórias boas! Porque sempre existiram os verões. No tempo de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo eu não vinha pra Torres / dois verões em Armação da Piedade – Santa Catarina, no Continente. A carta / as cartas / a seguir…













