lágrima / excesso de alma

” Uma lágrima pode ser o poético resumo de tantas impressões simultâneas, a quinta-essência combinada de tantos pensamentos contrários. É como uma gota daqueles elixires preciosos do Oriente que contêm o espírito de vinte plantas, confundido em um aroma único. O que não se pode, o que não se sabe, o que se quer dizer, o que a si mesmo se recusa confessar; desejos confusos, penas secretas, lágrimas abafadas, resistências surdas, lamentos inefáveis, emoções combatidas, perturbações ocultas, temores supersticiosos, sofrimentos vagos, pressentimentos inquietos, quimeras contrariadas, mágoas feitas males indiscerníveis que no coração lentamente se acumulam num recanto, como a água que tomba sem ruído no côncavo de uma caverna obscuro; todas essas agitações misteriosas da vida interior num enternecimento concluem, e o enternecimento se concentra num diamante líquido à borda das pálpebras. Se um beijo de ternura é por si um discurso inteiro condensado em um sopro único, uma lágrima de ternura contém o valor de muitos beijos, e por isso mesmo é de mais penetrante energia a sua eloquência. Eis por que o amor quando é imenso, apaixonado, doloroso não possui muitas vezes outra língua senão os beijos, e as lágrimas, e mordidas, por vezes.(p.208-209) Henri-Frédéric-Amiel Diário Íntimo

Eu me sinto outra vez pessoa quando uma lágrima escorre, seja para me dizer que estás bem, seja para me dizeres que sentes dor e lutas. Se as minhas lágrimas lavassem teu rosto seria a mágica. Tu sabes. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022- Torres

sem dizer, apenas desabafo

o outro,, na verdade, nos olhamos e nos vemos na outra pessoa, esquisito escrever assim, mas a vontade pode ser minha, ótimo, mas também recebo sentimentos / intenções / desejos e fobias

se analiso, não são minhas, não genuinamente, serão do outro?, mas, absorvo.

devo me afastar / ou separar / proteger, mas também enfrentar / resolver. Aceitar,

aquietar pode ser isso / escrever pode ser isso / ler pode atravessar limites.

Eu resolvo, mas como explicar, ajudar quem não resolve? Como conviver sem resolver?

ah! deveríamos ser mais poderosos / proteger quem amamos do sofrimento! mãe e pai tentam, mas não conseguem sempre / talvez a gente possa mesmo usar de mágico ou de feitiço! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres no meio de um frescor abençoado

aquela história de ser ilha, às vezes, parece tão lógico! mas quando temos filhos, arquipélagos não resolvem / temos que estar na mesma terra

ausência

(Rasuras e pedaços)

Apaixonar tem um grau de novidade que se transforma em fantasia, depois em lágrima, e depois em risada, quero te dizer, estar apaixonada também te traz de volta meu querido, (tu sabes bem como te penso, e do jeito bom que entraste na minha vida). Espero/quero que voltes logo, e, fiques um pouco mais do que um dia, dois. Estou a fantasiar para te fazer sorrir / rir e voltar.

Esquisitice da vida! Um círculo vermelho, outro azul, também lilás, e outro amarelo por onde se atravessa o preto. Logo o confuso dos anos, e tu estás lá.

Também tu estás, minha amiga, os livros estão lá, Paulo Sérgio está chegando. Ah! Sonia! Quantas vezes nos penduramos na Ponte Aérea Rio/São Paulo/ Rio de Janeiro. Tu, minha amiga, tens a essência da amizade para sempre. Como se ainda estivesses viva. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

nós outra vez

Afinal não temos saudade nem de pessoas, nem de coisas, nem de lugares, temos uma nostalgia do tempo, daquele Eu… Tenho saudade da Elizabeth / da Beth / da Chica /da Liza e da fantasia. A fantasia que faço de mim mesma criança, menina, pertencente, jovem, escolar, mocinha e depois mulher. Somos um EU gigante! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

Amigos, os amados amados. A família, a casa, aquela roupa, aquele momento, e ,somos nós ( o Eu) outra vez. E a vida que desenhei com escolhas doloridas, outras estupendas. Liberdade e prisão. Eu outra vez.

Colégio Bom Conselho – Formatura –
minha madrinha Vera Mattos Zambrano
Eu com a Ana Maria – primeira vigem dela a Porto Alegre – 1969

tenho segredos

Não cabe tudo num dia. Pequena a tarde. A manhã se agita em limpa aqui e ali. Hoje passei roupa, meia dúzia de acertos/coisas: ordem de engraçado prazer. Perfume. A possibilidade, e esta chuva a limpar, levar, reabastecer. Estou cansada, eu resolvo. Uma sesta, a pausa, mas não durmo. Abro o livro, os olhos cansam. Seguro a leitura. Volto ao a pensar no passado. Saudade engraçada, sublinhada: um tempo que eu não estava, o domingo em família define. Apenas aos domingos, as internas do Nossa Senhora das Graças que moravam em Porto Alegre, podiam almoçar em casa, aos domingos, e voltar às 17 horas. Então, eu via as irmãs, outra vez o pai, a mãe e a tia. O estar especial, a receptividade, e todas as certezas bem certas, definidas. A rua Vitor Hugo, em Petrópolis, se transforma em jacarandás, calçadas e brincadeiras. Se transforma na Beth criança, Elizabeth já lembra dos vizinhos chineses. Das sementes de melancia como petiscos. Dos aniversários. Das preciosas caixas de música que a Tinita presenteava; lembro dos dois irmãos que estudavam, estudavam; também da Joice, doce e sensitiva, não sei se perdeu a visão criança ou menina, nunca perguntei, apenas estávamos juntas… Juntos na rua Vitor Hugo, em Petrópolis, Porto Alegre. E eu gostava tanto deles! Uma única vez eu as reencontrei nos Moinhos de Vento. Todos resolveram morar para os lados de lá.

Não são muitas as pessoas de quem nos aproximamos ao longo de uma vida, e não com prendemos a importância enorme de cada uma delas enquanto não envelhecemos e passamos a vê-las à distância. Quando eu tinha dezesseis anos, eu achava que a vida era eterna e que a quantidade de pessoas era inesgotável.” Karl Ove Knausgard (p.230) O fim

A intimidade com os livros me salva / não sei exatamente do que salva, talvez da solidão, desta coisa assombrada que é ser eu mesma, com meus fantasmas. Salva de eu ter ido tão jovem para o Rio de Janeiro e ter feito buracos nestas amizades da rua Vitor Hugo, tão preciosas! Os livros me salvam. De morar sozinha. Ah! Tenho a Ônix! Tenho as buganvílias. Tenho os netos que visitam e telefonam, tenho uma filha a quatro quadras daqui, e tenho o mar, tenho a lagoa, tenho as vozes na calçada. E o telefone desligado. Ah! Tenho os livros. Tenho segredos. Elizabeth M. B. Mattos

limites visíveis

Realidade e subjetividade, e, incompreensão -, não posso escutar, não posso bordejar doçura, não posso explicar, esquisito isso! Penso: às vezes / seguidamente / somos tomados por um amor tão absoluto que nenhuma concessão é possível -, e não existe 2 + 2 = 4 , mas 7 + 5 = 9 Impossível explicar. Esquisitices! Elizabeth M.B. Mattos – março com chuva batendo nas vidraças – de 2022 – Torres

não é fato / e um quadro de 2014 / não, uma esticada visão…

Resolvo (ou me proponho a resolver): preciso voltar a trabalhar (ócio perturbado de informações incertas / vácuo). É preciso entender o dia e também a noite, aproveitar o silêncio. Largar o pânico, a queixa. Escolher o caminho. Ajustar vontade. (Ah! como a chuva consegue liquidificar e limpar! Ação invisível, ou apenas real / fato! abençoada água!). Perguntas incertas se apresentam… O que é a vontade? O que é o desejo, o que é impulso motor? Como vou reconhecer? Como transformar em real em fato em narrativa uma intuição, uma percepção, uma lembrança… Como posso me movimentar? Vontade ou necessidade? Ah! Sinto mesmo saudades tuas! As ponderações e as tuas certezas. Não escrevi a carta. Esta maldita guerra mastiga a vontade. Não te escrevo porque seria também invasão. O teu território não me pertence, e nem sei bem os meus próprios limites. Não quero usar da tirania. Chorar contigo! Teu abraço, teu amor recuperado no feitiço. Então, eu aplaco a vontade e conto histórias de fadas para o desejo. Ele adormece sorrindo, e, te digo que gosta dos lençóis perfumados, dos travesseiros afofados e do cheiro de lavanda das cortinas. Sim, escureceu. Estou no sonho de te pensar. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

sonata, chuva e rosas

Tudo são pretextos – também o texto: “sempre feliz de ter um pretexto para dar mais uma volta no jardim e que aproveitava para arrancar sub-repticiamente, de passagem, algumas estacas de roseiras, a fim de dar às rosas um ar mais natural, como uma mãe que afofa com os dedos os cabelos do filho, porque o barbeiro os deixava muito lisos.” (p.33) Então abro o computador e recomeço, de um ponto qualquer da lembrança, e vou despetalando a memória devagar para que a lembrança dure um pouco mais. Já esqueço o relógio, as fotos, e a vontade, é claro, de ler o livro certo, anotar, comentar, trabalhar, trabalhar. A louça está empilhada no escorredor, a roupa ali para ser passada e perfumado, o aspirador num canto. e a poeira conversa sussurrando…ah! eu fico com dor nas costas, na perna, no meu olho esquerdo, o esquerdo…Não gostei do chocolate, nem daquele bolinho da promoção. A preguiça me sacode toda, não vou fazer nada, vou deixar o tempo me atravessar, ficar quietinha, sem nenhum esforço, aguardo a hora da sesta, da notícia não lida, do telefone quieto, porque estou quieta. Como era diferente quando a energia me fazia fazer! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

” […] do piano, notas que não se ligavam segundo as formas as que estavam habituados, como também lhes parecia que o pintor lançava ao acaso as suas cores na tele. Quando o pianista tocava a sonata, parecia-lhes que arrancava, ao acaso. Quando numa destas podiam reconhecer uma forma, achavam-na pesada e vulgar (isto é, desprovida da elegância da escola de pintura através da qual viam até os seres vivos que passavam a rua) e sem verdade, como se o sr. Biche não soubesse como era feita uma espádua e que as mulheres não tinham os cabelos cor de malva.” (p.267) Marcel Proust Em busca do tempo perdido volume – volume 1 – No caminho de Swann – tradução Mário Quintana

aquarela – Marina Pfeifer

Foto Marina Pfeifer – março de 2022 – Florianópolis

não é minimizar / reduzir

eu procuro um livro, investigo, quero, não consigo

encontrar qualquer coisa: fio de linha, ou um grampo,

perfeito.

perder, uma droga!

não quero desanimar, não vou.

hoje voltarei a te escrever, sem pejo, nem medo

ah! que saudade sinto de ti! Elizabeth M.B. Mattos / março de 2022 – Torres

Marina Pfeifer – aquarela –