filha, volta

Um sonho, uma experiência, uma vivência, não sei te explicar: talvez por ter ventilado, sacudido fatos e feitos, arejado de um jeito leviano o calor excessivo, o colorido, o movimento, o ir e vir nas pedaladas, o trabalho, o excesso, não sei, tenha eu levado um transbordamento ao teu irmão. Sim foi a conversa com ele que voltou agora na madrugada, e me acorda. (Não imaginas como a noite está parada, abri as janelas, entra uma fresca silenciosa, mas nenhuma folha se mexe, tudo esquisito, quieto.) O Pedro presente / aqui comigo todos os dias, nunca estou/fico sozinha, ninguém por aqui nestes longes desconhece deixa de conhecer seus humores atentos as minhas esquisitices. Sentimos o olhar. Num pulo, vivemos juntos como se assim tivesse sido sempre. Ah! filha, teu irmão é cuidado, atenção! Um parêntese para explicar o sonho! Hoje contei de ti, falei em ti, mandei fotos tuas, e a tua risada chegou na conversa, abraçou tudo. Ela, tua vida, voltou no sonho. E ele e eu, preocupados, trouxemos a Ana Maria para conversar, claro, ela e tu, se confundiram nas confidências, Estávamos atrapalhados assim quando Joana entrou com a Valentina, colocou ordem em tudo, bateu um bolo, e bebemos um chá. E de repente, era como se ninguém tivesse outra vida que não fosse estarmos juntos, apenas nós, naquela paz de portas trancadas, e nas certezas de amor e na ordem da casa. Ninguém quer estar na vida do outro, o que nós queremos é estarmos todos enfiados/juntos na nossas vidas (uma única) de ser filhos e mãe. Conversando com Pedro sinto isso. Durmo e sonho, e num perturbado conviver com gentes/pessoas/talvez Recife escaldando no verão, nos perdemos a te procurar… Eu precisei acordar para te achar! Ah! Filha! Que sonho! Volta para casa! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

teus dedos

fiquei com vontade de pegar tua mão e contar os teus dedos, e, depois aprisionar o poder de agarrar a mão, não com força, tu entregas, confiante, mas, sou eu quem faz o brinquedo acontecer. Saudade grande tenho de ti! Fica bom logo, empurra toda a doença, todo o susto, e volta pra mim. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

da música

Na música não existe um significado, não existe um sentido, não existem pessoas, mas apenas atmosferas, cada uma delas um característica própria, como se eles fossem caracterizadas simplesmente por ser aquilo que são, cultivadas sem corpo nem personalidade, ou melhor, como uma espécie de personalidade desprovida de pessoa, e em cada disco existe um número interminável dessas impressões de um outro mundo, que ressurgem cada vez que o disco é tocado. Eu nunca descobri o que me preenchia quando ouvia música, apenas que eu queria mais daquilo. ou na música o completo nos envolve e somos a música, entregues, pacíficos, guerreiros, inteiros. Estamos pronto. Talvez eu devesse abrir as portas e deixar as pessoas entrarem, abrir as janelas e deixar a música sair, ou aceitar a plenitude, deixar que o sentimento lave a minha ranzinze, purifica e eu me transforme em uma pessoa boa! Ah O tempo de ajoelhar e confessar, assistir a missa, participar do ritual, do silêncio, do jejum e se sentir perdoada. Não é o vestido preto, nem o banco, nem o desalinho dos cabelos, nem a paciência de ouvir que consegue me libertar. Vou explodindo aos poucos e inadvertidamente perco os pedaços, a lógica a memória, o interesse. a pessoa pode perder a esperança de amar uma montanha de vezes, uma corrente, uma…, não sei, explicar. Sei que o amor e o interesse, e o desafio volta, se renova, agarra tua mão, molha teus olhos de beijos e tu te esqueces de ser feia ou velha, ou outra… És tu, transformada, somos dois. Somos música. ah! Se eu pudesse entrar na música e ficar! Não. Eu volto, eu fico a me debater neste limbo de ir e voltar…Voltar a caminhar, caminhar, caminhar, caminhar! Amanhã a Magda chega e nós conversaremos sobre o calor, iremos até o mar, dormiremos na madrugada, e lembraremos de anotar que este é mais um verão a ser registrado. E eu que gosto do inverno! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 TORRES

coisas vivas

A essência da tragédia é ser irreparável. Costurei os rasgos. Paciente, dobrei os desesperos. Renovei pequenos sacos, alguma coisa me desfiz, inventariei… Se eu sair amanhã? Ah! Posso levar a saudade inteira e aquela estante de livros, a cadeira da rua Vitor Hugo, as outras duas não são minhas, duas mesas, ou três, as camas. Tenho que me decidir. Amanhã vou comprar um colchão e novos travesseiros, duas camisolas. Acocorado lá entre salgueiros e vegetação rasteira, não compreendo! Como foste gostar tanto de chimarrão?! Esta foto que me mandaste! Não és tu. Sabes, meu querido, não adianta repassar o erro, está enfiado no lugar certo. O que passou foi o tempo de amar. De acordar no meio da noite para jogar cartas e comer sanduiche. O tempo de escutar piano e violino. Escancarar as janelas! Deixar os cães se aproximarem… Ainda tomo quatro banhos por dia! E não tenho medo de empobrecer. Nem de voltar para as bacias e os baldes! Ah! Que saudade das nossas frutas repartidas! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

descascando a alma

A descascar de vagar/com vagar / com calma minha alma. Chegar nos teus sonhos. Juntos resolvemos do canteiro das margaridas, da cerca de jasmineiro, e também das pedras que planejamos para aquele caminho. Enquanto eu te ouço, já vou abrir o vinho, comprei o que pediste, Casa Valdugo Terroir / Chardonnay 2020, mas os camarões, espero que acertes. Deixei na vasilha, como pediste, preparei os verdes da salada. Faço o arroz e os legumes. Bebericamos o verão na varanda. Eu te agradeço. Obrigada por teres vindo. Meu pecado é o desencorajamento, minha desgraça a indeterminação (precisas me ajudar entre o isto e o aquilo sim, este não). Meu pavor é ser enganada, e enganada por mim mesma. Estás a rir?! Eu confesso, o meu ídolo é a liberdade; minha cruz é querer, mas, meu entrave a dúvida, e o adiamento. Ah! eu me perco na psicologia, e o erro frequente é desconhecer a ocasião. Decidir e ouvir, apenas ouço a orquestra da minha voz. Minha paixão é o inútil; e o meu fraco, ser amada e aconselhada, a minha grande tolice, viver sem finalidade… Detesto escolher, resignar-me. Não empurro, aceito o limite, caminho pela sombra, esqueço a dor, e ouço tua voz mesmo quando não estás, eu te persigo. Eu te curo das dores. E curo teu coração. Olha Magro! Teus bolsos estão cheios de junquilhos. E quando voltares, encontraras cravos vermelhos e brancos. Os lençóis estão limpos, perfumados, e, as duas janelas do teu quarto, abertas para o sonho. Empilhei os jornais. Estes dias sobrecarregados me iluminam e me fortalecem. Quando voltar, não importa se já adormeceste. Gosto de entrar no silêncio e bebericar teus sonhos. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres – aquela chuva foi cena teatral, um arremedo de refresco, o mundo se inclina ao teu prazer, aos teus verões, farei tudo do meu jeito quando o inverno chegar.

indefinido, mas florido

Distante! Perto! Indefinido amigo
querido! Pois é! Passou um mês ou foram dois, foi um tempo enorme, tempo indefinido, não sei. Tristeza de saudade. Tanto me afundo nesta ‘coisa’ de sentir, sem explicação, ou
explicada, explicada, estripada: perde o sentido. Invade, arrebenta o prazer, o desgosto entra pelas
frestas. Sou nevoeiro de aflição, e tão, inexplicável angústia! Não.
Sei tudo. E não sei. Arrogante eu sou, a gente nunca sabe, não é?
Preciso dizer, escrever, fazer alguma coisa. Molhar os pés no
mar, lavar o tempo! Bom! Demorei para escrever! Então a chuva resolveu
chover! Chuva boa, passageira! Aqui necessária, aí de terror! Tudo
assusta. E eu travo os sentimentos. A leitura se arrasta, escrever
parece impossível, ler penoso. Assim mesmo eu me sento para te escrever / dizer meia
dúzia de coisas. E depois mandar flores. Sentir o vento doce no estômago a digerir alegria. Vou te
mandar flores! É isso, a mágica. Sim, antes de mais nada, gosto o bom de te amar. Eu era tão leve!
Tão a gostar de tudo! Acho que agora não adianta mais ADIAR…(risos)
Não vai ser possível disfarçar/ esconder ou fazer de conta que não estou vendo,
ENVELHEÇO. (Será esta a tragédia maior?) Ah! A chuva segue com jeito de ficar boa! Acho que o verão
me aperta. É isso. Bom estar a te escrever. Bom pensar que eu te
abraço, eu te olho, e te sinto perto! E sei que tens o jardim, o mato, as tuas árvores. Eu me esforço a colorir meu corredor de terra. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

chuvosa queixa

Queixa, gueixa, deixa, seixo, queixo, eixo: chuva boa de verão. Devagar, sem medo,…(uauuu)! E lá foi tanta chuva e tanta a desabar no morro, desabar o sonho! Ah! verão traiçoeiro, o meu, desajustado e inquieto! Eu me queixo! Eu travo, engasgo no silêncio de dentro, de fora! Agora, enquanto te escrevo, sinto como se o porão! Ah! O danado do porão a deixar o sol espiar, e agora, a água a escorrer! Confesso! Eu te amo! E de tanto te amar, eu encolho, enfeio, fico azeda, triste. Carrancuda, esquisita, horrível de horror mesmo. Fui caminhar pela feira livre da lagoa, neste sábado, comprei bananas e flores! Engraçado! Tanto sol! Era cedo. Quente. Agora! Graças! Caiu a chuva! Desceu a chuva! Veio chuva hoje. Que venha! Cozinhar? Não. Estou enguiçada, sem gosto. Esquisito humor estremecido! Vontade de tirar férias de mim mesma! Um lugar! Qual será o lugar bom das férias boas? Eu arrasto flores para a máquina de fotografar! Passo assim o lápis de cor no risco e fico pensando que um dia reformo meu gosto / meu amor e desço as escadas com cuidado! Vou te ver. Vou até o mar te encontrar! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres – nesta segunda- feira com chuva, apenas tu e eu, no mar.

o que ele disse

Fiz um amigo importante, fiz dois amigos quando o Amoras nasceu, um deles já morreu, mas, por motivos estranhos nos aproximamos muito e muito. Depois do luto que doeu demais, eu me aproximei mais das afinidades que tinha com quem não me convidou para almoçar, mas fazia música (minha paixão). Depois, e depois, as coisas de fazer se enrolaram e fomos nos afastando. Ele se leva a sério, ele, tem metas e caminhos, inclusive mantem os cadernos diários, religiosamente, / e neles o caminho é explicitado / aberto / claro / religioso. Eu vou tão devagar! Cadernos anarquizados. Eu mantenho as gavetas desarrumadas, eu mantenho a vida por um fio: eu tenho o excesso nos guarda-roupas. Eu me perco todos os dias. A depressão puxa os cabelos da menina alegre, a velha disposta se transforma numa anciã cansada, neurastênica. Eu me apaixono. Eu não durmo. Eu me apaixono! Eu durmo demais. Uma vez o monge me diz: o blog é teu diário de menina, não precisas levar com tanto empenho! Não trabalha sério. Não te empenhes assim… Não respondi. Apenas desanimei. E tudo que quero fazer empurro para amanhã. A caixa de livros do Xavier, as unhas, um bom corte de cabelos, vestir vaidade, esconder as manchas, procurar um vascular, ir a um oftalmologista, colocar um sapato com salto, pedir ajuda na limpeza. (risos) Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2022 – chorar por Petrópolis – por nós e todas as dores – chorar – Torres