qualquer coisa de ridículo

Há qualquer coisa de ridículo na necessidade de voltar ao passado, ou premência em se apoiar no desconexo. O que ficou para trás, os lampejos de juventude e expectativa, iluminam, mas não definem mais nada, afinal, ficou para trás, ou nunca esteve, regulamente, no presente. Há qualquer coisa de dolorido no vazio, embora este espaço enorme, aberto, que insisto em dizer meu, seja apenas imaginação e ansiedade.  E vou, insegura a procurar palavras, a conversar sozinha comigo mesma, vigiar as calçadas e as sombras.  Fico triste porque estou triste, eu de natureza alegre e corajosa. Fico triste.  E penso logo no bom sono. Depois, abro o primeiro livro que vejo e começo a ler, assim, aos pedaços. Num encontro tipo mosaico, brinquedo de encaixar. E encontro o que gostaria de ter dito/escrito.

“Les mots sont souvent mon refuge, jusqu’á l’ aube, et parfois les letres se mélange à mes rêves aux fronteires de la somnolence.” (p.15) David Foenkinos  Nos séparations

Palavras, seguidamente / quase sempre são o meu refúgio até o amanhecer, e, às vezes, as letras se misturam com meus sonhos na fronteira / no limite da minha sonolência. Talvez eu esteja o dia inteira sonolenta a me esconder atrás de alguma gasta lembrança. E esta memória se agarra nos indefinidos sentimentos que se grudaram em mim, como pesos pesados / grilhões / de uma prisioneira. Beth Mattos – outubro de 2020 – Torres

Embora eu tenha escutado tua voz firme e certeira, como apenas tua voz soa, eu estremeço. Tropeço nas palavras. Elas ficam/ se mostram inúteis, resvalam, e eu me sinto ridícula. Por que insisto em te pensar? Se me perguntares não saberei responder. E idiotamente eu pedirei desculpas, esperando que me perdoes.

Aquarelas de Petya Taneva

És mulher

És mulher e basta – dizia o meu avô,  – Quando se lê  num  livro de centenas de páginas  de letra miudinha que uma mulher é  realmente um ser de maravilha, é  porque o escritor desviou os olhos da mulher dele é se pôs  a sonhar. Deixa – o ir.” (p. 20) William Saroyan  O Meu Nome é  Aram

Não trocávamos palavra, porque havia imensas coisas para dizer e não havia linguagem que as dissesse.” (p.41) 

aquarelas e

(01:53:11 depois das fotos e das aquarelas)

Delicadeza, perfeição no cotidiano, no uso doméstico da vida. Se houvesse um jeito de dizer! Qualquer objeto, qualquer luz e também o acaso de um casaco perdido nas costas de uma cadeira. Elizabeth M.B. Mattos – Outubro de 2020 – Torres

Três horas da manhã

Aquarela: Petya Taneva

Três  horas da manhã  1 : três  horas da manhã,  neblina e pingos de noite no corpo. Gelados, os pés . O frio me sacode. Será  a idade? Subo  as  escadas depressa e volto para as cobertas… Três  horas da manhã  2: delicadas louças floridas ,  esplêndidas aquarelas . Eu me inclino no detalhe. Cestas, pratas e porcelanas majestosas. 3: O som do quarto inunda a sala com violinos.  O frio arranca todas as palavras: silêncio. Acordo três horas da manhã , e vejo todos os jardins umedecidos.  Café  com leite , pão  com manteiga,  geleia,  patê  e pepinos. Suco de duas laranjas. Quatro horas da manhã.  A Ônix se refestela no peitoril da janela e o gato atravessa a rua. Fazeres de Beth sem jeito : descasco bergamota, as cascas ficam no balcão, copos espalhados pela sala, um chinelo perdido, o tênis embaixo da cadeira, a cama desfeita e os travesseiros afundados… Roupas para lavar no chão do banheiro.  O livro aberto em cima da cadeira, os lápis na mesa, espalhados. Luzes acesas. A música tão alta! É  proibido. Elizabeth M.B. Mattos outubro de 2020 – Torres

Aquarela de Ptya Taneva (enviadas pela aquarelista Marina A.B.P.)

Charles Baudelaire

[86] “Quanto mais queremos, melhor queremos. /Quanto mais trabalhamos, melhor trabalhamos e mais queremos trabalhar. Quanto mais produzimos, mais fecundos nos tornamos.

Após uma orgia, nos sentimos mais sós, mais abandonados.

Tanto no aspecto moral quanto no físico, tive sempre a sensação do abismo, não apenas do abismo do sono, do desejo, do arrependimento, do remorso, do belo, da quantidade, etc.” (p.81) Charles Baudelaire MEU CORAÇÃO DESNUDADO Editora Autêntica 2009 – tradução Tomaz Tadeu

Quanto mais leio, mais estranhada fico. Abismo enorme entre a vida: ser manhã ou noite. Necessidade dolorida rasgada de conhecer, sem ter, minimamente, a possibilidade de fazer acontecer um dia infinito, uma noite permanente, um verdadeiro acontecer (nebuloso dia, iluminada noite). “Tenho a sensação de estar capenga”. Estou/sou dolorida, moída pelo desejo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres com vontade de aquarelar como a Marina, minha sobrinha. O talento precisa ser regado com mimos e trabalho, e coragem… Baudelaire explica muito bem, quanto mais, mais, mais, mais é possível.

Aurora I

” NOTAS de WILD

Minha vida sexual está praticamente encerrada mas –

Vi você de novo, Aurora Lee, que quando jovem eu havia perseguido com desejo sem esperança em bailes ginasiais – e que encurralei agora, cinquenta anos depois, num terraço do meu sonho.” (p.221) Vladimir Nabokov O Original de Laura

Sim, as leituras são feitas nestes contínuos S U S T O S porque eu me detenho em detalhes “persegui com desejo sem esperança” -, descrição perfeita para o primeiro/genuíno encantamento, e “encurralei cinquenta anos depois, num terraço do meu sonho.” Céus! Perfeito. Aos 70 anos nos tornamos obsessivos a correr atrás do sonho de vinte anos. Inexplicavelmente, estalar os dedos, a mágica certa, ou fechar os olhos e se entregar… Nabokov perfeito em se tratando de sensualidade. Persegue certeza, a boa magia. Beth Mattos outubro de 2020 – Torres

Escrever -, difícil / árduo, cruel em se tratando de verdade, escamotear a deixar, absolutamente, ensolarado o indizível.